Saturday, December 12, 2015

Que mistérios (e bichos) tem Clarice?





O New York Times elogiou o livro Histórias Completas, de Clarice Lispector, editado por aqui, em inglês. Achei ótimo. Sou fã.
Clarice é um fenômeno nas mídias modernas e é mais popular, hoje, do que quando estava viva.
A internet, às vezes, presta um serviço à história e promove pequenos milagres. Tem acontecido bastante e, não raro, ela faz justiça e redime o tempo, colocando alguns pingos nos is.
A poeta dizia que escrevia para não enlouquecer e, talvez por isto, seus textos tenham chegado com tanta facilidade ao coração das pessoas. Só as coisas naturalmente verdadeiras conseguem isto. Não existe atalho para se chegar ao músculo da emoção. Esta é a mensagem que fica.
Hoje proliferam na internet alguns textos muito bons e que, mesmo não sendo de sua autoria, são atribuídos a ela.
Ela, Caio Fernando Abreu e Luiz Fernando Veríssimo, são os campeões neste quesito. E os textos são tão bons, que Veríssimo disse em uma entrevista recente que já se sentiu tentado a assumir a parte que (não) lhe toca.
Algumas pessoas pensam que a escolha do nome de minha filha caçula foi uma homenagem a Clarice Lispector. Mas não foi.
Clarice Lima ganhou este nome em uma cama de hospital, ainda na barriga da mãe, uma hora antes do seu nascimento. Era para se chamar Clara, mas minha mulher teve este lampejo sob o efeito da anestesia peridural. Eu não tive argumentos para demovê-la. E nem tentei.
Foi uma gravidez complicada, em que o bebê, apressado, queria vir ao mundo aos cinco meses de gestação. Portanto, aquele não era um momento apropriado para polemizar.
Na verdade, eu nunca tive voto na escolha do nome para as minhas filhas e tive que me contentar em dar nome aos bichos da casa, que são muitos e que, sempre, foram imposição das mulheres que mandam aqui.
Foi uma espécie de pacto silêncioso, implícito, em que minha mulher nomearia as filhas e eu, os bichos, o que acabaria por transformar minha casa em um zoológico. Escolhiam o animal, eu esperneava, contrariado, e elas diziam: “não reclame. Deixamos você colocar o nome”.
E eu, bobão, fui aceitando.
A sharpei Jade, que já não se encontra conosco, foi substituída por Nina e Laila, da mesma raça. Jade morreu após 11 anos de bons serviços prestados. Não saía de perto de mim. Lambia minhas mãos, chorava de alegria quando eu chegava em casa, chorava de saudade quando eu não estava. Logo eu, que não sou “bicheiro” e que prostestei todas as vezes que algum animal entrou para a ‘família’.
O primeiro pássaro da casa, uma calopsita ‘batizada’ de Lucky (sortudo, para os que não falam inglês), era tudo de bom. Mas não foi assim tão afortunado. Ele vivia solto pela casa, até que, um dia, foi pisoteado. Adivinhem por quem?
Clarice, claro, sempre desatenta, a cabeça nas nuvens. O bichinho jaz ao fundo do quintal, ao lado da piscina.
Ela passou dois dias chorando, até receber as calopsitas Rico e Luna, como forma de ‘compensação’ por seu atabalhoamento e para cessar de uma vez por todas com o chororô que prometia não ter fim. Calou-se durante um bom tempo.
Na esteira do casal de calopsitas viria a cacatua Cacatua, que é o mesmo que você nomear um cachorro, cachorro.
Cacatua foi o maior presente de grego que recebi na vida. Peter Pantoliano, o presenteador, queria se livrar de um mico. Ou melhor, de um problema. Passou-o para mim e hoje não sei o que fazer para me desfazer deste pterodáctilo incômodo e barulhento. No entanto sei que, se houver um plebiscito, Cacatua fica na casa e eu me vou.
Cacatua passa dias a fio tentando fugir da gaiola, que batizei de Alcatraz. É incansável o monstrengo branco, com seus bicos de aço, bicho inteligente, engenhoso, obstinado e perspicaz. Nasceu para isto. De vez em quando, consegue fugir de Alcatraz.
Como? Eu não sei.
Deveria se chamar McGyver, de tão engrenhoso que é.  E, todas as vezes que foge, é um prejuízo financeiro e emocional para mim.
Já estraçalhou estantes, moldes de porta e janelas, pés-de-mesa, estofamento de cadeiras, controles remotos de televisão e até a biografia de Paulo Leminsky, escrita pelo jornalista Toninho Vaz.
Não aguento mais esta bicharada.
Por causa deles, há quatro dias Clarice não fala comigo. Ela agora cismou que quer ter um porquinho da índia. Fui contra, claro. Ela diz que posso chamá-lo de Justin Bieber. E foi aí que não aceitei mesmo. E nem vou aceitar. Mesmo que ela fique mais quatro dias sem falar comigo.
Com essa bicharada em casa é impossível viver em um ambiente silencioso e 100% limpo.
Outro dia levei o meu casaco ao tintureiro e a chinesa me disse que nunca tinha visto tanto pelo de cachorro em um outro lugar que não não fosse em um cachorro. Eu quase morri de vergonha.
Portanto, Clarice que me perdoe: porquinho da índia, só na Índia.
E c’est fini.

PS: esta seria uma crônica de homenagem a Clarice Lispector, que completaria 95 em 10 de dezembro.
Clarice Lima não permitiu.




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Saturday, November 14, 2015

Um canto de amor a um povo (e seu rio)


Na noite do dia 3 de junho de 2007, a câmara municipal de Governador Valadares aprovou por unanimidade que a música Rio Doce, de Zé Geraldo, se tornasse o hino oficial da cidade.
A aprovação do projeto do vereador Paulinho Costa foi aplaudida de pé por todos os presentes e o autor da canção subiu à tribuna para canta-la.
 Foi arrepiante.
 Tratou-se de um daqueles momentos raros que rompem a barreira do tempo e que ainda hoje guardo com muito carinho nas retinas.
 Sim, eu estava lá naquela noite iluminada e jamais me esquecerei.
 Trata-se de uma canção de amor a uma cidade e ao seu povo.
 Uma música que canta as belezas do rio que lhe dá o nome, mas que decanta também o Ibituruna banhando seus pés.
Como se isto não bastasse, a canção aborda ainda a alma emigrante do valadarense, nossa impressão digital gfrudada no mapa do mundo.
 Infelizmente, o então prefeito José Bonifácio Mourão, uma pessoa que respeito muitíssimo, deixou-se pressionar por um grupo de pessoas ligadas ao autor do hino vigente, e que ainda hoje é oficial da cidade.
 Venceu Mourão. Perdeu a cidade.
 Lamentei muitíssimo, porque o prefeito desperdiçou a oportunidade de dar a Governador Valadares um hino que o país inteiro conhece e que o valadarense sabe a letra na ponta da língua.
 Faltou-lhe arrojo, naquele momento.
 Faltou compromisso com sua responsabilidade de promover mudanças relevantes e que colocassem a cidade em um lugar de destaque em todo o país.
 Rio Doce, de Zé Geraldo, representava também isto: mudança!
 Um hino que o país inteiro conhece?
 Qual cidade não quer?
 Ah, prefeito Mourão, se o senhor não tivesse fraquejado.
 Uma pena, sabemos.  Mas ainda podemos reparar este erro.
 Com o absurdo da tragédia do rompimento da barragem de Bento Rodrigues e a contaminação do Rio Doce pela lama e detritos químicos e minerais, o valadarense sofre como jamais sofreu, perecendo também de sede, que até aqui era saciada com as águas do rio que inspirou a canção de Zé Geraldo.
 Convoco as autoridades valadarenses a reviver a questão e que transformem a canção no nosso hino.
 Um hino de resistência e de luta.
 Um hino de amor à nossa cidade e às coisas que nos dizem respeito.
 Um hino de amor ao rio que banha e dá frescor à nossa história.
 Um hino de amor ao valadarense e seu torrão.
 E que esta canção signifique também a recuperação total do rio, que é tão essencial não apenas para os cidadãos de nossa cidade, mas à toda população ribeirinha que sobrevive às suas margens, até desaguar no mar, no estado do Espírito Santo.
E que a canção Rio Doce seja o hino de purificação de suas/nossas águas e signifique um novo capítulo na história da ecologia em nosso país.
 Atenção, Governador Valadares.
 Atenção, senhores vereadores e prefeita Elisa Costa!
 Transformemos Rio Doce no nosso hino de amor a esta cidade e seu rio.
 Eu, que tenho o coração valadarense, canto junto.

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Tuesday, November 10, 2015

Prainha do Xuá




(Em memória do Rio Doce, que virou lama de mineradora)

Aqui, quando faz frio é de rachar a mamona.
E quando faz calor é de cozinhar os miolos.
Sendo assim, de clichê em clichê, vamos nos queixando da vida.
Memória curta, temos nós, eternos insatisfeitos.
Se faz frio, é porque faz frio.
Se neva, é porque neva.
Se chove, é porque chove.
Se faz calor, é porque faz calor.
Criei-me em Governador Valadares, que julgava ser o lugar mais quente do mundo.
Era um Saara sem beduínos, sem camelos, palmeiras, nem tempestade de areia.
No meu coração, Valadares será para sempre um oásis de brisas benfazejas, belas odaliscas e xeiques de riquezas invisíveis.
Como era bonita e quente, aquela minha Gevê!
Tão quente, que um jornalista de passagem pela cidade escreveu um texto de onde chamou “sucursal do inferno”.
Em Valadares vi um sujeito fritar um ovo no capô de um fusca.
Vi o Rio Doce emagrecer, todo ano, sua cintura afinando e produzindo dezenas de praias ao longo de seu curso. A mais famosa delas era a praia do Xuá, agregada a uma ilhota próxima à ponte São Raimundo.
Era para lá que íamos.
Foi naquela ilhota que, menino ainda, vi um índio.
Aliás, um bugre, que é como os adultos a ele se referiam.
No meu desconhecimento de geografia, imaginava que um bugre era alguém vindo de um país distante, talvez na Cordilheira dos Andes, talvez na fronteira da Indonésia ou no Aconcagua.
Bugrelândia? Bugrária?
Seria um bugre, o mesmo que um búlgaro?
Criança, ainda, pensei ter desvendado o mistério: o homem seria de Campinas, terra do Guarani, clube de futebol que tem um bugrezinho como mascote.
E o meu bugre ficava acocorado na porta de um palheiro, debulhando milho e bebendo cachaça, que os brancos davam para ele.
Aquele índio era uma espécie de guardião da ilha, e ali ele plantava algumas coisas e criava galinhas.
Não tinha mulher nem filhos.
Não tinha nada, aquele pobre homem de cabelos lisos e desgrenhados.
Era ali que ele dormia sozinho escutando apenas a música das criaturas da noite e o barulho da correnteza bolinando as pedras.
Era ali o seu reino de um homem só. E sua prisão rodeada de águas.
Quando o calor aumentava na cidade ao ponto de quase explodir os termômetros, o rio ia definhando e formando suas prainhas, o Xuá era o destino de muitos de nós.
Tinha muito de paraíso naquelas areias brancas.
Do fundo de nossas precariedades, aqueles prazeres temporões saciavam uma sede muito maior que a nossa de mar e de amor.
De quebra, ainda nos oferecia uma oportunidade única de socialização.
Farofa geral, meus senhores.
Garrafa de pinga, meio engradado de cerveja em encardidas caixas de isopor, refrigerantes, frango assado e farofa.
Muita farofa.
Confesso que fui useiro e vezeiro. Confesso…
Homens jogavam carteado, mulheres tricoteavam sobre a vida alheia, enquanto as crianças jogavam futebol com uma bola de plástico da marca Pelé. Uma pobreza de não dar dó.
Muitas vezes nos afastávamos dos adultos e saíamos explorando as margens, roubando manga, jambo, jenipapo e ingá dos quintais ribeirinhos.
Não raro, éramos expulsos a tiros de sal.
Uma vez mais, confesso.
Alguns de nós aproveitavam a oportunidade e lançavam a sorte nas pescarias.
Tinha muito piau, lambari, tucunaré, curimatã, bagre e corvina.
Nadávamos, mergulhávamos, pescávamos e passeávamos de pedra em pedra como se não existisse o amanhã.
E, para alguns, não existia mesmo.
Muita gente perdeu a vida se refrescando nas águas traiçoeiras daquele rio.
E se, as mortes ocasionais serviam como alerta para os perigos das águas, elas não eram amedrontadoras o suficiente para nos afastarem de lá.
O medo de morrer afogado terminava antes da missa do sétimo dia.
Tenho imensa saudade das prainhas do Rio Doce.
Tanta saudade que, hoje, vendo o sol e o calor nos transformarem nessas insuportáveis bolas de mau humor, carne e suor, daria qualquer coisa para aportar numa prainha como aquela do Xuá.
Ficaria quietinho, sobre uma pedra lodosa, sentindo as águas do tempo passeando tranqüilas sobre meu corpo, levando meus cansaços, meus pecados, minhas culpas, minhas dores.

Wednesday, September 9, 2015

Canção para um mundo novo


Como aconteceu no dia 8, no dia 9 e em muitos outros dias que o antecederam, o mundo irá acordar com o sol neste 11 de setembro.
No Tibete, um monge se levantará e fará sua primeira oração da manhã.
Em sua prece, pedirá à divindade que derrame sobre o mundo um manto de luz.
Luz para enxergar na escuridão da intolerância.
Luz para caminhar na retidão dos justos.
Luz para fazer transparecer as almas aflitas deste mundo.

Em Estocolmo, na civilizada Suécia, uma moça loura como uma princesa viking, abrirá a janela para permitir que a brisa fresca de final de verão entre em seu quarto e se espalhe pelos quatro cantos, trazendo fluidos bons.
Na Espanha, numa casa de pedra da Andaluzia, uma menina cigana cantará um canto gitano da mais pura magia.
Em Varadero, Cuba, uma senhora de setenta anos de idade, confidente dos Orixás, irá a uma cachoeira com uma oferenda de agradecimento.
Tranquila, entenderá a linguagem dos peixes e conversará com as plantas num idioma que só os graduados da umbanda sabem decifrar.
Numa savana do Quênia um grupo de meninos sairá correndo, passarinhos livres e leves, sentindo na pele uma carícia da natureza.
Nos pampas argentinos, um vaqueiro levará o seu gado para pastar num vale verdejante e o minuano soprará ao seu ouvido uma confidência:
- Algo de bom está acontecendo neste instante, aqui, no lugar em que habitas.

No limite das duas Coreias, dois camponeses, um de cada lado da História, estarão sentados no espaço imaginário onde, provavelmente, foi desenhada a linha da fronteira e, juntos, dividirão um prato de comida.
Um padeiro francês, na volta de sua derradeira entrega da madrugada, esfacelará os pães que não foram vendidos no dia anterior, e os dividirá com os esquilos famintos da praça.
Numa igreja siciliana, um padre se porá de joelhos evocando a figura de Deus e, numa emocionada oração, pleiteará para que o Todo Poderoso derrame sua bondade sobre a humanidade, tocando a cada cidadão, independente de credo ou cor.
Nas ruas de Belfast, na Irlanda, um grupo de católicos e protestantes conversará normalmente, como se todo o ódio e amargura fizesse parte de um passado que deve ser esquecido.
Em Sidney, na Austrália, um aborígine trafegará pelas ruas da cidade sentindo-se parte daquele quadrado de concreto.
Na Cidade do Cabo, no extremo da África do Sul, negros e brancos estarão fazendo uma passeata pacífica, uma via-sacra de agradecimento pelo progresso obtido na convivência entre ambos nos últimos tempos. E pela promessa de harmonia de tempos que ainda hão de vir.
Juntos, combinarão que a palavra Apartheid será excluída do dicionário. E sairão dançando pela cidade como se fosse carnaval.
Num bairro distante da zona norte de São Paulo, um grupo de meninos jogará futebol durante o recreio escolar.
Em Santiago do Chile, um motorista mostrará ao turista suíço um grupo de mães numa praça do centro da cidade. Ao contrário do canto de tristeza pelo desaparecimento de seus filhos durante a ditadura de Pinochet, hoje elas entoam uma marcha folclórica, saudando a chegada da colheita nos campos do país.
Numa mesquita da faixa de Gaza, um rapaz que queria ser homem-bomba muda de ideia e promete plantar um jardim.
Nesse mesmo instante, em Jerusalém, Benjamin Netanyahu receberá uma comitiva árabe para uma reunião que decretará um cessar-fogo definitivo na região.
E nós, que vivemos nas cercanias de Nova York e em todos lugar onde viver o homem, olharemos para o céu de setembro e nele não haverá nenhum sinal de perigo, apenas um bando de pombas brancas sinalizando a existência de um mundo novo.

Tuesday, August 25, 2015

Duas estórias de Clarice


(Para a Clarice, que completa 12 anos neste 25 de agosto)


UM VULTO NA PENUMBRA

Clarice assistiu um filme impróprio no cinema.
Ela tem 11 anos e a película estava regulada para pessoas acima de 13. Entrou com a irmã mais velhas e as primas.
O filme tinha cenas violentas, o que deve tê-la deixado bastante impressionada.
Duas da manhã, durmo pesadamente e sinto uma mão me tocar o rosto.
Abro os olhos e vejo aquela figura conhecida dissolvida na penumbra do quarto.
- Pai, estou tendo um sonho ruim.
Chego-me para o lado, puxo o edredom e ofereço o canto.
- Deita aqui, que papai te protege, digo flexionando o bíceps deficitário de músculos.
Ela ri, deita-se ao meu lado, abraça-me e dorme imediatamente.
Passo a noite em claro.
Fico ali, guardando o sono de Clarice, de olho na janela, de olho em Liam Neeson.

BIOGRAFIA

Estou terminando de ler a biografia do músico paraibano Zé Ramalho. Clarice, a caçula, entra no quarto e se deita ao meu lado:

 - Pai, que livro é este?
 Respondo, sem tirar o olho do livro.
 - É bom?
 Aceno afirmativamente com a cabeça.
 Ela olha na capa e vê uma foto do compositor em tronco nu, braços abertos
 - Livro de terror, né?
 Sorrio. Zé Ramalho não é lá dos mais belos. E respondo tratar-se de uma obra biográfica.

Clarice coça a cabeça, olha para mim e pergunta:
 - O senhor não acha que já passou da hora de escreverem a minha biografia?
 Concordei, claro.
 Já passou da hora.
 Adormeceu aqui, a cabeça jogada em meu ombro, a mãozinha direita segurando o livro.

Friday, August 7, 2015

Os carecas


Os carecas voltaram. Andam pelas ruas de Nova York e do mundo, másculos, decididos, fazendo as moças suspirar por onde eles passam. Fazem um estilo próprio, parecem ter uma linha de roupas criada especialmente para eles. Alguns usam brincos, outros mostram tatuagens épicas que poderiam ornamentar a parede de um museu. São perfumados.

Eles são modernos, pós-modernos, chegaram ocupando o espaço que até pouco tempo era dos metrossexuais, aquela turma bonita que depila o peito e usa camisas apertadinhas, insinuando o tanquinho do tórax e mostrando os bíceps esculpidos em academias. Rei morto, rei posto.
Não tenhamos dúvida: é a vez dos carecas.

Mas nem sempre foi assim. Houve um tempo que os carecas não eram tão bem vistos e chegavam a ser discriminados, objetos de comentários maldosos, tornando-se uma espécie de ponto de referência:
    “Lá na frente. Ao lado do careca”.

Num século que parece distante, houve quem escrevesse uma marchinha de carnaval como forma de redenção da classe. Com o evento das micaretas e o fim do carnaval de salão apenas os mais antigos se lembrarão do refrão daquela música de duplo sentido que garantia que é dos carecas que elas gostam mais. Fora do carnaval, nem sempre foi bom para os carecas.
Telly Savallas, o Kojack, e Yul Brynner, um dos irmãos Karamazov, foram os primeiros carecas amados e reverenciados de que tenho notícia. Com o passar do tempo vieram outros de indiscutível carisma, sendo Michael Jordan o mais amado de todos.

Hoje, muitos cabeludos raspam a cabeça por questões estéticas, para fazer parte da nova tribo. Mas não tenho dúvida de que a grande maioria raspa completamente, numa espécie de tratamento de choque para o que antes era um problema e que agora virou charme. Assim que os cabelos começam a cair, o sujeito vai à farmácia e compra uma gilete. Fim de papo.

Não existe mais aquela preocupação de esconder a falta de cabelos, hábito que existe desde o começo das coisas. Há registros históricos de que no Egito antigo recomendavam que se aplicasse no couro cabeludo a mistura de partes iguais de gordura de leão, hipopótamo, jacaré, cabrito e cobra. O imperador romano Júlio César (100-44 a.C.) sonhava recuperar seus cabelos utilizando-se de uma receita nada convencional constituída por ratos domésticos queimados, dentes de cavalo, gordura de urso e vísceras de veado.
Eu não sou imperador de nada, mas já tentei de tudo. Xampu de jaborandi, azeite de oliva, poções milagrosas vendidas por camelô de porta de estação rodoviária e, ultimamente, ando as voltas com uma espuma mágica receitada por um dermatologista. A cada dia que passa, eu tenho menos cabelos onde deveria ter, e constato a existência de cabelos onde não deveria ter.
Então eu decidi que - se os carecas continuarem em voga até o fim deste verão - irei raspar tudinho. E já escolhi uma tatuagem tribal para o braço esquerdo e adquiri um par de brincos de diamantes de mentirinha. 
Senhoras e senhores, se até o final deste verão não surgir uma nova fauna de ‘descolados’ na humanidade, este ex-jovem semicareca vai andar absolutamente na moda.

Quem viver verá.