Prepare-se, América.
Prepare-se para o que você já é, e que ainda não se deu conta.
Prepare-se para assumir seus traços indígenas, os cabelos escuros e o semblante hispânico.
Prepare-se para recalcular a estatura e rever os seus valores.
Você já não é mais tão loura.
Você já não é tão branca.
Nem tão santa.
Já não é tão alta e, presumidamente, tão forte, tão indestrutível...
Você humanizou-se e ainda não caiu a ficha.
O 11 de Setembro restitui-lhe o dom e a graça da mortalidade e isto é uma bênção, e não uma maldição, como querem fazer crer esses republicanos sem mãe, sem pai, e agora sem pátria.
Aprenda com seus erros, América.
Reprograme-se com os seus acertos.
Essa foi, sempre foi, afinal, a sua maior virtude.
Mas a vaidade está lhe fazendo desvirtuar, perder-se de si.
Esta vaidade que sempre foi a sua maior inimiga.
Portanto, chega de arrogância, de petulância, e de tanto mal-querer.
Seus olhos já não são tão claros.
E você não se olha mais no espelho.
Você ficou mais bonita, morena, sabia?
Você é aquela atriz que já não consegue os papéis mais glamourosos e sim, os mais expressivos.
Alguém precisa lhe lembrar de que você não é Scarlet Johansen, mas sim, Meryl Streep.
Assim sendo, você terá que engolir esse orgulho saxônico, essa agressividade, esse rancor - sabe Deus de que, de onde e de quem - , e essa empáfia escondida por detrás de uma temência cristã que já não convence a ninguém.
Nem a Deus.
Você é tão pecadora, quanto qualquer outra santa.
Você, que bebe, que fuma e que traga.
Você, que deveria saber os riscos que corre.
Você, que despreza seus imigrantes e que os humilha, como se pisasse em vermes.
É que você se tornou uma mulher esnobe e que se esqueceu de que não nasceu, exatamente, em berço de ouro.
Afinal, seu sangue nunca foi exatamente azul, América.
Você sempre foi do proletariado, ainda que o negasse e negue.
Os mexicanos de hoje, são os irlandeses de ontem.
Os asiáticos de hoje são os italianos de anteontem.
Você, que sempre foi luta e suor, por mais que finja amnésia nestes dias em que se parece um socialite glamourosa, mas falida.
Nós somos loucos de amor por você.
Observe que nós, latinos, já não não somos esses seres inferiores que você finge não ver.
Nós já somos você, ou parte daquilo que você é e que se nega, por mais que não se tenha dado conta.
Nós, os latinos, que você tanto despreza e abomina, e que já somos o que existe de melhor em você. Olhe para nós, América!
Tome o esporte como exemplo. Nós enchemos os vossos estádios. Estamos em todos os lugares.
Robyn Regehr, destaque da defesa do Buffalo Sabres, da liga americana de hockey é pernambucano do Recife.
Tom Brady, quaterback dos Patriots e uma das grandes figuras do esporte americano é americano da gema, é verdade, mas é casado com uma brasileira do Rio Grande do Sul, e tão icônica quanto o marido famoso.
Gisele Bundchen, de sua graça. E ela lhe deu um filho tão americano como aquele que assinava Franklin, esse menino Benjamin.
O chicano Mark Sanchez, é o badalado quarterback dos Jets.
No basquete aqui da região de Nova York, outro chicano, Brook Lopez, é o pivô dos Nets.
Nas telas, a exuberante atriz Jessica Alba é mestiça: ela é um bocado dinamarquesa, um bocado francesa e muito mexicana.
É mexicaníssima como Salma Hayek, uma das mais respeitadas atrizes de Hollywood.
Assim como eram os pais de Robert Rodriguez, um dos mais inventivos diretores do cinema dos dias de hoje.
No beisebol, o mais americano de todos os esportes, vemos que os Rivera, os Reyes, Pujols, Rodriguez e Santanas, estão na prateleira mais alta.
Sem estes jogadores, a liga americana não teria a mesma graça e nem força que tem.
Jean-Michel Basquiat, um dos maiores artistas nascidos neste país, era filho de um haitiano e uma porto-riquenha.
Jerry Garcia, líder do Greatfull Dead - uma das maiores bandas do americaníssimo rock and roll -, era mestiço: descendia de galegos, irlandeses e suecos.
Assim como tantos outros homens e mulheres que se destacaram e se destacam neste país.
O que muitos puretas se recusam a ver e admitir é que os latinos estão trazendo muito mais do que mão de obra confiável e barata para o país.
Eles estão trazendo novas cores, novos sonhos americanos nascidos de outras Américas.
Eles estão retemperando a culinária local com especiarias e novos aromas.
Eles estão colorindo os céus deste país.
Estão fazendo frutificar os campos e abrindo novas estradas.
Eles estão renovando, reinventando, redescobrindo.
Que foi o que Cristovão Colombo, um latino, fez por todo o continente em 1492.
Tanto tempo depois, em 2012, esta velha América andava mesmo precisando ser redescoberta.
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