Tuesday, March 4, 2014

Carnaval, o túmulo do samba



A letra da antiga cantiga diz que quem não gosta de samba não é bom sujeito.

E que é ruim da cabeça ou doente do pé.

Eu gosto de samba, mas não sei sambar.

Sim, tenho um pé bichado, herança dos tempos em que achava que sabia jogar futebol, mas não sambo porque não sambo.

E isto não deveria fazer de mim um mau sujeito.

Gosto de samba de roda, canção e de breque.

Gosto de samba com cheiro e sabor de samba.

E me dá coceira o pagode industrial que tentaram empurrar goela baixo. Na minha modesta opinião, ele é uma degeneração.

Constato que samba e carnaval se deformaram com o passar dos tempos.

Onde foi parar o Rei Momo? O que foi feito das colombinas e dos pierrôs apaixonados?

E os bailes de salão, movidos a marchinhas, serpentinas e confetes?

Esse atrofiamento do carnaval de agora me deixa sem graça.

E o bom e velho samba foi banalizado e já não passa de um pretexto - e não de uma razão - para a maior celebração nacional .

O samba já não veste fantasia. Ele usa um disfarce.

Chamem-me de purista, de antiquado ou do que quiserem.

Rotulem-me como saudosista. Mandem-me para um museu.

Coloquem-me numa camisa de força.

Despachem-me para Guantanamo Bay ou exilem-me em Cabul.

Mas não me calarei.

Teimo em associar samba e carnaval, embora tenha cada vez mais a certeza de que hoje são coisas bastante distintas, e que já não caminham de mãos dadas.

São como aquele casal que continua vivendo debaixo do mesmo teto, ainda casado, mas que não se ama mais.

Uma vez por ano, carnaval e samba saem juntos à rua, cordiais, mas sem afeto.

Um casamento de aparências e de aparências somente.

Com o passar dos tempos, empresários espertos transformaram o carnaval num grande negócio e não existiria nada de errado nisto, se o conceito original não tivesse sido distorcido, adulterado, em detrimento do lucro.

Seria justo que aqueles que fazem a festa – o povo - recebessem um pedaço do bolo. Mas isto não acontece.

Os camarotes patrocinados por grande empresas são uma espécie de vitrine da vaidade por onde circulam apenas os bem nascidos, os bonitos, os famosos, os vips.

É para sair bem na tv. E rende um dinheirão.

Uma vez por ano o morro desce à avenida, mas cada pessoa ali é usada como figurante de uma superprodução nos moldes de Hollywood.

Uma produção que travestiu o que deveria ser uma celebração de nossa cultura de raiz.

Tomem o carnaval baiano, por exemplo.

A Bahia possui um dos sambas mais interessantes do Brasil.

O samba de roda baiano tem uma característica própria e é completamente diferente do samba do resto do país.

Mas ele, o samba de roda, não é convidado para o carnaval baiano.

Ali, predomina o axé, um dos piores tipos de poluição sonora já inventado pelo homem.

Ala das baianas, em Salvador, é aquele lugar em que as vendedoras de acarajé se perfilam na margem das ruas para vender quitutes aos turistas.

Carnaval baiano virou sinônimo de axé, abadá e dancinhas sexistas que já estarão esquecidas e substituídas por outras igualmente descartáveis no ano que vem.

A meu ver, o carnaval da Bahia “oficial” deveria ter outro nome e ser apenas mais um axé-folia, como tantos outros  que acontecem fora do estado nas micaretas que se reproduziram feito praga ao longo dos anos.

Melhor seria se mudasse tudo isto de nome e legitimassem a farsa.

Pode ser que, assim, Noel, Dorival, Cartola, Lamartine e seus iguais, descansassem, finalmente, em paz.

Saturday, January 25, 2014

Super-Homem


O filósofo alemão Friedrich Nietzsche explica os passos através dos quais o Homem pode tornar um 'Super-Homem' em Assim Falou Zaratustra.
Mais adiante na história os estudantes norte-americanos Jerry Siegel e Joe Shuster criaram o Superman, personagem das revistas de quadrinhos, que posteriormente ganharia as telas na pele de Christopher Reeve.
Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, eu sei.
O Superman de Christopher Reeve acabou se tornando um dos maiores fenômenos do cinema em todos os tempos.
A suposta origem dos poderes do Superman é o Sol amarelo da Terra.
Em Krypton o astro é vermelho, e essa diferença de freqüência eletromagnética entre ambos os astros faria com que, de alguma forma, as células do corpo de Kal-El fossem "carregadas" como verdadeiras baterias vivas.
Descobri isto na Internet, a mãe de todos os burros.
O homem de aço voava, atravessava estruturas, conseguia evitar o tombamento de um edifício, desentortava uma ponte de ferro, prendia bandidos com bravura e charme.
Seu corpo era impenetrável às balas e à inveja.
Quando não estava salvando a humanidade de inescrupulosos bandidos, era um esforçado repórter do jornal Planeta Diário.
Ironia do destino, o ator que deu a vida ao super-herói no cinema teve um fim trágico.
Amante da equitação, caiu de um cavalo num momento de lazer, ficando paralisado numa cadeira de rodas.
Seus últimos dias foram marcados pelo sofrimento.
Minha idéia de super-homem, no entanto, é diferente.
Em sua certidão de nascimento não consta Krypton, mas Mutum, um vilarejo remoto no Leste de Minas.
Meu super-homem trabalhou na roça até ser grande o suficiente para tentar a sorte na cidade grande.
Não se sentou num banco de escola, porque desde menino, ao invés de um lápis, empunhou uma enxada.
Ele plantou café, feijão, milho, hortaliças, cuidou da criação e amansou cavalos.
Ele, que calçou um par de sapatos pela primeira-vez aos 17 anos.
Ele, que na cidade grande, trabalhou em troca de comida e pelo direito de dormir num cubículo no fundo de um quintal.
Sua gratidão pela acolhida foi tamanha, que todos os seus filhos tiveram o nome do homem que o abrigou em sua chegada à civilização.
Conseguiu se alistar na polícia militar de Minas Gerais enxergando ali uma possibilidade única de sobrevir e criar a família.
Seu uniforme, de cor cáqui e sem nenhuma divisa nos braços, em nada se assemelhou à malha azul e vermelha dos grande herói dos quadrinhos e das telas.
Ele, que não possuía capa que lhe permitisse vôos mais altos e tinha passos miúdos, mas firmes.
Caminhou miúdo, chegou longe.
Ele, que casou e teve filhos, todos eles Carlos.
Ele, o meu pai.
A sua figura indestrutível tem sido pra mim, desde a mais tenra infância, um referencial e uma fortaleza.
Graças a ele, andei e ando de cabeça levantada pelas ruas de onde quer que meus pés pisem.
Sua honestidade era (e é!) um dos super-poderes.
A firmeza, a lealdade e a persistência eram (e são!) outros.
Hoje, meu super-homem vive momentos difíceis.
Aos 74 anos, ele trava agora uma das mais difíceis batalhas de sua vida.
Nenhum deles se chama Lex Luthor, Bizarro, Mongul, Metallo, Darkseid, Brainiac ou o Ultra-Humonóide, que foi o primeiro adversário do herói dos quadrinhos e das telas.
Seo Antônio, ou melhor, Seo Totoca, tem diante de si o desafio de nocautear um derrame cerebral que tem lhe deixado impossibilitado de caminhar e duplicou-lhe a visão.
E eu, como no tempo em que devorava com voracidade as aventuras de meu herói das revistas em quadrinhos, quero chegar ao final desta história com a sensação de que meu mito maior venceu seu inimigo.
Meu super-herói, meu superpai, tem em mim muito mais que um admirador, ele tem em mim um crente.
Meu coração e minhas preces estão com ele lá no Brasil, aqui, e em todo o lugar.
O bem vencerá.
Tenho fé.


* Crônica escrita em 2004. Superman venceu mais uma vez.

Wednesday, January 8, 2014

O dia em que Nelson Ned me salvou




Quando comecei a luta no jornal Brazilian Voice não tínhamos uma equipe de trabalho e houve um período em que eu fazia tudo sozinho.
Era, literalmente, jornalista e jornaleiro. E era outras coisas mais.
Aprendi alguma coisa de informática - no susto! - e maximizava isto com voluntarismo e vontade de vencer.
Fazia os textos, diagramava, criava eventuais anúncios e mesmo com minhas mais gritantes limitações, conseguia fechar em tempo as edições.

Quando a gráfica entregava o jornal, eu dava uma folheada rápida e saía com o furgão cheio, aquele cheiro de tinta fresca entrando pelos poros.
Distribuía inicialmente em New Jersey.

Atravessava o Rio Hudson e fazia Nova York, começando pela ilha de Manhattan e depois o bairro do Queens, onde ficava concentrada a comunidade brasileira.
E seguia dali para o norte, com paradas em cidades de Connecticut e Massachusetts.
Só voltava para casa dois dias depois, exausto, mas pronto para a próxima edição.

De vez em quando, aparecia alguém disposto a entregar o jornal comigo. Íamos rindo, relembrando família e Brasil. E o tempo passava mais rápido.
Samuel Cervidanes, um amigo ipatinguense, ofereceu-se para me acompanhar numa destas viagens.
Cumprimos a primeira etapa do trajeto e, quando saíamos de Queens para pegar a ponte em direção à rota que nos levaria a Connecticut, envolvi-me em um acidente.

Um táxi atravessou o sinal vermelho e mesmo eu me esforçando para não colidir, acabei acertando-o de lado, em um ângulo esquisito.
Ele nem parou.
Devia estar com alguma irregularidade na documentação. Fugiu. E ainda levou meu para-choque dianteiro enganchado à sua lateral.
No nosso carro ninguém se machucou, mas o capô começou a fumegar. Decidimos seguir adiante, até encontrar o primeiro posto de gasolina, onde tentaríamos solucionar o problema.

Quando entramos no Bronx - na época um dos lugares mais perigosos do país, com altíssima taxa de criminalidade -, o carro tossia, ameaçando parar a qualquer momento. Populado pelos  deserdados deste país, o bairro era um gueto em que as gangues de negros e hispânicos travavam uma luta furiosa por território. Intimidava, claro. Samuel e eu não éramos, necessariamente, dois 'tough guys'.

- "Demos sorte", disse Samuel apontando para a placa da Shell.

Parei o carro. Reconheci imediatamente que eram hispânicos. Provavelmente porto-riquenhos.
Desci, tentei puxar conversa, mas as pessoas passavam por mim como se eu fosse um poste.
À porta fechada da oficina mecânica havia um banquinho onde um homem alto e forte estava sentado com um rádio entre as pernas.
E ele escutava, impassível, o locutor anunciar músicas românticas como se nada mais existisse neste mundo.
Pedi para utilizar o banheiro e ele não respondeu.
Espichei o portunhol um pouquinho mais e expliquei meu infortúnio, mas ele sequer olhou para mim.
Absorto, olhava fixamente para algum ponto nas imediações como se vigiasse o lugar.
E eu ali, ao seu lado, tenso, pois começava a escurecer e correríamos risco de morte, caso inventássemos de passar a noite dentro do carro.
Naquele tempo não existia telefone celular e não havia um único orelhão nas imediações, como já verificara Samuel.
Foi aí que saiu uma voz familiar de dentro do radio do homem.
Era Roberto Carlos, cantando em espanhol.
Sorri e tentei puxar assunto, outra vez:
- Este é o Rei, falei com forçado orgulho.
O homem sacudiu a cabeça e respondeu em espanhol:
- Nem príncipe. O grande rei da canção se chama Nelson Ned.

Senti ali uma abertura e comecei a entoar, desajeitadamente:
   "O que é que você vai fazer domingo à tarde
    Pois eu quero convidar você pra sair comigo,
    Passear por aí numa rua qualquer da cidade,
    Vou dizer pra você tanta coisa que a ninguém eu digo”

O homem sorriu, provavelmente encantado por uma canção que conhecia, escutada pela primeira vez num idioma que não era o seu, pois Nelson Ned era um grande sucesso cantando em espanhol para toda a América Latina.

Era a senha para quebrar o gelo.
Expliquei que o "pequeno gigante” era meu conterrâneo e o homem se iluminou por inteiro, mostrando pela primeira vez os dentes amarelados.

 - Conterrâneo, eu disse. "De Ubá, Minas Gerais".

Ele deve ter entendido que o cantor era meu amigo ou parente, pois abriu imediatamente a porta da oficina, indicando outra porta, onde ficava o banheiro.
Mal entrei, tomei um susto.
O local não era mais uma oficina mecânica, apesar de muitas ferramentas em escaninhos bem organizados, um elevador hidráulico e um cheiro de combustível misturado com maconha.
Tratava-se de um casino clandestino, com máquinas de caça-níquel, mesas de carteado e homens mal encarados bebendo cerveja e fumando cannabis.
Quando saí do banheiro, o novo 'amigo' me apresentou a uma outra pessoa, que intuí ser o chefe daquela operação.
Perguntaram quanto eu tinha no bolso.

   - "Pouco mais de 50 dólares", respondi.

O homem sorriu e disse que eu não iria precisar do dinheiro.
Na sequência, remendou o radiador com solda e disse:
   
- Chegando a Nova Jersey, mande trocar a peça por uma nova. Vai aguentar até você chegar lá.
Quando entregou a chave, sorriu novamente, negando-se a receber aquela ninharia que eu insistia em lhe entregar:

    - Esta é por Nelson Ned.

Retomamos a estrada e fui pensando, entre aliviado e emocionado, nas ironias desta vida.
Um homem, que no Brasil era tratado como anão de circo, fora dele, era reverenciado como um rei.
Um rei amado e generoso, capaz de salvar um conterrâneo do perigo e reconduzi-lo com segurança ao caminho de casa.
Tornei-me um súdito, desde então.
E o meu rei é imenso.

Saturday, December 21, 2013

Alencar, o rei da mentira


É claro que já menti nessa vida, mas nunca disse um ‘eu te amo’ que não tivesse sido verdadeiro.
Cazuza dizia que mentiras sinceras lhe interessavam.
Escorados nesse mote, muitos de meu convívio demoraram a acordar para uma realidade melhor.
Outros continuaram dormindo.
À medida que fui amadurecendo, passei a evitar os pequenos deslizes.
Mentir por mentir, jamais.
Mas tem gente que mente por costume e o faz de tal maneira, que as mentiras se transformam em doentias verdades. São os casos patológicos.
Estes não aprenderam ainda que a verdade é tinta permanente.
É cinzel esculpindo na pedra.
Já a mentira é um paliativo.
É o rabisco da vara na areia.
E não apenas o antônimo da verdade.
A verdade pode machucar, é ferro em brasa, que marca para sempre o couro do gado.
Mas a mentira vai mais fundo, tem vocação de punhal.
A verdade pode provocar dor, mas com o tempo traz alívio e luz.
A mentira, não.
Com a mentira vem o rancor, a quebra da confiança e o desprezo.
Que fique claro: mentir e omitir são duas coisas completamente diferentes.
A omissão pode ser uma atitude com resquícios de covardia.
Mas a mentira é 100% covarde.
Conheci muito mentiroso nessa vida. Mas nenhum com a eloqüência e a cara-de-pau de um caminhoneiro de São Raimundo, o Alencar.
Mentia para impressionar, ou para tirar vantagem de situações completamente irrelevantes. A maior parte do que falava era ficção barata.
Segundo seus relatos, havia percorrido o trecho Valadares - Belo Horizonte, 360 quilômetros de estrada esburacada e perigosa em fantásticas três horas.
E com o caminhão cheio de bois.
Num outro dia, aparecia no bar, pagava cachaça para todo mundo e dizia que estava comemorando os treze pontos feitos na loteria esportiva. O tempo passava e ele continuava vivendo de aluguel e comprando fiado no armazém de Zé Barbudo.
Segundo Alencar, o pára-choque amassado de seu caminhão era a prova material de que havia atropelado uma onça enorme, quase chegando a São Paulo.
   - Não deu para aproveitar nem o couro, fartava-se.

Se viajava ao Rio, dizia ter almoçado na casa de Roberto Carlos e era amigo de Zico, do Flamengo. Era o rubro-negro, o rapaz. E gostava de música romântica.
Com o passar do tempo, ficou estigmatizado e ninguém mais acreditava nele.
Como começaram a ignorá-lo, resolveu se assumir mentiroso e mandou pintar, com as cores do Mengão, nos dois pára-lamas traseiros de seu caminhão Mercedes 1113, os seguintes dizeres:
Alencar, o rei da mentira!
E foi acolhido de volta.

Em todo lugar onde estivesse, a roda se fechava em torno dele e as estórias fantásticas eram garantia de entretenimento. Afinal, Alencar tinha um tio astronauta que fora à lua duas vezes, um primo que namorara a miss Brasil (uma certa Marta Rocha), e um conhecido que estudara com o ex-presidente Getúlio Vargas.
Não raro, mentia atendendo a pedidos.

Numa destas ocasiões, cruzou com a viatura da polícia rodoviária na entrada de um posto de gasolina. Os dois carros ficaram lado a lado e um patrulheiro pediu:
- Ô Alencar, conta uma mentirinha aí.
Alencar pediu desculpas, mas disse que não podia.
- Estou indo pedir socorro em Valadares. Teve um acidente a 30 quilômetros daqui e tem gente ferida espalhada pelos dois lados da estrada.
Os patrulheiros nem se despediram. Ligaram as sirenes e seguiram, em alta velocidade, na direção do horrível acidente.
Duas horas depois retornaram ao posto de gasolina e lá estava o Alencar, comendo uma picanha e bebendo uma Brahma bem gelada com outros dois caminhoneiros.
Um dos patrulheiros foi até a mesa e, de dedo em riste, mandou o seu recado nervoso:
- Escuta aqui, Alencar! Dessa vez você passou dos limites! Que brincadeira de mau gosto foi essa de dizer que tem um acidente cheio de mortos e feridos perto daqui?!
Alencar deu uma garfada na parte gorda da picanha e respondeu, impávido:
Uai, mas você não pediu para eu contra uma mentira?
E todos caíram na gargalhada. Inclusive os guardas rodoviários.

Ninguém imaginou, no entanto, que Alencar ainda pagaria caro pelo seu estilo de vida.
Numa madrugada, acordou a mulher e disse que estava enfartando.
A patroa ajeitou melhor o travesseiro, resmungou qualquer coisa e continuou a dormir.
Dois dias depois ele foi enterrado, humildemente, sem as pompas normalmente reservadas a um rei.

Friday, December 6, 2013

Trinta coisas que esqueci sobre mim mesmo


(Para Suzana Guimarães, precursora da lista das 30 coisas)


A poeta baiana Tânia Contreiras lançou-me o desafio para que entrasse em uma espécia de corrente inicada nas redes sociais e enumerasse 30 coisas a meu respeito.
Eu jamais diria não a ela, que é uma pessoa muito presente em minha vida, amiga ímpar, a quem eu não diria não mesmo se estivesse me pedindo um rim.
Portanto, aí vão as 30 coisas das quais às vezes eu mesmo me esqueço:

1) Tenho que beber pelo menos três uísques antes de entrar em um avião.
2) Quando menino fui atropelado por um jipe e salvo de um afogamento por um ladrão. Que eu me lembre, em três outras oportunidades a morte passou de raspão.
3) Adoro pão com linguiça e arroz com rapa.
4) Gosto de cozinhar. Muitas vezes, cozinho para não pirar.
5) Adoro futebol. Cruzeirense de ir ao estádio. De "ver" o jogo pelo rádio.
6) Fui "vencedor" de um único concurso literário em minha vida.
    Foi uma 'tarefa' no grupo Escolar Maria Ortiz, em Barra do Cuieté-MG; a redação "Meu Brinquedo favorito" venceu "o ponto" para a equipe Azul, do terceiro ano primário.
7) Quando cheguei aos Estados Unidos trabalhei de pasteleiro (fazia pastéis de Belém em uma padaria portuguesa).
   Fui também lava-pratos, ajudante de cozinheiro, garçom, funcionário de empresa-de transportes e servente de pedreiro. Aliás, o pior servente de pedreiro que a construção civil de New Jersey já conheceu.
08) Comecei a escrever coisas visitando um pistoleiro de aluguel condenado a 380 anos de prisão, em um presidio de Juiz de Fora. Eu tinha 18 anos.
09) Meu pai não queria que eu vivesse de escrevinhações. Fez de tudo para que eu fosse militar, como ele. Na contra-mão mão de sua vontade, minha mãe presenteou-me com uma Olivetti portátil, que ela pagou em 12 “suadas” prestações na falecida Mesbla.
10) Sofro quando tenho que usar terno e gravata.
11) Não gostaria de ficar careca.
12) Fui pai pela primeira vez aos 16 anos de idade.
13) Tenho três filhas.
14) Casei-me com uma moça bonita.
    Casei ao meio dia, em Curitiba, o sol estava a pino e tive cãimbras durante o sermão do padre.
15) Toda vez que alguém me chama de “jovem”, acho que esta pessoa está tentando me vender um par de quixutes.
16) Adoro Portugal. Pudesse, iria várias vezes por ano a Portugal.
     Tenho vários ossos lusitanos em meu corpo.
17) Eu me sinto mais mineiro do que qualquer outra coisa.
     Muito mais do que brasileiro ou americano, eu sou mi-nei-ro. De Minas Gerais.
18) Se tivesse que fazer uma tatuagem, tatuaria o triangulinho vermelho da bandeira de Minas Gerais no bíceps.
19) Cheguei aos Estados Unidos aos 21. Tenho 51. Vivi toda a vida adulta no estado de Nova Jersey.
20) Quando comecei a escrever queria ser uma espécie de Augusto dos Anjos menos pessimista. Depois queria ser Drummond e depois, Roberto Drummond.
21) O livro Hilda Furacão, de Roberto Drummond, é dedicado a mim. Também a mim, que fique claro. O que me honra da cabeça aos pés.
22) Tive uma produtora de shows de MPB com dois grandes amigos nos EUA. Fizemos coisas que julgo importantes por aqui.
23) Sofro quando entro em um lugar e está tocando axé, breganejo, pagode ou "fanque". Este é um dos motivos porque vou pouco aos restaurantes brasileiros de Newark.
24) Parei de fumar no dia 1º de dezembro de 2011, após escalar - de carro - um poste da South Street. Carro e cara se arrebentaram.
   Parei como forma de agradecimento pela oportunidade de continuar entre os vivos. Eu era fumante desde 1980.
25) Eu não gosto de ir a festas de crianças, nem de ir à Disney com minhas filhas.
   Não fui. Não vou. Não irei.
   É por estas e outras que ainda morarei no inferno.
26) Não gosto de praia. Nem de carnaval.
27) Acho as obras de Niemeyer uma bobagem. A forma não segue a função.
28) Tenho preguiça mental de falar inglês. Minha tecla SAP está quase sempre desligada.
29) Entre 2011 e 2013 tive muita vontade de voltar pra Minas Gerais e ir morar numa casa de montanha e ser feliz para sempre.
    Esta vontade está passando. Já passou.
30) Tenho os melhores amigos que o afeto pode comprar.


Sunday, November 17, 2013

Aquele dedinho


Quando estamos tristes, tudo fica pior.
É como quando estamos com um dedo do pé machucado e temos aquela impressão de que sempre o estamos batendo pelos cantos por onde passamos.
Não percebemos que sempre o batemos, mas que não o sentimos doer porque ele só dói quando realmente está machucado.
Infelizmente, quando entramos nestes dias plúmbeos em que o corpo inteiro se transforma num grande dedinho machucado, ficamos expostos demais, sensíveis demais, fragilizados demais.
Um engarrafamento no trânsito torna-se uma calamidade de proporções tsunâmicas, a derrota do time de coração trucida tanto quanto a perda de um ente querido, e por aí vai.
Só dói quando eu respiro, posso afirmar.
Por isso tento aprender a respirar mais miudinho.
Ando meio assim ultimamente, de braço dado com a tristeza, enamorado dela, mas pensando numa possibilidade de fugir do altar.
Dona Tristeza que fique solteira.
Meu médico falou em depressão. Recusei o diagnóstico.
Onde é que já se viu filho de soldado com dona de casa deprimido?
Depressão é coisa de bacana.
Ando triste. E pronto.
E não adianta culpar a descoberta de que Obama não é Superman, que os impostos aumentaram e as benesses escassearam, e que o verão foi um arremedo ou que ganhamos mais uma nova ruga e acumulamos fios brancos entre os cabelos que restaram.
Não tem jeito.
Às vezes penso que nascemos com esse gene da dor, e que passamos a vida inteira tentando dar-lhe um nó.
Inventamos paixões, as transmutamos em amor, fazemos filhos, depositamos neles a esperanças de que sejam tudo aquilo que jamais seremos, devoramos livros, viajamos pelo mundo, pregamos diplomas na parede, nos empanturramos de lagosta e vinho.
Quando não dá para tanto, mastigamos couve e arrotamos caviar.
Tudo para driblar o gene da dor. E nem sempre conseguimos, obviamente.
Quem não tem o suficiente para pagar o analista – ou não acredita nisto -, tenta arranjar um amigo.
Conversar faz bem, eu sei. Mas anda cada vez mais difícil encontrar alguém que nos escute mais do que tenha por dizer.
Na falta de grana para o analista ou de um amigo para chorar em seu ombro, dei de falar sozinho.
Mas nem eu mesmo tenho tido paciência para tantas lamentações.
Religião, não. Obrigado.
Deus deve estar com a agenda cheia. E a fila é enorme.
E, pegar fila é outra coisa que deprime qualquer cristão. Mesmo cristãos não tão cristãos assim, como esse do dedinho machucado que batuca no teclado deste computador.
Reaprendo, na marra, a ‘catilografar’ com o dedo indicador.
E assim termino mais um texto.
E assim eu venço mais um dia.
Pode ser que amanhã já não doa tanto.
Pode ser até que já não doa mais.

Tuesday, November 5, 2013

A Mão de Deus em Tibães




(Para Jorge e Anabela)

No aeroporto Francisco de Sá Carneiro, na cidade do Porto, uma voz conhecida faz um “boo” ao pé-do-ouvido, no que me toca o ombro.
Quase dou um pulo, gato velho, ainda sonolento pelas sete horas de travessia do Atlântico e visivelmente baqueado pelas cinco horas de con-fuso horário.
Abraço o parceiro Bispo Filho e ele diz que me reconheceu pelas costas e que eu estou ficando careca, com um cocoruto de frade.
Não foi um começo auspicioso.
Primeiro, meu parceiro de escrevinhações há três décadas, tenta me assustar com um “boo” ao pé-do-ouvido.
Em seguida, assusta-me, de fato.
Vou ao banheiro do saguão do aeroporto, olho-me no espelho assim, meio de ladinho, e constato: estou realmente perdendo cabelo, ali na região extrema do topo.

A caminho da cidade de Braga, na província do Minho, norte de Portugal, somos reminiscência e olhar na paisagem.
Instalamo-nos no hotel Mercure, no centro da cidade, e somos recepcionados à noite pelo poeta Jorge Pimenta e sua bela família.
Bom vinho, boa prosa, excelente comida.
Conheço bem esta casa.
Sinto-me parte deste clã desde que estive na cidade pela primeira vez,  em 2011,  com a esfarrapada desculpa de assistir a um concerto de reunião de uma banda portuguesa.
No que vamos devorando um delicioso arroz de camarão preparado por Anabela (precedido pela antológica alheira de caça, que se registre), vamos tomando conhecimento do nosso roteiro de atividades nos dias que se seguem.
Bispo Filho tem encontro marcado com médicos bracarenses dia sim, dia não. Precisa de acompanhamento em um procedimento iniciado no Brasil. E eu ainda tenho que escrever uns textos para o Brazilian Voice.
Nos intervalos, passeios inesquecíveis por Braga e Guimarães, entrevistas na imprensa local, vinho, presunto, pudim Abade de Priscos, água das Pedras Salgadas e dolce far niente.
O lançamento de Meninos de São Raimundo está marcado para as 21 horas da noite de sexta-feira, 13 de setembro, no Mosteiro de Tibães, em seu recém-inaugurado espaço cultural, no lugar onde um dia foi uma cavalariça.

Eder Asa, amigo mineiro que residiu em Braga, informa-me pela internet que fizemos uma escolha arriscada.
A livraria FNAC, dentro do maior shopping center da região, bem no centro da cidade, é garantia de público. E aquilo ficou martelando minha cabeça, como um sino de igreja anunciando um funeral.
Optamos pelo mosteiro ao invés da livraria e agora é tarde demais.

No dia do lançamento, passo a tarde em Tibães.
A antiga Casa-Mãe da Congregação Beneditina Portuguesa, situa-se a 6 kms a noroeste de Braga, rodeado por plantações de uva e milho. Trata-se de uma imponente construção de 900 anos e que enche os olhos, um lugar erguido para a devoção a Deus e seus silêncios.
Retono ao hotel no início da noite, tomo um banho demorado e encontro-me com Bispo Filho no saguão.

Chegamos ao mosteiro às 20:45, quinze minutos antes da hora marcada e apenas quatro carros ocupam o grande estacionamento.
Faço as contas: um carro é do padre, outro do sacristão, o nosso, e é provável que aquele último, um Renault com placa de Paris, seja de um turista.
Bate uma agonia imensurável e as palavras de Éder Asa reverberam cada vez mais alto, deixando-me resignado com o fato de que o lançamento de nosso tão esperado livro, está fadado ao fracasso logo em sua primeira noite.
Faltam apenas cinco minutos para a hora marcada e observamos um clarão bem ao longe.
Na estrada sinuosa, feita de pequenos sobe-desces, uma espécie de tobogã de asfalto margeado pela vegetação, o olhar se ilumina.
Vemos o primeiro farol de automóvel vindo em nossa direção.

E atrás daquele farol, vem um novo farol.
Seguido de um outro e mais outro e outro mais.
E outros tantos faróis.
Formam um comboio inesquecível, iluminando a noite até pararem, um por um, bem pertinho de nós.
Vamos entrando pela porta principal do mosteiro, revigorados, e as pessoas vão se sentando até que não sobra um único assento vazio na platéia preparada especialmente para a noite do lançamento de Meninos de São Raimundo em Portugal.
Tomamos nosso lugar à mesa e o pião começa a girar.
Um arrepio gostoso toma conta de nós.
Somos tratados como filhos da terra, meninos de Braga, que acabam de testemunhar e viver um pequeno milagre.
E o afeto se multiplica.
Como pães.