Tuesday, July 16, 2019
Pescoço de peru
As redes sociais foram inundadas por fotos de ‘velhinhos e velhinhas’ nos últimos dias. Um aplicativo que ‘envelhece’ as pessoas virou moda entre anônimos e famosos, que se divertiram com as supostas imagens futuristas.
A minha versão não foi das mais generosas.
Recusei-me a postá-la, mas o compositor Dalmir Lott fez questão de tornar público aquilo que eu gostaria de manter privado.
Fiquei com a cara daquele quibe de lanchonete de rodoviária que ninguém quis comprar, lá pelas duas da manhã.
Orelhas de abano, nariz de borracha porosa, cabelos escassos, o rosto com a aparência do mapa rodoviário da Califórnia, pés de galinha espalhados por toda a face, é o que se vê.
As pelancas do pescoço, uma vez espichadas, fariam duas vezes o trajeto Rio-São Paulo.
Minha cara ficou parecida com o cotovelo do Keith Richards, do Rolling Stones.
Eu, que nunca fui nenhum Richard Gere, fui monstrificado.
No entanto, se o aplicativo da internet é cruel, a vida é muito mais. Uma existência não se consuma (e consome) em meia dúzia de cliques.
Sei que ficarei com um aspecto ainda pior, caso consiga superar décadas de abusos e descaso com o presente dado por meus genitores.
Maracujás enrugados dão mais suco, diria meu falecido pai.
Não é bem assim.
Problemas de todas as espécies branqueiam os cabelos, riscam sulcos com o estilete dos dias, dando a mim um aspecto estranho, desenhando uma caricatura do que fui um dia.
Boletos, ex-'conjes' (como discursaria o Moro), filhos, políticos filhos da puta, times de futebol e suas defesas pífias, uísque de procedência duvidosa, drogas legais e ilegais, religião, turbulências de avião, filas em repartições públicas, cidadãos corruptos e corrompidos no meu entorno, buracos nas estradas, medo da violência urbana, insônia, ignorância e fúria dos extremistas, trânsito caótico, as falas da Damares, a ganância dos poderosos e a ausência de Deus em tantos momentos, farão de mim algo muito pior do que essa calopsita com pescoço de peru, que o Dalmir Lott espalhou pelas redes sociais.
Friday, June 21, 2019
Calipígio
Ele é portador – segundo suas próprias palavras – de 26 doenças, todas elas mortais.
Bebe, fuma, se excede, mas as 26 moléstias só o incomodam quando a esposa aparece com algum tipo de restrição:
– Não posso ser contrariado. Lembre-se: sou um homem valetudinário!
Valetudinário?
Ia consultar o dicionário – outra de suas muitas manias -, mas preferi o atalho, já que ele adora descobrir palavras esdrúxulas nos Aurélios e Houaiss desta vida.
Aprendi que um indivíduo valetudinário é um sujeito de saúde frágil.
– Olha que moça calipígia, disse ele no outro dia, apontando para a voluptuosa morena que atravessava a rua.
Nova consulta e descubro que calipígio é aquele ou aquela que possui belas nádegas.
Todas as manhãs, ele se levanta com seu pijama de aposentado, calça as pantufas e vai ao banheiro. Quem estiver do lado de fora saberá qual dos Argemiros sairá por aquela porta.
Existem dois Argemiros: o sorumbático e o feliz.
Se quer saber o que significa sorumbático, pegunte a ele.
O Argemiro feliz canta trechos de ópera enquanto se barbeia ou lê o jornal do dia, sentado no trono.
Ele, que sabe tudo de ópera, canta árias inteiras e se alimenta de minuetos e réquiens.
O segundo Argemiro parece ter grudado chiclete na cruz de Cristo. Ele fica mudo durante o banho e dele nada se escuta, quando sai de lá.
Nessa versão, os olhos acinzentados o acompanham até a mesa do café.
Diante das frutas – que exige descascadas e cortadas em tamanhos uniformes – , sentencia:
“Estou tão plúmbeo que tenho certeza de que minha alma é macambúzia. Ó maldita paúra. Meu banzo é indizível”.
Qualquer das expressões denota que ele não acordou do lado certo da cama.
Saudade de algo ou alguém ou a simples sensação de frio podem mudar seu estado de espírito por períodos que podem durar até uma semana.
Gosta de bons vinhos, champanhe e malte escocês.
À mesa não possui o mesmo requinte.
Se pudesse, comeria bife com batatas fritas em todas as refeições.
Já o vi trocar uma ida ao melhor restaurante francês por um pão com ovo cozido. E não me pareceu arrependido.
Argemiro é assim, um poço de contradições e manias.
É tão triste vê-lo agonizar às vésperas de uma viagem.
Pesa a bagagem duzentas vezes. Trezentas, se achar necessário.
Tem paranoia com agentes alfandegários e entra em pânico diante da mera menção de que uma de suas malas pode ser inspecionada no aeroporto.
Não que ele leve nelas algum objeto ou produto proibido, mas a possibilidade de ver espalhadas pela bancada as suas cuecas e meias _que ele enrola e acondiciona artesanalmente_, causa-lhe fobias, profundo mal-estar, uma quase demência.
Toda vez que sai para comprar roupas, leva para a loja ou boutique uma fita métrica e mede, peça por peça, uma por uma, antes de experimentá-las. Ele conhece suas medidas antes, durante e depois das refeições.
Outra mania esquisita é a de colecionar caixinhas. Tem milhares delas. Quadradas, ovais, triangulares, brancas, pretas, multicolores, grandes, pequenas, fundas, rasas…
Argemiro precisaria de um novo cômodo na casa só para guardar as suas coleções.
Na falta de ter o que armazenar dentro delas, guarda caixinha dentro de caixinha e passa dias inteiros organizando o acervo.
Usuário de tantos remédios, faz pouco esforço para obedecer aos conselhos médicos.
Já enfartou duas vezes. Sofre de diabetes. Tem pressão alta.
E torce para o Coritiba Football Club.
Informado pelo doutor de que deveria abrir mão de alguns pequenos prazeres, caso quisesse viver mais, retrucou que havia acabado de escolher, naquele instante, a epígrafe que iria mandar bordar na lápide:
– Argemiro parou de fumar!
E é isso mesmo.
Argemiro, nosso incorrigível Argemiro, só vai parar de fumar ou beber (ou de fazer qualquer outra coisa que lhe apeteça ou dê prazer) no dia em que pedir a conta e partir.
Thursday, May 30, 2019
Achados e perdidos
Preciso encontrar o passaporte brasileiro, que se exilou de mim.
Desde que cheguei de Portugal em novembro do ano passado, eu não sei do seu paradeiro.
Estará no bolso do paletó que me acompanhou na viagem?
Será que caiu no chão e foi encontrado pela mulher da limpeza e colocado num escaninho do departamento de achados e perdidos?
Terá sido esquecido no café do aeroporto e hoje traz a cara de um terrorista, um traficante de drogas - ou outro contraventor - no lugar onde um dia existiu uma foto minha?
Eu gosto da minha fotografia naquele documento.
Estou dez anos mais moço e o meu rosto ainda não havia se transformado no mapa rodoviário de Minas Gerais.
Na foto, estou dez anos mais novo e o mundo era um lugar menos radioativo.
Naquela altura “ainda não havia para mim Donald Trump ou a sua mais completa tradução”.
Não havia Neymar nem Jojo Todynho e o meu time não havia flertado com a Segunda Divisão.
Jair Bolsonaro era apenas um deputado pífio, dependurado em um cabide de emprego público, abusando da ignorância do eleitor.
E nada mais.
Há dez anos eu ainda chorava as dores de outros 11 de setembro, tinha pequenos delírios e algumas aflições.
Desde então, aumentaram o diâmetro do buraco na camada de ozônio, inflacionaram a gasolina, árabes e judeus continuaram em discórdia; e eu permaneci à deriva, sem saber para onde ir.
E se eu precisar ir para o Brasil numa emergência? – pergunto aos meus desgastados botões.
E se explodir uma guerra, e eu tiver que fugir como um cão com o rabo entre as pernas?
Preciso encontrar indícios de coragem em mim, eu sei.
Mas, antes, preciso achar o bendito passaporte.
E preciso mais.
É imperativo localizar a velha coletânea de Drummond e ler em voz alta o Poema das Sete Faces.
Desvendar as minhas sete faces e, se preciso for, dá-las a tapa, pois ainda há tempo.
Tempo de mudar algumas opiniões.
De mudar de ares, repaginar a vida.
Tempo de virar o jogo.
De ganhá-lo.
E pagar o preço devido, pois nada vem sem dor.
Abrir mão de alguns prazeres para cuidar da saúde.
Retomar as dolorosas caminhadas matinais.
Redescobrir o desejo de querer ser longevo e viver melhor.
E reencontrar os meus óculos, perdidos num outro lugar e que não são esses - amalgamados às orelhas -, que hoje me permitem enxergar o mundo com dois graus de astigmatismo e miopia.
Aqueles óculos especiais que proporcionarão que eu me enxergue, filtrando na transparência das lentes mais íntimas a cegueira massacrante que turva a claridade dos dias.
E permita a separação de joio e joia e me faça ver, talvez pela última vez, menino bonito de mim.
Monday, May 20, 2019
O carteiro
(Para a minha vizinha Turquinha, que guardava suas cartas numa caixa lilás)
Dizem que o cão é melhor amigo do homem, mas os carteiros discordam.
São tão épicos os embates entre eles, que já renderam desastradas escaladas em muros e árvores, pernas de calças rasgadas, visitas ao Pronto-Socorro e, não raro, correspondências espalhadas pela rua.
Os cães odeiam os carteiros.
Eu não.
Eu os admiro. Gosto muito deles.
Muito antes da popularização dos telefones inteligentes e do surgimento da internet, eram eles os mensageiros dos nossos afetos e aflições, profissionais que gozavam da estima geral.
Naquele tempo em que as pessoas se orgulhavam das caligrafias e treinavam os manuscritos em cadernos apropriados, as missivas eram testamentos do que ia pela cabeça, alma e coração de quem as remetia.
Era muito bom receber uma carta com selos comemorativos homenageando heróis da história, esportistas e criaturas da fauna e da flora, caprichosamente desenhados por artistas de grande talento.
Era ainda mais especial quando aquela carta vinha do estrangeiro, com envelope de moldura quadriculada em azul e vermelho, tatuada com as palavras 'par avion' ou 'air mail', indicando que chegara a bordo de uma aeronave proveniente de uma terra distante.
Não cheguei a ser um filatelista, no sentido bíblico, mas tinha o costume de guardar os selos das cartas que recebia.
Escrevi e recebi muitas. Centenas. Talvez milhares delas.
Era muito comum as pessoas trocarem cartas, num 'virtualismo' que tinha muito de intimidade e confiança.
Como não evocar as célebres correspondências de Clarice Lispector e Manuel Bandeira, ou de Mário de Andrade e Tarsila do Amaral, registradas posteriormente em livros deliciosos de ler?
Onde cresci, o carteiro subia ou descia a rua com o seu alforje cheio de envelopes. Muito raramente, entregava algum pacote maior, algum presente.
Na ausência das campainhas de hoje, eles batiam palmas no portão, muitas vezes gritando o nome do destinatário, anunciando a chegada de notícias.
A entrega de uma carta vinha sempre carregada de suspense e emoção.
Ela poderia trazer notícias boas ou ruins.
Um sobrinho que nasceu na Bahia, por exemplo. Ou o convite para um casamento ou batizado em Porto Alegre; a formatura do filho de um amigo na distante América do Norte também poderia ocorrer.
Ou a dor da morte ou doença de alguém.
As cartas de pai e mãe traziam o calor de um afago e sábios conselhos.
A de um amigo trazia a camaradagem, a partilha.
Mas as cartas de amor...
Ah, as cartas de amor...
Não tenho dúvida de que elas foram inventadas pelo cupido em dia de divina inspiração.
Elas traziam sentimento e encanto, fotografias, promessa de amanhãs risonhos e recatado tesão. Não raro, carregavam o cheiro da colônia dele ou a marca do batom dela.
Muita gente se conheceu por carta e casou respaldado pelo que leu.
É como se ficasse atraído pelo interior da outra pessoa e não pelo que os olhos, nas condições presentes, veem.
Era como se tivessem tomado conhecimento um do outro 'do umbigo para fora', e não da 'figura' escancarada nas imagens dos vídeos dos computadores de agora.
Os tempos são outros, sabemos, e o resultado visual do que pregam nas academias de ginástica se tornou mais importante do que a substância de um ensinamento de Nietzsche, ou um arrepio balbuciado por Drummond.
Assim sendo, é natural que os carteiros tenham perdido tanto do seu encanto.
A rapidez e a praticidade de um e-mail - ou uma mensagem de voz num destes aplicativos de celular - transformaram as correspondências pessoais em objetos de museu.
Em seus embornais, nossos homens de amarelo carregam mais peso, pacotes de encomendas compradas pela internet, contas de telefone e de cartões de crédito, ou de água e luz.
Se a cor de seus uniformes permanece intacta após todos estes anos, a magia do ofício desbotou e apenas os cães ainda não se aperceberam disto.
Monday, May 13, 2019
Mente fraca
O tempo vai passando, a chama da vida definhando e quase não percebemos as mudanças na nossa habilidade de executar as coisas.
A digestão de comida e informações fica lenta. Bem mais lenta.
Eu, que antes era capaz de dar prejuízo em uma churrascaria rodízio, agora passo um tempo enorme tentando dissolver um bife.
A tolerância ao álcool é outro tópico sensível.
Passei mais de 40 anos sem conhecer a ressaca. Hoje somos íntimos.
Quatro latinhas de Pilsner me fazem acordar no dia seguinte com um Saara na boca, além do indefectível gosto de cabo de guarda-chuva, que até então desconhecia.
E a caixola vira um abacate maduro, com o caroço balançando lá dentro.
O que mudou?
Mudou tudo.
Foram mais de cinco décadas abusando da boa vontade da genética.
Começou a cair-me os cabelos de onde deveria haver cabelo, e a nascer cabelo onde não deveria haver cabelo.
No outro dia, achei um fio enorme dentro de uma das orelhas.
A cabeça está virando uma pista de aeroporto e as sobrancelhas encolheram, dando ao rosto um aspecto estranho.
Acabamos nos tornando uma caricatura do que fomos um dia e ela, a caricatura, capricha em realçar as imperfeições.
Crescem as orelhas e o nariz, o último, ganhando o formato de uma coxinha de padaria.
O tempo é cruel com Narciso.
Envelhecer é rápido e dolorido.
Doem músculos, articulações e a autoestima.
Coisas que eu fazia com facilidade tornaram-se verdadeiros sacrifícios.
Amarrar os sapatos, por exemplo, há muito tem sido um esforço hercúleo.
Aconselhado por um amigo, adotei a técnica de colocar o pé sobre a cadeira antes de me curvar para dar o nó. De uns tempos para cá comecei a calçar tênis, daqueles que dispensam o uso de cadarços.
Redução de peso e prática de exercícios físicos foram recomendados pelo médico que me vê cada vez mais. Mas tenho gastado o tempo disponível cuidando da horta que planto todas as vezes que a primavera dá o ar de sua graça por aqui.
Quando termino de fazer uma capina entre os canteiros de hortaliças ou de revirar a terra com a enxada presenteada por meu saudoso pai, costumo recorrer a analgésicos e conhaques de procedência duvidosa.
Não resolvem, mas aliviam.
O que mais tem preocupado, no entanto, é a perda gradativa da memória.
Nunca sei onde larguei as chaves, esqueço celular e óculos em restaurantes e, não raro, deixo de comparecer a algum compromisso diluído dentro da memória enfraquecida.
As ocorrências se dão principalmente na parte da manhã, período do dia em que eu mais gosto de escrever.
Às vezes, quero construir uma frase, mas algumas palavras somem misteriosamente dentro de uma espécie de buraco negro que se abriu dentro de mim.
Por autocomiseração, achei uma saída poética, mudando o horário das escrevinhações para o meio da tarde.
Desde então eu defendo a tese de que, como acontece com as pessoas, algumas palavras demoram mais tempo que as outras para acordar.
E assim vou levando, um descarrilamento de cada vez.
Monday, April 1, 2019
Fujona
Não tive um único bichinho de estimação na infância. Pedi, mas papai dizia que havia tantos vira latas na nossa rua, que eu não precisaria de um. Com tantos amigos para jogar futebol e nadar no rio, um cãozinho nem fez falta.
Adulto, aqui nos EUA, tive um gato que lutava karatê.
Acho que é isso. Não entendo muito de artes marciais.
Cookie dava uns saltos acrobáticos, inesperados, chutando o ar e caindo de pé, como se nada tivesse acontecido, saindo de cena com um ar arrogante, indiferente aos olhos de quem o visse. O felino tinha parte com Bruce Lee.
Volta e meia, ele perdia-se dentro do sofá-cama da sala.
Como ele ia parar lá é um dos mistérios que não consegui desvendar.
Sem saber sair do labirinto de molas em que havia se metido, miava a noite inteira, atrapalhando a minha frágil capacidade de dormir. Acabei me livrando dele, passando o problema para a frente.
Nunca mais ouvi falar do Cookie.
Quando me casei, concordei que a casa tivesse um mascote. Foi assim que Jade, uma sharpei da cor de chocolate aterrissou.
Jade fez de tudo para me ganhar.
Conseguiu.
Logo eu, que não era e não sou 'cachorreiro'.
Dócil, ela passava a maior parte do tempo aos meus pés.
Lambia minhas mãos, deitava-se com o corpo apoiado às pernas, fazia muita festa quando eu chegava em casa. Escrevi muitos textos com a parceria dela.
Quando morreu, de velhice, ela já tinha a companhia de Nina, outra sharpei.
Nina foi uma menina problemática, como contarei mais para o fim.
Naquela altura do campeonato eu já tinha três filhas e a casa parecia um zoológico:
Coelhos, peixes, calopsitas moraram ou ainda moram lá.
Há cerca de quatro anos ganhei do Peter Pantoliano uma cacatua branca, com um topete como o do Supla, da mesma espécie de Fred, fiel companheiro do ator Robert Blake, protagonista do extinto seriado Baretta.
Cockatoo (cacatua em inglês) não ganhou um nome. É como se fosse um cachorro chamado cachorro. Confesso que eu e ela nunca nos demos bem.
Ela é metódica, acorda invariavelmente às 6:30 da manhã e emite uns insuportáveis grunhidos de pterodáctilo que atormentam principalmente as manhãs de ressaca.
Nos primeiros tempos, Cockatoo fugia constantemente da gaiola e destruía janelas e móveis com o apetite de um exército de cupins.
Jamais descobri como ela conseguia abrir a gaiola.
Quis batiza-la de McGyver, sem sucesso. Tive que providenciar um cadeado.
No ano passado, sua última fuga, destruiu o estofamento de uma cadeira novinha em folha. Fiquei possesso.
Reuní todo mundo e anunciei:
- Deu para mim. É ele, ou eu.
Clarice, a caçula, deu uma risadinha e decretou:
- Pai, não se esqueça de telefonar de vez em quando.
Recolhi-me à minha insignificância.
Não bastasse Cockatoo, Isabella foi visitar um abrigo de cães abandonados pelos donos e se apaixonou por Hazel, uma viralatas com rabo de barbicacho e sobrancelhas de José Saramago, que estava no corredor da morte.
Não aparecesse alguma alma caridosa para adotá-la, receberia uma injeção letal em três dias.
Resisti o quanto pude, mas recebi a promessa de melhores notas na escola, remoção do lixo, ajuda na louça do jantar.
Só a parte da melhora das notas foi cumprida.
A Hazel, que caiu nas graças de todos, parece ter sangue de tatu. Ela transformou o gramado do quintal e a horta que cuido com tanto esmero, numa fotografia da lua.
Não ouso dizer ela ou eu.
Pode ser que Clarice já não faça questão do telefonema.
Voltando a falar da Nina, é o típico caso de cachorro fujão. Minha casa é a única da rua inteira que tem cercas de madeira ao seu redor. Mesmo assim, a danada fugia, aproveitando os descuidos da porta aberta durante a entrada das compras.
O bairro inteiro conheceu a sua reputação e a solidária vizinhança fez muitos mutirões de caça e captura, nem sempre com sucesso.
Numa ocasião, ficou sumida durante dez dias e foi encontrada cheia de carrapatos pela 'carrocinha' da polícia de Livingston na fronteira com Roseland.
Mas Nina envelheceu, aquietou-se.
Há dois anos, teve câncer numa pata traseira e sofreu uma amputação.
Na saída do hospital veterinário, deu-me uma grande lição de humildade e apreço.
Ao contrário de nós, humanos, não demonstrou tristeza pela aparência decrépita; adaptou-se como pode à nova realidade e continuou povoando a nossa vida, sempre deitada à porta do quintal, imponente, guardando-nos com ares de quem contemplasse as tardes.
Na semana passada começou a ter dificuldades respiratórias. O raio X do hospital não detectou nenhuma anomalia, foi medicada, mas ela definhou.
Nessa manhã, voltou ao hospital para exames de ressonância magnética, pois os médicos-veterinários suspeitavam de um tumor que poderia ter causado inchaço no fígado, dificultando o movimento de abrir e fechar dos pulmões.
Cinco minutos após ter sido deixada sob os cuidados da enfermeira, o meu telefone tocou.
Ela não quis morrer diante dos olhos dos donos, o que diminuiu o impacto da dor que ficou.
Hoje, quando eu retornar do trabalho, sei que não serei saudado por seu latido barítono, o rabo incessante, balançando como um leque em dia de calor.
Nina, a cachorra fujona, fugiu pela última vez.
Thursday, March 21, 2019
Pequeno rascunho sobre as lonjuras
Os estrangeiros e a maioria dos brasileiros creem que "saudade" seja um termo exclusivo da língua portuguesa. Eu não concebo que um finlandês não sinta saudade. Que um indiano não sofra dessas lonjuras.
Talvez seja apenas uma questão semântica, mas não consigo olhar para uma pessoa, independentemente do seu lugar de origem, sem imaginar que dentro dela more uma saudade.
Saudade de pessoas e lugares.
De um tempo bom em suas vidas.
De um dia especial ou de um marco pessoal nas suas respectivas histórias.
O norte-americano fala apenas que 'sente falta', mas não seria essa falta, essa bolha de afeto dentro da carcaça peitoral, a saudade da qual nós, lusófonos, tanto sentimos e falamos?
Esse profundo estado de melancolia que às vezes nos acomete é parte do DNA humano, embora não haja nenhum estudo científico que comprove isso.
Sentimos saudade até de nós próprios, ou não sentiríamos um aperto quando recordamos dos idos em que tudo podíamos e nada nos parecia impossível.
Há quem sinta saudade da vida de solteiro.
Da infância e adolescência, sem as preocupações que afligem os adultos.
Saudade de visitar um amigo, de um almoço em família ou de passar férias num determinado lugar.
Confesso que sinto saudade.
Saudade de muitas coisas e de algumas pessoas.
Saudade, principalmente, do que ainda não vivi.
Saudade de Casablanca e Havana, lugares a que não fui.
Saudade de caminhar de mãos dadas pelas ruas de Praga e de Granada, terra de García Lorca.
Saudade de tomar um café numa esplanada de Roma ou de colher um girassol na beira de uma estrada da Toscana, como me prometeu o destino.
Eu não consigo - nem quero - esconder que ando sentido uma vertiginosa saudade do futuro.
Talvez seja apenas uma questão semântica, mas não consigo olhar para uma pessoa, independentemente do seu lugar de origem, sem imaginar que dentro dela more uma saudade.
Saudade de pessoas e lugares.
De um tempo bom em suas vidas.
De um dia especial ou de um marco pessoal nas suas respectivas histórias.
O norte-americano fala apenas que 'sente falta', mas não seria essa falta, essa bolha de afeto dentro da carcaça peitoral, a saudade da qual nós, lusófonos, tanto sentimos e falamos?
Esse profundo estado de melancolia que às vezes nos acomete é parte do DNA humano, embora não haja nenhum estudo científico que comprove isso.
Sentimos saudade até de nós próprios, ou não sentiríamos um aperto quando recordamos dos idos em que tudo podíamos e nada nos parecia impossível.
Há quem sinta saudade da vida de solteiro.
Da infância e adolescência, sem as preocupações que afligem os adultos.
Saudade de visitar um amigo, de um almoço em família ou de passar férias num determinado lugar.
Confesso que sinto saudade.
Saudade de muitas coisas e de algumas pessoas.
Saudade, principalmente, do que ainda não vivi.
Saudade de Casablanca e Havana, lugares a que não fui.
Saudade de caminhar de mãos dadas pelas ruas de Praga e de Granada, terra de García Lorca.
Saudade de tomar um café numa esplanada de Roma ou de colher um girassol na beira de uma estrada da Toscana, como me prometeu o destino.
Eu não consigo - nem quero - esconder que ando sentido uma vertiginosa saudade do futuro.
Subscribe to:
Posts (Atom)






