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Tuesday, December 6, 2011

Mil e uma indagações para um passe de calcanhar





















Quantos gols terá marcado o jogador Sócrates?
Quantas vida terá salvado o médico Oliveira?
Quantos passes errados?
Quantas bolas na trave?
Que decisões questionáveis terá tomado homem e jogador?
Onde teria acertado mais do que errado, este senhor?
Onde termina o homem e começa o super-homem?
Onde finda o mito e começa o cidadão?
Seria vermelho o seu sangue e transparente a sua dor?
Quais seriam suas verdadeiras paixões?
Seria a bola, os amigos, a ideologia ou a medicina?
Onde se sentiria com o coração mais pacificado, o homem nascido em Belém do Pará e criado no interior paulista?
Seria feliz numa mesa do Bar Pinguim, em Ribeirão Preto?
Numa mesa de operação de um hospital de periferia ou num estádio de futebol?
Quais seriam as suas influências?
Preferiria Leon Trotsky a Pelé?
Misturaria numa mesma frase Lampião, Adoniran e Macunaíma?
O que o fazia sorrir: uma balada de Chico ou um bolero de Pablo Milanés?
Teria chorado, e de que dor?
Teria tido outro amor, além das chuteiras que calçou?
Teria deixado um pedaço de sua alma no Sarriá, naquela fatídica noite em que Paolo Rossi vendeu a alma ao diabo para nos jogar, brasileiros, no fundo mais fundo do poço do inferno?
Pode ser que sim. Pode ser que não.
Lembrando seus feitos, fico aqui com aquela estranha sensação que todo mortal tem diante de seus ídolos.
Falo o seu nome até com uma certa intimidade.
Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira.
Este era o nome na certidão de nascimento: um ser quilomêtrico.
Um legado.
Magrão, para uns.
Doutor, para outros.
Gênio da raça. Referência.
Classe no ser e no jogar.
Pai, filho, irmão, amigo. Lenda.
Poesia, coração.
Calcanhar, cabeça.
Consciência e irreverência.
Ponderação.
Era um dedo na ferida aberta pelos algozes da ditadura militar. E era a esperança da cura e cicatrização.
Muito mais do que gols, quantas vidas terá tocado, com o condão mágico do seu pensar?
Sim, porque de todas as suas qualidades, aquela que mais me sensibilizou, sempre, foi a sua maneira de pensar.
O futebol do nosso país, mais que uma paixão, teve nele uma referência para além das quatro linhas.
Da boca de Sócrates para a boca do povo, numa tabelinha, a palavra democracia foi verbo e substantivo.
Estávamos na reta final da ditadura militar, os tempos eram difíceis mas ele nos ensinou que existia a felicidade fora de um estádio.
Na madrugada deste sábado insuspeitíssimo, a condição humana - que é o mais implacável de todos os marcadores -, o derrubou. E o juiz da vida nem marcou falta.
No dia 3 de dezembro, aos 57 anos, jogou a sua última partida, chutou sua última bola.
E o país inteiro chorou.


(parida com lágrimas em 6 de dezembro de 2011)


A Música Que Toca Sem Parar:
a parceria genial de Gilberto Gil e Chico Buarque, nas vozes de Chico e Milton Nascimento, um manifesto contra a ditadura militar que o Doutor Sócrates ajudou a vencer com um passe de calcanhar:

Cálice

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor e engolir a labuta?
Mesmo calada a boca resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa?
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada, prá a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

De muito gorda a porca já não anda (Cálice!)
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, Pai, abrir a porta (Cálice!)
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade?
Mesmo calado o peito resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Talvez o mundo não seja pequeno (Cale-se!)
Nem seja a vida um fato consumado (Cale-se!)
Quero inventar o meu próprio pecado (Cale-se!)
Quero morrer do meu próprio veneno (Pai! Cale-se!)
Quero perder de vez tua cabeça! (Cale-se!)
Minha cabeça perder teu juízo. (Cale-se!)
Quero cheirar fumaça de óleo diesel (Cale-se!)
Me embriagar até que alguém me esqueça (Cale-se!)

Tuesday, November 9, 2010

Chico Buarque recebe o Prêmio Portugal Telecom de Literatura


















Chico Buarque ganha mais um prêmio com 'Leite Derramado'


Na noite desta segunda-feira (8), o cantor, compositor e escritor Chico Buarque de Holanda levou mais um prêmio com seu último livro Leite Derramado. Depois do Prêmio Jabuti, conquistado na semana passada, Chico Buarque recebeu agora o Prêmio Portugal Telecom de Literatura - troféu e R$ 100 mil, recebidos das mãos de Pilar del Rio, viúva do escritor José Saramago.

Em segundo lugar, e com um prêmio de R$ 35 mil, ficou Rodrigo Lacerda, com o livro Outra vida. Armando Freitas Filho conquistou a terceira posição e um prêmio de R$ 15 mil com seu livro Lar.


A Música Que Toca Sem Parar:
na voz de Chico Buarque escolhi Sinal Fechado, que é da autoria de Paulinho da Viola.

- Olá! Como vai?
– Eu vou indo. E você, tudo bem?
– Tudo bem! Eu vou indo, correndo pegar meu lugar no futuro... E
você?
– Tudo bem! Eu vou indo, em busca de um sono tranqüilo...
Quem sabe?
– Quanto tempo!
– Pois é, quanto tempo!
– Me perdoe a pressa - é a alma dos nossos negócios!
– Qual, não tem de quê! Eu também só ando a cem!
– Quando é que você telefona? Precisamos nos ver por aí!
– Pra semana, prometo, talvez nos vejamos...Quem sabe?
– Quanto tempo!
– Pois é...quanto tempo!
– Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das
ruas...
– Eu também tenho algo a dizer, mas me foge à lembrança!
– Por favor, telefone - Eu preciso beber alguma coisa,
rapidamente...
– Pra semana...
– O sinal...
– Eu procuro você...
– Vai abrir, vai abrir...
– Eu prometo, não esqueço, não esqueço...
– Por favor, não esqueça, não esqueça...
– Adeus!
– Adeus!
– Adeus!