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Wednesday, January 8, 2014

O dia em que Nelson Ned me salvou




Quando comecei a luta no jornal Brazilian Voice não tínhamos uma equipe de trabalho e houve um período em que eu fazia tudo sozinho.
Era, literalmente, jornalista e jornaleiro. E era outras coisas mais.
Aprendi alguma coisa de informática - no susto! - e maximizava isto com voluntarismo e vontade de vencer.
Fazia os textos, diagramava, criava eventuais anúncios e mesmo com minhas mais gritantes limitações, conseguia fechar em tempo as edições.

Quando a gráfica entregava o jornal, eu dava uma folheada rápida e saía com o furgão cheio, aquele cheiro de tinta fresca entrando pelos poros.
Distribuía inicialmente em New Jersey.

Atravessava o Rio Hudson e fazia Nova York, começando pela ilha de Manhattan e depois o bairro do Queens, onde ficava concentrada a comunidade brasileira.
E seguia dali para o norte, com paradas em cidades de Connecticut e Massachusetts.
Só voltava para casa dois dias depois, exausto, mas pronto para a próxima edição.

De vez em quando, aparecia alguém disposto a entregar o jornal comigo. Íamos rindo, relembrando família e Brasil. E o tempo passava mais rápido.
Samuel Cervidanes, um amigo ipatinguense, ofereceu-se para me acompanhar numa destas viagens.
Cumprimos a primeira etapa do trajeto e, quando saíamos de Queens para pegar a ponte em direção à rota que nos levaria a Connecticut, envolvi-me em um acidente.

Um táxi atravessou o sinal vermelho e mesmo eu me esforçando para não colidir, acabei acertando-o de lado, em um ângulo esquisito.
Ele nem parou.
Devia estar com alguma irregularidade na documentação. Fugiu. E ainda levou meu para-choque dianteiro enganchado à sua lateral.
No nosso carro ninguém se machucou, mas o capô começou a fumegar. Decidimos seguir adiante, até encontrar o primeiro posto de gasolina, onde tentaríamos solucionar o problema.

Quando entramos no Bronx - na época um dos lugares mais perigosos do país, com altíssima taxa de criminalidade -, o carro tossia, ameaçando parar a qualquer momento. Populado pelos  deserdados deste país, o bairro era um gueto em que as gangues de negros e hispânicos travavam uma luta furiosa por território. Intimidava, claro. Samuel e eu não éramos, necessariamente, dois 'tough guys'.

- "Demos sorte", disse Samuel apontando para a placa da Shell.

Parei o carro. Reconheci imediatamente que eram hispânicos. Provavelmente porto-riquenhos.
Desci, tentei puxar conversa, mas as pessoas passavam por mim como se eu fosse um poste.
À porta fechada da oficina mecânica havia um banquinho onde um homem alto e forte estava sentado com um rádio entre as pernas.
E ele escutava, impassível, o locutor anunciar músicas românticas como se nada mais existisse neste mundo.
Pedi para utilizar o banheiro e ele não respondeu.
Espichei o portunhol um pouquinho mais e expliquei meu infortúnio, mas ele sequer olhou para mim.
Absorto, olhava fixamente para algum ponto nas imediações como se vigiasse o lugar.
E eu ali, ao seu lado, tenso, pois começava a escurecer e correríamos risco de morte, caso inventássemos de passar a noite dentro do carro.
Naquele tempo não existia telefone celular e não havia um único orelhão nas imediações, como já verificara Samuel.
Foi aí que saiu uma voz familiar de dentro do radio do homem.
Era Roberto Carlos, cantando em espanhol.
Sorri e tentei puxar assunto, outra vez:
- Este é o Rei, falei com forçado orgulho.
O homem sacudiu a cabeça e respondeu em espanhol:
- Nem príncipe. O grande rei da canção se chama Nelson Ned.

Senti ali uma abertura e comecei a entoar, desajeitadamente:
   "O que é que você vai fazer domingo à tarde
    Pois eu quero convidar você pra sair comigo,
    Passear por aí numa rua qualquer da cidade,
    Vou dizer pra você tanta coisa que a ninguém eu digo”

O homem sorriu, provavelmente encantado por uma canção que conhecia, escutada pela primeira vez num idioma que não era o seu, pois Nelson Ned era um grande sucesso cantando em espanhol para toda a América Latina.

Era a senha para quebrar o gelo.
Expliquei que o "pequeno gigante” era meu conterrâneo e o homem se iluminou por inteiro, mostrando pela primeira vez os dentes amarelados.

 - Conterrâneo, eu disse. "De Ubá, Minas Gerais".

Ele deve ter entendido que o cantor era meu amigo ou parente, pois abriu imediatamente a porta da oficina, indicando outra porta, onde ficava o banheiro.
Mal entrei, tomei um susto.
O local não era mais uma oficina mecânica, apesar de muitas ferramentas em escaninhos bem organizados, um elevador hidráulico e um cheiro de combustível misturado com maconha.
Tratava-se de um casino clandestino, com máquinas de caça-níquel, mesas de carteado e homens mal encarados bebendo cerveja e fumando cannabis.
Quando saí do banheiro, o novo 'amigo' me apresentou a uma outra pessoa, que intuí ser o chefe daquela operação.
Perguntaram quanto eu tinha no bolso.

   - "Pouco mais de 50 dólares", respondi.

O homem sorriu e disse que eu não iria precisar do dinheiro.
Na sequência, remendou o radiador com solda e disse:
   
- Chegando a Nova Jersey, mande trocar a peça por uma nova. Vai aguentar até você chegar lá.
Quando entregou a chave, sorriu novamente, negando-se a receber aquela ninharia que eu insistia em lhe entregar:

    - Esta é por Nelson Ned.

Retomamos a estrada e fui pensando, entre aliviado e emocionado, nas ironias desta vida.
Um homem, que no Brasil era tratado como anão de circo, fora dele, era reverenciado como um rei.
Um rei amado e generoso, capaz de salvar um conterrâneo do perigo e reconduzi-lo com segurança ao caminho de casa.
Tornei-me um súdito, desde então.
E o meu rei é imenso.