A pele que me acolhe
É cheia de becos escuros
e salas vazias;
O coração em que moro
Tem duas janelas fechadas
E um labirinto de culpas
A veia que jorra
Sangue e gasolina
Esguicha frustrações
Compradas em feira livre
Desilusões 'veraneiras'
Levadas em banho-maria
Pecados lavados com cuspe
Desejos molhados de urina
Uma profusão de embustes
E virtudes de perfumaria
O espelho agora reflete
O mapa das ruas na pele
Deserto de tantas miragens
A fonte da qual nada brota
Um cemitério de árvores
e crianças sem voz;
O medo que aniquila
Os poros entupidos
A cabeça dormente
De solidão e morfina
A febre em que ardo
A implacável insônia
O breu estranho das noites
E sua indecente companhia
A fome agora é de nada
E tem a velocidade
De um velho relógio parado
No cadafalso dos dias
A lágrima de água benta
É ouro que reluz, intruso,
No colar de bijuteria.
Tenho a sede
dos que sabem nada
A fortuna dos que nada tem
A hora dos que mais tardam
Danço boleros sozinho,
Rodopio desajeitado
O corpo disforme que gira
O rosto colado a ninguém
Coleciono ausências de viço
Profusão de vícios, hábitos ruins
Às vezes sinto que prescrevi;
A alma que visto hoje
Não é um traje de festa
Ficou um silêncio tóxico
Restou a bandeira pirata
E a habilidade inata
De tecer cachecóis de lata
Com a linha invisível da dor.
