Wednesday, March 13, 2013

Um grande poema de Daniel Faria



Quero a Fome de Calar-me


Quero a fome de calar-me. O silêncio. Único
Recado que repito para que me não esqueça. Pedra
Que trago para sentar-me no banquete

A única glória no mundo — ouvir-te. Ver
Quando plantas a vinha, como abres
A fonte, o curso caudaloso
Da vergôntea — a sombra com que jorras do rochedo

Quero o jorro da escrita verdadeira, a dolorosa
Chaga do pastor
Que abriu o redil no próprio corpo e sai
Ao encontro da ovelha separada. Cerco

Os sentidos que dispersam o rebanho. Estendo as direcções, estudo-lhes
A flor — várias árvores cortadas
Continuam a altear os pássaros. Os caminhos
Seguem a linha do canivete nos troncos

As mãos acima da cabeça adornam
As águas nocturnas — pequenos
Nenúfares celestes. As estrelas como as pinhas fechadas

Caem — quero fechar-me e cair. O silêncio
Alveolar expira — e eu
Estendo-as sobre a mesa da aliança



Daniel Faria, in "Dos Líquidos"

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Monday, March 4, 2013

Um pombo sem asas


No que pensa o goleiro Bruno, neste momento em que ele está sentado na cadeira do fórum de Contagem-MG?
Vejo-o daqui, enfiado em seu uniforme penitenciário vermelho-sangue, e ele se lembra de que também são encarnadas as listras horizontais da camisa do Flamengo,
seu último clube.
Bruno olha para os olhos da juíza e repara na túnica preta do promotor que o acusa.
- Onde está Elisa? - pergunta o magistrado.
Bruno maneia a cabeça, olha para a janela da rua e vê - no canto mais alto - uma nuvem ligeira e livre, que se desloca para outra direção.
Os olhos de Bruno já não estão ali, e ele pensa nas ruas de casebres tristes de Ribeirão das Neves, cidade em que sua infância se arrastou em casa de parentes.
Pensa na filha que teve com a esposa Dayanne.
E no filho que teve Elisa Samúdio, esta que lhe acusam de ter assassinado e servido como almoço a cães.
Nos olhos de Bruno, menino e menina brincam num canto imaculado e puro de sua memória.
E Bruno pensa numa bola de meia.
Numa bola de plástico.
Pensa nos campinhos de terra batida de Ribeirão das Neves, única rota de libertação possível entre a miséria e a glória.
Bruno pensa no pai que não conheceu.
Pensa na mãe biológica, esta que veria pela primeira vez - já adulto e famoso - num programa de tv, num daqueles quadros do tipo “Arquivo Confidencial”, de Fausto Silva.
O promotor repete a pergunta, mas Bruno parece escutar outra coisa.
Ele escuta o seu nome gritado pela torcida do Atlético, clube que o revelou.
- Brunoooooooooooo!
- Brunoooooooooooo!
- Brunoooooooooooo!
Mil milhão de vezes, Brunoooooooooooo!
Grito que vai ficando cada vez mais alto dentro de sua cabeça e que agora sai da boca do bando de loucos corintianos, por quem também jogou.
Mas é na voz dos flamenguistas - onde conheceria céu e inferno - que este seu nome gritado se torna ensurdecedor:
- Ô-ô-ô, Bruno, seleção!
- Ô-ô-ô, Bruno, seleção!
O advogado de acusação desloca-se na frente de Bruno, mas este já não o vê.
Diante dos olhos de Bruno chovem os confetes e serpentinas dos estádios, espoucam flashs dos fotógrafos dos
jornais e ele quase sorri para as câmaras de televisão.
Bruno sente a falsidade dos tapinhas nas costas e se recorda de todos os autógrafos que deu na vida.
Lembra-se das fotos que tirou com os fãs e da frieza dos microfones dos repórteres de rádio e tv.
Lembra do carrão novo.
E do novo carrão novo.
Pensa nos jantares que não pagou nos restaurantes - por ser uma estrela da bola - e no sorriso fácil das moças.
Pensa nas moças.
Nas coxas das moças.
Nas festas com as moças.
E Bruno pensa na urgência da vida, que a sirene da ambulância que passa na rua anuncia.
E ele consegue escutá-la de dentro do fórum de Contagem, onde é é julgado por um crime que jura que não cometeu.
No que pensa Bruno, agora?
Será que ele pensa no pênalti mal apitado, no centroavante em impedimento e no placar adverso registrado no letreiro luminoso do Maracanã?
Ou será que pensa na dureza do hoje, este chute cara-à-cara, à queima-roupa, em pleno Fla-Flu da vida?
A perda da liberdade é uma bola indefensável, chutada com violência, bem “na gaveta”, raciocina ele.
E Bruno se espicha todo, mentalmente, tentando interceptá-la.
Ele salta, corpo arqueado, os olhos postos na bola que vai em direção à forquilha, lugar onde dorme a coruja dos locutores esportivos.
A liberdade é um pássaro sem asas - pensa Bruno pela última vez -, no que se estica tentando alcançá-la.
Ela é esta bola que está indo, cruel e indefensável, contra o seu gol.
Ela é esta que vai morrendo agora - mansa e pela última vez - no fundo das redes do cidadão Bruno Fernandes, já não mais um goleiro de futebol.

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Friday, March 1, 2013

Grandes Parcerias (V)... A Improvável

 
De todas as parcerias, eu citaria duas que considero improváveis,
mas que se provaram eficazes, funcionando muitíssimo bem.
Uma delas (a outra mostrarei no próximo post) é esta aqui, trazendo um poema da fase inglesa de Fernando Pessoa e que fez parte do álbum em comemoração aos 50 anos da morte do poeta português. O parceiro e intérprete é ninguém menos que Ritchie, o mais carioca de todos os ingleses e autor de "amores de verão" como Menina Veneno e "Pelo Interfone".
Só escutando para "ver".
 
 
Meantime
(Fernando Pessoa e Ritchie)

Far away, far away,
Far away from here
There is no sorrow after joy
Nor away from fear
Far away from here...

Her lips were not very red
Nor her hair quite gold
Her hands played with rings
She did not let me hold
Her hands...playing with gold

She is somewhere past
Far away from pain
Joy can touch her not
Nor hope enter her domain
Neither love in vain

Perhaps at some day beyond
Shadows and light
She will think of me
And make for me a delight
Far away from sight...
 
 
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Thursday, February 28, 2013

Grandes Parcerias (IV)


Caetano Veloso e Ney Costa Santos traduziram e adaptaram este poema magistral de Mayakovsky para a MPB.
Eu era molecote, e não sabia quem era Mayakovsky. Aliás, mal sabia quem era Caetano.
Mas esta canção - que tocava no rádio... e, naqueles idos, o rádio tocava música boa - me comovia de tal maneira, que sempre que eu a ouvia, discordava do tamanho da "mãe" que o poema sugeria.
"Se o pai é apenas o universo, é muito provável que a mãe seja Deus", raciocinava.
Pensei em postar a versão gravada de Renato Braz, que adoro.
Só que a versão original falou mais alto.
Gritou.


O Amor
(Caetano Veloso e Ney Costa Santos, adaptado do poema de Vladimir Mayakovsky)


Talvez
Quem sabe
Um dia
Por uma alameda
Do zoológico
Ela também chegará

Ela que também
Amava os animais
Entrará sorridente
Assim como está
Na foto sobre a mesa
Ela é tão bonita
Que na certa
Eles a ressuscitarão

O século trinta vencerá
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias
Agora vamos alcançar
Tudo o que não
Podemos amar na vida
Com o estrelar
Das noites inumeráveis

Ressuscita-me
Ainda
Que mais não seja
Porque sou poeta
E ansiava o futuro

Ressuscita-me
Lutando
Contra as misérias
Do cotidiano

Ressuscita-me por isso
Ressuscita-me
Quero acabar de viver
O que me cabe
Minha vida
Para que não mais
Existam amores servis

Ressuscita-me
Para que ninguém mais
Tenha de sacrificar-se
Por uma casa
Um buraco

Ressuscita-me
Para que a partir de hoje
A partir de hoje
A família se transforme
E o pai
Seja pelo menos
O Universo
E a mãe
Seja no mínimo
A Terra
A Terra
A Terra


Wednesday, February 27, 2013

Grandes Parcerias (III)

 
 
Um dos discos que mais me marcaram em toda a vida foi A Música em Pessoa.
Álbum lançado originalmente em 1985, quando a morte de Fernando Pessoa completava 50 anos.
"A Música em Pessoa" traz alguns de seus mais belos poemas, musicados com belos arranjos que engrandecem as composições, com interpretações de Tom Jobim, Jô Soares, Dori Caymmi,
Marco Nanini, entre outros. Uma obra clássica.
Esta regravação de Renato Braz é tão linda quanto a orginal, que teve a na beleza da voz de Nana Caymmi, a tela perfeita para os versos de Ricardo Reis, um dos heteronômios de Pessoa.

 
 


Segue o teu destino
(Poema de Ricardo Reis - Melodia de Sueli Costa)

Segue o teu destino
Rega as tuas plantas
Ama as tuas rosas
O resto é a sombra
De árvores alheias

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos
Só nós somos sempre
Iguais a nós próprios.

Suave é viver só
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses

Vê de longe a vida
Nunca a interrogues
A resposta está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração
Os deuses são deuses
Porque não se pensam


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Monday, February 25, 2013

Grandes Parcerias (II)


No post anterior, o poeta Assis Freitas comentou a parceria Raimundo Fagner/ Patativa do Assaré mas, ambos esquecemos da maior parceira (?) de Fagner, Cecília Meirelles.
Fagner musicou canteiros e Motivo, ambos lindíssimos e é bem provavel que nosso inconsciente nos tenha negado a lembrança devido ao imbroglio judicial envolvendo o espólio da poeta e o compositor.
Dando continuidade à série, resgato outro poema que ficou lindo demais, vestido de música.
Este aqui, de Drummond:


Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não se vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem anda ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.
 
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Sunday, February 24, 2013

Grandes parcerias

 
Quase sempre, um grande poema não dá uma grande canção.
No Brasil, Raimundo Fagner foi um dos artistas mais bem sucedidos nesta empreitada.
Fez coisas lindíssimas com Florbela Espanca (Fanatismo, Perdidamente e Impossível), Fernando Pessoa (Qualquer Música) Nélida Piñon (A Doce Canção de Caetana), Affonso Romano de Sant'Anna (Os amantes) e outros autores, como os espanhóis Antonio Machado e Rafael Alberti.
Com o maranhense Ferreira Gullar ele fez a maravilhosa Traduzir-se  e esta aqui, Cantiga Para Não Morrer, primorosíssima:
 
 


Me Leve
(Cantiga Para Não Morrer)


Quando Você for-se embora
Moça branca como a neve
Me leve, me leve

Se acaso você não possa
Me carregar pela mão
Menina branca de neve
Me leve no coração

Se no coração não possa
por acaso me levar
Moça de sonho e de neve
Me leve no seu lembrar

E se aí também não possa
Por tanta coisa que leve
Já viva em seu pensamento
Moça branca como a neve
Me leve no esquecimento


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