Thursday, October 27, 2016
Abc aos pés da santa
(Para a Turquinha e pro Zezim de Dona Ercília, que estudaram em GV)
Fui alfabetizado por uma velhinha que, diziam as más línguas, teria sido prostituta na juventude.
Baixinha, magra - daquelas bem ossudas - e de bigode, não consigo imaginar que tenha sido profissional do sexo.
Não teria sido das moças mais atraentes, a nossa dona Nilda. Para piorar, tinha as pernas muito finas e peludas.
Como sei disto? Ora, ela me colocava para rezar, ajoelhado, diante da imagem de uma santa cujo nome me foge à lembrança. E eu via seus cambitos, quando ela se aproximava para anunciar o fim do castigo.
Não creio que seu método didático tenha funcionado comigo. Até hoje tenho dificuldade de me lembrar quanto é sete vezes seis, o calcanhar de Aquiles nas arguições de tabuada.
Por mérito dela e medo meu (de rezar ajoelhado de novo e de novo e de novo), eu entrei no grupo escolar sabendo ler e escrever.
A primeira professora "oficial" chamava-se Dionete e me dei bem com ela. Terminei o ano com honras e só não gostava da hora da merenda, no recreio. A fila quilométrica de caneca plástica na mão para encarar uma gororoba que chamavam de "triguilho", não deixava tempo para brincar com a meninada.
Nas festas do Manoel Byrro eu fazia dupla com um menino a quem chamávamos de Maurício Zói de Gato, porque ele tinha os olhos azuis.
Nós cantávamos Era Um Garoto Que Como Eu Amava os Beatles e os Rolling Stones, do grupo Os Incríveis.
Começava ali uma carreira promissora na música.
Nosso palco era uma mesa de fundo bambo, suspeitíssimo e, na hora do refrão, imitávamos uma metralhadora com as mãos, apontávamos um para o outro e gritávamos ra-ta-ta-ta-ta-tá.
Ao final da performance, caíamos para trás, como que atingidos por balas vietnamitas. Choviam aplausos, mas como nosso repertório se resumia a uma única música, a platéia enjoou e terminou ali aquela promissora carreira musical.
Adultos, Maurício entraria para a polícia militar e eu viria lavar pratos nos Estados Unidos.
Cantar, para ambos, nem no banheiro.
Quando completei oito anos minha família foi de mala e cuia para Barra do Cuieté, um lugarejo quase na divisa com o Espírito Santo e para onde meu pai havia sido transferido.
Vivemos lá durante um ano e meio e foi um perìodo muito feliz de minha vida. Nadava na foz do Rio Caratinga com o Rio Doce, tomava banho de cachoeira, pescava e caçava passarinho.
E foi lá, no Grupo Escolar Maria Ortiz, que iniciei a 'trajetória nas letras'.
Todos os anos acontecia uma concorrida gincana em que os alunos tinham que executar tarefas que dariam os pontos para a sua equipe. Os vencedores iriam em cima de um caminhão de leite a Conselheiro Pena tomar sorvete e passear na pracinha.
Na tarefa de redação, cujo tema era "Meu brinquedo favorito", conquistei o ponto para a equipe azul ao enumerar os gols que faria (e não fiz) com a bola de futebol que minha tia Terezinha ainda haveria de me dar.
E aquele sorvete sentado num banquinha da Praça da Matriz em Conselheiro foi meu Jabuti, meu Nobel, meu Camões.
Meu prêmio era de creme.
E até hoje eu consigo sentir o seu gosto doce.
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Tuesday, September 27, 2016
Aretha Franklyn e Deus
(Para Ciro e Marcie, sempre presentes)
Tomara que Ele não me castigue, generoso e bom como é. Mas gostaria de deixar registrado que Deus, em seus momentos de lazer, escuta Aretha Franklyn.
Acontece naqueles instantes em que Ele não está sendo massacrado com as aprontações de seu inimigo; não está dolorido com nossas fraquezas; e desvia a atenção das traições mais absurdas.
Ele aperta o play e Aretha canta Do Right Woman, Do Right Man.
É quando brotam margaridas na face da terra e arrefecem-se os vulcões.
São esses os momentos em que coisas boas acontecem para a humanidade. É quando proliferam milagres e os cientistas descobrem a cura para alguma doença. É quando assinam tratados de paz e nascem crianças perfeitas.
Quando Deus escuta Share Your Love with Me, multiplicam-se os peixes e os pães.
Eu sinto a presença de Deus quando Aretha Franklyn canta.
Outro dia, vi um video em que ela interpretava uma canção de Carole King e era Deus quem fazia o duplo papel de ouvinte e de intérprete: na plateia, Ele se emocionava; no palco, tocava piano com um casaco de pele.
Era Ele que transformava o mundo em um lugar melhor durante os 3 minutos e 48 segundos da música.
Ali, naquele momento, Ele se redimiu de seus falhanços e eu pude esquecer os refugiados sírios, espremidos em uma embarcação, arriscando a vida numa fuga do inferno pelas águas do Mediterrâneo.
Eram homens, mulheres e crianças, todos filhos d'Ele.
Pude desviar a atenção do rapaz descendo do carona da moto com uma arma na mão, durante um sinal vermelho.
Pude esquecer o desejo do homem-bomba de abrir os braços (como um Cristo Redentor de Kandura) e apertar o detonador em plena Times Square iluminada de ganância e neón.
Esqueci por quase 4 mininutos a fome e a injusta distribuição.
Mas nem só de Aretha Franklyn vive o Todo Poderoso.
Quando Ele se cansa e cochila no serviço, acontecem tsunâmis, Fukushimas, golpes de Estado, negociatas de corrupção e gols-contra no futebol.
Tenhamos compaixão.
Deus está cansado, não lhe damos sossego.
Quando Ele chega ao limite do corpo é o momento em que a voz de Aretha se cala e os casais se desentendem, as nações declaram guerras, inventam bombas destruidoras e o pão de queijo carboniza no forno.
O leite derrama quando Ele se cala e Aretha Franklyn fica muda.
Mas não é só com Aretha que Deus se emociona, pois sinto a sua presença em tantas outras coisas, que cabe aqui enumerar.
Quando o outono decreta o fim do verão e Deus pinta de ouro (e cobre e zinco) a paisagem do norte das Américas, Ele revela – em toda a glória e esplendor - um momento de divina vaidade.
Eu escuto Deus no discurso do papa Francisco, o papa mais tolerante, mais gente-boa que a humanidade já conheceu.
Escuto Deus na chuva.
Escuto o Seu assovio quando o vento varre os telhados.
É Ele que assopra a cabeleira dos canaviais e joga anilina no mar.
Ele pinta aquarelas coloridas com as quatro estações e está presente quando vejo um quadro de Portinari ou me lembro de um gol de Pelé.
Quando leio Manoel de Barros e sua simplicidade, eu o sinto.
E em Adélia se derretendo por Jonathan.
Ou quando Cora Coralina fala de biscoitos.
Registro sua presença na voz de meus pais, já velhinhos, ao telefone: sinto-o cristalino quando, na hora da despedida, os dois pedem que Ele me abençoe.
Mas é quando minhas filhas me chamam de pai, que eu escuto mais forte sua voz.
É este o momento da canção em que Aretha Franklyn, muito emocionada, atinge as notas mais altas e arrepia a pele de Deus.
Tuesday, September 20, 2016
Ensaio miúdo sobre a brancura da inveja
(Para as poetas Jô Diniz e Ana de Istambul)
Passo de carro e os vejo emparelhados. Existirá na vida aquilo que chamam de inveja branca?
Sim, existe.
E eu a conheço, tenha ela a cor que tiver.
Falo o seu idioma.
Domino seus desdobramentos.
Comungo da hóstia amarga dos invejosos, mas minha inveja não é daqueles que conseguiram mais e melhor.
Não invejo os campeões, os brilhantes, os ricaços, os bem nascidos e os bonitões.
Minha inveja é dele e dela, que vejo do outro lado do parabrisa .
Ele e ela, que caminham pelas ruas como que encantados por um violino imaginário.
Dele e dela, ela e ele, que poderiam ser outros quaisquer, que não estes.
E a minha inveja é de não sê-los e de não tê-los sido.
É inveja da inocência e da inconseqüência.
Do verdor, do frescor, da ausência de noção do perigo. Inveja da forma como eles amam.
O amor na juventude é o melhor amor que existe, posso assegurar.
Ele é chama que não se apaga e vive para sempre em quem o viveu, ainda que, agora, em fantasmagórica saudade.
Na outono da vida o amor parece não existir mais. Evapora, feito éter.
Mas eu falava dele e dela. E eles estão de mãos dadas numa avenida que conduz ao futuro que eles não sabem ainda ser incerto. Ele e ela de mãos dadas na praça.
Ele e ela num banquinho, as mãos entrelaçadas e o pedido feito ao meteorito que riscou o céu.
Ela lhe oferecendo a lua branca e cheia. Ele batizando uma estrela com o nome dela.
Toca uma balada romântica de Cazuza ao longe e aquela é a música que lhes embala a noite e tudo o que lhes foi prometido por Deus. Qualquer deus.
Na noite que cheira a jasmim e a grama verde, recende também a lavanda do pescoço dela e a água de colônia do queixo dele.
Beijos que se multiplicam como peixes, afagos que se perpetuam, pele que arrepia e o planeta ficou zonzo. A Terra parece ter parado de girar. E eles se amam como se não existisse o amanhã.
Para que nos servirá o amanhã? – pergunto eu.
Para que o amanhã, se a felicidade reside aqui, urgentíssima, agora, no carinho deles?
Vejo que ele apanha uma pedra no chão. Tem o formato de um coração, imagino. Diamante mais verdadeiro.
Ele dá pra ela a margarida que roubou do outro lado da grade E um anel de flandres, feito da tampa do copo de água mineral, que ela promete guardar pra sempre.
Em troca ela lhe oferece o ombro. Insinua o colo. E ele lhe garante ter dois bilhetes – de ida – para o paraíso.
Ele e ela sem medo de amar…
Ele e ela sem medo da felicidade, ou daquilo que algum adulto sem graça batizou de medo de ser feliz.
A graça de ser jovem existe, acima de tudo, porque os jovens não conhecem o medo. E há tempo de sobra para recomeçar do zero.
Eles desconhecem o desgaste, a rotina, os filhos e suas necessidades, o tempo que passa cruel e pontualmente e as pequenezas envolvendo dinheiro, pagamentos, prestações, ambições profissionais e a incorporação de bens.
Benditos sejam aqueles que conseguem, por um dia que seja, amar na idade madura com a graça, fúria e inocência dos jovens de ontem, de hoje e de sempre.
Benditos sejam eles. Benditos sejam...
Amém.
Friday, September 9, 2016
Rabisco indefinido para uma letra de canção
Vil perdão
(Para o Fred)Eu perdoo você
e suas pequenas mentiras.
Suas grandes mentiras.
Suas mentiras
de todos os tamanhos.
Perdoo
as promessas de campanha,
as promissórias afetivas
seus ‘eujuros’ e 'euteamos'
Perdoo a nudez fingida,
os seios oferecidos
as geometrias felizes
os trejeitos de Marilyn
e os gozos de festim.
Perdoo suas nuvens vazias de chuvas
seus minuanos, seus tsunamis
Perdoo os raros dias de sol
e a ausência de verões
Eu perdoo
Perdoo os seus boleros,
suas rumbas, suas dores
e o aço frio dos punhais
- o finco das bandarilhas -
ardidos, urdidos
em minhas costas
e esta sangria imposta
feita de uis e ais
Perdoo você como
quem perdoa Judas.
Perdoo, principalmente,
seus pra sempre
E seus jamais.
Perdoo os seus boleros,
suas rumbas, suas dores
e o aço frio dos punhais
- o finco das bandarilhas -
ardidos, urdidos
em minhas costas
e esta sangria imposta
feita de uis e ais
Perdoo você como
quem perdoa Judas.
Perdoo, principalmente,
seus pra sempre
E seus jamais.
Sunday, September 4, 2016
Ofício
(um arremedo à moda do Manoel para o Bispo Filho)
Ele
passa dias a fio
cozinhando o frio
espalhando nuvens
derramando chuvas
acendendo as luas
Deus
passa domingos inteiros
pintando lírios
e afinando o zumbido
dos marimbondos
Tuesday, August 30, 2016
A dançarina
Ela dança quase parada
olhando a névoa que devora a pedra
e baila a bordo da casa que flutua
como um barco cigano
olhando a névoa que devora a pedra
e baila a bordo da casa que flutua
como um barco cigano
Dança com os olhos molhados
a cada aceno de despedida
a cada fantasma do passado
e a cada nova ferida
Dança a noite mal dormida
nas retinas fatigadas
na alma estilhaçada
na carne toda doída
Dança o sorriso de plástico
a flor murchando no peito
dança em nome do pai
do filho e do espírito santo
Dança de mal com Deus
dança de bem com o homem
dança com os pecados seus
mesmo os que não cometeu
Dança com um par invisível
rodopia com a dor indizível
dança com os dois pés amarrados
e seus sapatos de cinderela
A moça dança sozinha
e no rodar de sua saia
rodopiam dores
maremotos, furacões
e no rodar de sua saia
rodopiam dores
maremotos, furacões
Dança um tango sem alma
dança para encontrar a calma
dança para esquecer
a solidão que escolheu como par
A moça dança, dança, dança...
ela não consegue parar de dançar
a moça dança, dança, dança...
ela não para de rodopiar.
A moça dança, dança, dança...
(30 de Agosto de 2016)
* Poema de Caixa de Suspiros, primeiro livro de poemas do autor desde 1988. Lançamento previsto para abril de 2017.
Thursday, June 9, 2016
Dona Glória
Não vi que ela chegara de surpresa, momentos antes de eu emitir aquele sonoro palavrão. Coisa corriqueira, uma dessas bobagens de trabalho, em que a pressão do “dead line” acaba levando a melhor sobre o bom senso e a razão.
O telefone tocava insistentemente e ninguém atendia. E eu, que dava os retoques finais num texto qualquer, fui perdendo gradativamente a concentração. Audivelmente irritado, gritei de minha sala:
– Atende essa porra aí….
Segundos depois, quando saio da sala para buscar um café, a cara quase caiu no chão.
Dona Glória estava lá, quietinha, sentada numa posição característica de “vó” (as pernas cruzadas, uma mão sobre o joelho e a outra mpostada em cima), com cara de quem estava fazendo de conta que não havia testemunhado tamanha grosseria.
Bem feito, terão pensado meus colegas de trabalho.
Bem feito!
Fiquei desconcertado. Extremamente desconcertado.
Mas fui lá e fizemos as apresentações formais.
Dei-lhe um abraço, ganhei outro. Bem mais fundo. Um abraço maior.
No abraço de avó Glória veio o abraço de todas as avós do mundo e uma esperança de que meu dia iria mudar. Que minha vida iria mudar.
E eu, aquele sujeito estressado que acabara de cometer uma enorme grosseria, senti-me perdoado ao ser abraçado por ela.
Senti na hora que não iria para o paredão.
Que não iria para o pelourinho.
E não haveria cadeira elétrica, prestação de serviço comunitário ou outro degredo qualquer.
O destempero havia sido compreendido, embora tudo ali tivesse sido devidamente registrado na caderneta de más-ações para o dia do Juízo.
Não cheguei a pedir desculpas, creio eu. Bad boy.
O nosso abraço, que durou alguns segundos e pareceu eternizar-se como uma destas coisas boas da vida, transpôs-me a um lugar bonito, muito distante dali.
No abraço de vó Glória veio uma sopa de legumes em um dia de gripe e febre. E uma bandeja de quindins, brigadeiros e biscoitos de polvilho.
Veio um embrulho colorido com o meu nome escrito, sob uma árvore de natal.
Veio um dia ensolarado.
Veio o som de um radio ao longe, na hora do Angelus, tocando a Ave-Maria.
Veio a lembrança de um bichinho de estimação que bem poderia ser um coelho branquinho, de olhos encarnados, um gato rajado ou um cãozinho vira-latas, daqueles que nos seguem o tempo inteiro e se deitam ao pé da cama.
Veio a algazarra de crianças na hora do recreio e o canto de uma cigarra.
Veio um carrinho de rolimã desembestado - descendo a rua -, um embornal de bolinhas de gude, um pião e um ioiô.
Veio um pé de fruta, carregado de pitangas vermelhas, cajus amarelos, laranjas douradas; carambolas. Jambos. Graviolas. Pequis. Mangas e cajás.
No abraço dela veio um ‘corguinho’ cheio de lambaris e carás, mandis, traíras, cascudos e piaus.
Veio uma árvore apinhada de passarinhos, canários-do-reino, tizius, sanhaços e bentevis.
Veio o telhado de uma igreja coalhado de andorinhas. E um solo de curió.
No abraço de vó Glória veio a primeira comunhão e a roupa nova, a camisa de tergal ainda com cheiro de loja, a calça-curta, o sapato “colegial” e a meia branca até o meio da canela.
Veio também o primeiro dia na escola. E um sorriso orgulhoso no dia da entrega do diploma do primário.
No abraço de vó Glória veio também a esperança de que eu viesse a ser, no momento certo, e apesar de todas as carências e deficiências, um adulto bom.
Um homem que soubesse pedir desculpas. Que soubesse pedir perdão.
E é o que tento fazer até aqui.
É a minha intenção, apesar de todo o atraso, nesta crônica-pedido-de-desculpas.
Mau menino, eu sei. Muito mau.
Vó Glória aí, desculpa. Foi mal.
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