(Para o Pitico)
Quando cheguei aos Estados Unidos, em 1984, fui dividir um porão com um conterrâneo meu, o Pitico.
Ambos vínhamos de Governador Valadares, mas só ficaríamos amigos por aqui. Fomos amparo um para o outro, tomamos porres homéricos chorando a saudade de casa e transbordamos incertezas que não couberam nos nossos copos. Juntos, enfrentamos o banzo dos primeiros anos, a dificuldade da língua e a brutalidade da vida de imigrante. Tivemos um ao outro. Parecíamos irmãos.
Um dia Pitico apareceu em casa com um par de brincos, algo que começava a virar moda entre os jovens daqueles dias. Relutei, mas aceitei perfurar a orelha esquerda e colocar ali uma argola de ouro.
Relutei, porque sabia que aquele brinco não seria bem recebido em minha casa, lá no Brasil, já antevendo a reação contrária de meu pai. Mas aquele gesto dele selava uma espécie de fraternidade entre nós dois, algo que nos irmanaria para o resto da vida, como realmente aconteceu.
O relacionamento com meu pai sempre foi permeado por amor e rigor. Se não faltava carinho, abundava também a incompreensão, fruto do conflito de gerações e da formação dele.
Ele era militar.
Eu era militante.
Filho do seu Antônio não andava cabeludo, não frequentava mesa de carteado e evitava más companhias.
Ele queria o meu cabelo curto, como o dele. E eu queria mudar o mundo fazendo parte de uma revolução.
Ele queria que eu entrasse para a caserna, como ele, mas eu já havia sido mordido pelo marimbondo das palavras.
Arriscar a vida em um país estrangeiro foi uma porta de saída para aquela incômoda situação. Tanto que, em 1984, eu me mudei de mala e cuia para Nova York.
Em 1988 tive que ir ao Brasil para uma entrevista de legalização no Consulado norte-americano, no Rio de janeiro. Seria a primeira vez retornando à terra natal, após um período de quatro anos de espera e toda espécie de provações.
Fui ao Rio, resolvi minha situação, mas antes, fui a Governador Valadares abraçar meu pai e rever os amigos que ficaram por lá.
O ônibus da Viação Gontijo chegou à rodoviária por volta de duas da manhã. Pude vê-lo ao lado de Bispo Filho, aguardando-me, com seus pescoços espichados, tentando me reconhecer detrás do escuro do vidro do lotação.
Desci as escadas e pude notar o sorriso de meu velho se desfazendo gradativamente. Aquele moço cabeludo que desembarcara não era o filho que partira daquele mesmo lugar alguns anos antes.
Quando nos abraçamos, logo após o pedido de bênção, ele sussurrou ao meu ouvido:
O relacionamento com meu pai sempre foi permeado por amor e rigor. Se não faltava carinho, abundava também a incompreensão, fruto do conflito de gerações e da formação dele.
Ele era militar.
Eu era militante.
Filho do seu Antônio não andava cabeludo, não frequentava mesa de carteado e evitava más companhias.
Ele queria o meu cabelo curto, como o dele. E eu queria mudar o mundo fazendo parte de uma revolução.
Ele queria que eu entrasse para a caserna, como ele, mas eu já havia sido mordido pelo marimbondo das palavras.
Arriscar a vida em um país estrangeiro foi uma porta de saída para aquela incômoda situação. Tanto que, em 1984, eu me mudei de mala e cuia para Nova York.
Em 1988 tive que ir ao Brasil para uma entrevista de legalização no Consulado norte-americano, no Rio de janeiro. Seria a primeira vez retornando à terra natal, após um período de quatro anos de espera e toda espécie de provações.
Fui ao Rio, resolvi minha situação, mas antes, fui a Governador Valadares abraçar meu pai e rever os amigos que ficaram por lá.
O ônibus da Viação Gontijo chegou à rodoviária por volta de duas da manhã. Pude vê-lo ao lado de Bispo Filho, aguardando-me, com seus pescoços espichados, tentando me reconhecer detrás do escuro do vidro do lotação.
Desci as escadas e pude notar o sorriso de meu velho se desfazendo gradativamente. Aquele moço cabeludo que desembarcara não era o filho que partira daquele mesmo lugar alguns anos antes.
Quando nos abraçamos, logo após o pedido de bênção, ele sussurrou ao meu ouvido:
- Tira!
- Tirar o que, meu pai?
- Esta aberração enfiada na sua orelha.
Levei na brincadeira, prometendo que falaríamos sobre o assunto na manhã seguinte, o que aconteceu logo na mesa de café.
- Filho meu não usa brinco, disse antes mesmo de desejar bom dia.
- Tirar o que, meu pai?
- Esta aberração enfiada na sua orelha.
Levei na brincadeira, prometendo que falaríamos sobre o assunto na manhã seguinte, o que aconteceu logo na mesa de café.
- Filho meu não usa brinco, disse antes mesmo de desejar bom dia.
Meu velho deixou claro que "homem de verdade" não usa brinco, reflexo de sua formação antiquada e da homofobia aprendida no quartel da polícia militar.
Levei na esportiva e argumentei que índio usa brinco e ninguém duvidava de sua masculinidade.
Ele não se comoveu.
Apelei para os temíveis piratas, sanguinários, couraçados, invasores, 'machos pra caramba', mas ele nem se coçou.
Não teve jeito. Tirei o adereço da orelha e o coloquei no bolso. Estava encerrada a sessão de tortura, o que acalmou os dois durante os quinze dias que fiquei em sua casa. Tentei usar o brinco na volta aos Estados Unidos, mas sempre me lembrava das palavras dele, até que decidi-aposentá-lo definitivamente.
Quase três décadas depois, retorno ao Brasil para visitar meus pais. Estava sentado na varanda da casa bebendo uma cerveja, quando ele se aproximou. Sentou-se ao meu lado, com ar solene, e puxou uma conversa.
- Filho, eu estive pensando.
- Sobre o que, meu pai?
- Sobre aquela conversa do brinco que tivemos há muitos anos.
Levei na esportiva e argumentei que índio usa brinco e ninguém duvidava de sua masculinidade.
Ele não se comoveu.
Apelei para os temíveis piratas, sanguinários, couraçados, invasores, 'machos pra caramba', mas ele nem se coçou.
Não teve jeito. Tirei o adereço da orelha e o coloquei no bolso. Estava encerrada a sessão de tortura, o que acalmou os dois durante os quinze dias que fiquei em sua casa. Tentei usar o brinco na volta aos Estados Unidos, mas sempre me lembrava das palavras dele, até que decidi-aposentá-lo definitivamente.
Quase três décadas depois, retorno ao Brasil para visitar meus pais. Estava sentado na varanda da casa bebendo uma cerveja, quando ele se aproximou. Sentou-se ao meu lado, com ar solene, e puxou uma conversa.
- Filho, eu estive pensando.
- Sobre o que, meu pai?
- Sobre aquela conversa do brinco que tivemos há muitos anos.
Fiz cara de paisagem. Não atendi aquela abordagem. Ao que ele sorriu, timidamente, antes de dizer.
- Acho que você já pode usar brinco. Todos os artistas usam. Os jogadores de futebol também. E praticamente todos os rapazes daqui da rua usam.
Achei bonito o seu gesto, mas, trinta anos depois, não fazia mais sentido.
- Obrigado, pai, mas eu não sou mais um rapaz. Eu fiquei velho demais para usar brinco.
Achei bonito o seu gesto, mas, trinta anos depois, não fazia mais sentido.
- Obrigado, pai, mas eu não sou mais um rapaz. Eu fiquei velho demais para usar brinco.
Retornei aos Estados Unidos e, alguns dias depois, recebi a visita de Pitico, que não via desde o ano passado.
Saímos para tomar um café e colocar a prosa em dia, pois ele está enfrentando bravamente um câncer no estômago. Alegro-me: ele está vencendo a a batalha. Está confiante.
Olho para a sua orelha e o brinco colocado três décadas atrás ainda está lá.
- Você continua usando o brinco, observei.
Ele respirou fundo e devolveu com um olhar de decepção.
- Estou. Mas você tirou o seu.
Nos despedimos, ele entrou no carro e se foi. Fiquei com aquilo na cabeça.
Naquela mesma noite, chegando em casa, pedi um brinco emprestado à minha e filha e reabri, na hora, o buraco que o tempo se encarregou de fechar. E em solidariedade ao Pitico, enquanto ele estiver em sua batalha contra a doença, eu o usarei. E talvez não o retire nunca mais.
Em solidariedade, é verdade, mas principalmente porque um pacto de irmandade para o resto da vida não deve ser quebrado. Ainda mais com a bênção de meu pai.
Ele respirou fundo e devolveu com um olhar de decepção.
- Estou. Mas você tirou o seu.
Nos despedimos, ele entrou no carro e se foi. Fiquei com aquilo na cabeça.
Naquela mesma noite, chegando em casa, pedi um brinco emprestado à minha e filha e reabri, na hora, o buraco que o tempo se encarregou de fechar. E em solidariedade ao Pitico, enquanto ele estiver em sua batalha contra a doença, eu o usarei. E talvez não o retire nunca mais.
Em solidariedade, é verdade, mas principalmente porque um pacto de irmandade para o resto da vida não deve ser quebrado. Ainda mais com a bênção de meu pai.
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