Showing posts with label Ferreira Gullar. Show all posts
Showing posts with label Ferreira Gullar. Show all posts

Sunday, February 24, 2013

Grandes parcerias

 
Quase sempre, um grande poema não dá uma grande canção.
No Brasil, Raimundo Fagner foi um dos artistas mais bem sucedidos nesta empreitada.
Fez coisas lindíssimas com Florbela Espanca (Fanatismo, Perdidamente e Impossível), Fernando Pessoa (Qualquer Música) Nélida Piñon (A Doce Canção de Caetana), Affonso Romano de Sant'Anna (Os amantes) e outros autores, como os espanhóis Antonio Machado e Rafael Alberti.
Com o maranhense Ferreira Gullar ele fez a maravilhosa Traduzir-se  e esta aqui, Cantiga Para Não Morrer, primorosíssima:
 
 


Me Leve
(Cantiga Para Não Morrer)


Quando Você for-se embora
Moça branca como a neve
Me leve, me leve

Se acaso você não possa
Me carregar pela mão
Menina branca de neve
Me leve no coração

Se no coração não possa
por acaso me levar
Moça de sonho e de neve
Me leve no seu lembrar

E se aí também não possa
Por tanta coisa que leve
Já viva em seu pensamento
Moça branca como a neve
Me leve no esquecimento


.

Wednesday, August 24, 2011

Dois Poemas e Uma canção de Ferreira Gullar














Traduzir-se


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?



***

Primeiros Anos


Para uma vida de merda
nasci em 1930
na rua dos prazeres

Nas tábuas velhas do assoalho
por onde me arrastei
conheci baratas, formigas carregando espadas
caranguejeiras
que nada me ensinaram
exceto o terror

Em frente ao muro negro no quintal
as galinhas ciscavam, o girassol
Gritava asfixiado
longe longe do mar
(longe do amor)

E no entanto o mar jazia perto
detrás de mirantes e palmeiras
embrulhado em seu barulho azul

E as tardes sonoras
rolavam
sobre nossos telhados
sobre nossas vidas.
Do meu quarto
ouvia o século XX
farfalhando nas árvores lá fora.

Depois me suspenderam pela gola
me esfregaram na lama
me chutaram os colhões
e me soltaram zonzo
em plena capital do país
sem ter sequer uma arma na mão.



***



A Música Que Toca Sem Parar:
Fagner canta bonito esse poema de Ferreira Gullar:


Cantiga para não morrer


Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.