
há fronteiras realmente ou tua asa é muito rasa?
armadilha
o aço não é suave: translúcida,
a vidraça despedaça o
vôo rápido do pássaro incauto
fatalidade
de repente, a pedra – e a asa não
terá mais
passagem
infantil festim cruel
o pássaro (presa) jaz a-
pedrejado
aos pés solenes
poetave
eu, antes adaga, agora a-
ve para que onde houver fronteira
haja asa
poetave II
passo a catástrofe da passagem
de um a outro instante me indagando:
“derivo de que ave?”
Um Relance Para Líria Porto
redemunho
circum-arisco vento célere
– que fico o sigilo do
chão de um rio –
em plena empoeirada rua
o sol me cega me sega o sol o sol me seca
o tato e sinto a sede tanta
de um mar interno
e para que meu cerne se reensolare
– poesia não duela afagos
(meço apaziguamentos
peso ausências)
– você me traz alumbrado mar
me relenta me
cataventa
me estende versos em lamparina
adivinhando enfim onde é
mais noite em mim
Aos Sóis Que Se Apagam
alcatéia
de fauna cataclísmica
(aves bélicas
borboletas de rapina)
pervagam avessos pastores
– dentro deles há
um céu vasto
despenhadeiros
a lua alumbradora
e um abismo sobre o qual
adeja o caos que lhes medita –
à fome intensa
à sede indelével
poetas (lobos) todos
comem/bebem até as
vísceras da presa
depois
lambem o focinho
e se vão
como se nada
houvesse acontecido
Wilson Torres Nanini, policial militar de minas gerais por ofício, poeta por extravio, nasceu em Poços de Caldas/MG, em 25/01/1980. Casado, reside com a mulher Carolina em Botelhos. Cursou Letras na Unifeob, de São João da Boa Vista/SP, contudo, abandonou o curso antes de se formar. Seu primeiro livro de poemas, ainda não publicado, intitula-se Quebrantos, Relances e Abismos ao Relento.
A Música Que Toca Sem Parar:
a imortal Nina Simone gorjeia Don't Let Me Be Misunderstood.