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Monday, February 25, 2013

Grandes Parcerias (II)


No post anterior, o poeta Assis Freitas comentou a parceria Raimundo Fagner/ Patativa do Assaré mas, ambos esquecemos da maior parceira (?) de Fagner, Cecília Meirelles.
Fagner musicou canteiros e Motivo, ambos lindíssimos e é bem provavel que nosso inconsciente nos tenha negado a lembrança devido ao imbroglio judicial envolvendo o espólio da poeta e o compositor.
Dando continuidade à série, resgato outro poema que ficou lindo demais, vestido de música.
Este aqui, de Drummond:


Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não se vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem anda ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.
 
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Sunday, February 3, 2013

A verdade dividida


A porta da verdade estava aberta
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só conseguia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia os seus fogos.
Era dividida em duas metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era perfeitamente bela.
E era preciso optar. Cada um optou
conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.


Carlos Drummond de Andrade
(Itabira, Minas Gerais, Brasil)

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Thursday, August 16, 2012

Cantiga de Enganar














O mundo não vale o mundo,
meu bem,
Eu plantei um pé-de-sono,
brotaram vinte roseiras.
Se me cortei nelas todas
e se todas se tingiram
de um vago sangue jorrado
ao capricho dos espinhos,
não foi culpa de ninguém.
O mundo,
meu bem,
não vale
a pena, e a face serena
vale a face torturada.
Há muito aprendi a rir,
de quê, de mim? ou de nada?
O mundo, valer não vale.
Tal como sombra no vale,
a vida baixa...e se sobe
algum som desse declive,
não é grito de pastor
convocando seu rebanho.
Não é flauta, não é canto
de amoroso desencanto.
Não é suspiro de grilo,
voz noturna de nascentes,
não é mãe chamando filho,
não é silvo de serpentes
esquecidas de morder
como abstratas ao luar.
Não é choro de criança
para um homem se formar.
Tampouco a respiração
de soldados e enfermos,
de meninos internados
ou de freiras em clausura.
Não são grupos submergidos
nas geleiras do entressono
e que deixem desprender-se,
menos que simples palavra,
menos que folha no outono,
a partícula sonora
que a vida contém, e a morte
contém, o mero registro
de energia concentrada.
Não é nem isto nem nada.
É som que precede a música,
sobrante dos desencontros
e dos encontros fortuitos,
dos malencontros e das
miragens que se condensam
ou que se dissolvem noutras
absurdas figurações.
O mundo não tem sentido.
O mundo e suas canções
de timbre mais comovido
estão calados, e a fala
que de uma para outra sala
ouvimos em certo instante
é silêncio que faz eco
e que volta a ser silêncio
no negrume circundante.
Silêncio: que quer dizer?
Que diz a boca do mundo?
Meu bem, o mundo é fechado,
se não for antes vazio.
O mundo é talvez: e é só.
Talvez nem seja talvez.
O mundo não vale a pena,
mas a pena não existe.
Meu bem, façamos de conta
de sofrer e de ouvidar,
de lembrar e de fruir,
do escolher nossas lembranças
e revertê-las, acaso
se lembrem demais em nós.
Façamos, meu bem, de conta
- mas a conta não existe -
que é tudo como se fosse,
ou que, se fora, não era.
Meu bem, usemos palavras.
Façamos mundos: idéias.
Deixemos o mundo aos outros,
já que o querem gastar.
Meu bem, sejamos fortíssimos
- mas a força não existe -
e na mais pura mentira
do mundo que se desmente,
recortemos nossa imagem,
mais ilusória que tudo,
pois haverá maior falso
que imaginar-se alguém vivo,
como se um sonho pudesse
dar-nos o gosto do sonho?
Mas o sonho não existe.
Meu bem, assim acordados,
assim lúcidos, severos,
ou assim abandonados,
deixando-nos à deriva
levar na palma do tempo
- mas o tempo não existe -,
sejamos como se fôramos
num mundo que fosse: o Mundo.

(Carlos Drummond de Andrade)


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Thursday, December 1, 2011

Precisa-se de Homens














(Para Lula Barbosa)
O anúncio no jornal obedece os preceitos que um pequeno anúncio na seção de classificados deve ter: é dinâmico, direto, deixa bem claro o que se busca e a recompensa, mas com duas pequenas diferenças.
O anúncio é bem maior do que os normalmentes publicados na página de Classificados e, no final, não existe um número de telefone de contato.
Mas dá a ler que precisa-se de homens. E que a contratação é imediata.
Precisa-se de homens com boa vontade.
Homens sem igreja.
Nenhuma igreja. Mas que sejam homens de fé.
E que sejam generosos e estejam dispostos a repartir.
Que não aceitem a fome, a falta de um teto, as mazelas do calor e do frio e a injusta distribuição.
E que entendam a diferença entre conhecimento e sabedoria.
Que não sejam couraçados ou invasores.
E que estejam dispostos a apagar com uma borracha as linhas de fronteira, pois a partir de agora, tudo será uma coisa só.
Precisa-se de homens gentis.
Homens que tenham no peito um jardim, e não uma trincheira.
Homens firmes, idealistas, e que levantem uma nova bandeira.
Uma bandeira sem brasão.
Uma bandeira sem ideologia, limpa de sangue e sem tradição de conquistas.
Uma bandeira pura e branca como a pomba de Pablo Picasso.
Como a água de um riacho.
Como o algodão.
Precisa-se de homens que abdiquem da ganância, que abominem o lucro predatório.
E que sejam pacíficos e solidários.
Homens que não sejam o lobo do homem e que sejam o oposto do que representam os falsos profetas de Wall Street.
Que não sejam salvadores de pátrias e de almas.
E que não sejam amigos próximos de Deus.
Precisa-se de homens para a construção de uma grande obra.
Para a maior obra que já foi edificada até aqui.
Uma obra bem maior que a represa de Itaipu, Matchu-Pítchu, as muralhas da China e do que a própria China.
Precisa-se de homens para a construção de uma grande obra.
Precisa-se de homens para a construção de um novo mundo.
E, posto que amor, com amor se paga, paga-se bem.


A Música Que Toca Sem Parar:
Milton Nascimento musicou um poema de Carlos Drummond de Andrade e nassão esta vesão cantada de Canção Amiga.

Eu preparo uma canção
Em que minha mãe se reconheça
Todas as mães se reconheçam
E que fale como dois olhos
Caminho por uma rua
Que passa em muitos países
Se não me vêem, eu vejo
E saúdo velhos amigos
Eu distribuo segredos
Como quem ama ou sorri
No jeito mais natural
Dois caminhos se procuram
Minha vida, nossas vidas
Formam um só diamante
Aprendi novas palavras
E tornei outras mais belas
Eu preparo uma canção
Que faça acordar os homens
E adormecer as crianças
Eu preparo uma canção
Que faça acordar os homens
E adormecer as crianças.

Monday, October 24, 2011

... no que me despeço de BH




















"Amava em ti a graça das conciliações; eras frugal e fantasista, burocrata e boêmia; tua igreja metodista, pequenininha, enfrentava sem prosápia a lauta matriz de São José; o caminho era um só, escolhia-se a porta que agradasse. E a Praça da Liberdade, com seu Itacolomi de cimento para matar saudades de ouro-pretanos, era metade do Governo, metade dos namorados, em conspiração com as rosas.

Belo Horizonte subitamente trágica na matança dos guardas-civis e no crime do Parque; cidade de mulheres que viravam homem, de homens que viravam mulher; de fenômenos que vinham pelo telégrafo divertir a malícia do carioca, tecidos pela malícia maior do mineiro.

O melhor ponto para completar-te será o terraço de um desses edifícios da Avenida Afonso Pena? A Praça do Cruzeiro, o alto da Serra do Curral? Prefiro o arco modesto do viaduto, miradouro da memória, de cujo cimo tentei às vezes restaurar o romantismo, para consumo próprio e desprazer da polícia.

Costumava haver desencontro entre nossa juventude e nossa cidade. Culpamos as ruas pelo que nos acontece interiormente. Clamei contra ti, Belo Horizonte, em instantes de fúria triste. Destruí tuas placas, queimei tuas casas, teus bondes; ao despertar dessa angústia, vi que o amor escolhe caminhos difíceis para chegar a seu destino. Davas-me lições de paz, que eu interpretava como picadas de tédio."



Carlos Drummond de Andrade
Canção sem metro , a bolsa & a vida


A Música Que Toca Sem Parar:
Paulinho Pedra Azul, Belo caso de Amor.

Friday, December 31, 2010

Receita de ano novo






















Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


A Música Que Toca Sem Parar:
Rita Ribeiro canta de Caetano Veloso, Oração ao Tempo.

Sunday, December 13, 2009

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"Paulo tinha fama de mentiroso. Um dia chegou em casa dizendo que vira no campo dois dragões da independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas.
A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte ele veio contando que caíra no pátio da escola um pedaço de lua, todo cheio de buraquinhos, feito queijo, e ele provou e tinha gosto de queijo.
Desta vez, Paulo não só ficou sem sobremesa como foi proibido de jogar futebol durante quinze dias.
Quando o menino voltou falando que todas as borboletas da Terra passaram pala chácara de Siá Elpídia e queriam formar um tapete voador para transportá-lo ao sétimo céu, a mãe decidiu levá-lo ao médico.
Após o exame, o Dr. Epaminondas abanou a cabeça:
-Não há nada a fazer, Dona Coló. Este menino é mesmo um caso de poesia".

(Carlos Drummond de Andrade).

Sunday, November 29, 2009

"
O tempo é a minha matéria, o tempo presente,
os homens presentes,
a vida presente."

(Carlos Drummond de Andrade)

Friday, November 27, 2009

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Cortar o tempo

"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente".

Carlos Drummond de Andrade
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"Tenho apenas duas mãos e todo o sentimento do mundo".

Carlos Drummond de Andrade
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