Wednesday, June 5, 2013

Aqueles que conheço e que partem


Dizem-nos que está tudo bem: apesar de batermos
de porta em porta, e de vermos quadros pendurados
compulsivamente e com rasgões aleatórios
de loucura.

Procuramos saber nesse dia como
desapareceram, se foi de repente, se deixaram
cartas a avisar, se pediram mais um conhaque antes
de se despedirem, ou se simplesmente
fecharam a porta e ficaram do lado de lá.

E encontramos silêncio nas respostas.
Tudo aquilo a que nos propomos conhecer fica envolto
em lençóis escuros que deixaram lavados - e ainda
quentes -com beatas de cigarro ao lado da cama, com revistas
folheadas e abertas por cima das almofadas.

Percorremos o resto da casa, chegamos
por fim à porta de entrada onde tudo continua
intacto, insanamente preservado, como se ainda hoje
nos sentássemos aqui, a olhar para a televisão, a ver
os nossos dias - a imaginar as casas, os filhos, os
empregos - e a continuar de olhos abertos, as mãos a
mexerem em folhas riscadas sem quaisquer palavras.

Mas, de quando em vez, decidimo-nos a escrevê-las, para que
se sinta menos a despedida - como que se ela não existisse
ou como que se nada fosse dito naquele momento.

E de qualquer forma, os corpos afastam-se,
ininterruptamente,
a passo lento; olhamos a estrada ao longe com as roupas
a assemelharem-se a sonhos quebrados, com as mãos por
fim
cheias de algo que não conhecemos - com a cabeça longe
em mundos distantes do nosso.

Crescemos assim. Habituamo-nos a ver aqueles que
conhecemos
de costas para nós, a mão direita a acenar rente à anca,
num gesto esquecido de dizer adeus, para que haja algo a
separar-nos
para além de cartas.

A partir daí, será como uma fotografia desfocada:
relembraremos
aquele que partiu, naquele dia, a agitar a mão para nós
como se não estivéssemos ali; as costas ocupadas com
malas e rostos
e nós a bater a portas de quem não conhecemos, a
anunciar
que este ou aqueloutro partiu.

Por fim, deixamos de os conhecer - deixamos de lembrar
os lençois
quentes, as revistas abertas a meio, em artigos de
saudade
ou de descrições vagas sobre sexo; deixamos de ver arder
as
beatas de cigarro no cinzeiro azul, ao lado da cama;
esquecemos que
deixámos a porta aberta com a corrente de ar a crescer
por
dentro de nós: e a imagem da tua mão a acenar,
ligeiramente,
junto à anca, e eu a lembrar o teu rosto, apesar de me
dizerem
que está tudo bem.


Sérgio Xarepe in
"Outros dias existe muitos"
Corpos Editora
Dezembro 2008


.

22 comments:

Luciana Marinho said...

palavras que trazem um silêncio imenso ao significarem. não dizem algo, são o "algo" que dizem. e faz sermos o que em nós pode estar velado de tão presente.

muito belo, roberto.
trouxe outros sentidos para minha tarde.

beijos.

Índigo said...

No, no todo está bien. Intentamos seguir adelante pero no. No todo está bien. Al menos en esta vieja Europa...

Un abrazo y grande, Roberto.

Sílc said...

"...esquecemos que
deixámos a porta aberta com a corrente de ar a crescer
por
dentro de nós..."

Sim, porque não há um único silêncio. Há um talento para apurar silêncios. Nos percebemos, as vezes parados num invisível de alma e corpo ocupados tecendo delicadamente a quietude, o silêncio e porta aberta.
Obrigada Roberto. Lindo e de reflexão excelente.
Com carinho,

Sílvia
PS.: Para você: "Havia um rapaz muito alto que tinha medo de ser grande de mais para caber num coração."

Tania regina Contreiras said...


Não conhecia, Roberto, muito, muito belo!

Beijos,

Assis Freitas said...

a lei da transitoriedade, inexorável



abração

Adri Aleixo said...

Ei, Beto!

Li ontem estou relendo hoje: muito profundo...
Ontem eu ia comentar que sou ótima para iniciar as coisas e nem sempre as concluo, mas você ia dizer que é porque sou atleticana (rsrsrs).

Enfim,semana passada vc me emocionou com aquele poemaço do Eugênio de Andrade lá no FB( inté chorei), agora me emocionou de novo.

Muito Bom, também não conhecia, beijo!

susuca said...

Continuam querendo que pensemos que está tudo certo como 2 e 2 são 5. Mas eu sei somar e vejo os resultados da nossa omissão.

cirandeira said...

Ainda não conhecia Sergio Xarepe; ele tem uma finíssima capacidade para filtrar perdas, lembranças, SAUDADES do que já lá se foi...!
MUITO BOM!!!
Obrigada por partilhar, Roberto

um beijo

eurico portugal said...

eternos retornos em cada interno descaminho - simplesmente enorme, robertílimo!

abraço brácaro!

Ana Cecilia Romeu said...

Moço simpático das Gerais,
ufa... que texto!

Não sei de nada não, Roberto, apenas que se foi é porque estava; se é lembrança, é porque foi fato; se é ausência, é porque foi presença; ou, porque ainda é presença que parece tão ausente?...

A verdade é que tudo isso não tem receita que dê jeito, nem o melhor modo de preparo e ingredientes certos garantem que o bolo não abatume. E esse 'abatumar' da solidão, ninguém quer.

Beijão dos Pampas!

PS.: Avisa sobre à terra-mãe, se vai e quando, tá bom? Não esquece!

Ana Cecilia Romeu said...

Roberto,
e a crônica das mulheres que jogam futebol? Se escrever e postar, me chama.

Até!

LauraAlberto said...

Roberto

tocante a tua escolha, fez me lembrar um amigo com wuem partilhei e Porto e me fes vrr o rio de outrs forma. ?.
Fez me lembrar um poema do José Luís Peixoto, fingir que está tudo bem...
Fez me lembrar ss vezes que choro rindo . beijinhos

Verso Aberto said...


ah
como
com eles
nos deixamos ir

grande abraço Beto

Sergio said...

Mais uma vez agradeço a escolha Roberto. Fico lisongeado:)

Sergio said...

Mais uma vez agradeço a escolha Roberto. Fico lisongeado:)

Magnolia said...

Escreve tão bem este menino...um dos meus preferidos entre os novos poetas

Pólen Radioativo said...

Só que nada está bem! São lembranças intrometidas, ecos de palavras que não foram ditas, uma vida inteira que deixou de ser vivida.
Eita, Roberto... Assim tu me matas!

Um cheiro.

Eleonora Marino Duarte said...

fiquei bastante comovida... sei lá, Roberto, você escolhe umas coisas, (quando não é você a escrevê-las) que me pegam de surpresa...

«Crescemos assim. Habituamo-nos a ver aqueles que
conhecemos
de costas para nós, a mão direita a acenar rente à anca,
num gesto esquecido de dizer adeus, para que haja algo a
separar-nos
para além de cartas.»

sinto falta de minha mãe, de meu pai, ambos já idos, de costas...

um beijo, seu moço.

Pólen Radioativo said...

Olha eu aqui de novo... Relendo e sentindo saudades que não me pertencem...

Fazer o què?!

Beijo.

Bandys said...

É saudade...

Beijos

dade amorim said...

Inexorável, essa possibilidade de sumir alguém de nossos olhos. Muito bom, seu poema.

Abraço grande

marlene edir severino said...

Roberto,

Também não gosto dos Domingos,
mas acho que já gostei bem menos
e passo incólume por eles.

Boas lembranças as tuas.
Beijão!