(Porque hoje - 21 de Janeiro - é aniversário dele)
Adorava o som de Kleiton e Kledir, a então
jovem dupla gaúcha que enchia auditórios de todo o Brasil. Era início dos
anos oitenta e eu respirava música.
Eu os vi pela primeira vez abrindo um show
do MPB4, no ginásio Arnóbio Pitanga, em Valadares. Eu tinha uns 16 anos e
fiquei encantado com a energia dos guris.
Saí de lá falando "bah"e "tchê",
doidinho para beber chimarrão. Encantei-me.
Adotei um ritual - quando servia
o exército em Juiz de Fora -, de todas as vezes que ia visitar meus pais em
Valadares, deixar tocando na vitrola, no momento da saída, a música Deu Pra
Ti.
Era como se dissesse aos meus pais que, assim que baixasse o astral na
caserna, estaria de volta ao convívio familiar.
Curiosamente, deixei essa
canção tocando na vitrola no dia 9 de abril de 1984, dia em que embarquei para a
capital mineira e de lá para Nova York, definitivamente.
Lembro-me claramente
de minha mãe enxugando os olhos com as costas da mão, enquanto os guris enchiam
de som o ar da casa da Rua Topázio.
Desde então, essa canção ficou
reverberando dentro de mim, como um daqueles tangos-fantasma, que nunca deixam
de tocar dentro da cabeça e do coração da gente.
Passaram-se os anos,
tornei-me um operário da notícia e eles construíram uma carreira sólida,
interrompida por um hiato que nos deixou, fãs, muito decepcionados.
Eu não
conseguia conceber o Kleiton sem o Kledir e vice-versa.
Sabe aquela coisa de
quando dois são um?
Felizmente, soprou um minuano lá pelas bandas de Paris -
onde Kleiton se exilou estudando música -, e ele resolveu voltar ao Brasil e
retomaram a dupla.
Há algum tempo, juntamente com os empresários Kiko Salles
e Fábio Portugal, criamos o MPB Club, projeto que trouxe aos palcos americanos
muitos artistas brasileiros de primeira grandeza.
Kleiton e Kledir foram
incorporados ao projeto e, não apenas fizeram espetáculos inesquecíveis, como acabaram se
tornando grandes amigos e parceiros.
Sim, parceiros, pois os guris musicaram
Água e Vinho e A Outra Metade, dois poemas meus.
Hoje nos frequentamos, a
gente dá sempre um jeitinho de se ver e o Kledir escreve (bem!) para o Brazilian
Voice.
Paralelamente à música, ele editou dois livros que foram sucesso de
publico e crítica no Brasil (Tipo Assim - um fenômeno na Internet - e O Pai
Invisível).
Kledir costuma dizer que sou padrinho de sua carreira literária,
o que me enche de orgulho, embora não seja verdade.
Kledir já era um escritor
feito quando nos conhecemos.
Estava apenas esperando o momento certo de sair
da casca.
Em julho passado estivemos juntos no Rio de Janeiro e hospedei-me
uns dias em sua bela casa na Joatinga.
Enquanto ele tentava me converter ao
vegetarianismo, levei-o para a noite, tentando convencê-lo a freqüentar o meu
mundo: o da esbórnia.
Durante um breve período, ele chegou mesmo a cheirar
rapé, um hábito mineiro que ainda não abandonei, e que o seu médico
desaconselhou peremptoriamente.
O doutor diz que dá taquicardia.
Não sei
se é verdade.
Afinal, meu coração sempre desafinou.
Sempre bateu fora do
tom.
Desnecessário dizer que ninguém convenceu ninguém.
Quando saí de sua
casa para o aeroporto, parei numa churrascaria e ataquei um rodízio. Sem o menor
remorso.
Sabe lá o que é ficar cinco dias numa casa onde jamais se fritou um
bife?
E ele não deve estar com saudade da cerveja sem álcool, que
praticamente o obriguei a beber enquanto me escoltava pela noite carioca. Não
devo ser boa companhia.
E eu ainda o provocava, dizendo que beber cerveja sem
álcool é o mesmo que dançar com a irmã.
Quando Julia (sua primogênita) veio
fazer um intercâmbio nos EUA e tomou o primeiro porre da vida, o Kledir entrou
em desespero.
Ligou-me, todo aflito, pedindo conselhos ao cara que ele diz
ser a "maior autoridade em pileques fora do Brasil".
Não é bem assim, tentei me explicar.
Mas o
tranqüilizei.
Ressaca não mata ninguém.
E Julia sobreviveu
lindamente.
Começo a falar dos guris e acabo me perdendo em
recordações.
Essa crônica iniciou-se, na verdade, com o propósito de ser lida
como um envergonhado pedido de desculpas.
Kledir aniversariou semana passada
e esqueci completamente desse que, desde que nos tornamos amigos, é sempre um
dos primeiros a ligar para os nem sempre merecidos parabéns.
Portanto,
Kledir, que você seja muito feliz nessa nova idade.
E que continue sendo esse
sujeito fantástico que é.
E que nunca se esqueça desse meu amor por
você.
Aceite meus atrasados, mas sinceros parabéns.
E uma pitada exagerada de
carinho desse seu irmão, nascido estranhamente do ventre de uma outra mãe.