Wednesday, December 27, 2017

Dois Poemas de Caixa de Suspiros


nagasaki

ficou como Nagasaki
após a grande explosão.

pobre romântico,
restou-lhe um canivete suíço
para reconstruir 
o coração.

***


Metamorfose


Dentro daquela mulher
Constrói-se uma outra
Que pinta de branco 
As asas da garça
Que projeta o voo.


Como se soprasse
A voz do mar
No ouvido das conchas
E fomentasse
A pérola
No coração das ostras,
Ela se ergue
Pedaço a pedaço,
Grão a grão.


Resoluta,
Pulveriza soldados
De chumbo
Nos mapas desenhados
Na toalha de mesa;
Exonera Bispos,
Mastiga dogmas
E derruba todas das torres
Do tabuleiro
De xadrez.


Dentro do seu casulo
De clausura e cetim
Ela tece a borboleta
Que decretará o milagre
Da próxima primavera.

Enfim...


.


Wednesday, December 6, 2017

O mel


Vamos falar do mel das coisas boas. De mais encontros e menos despedidas. Mais delírios e menos porradas. Mais afeto e menos truculência.
Vamos falar do mel das palavras bonitas e benfazejas. E esquecer o fel daquelas que envenenam e coalham o sangue.
Vamos tecer alegrias e dissolver o rancor. A hora é agora. Afinal, mágoas passadas não movem moinhos.
Precisamos jogar no ralo da vida as amarguras e tristezas que, às vezes, nos fazem sentir como se tivéssemos pregado Jesus Cristo à cruz.
Esse calvário não é nosso. Essa conta já foi quitada há mais de 2 mil anos.
Para que viver com um pé no presente e o outro no anteontem?
É sabido que o passado é uma roupa velha que não nos serve mais. Então, para que insistir em vesti-lo, se as traças do tempo puíram seu vestido e as costuras do terno não resistiram ao tempo.
Para que mastigar reminiscências que magoam?
Por que ruminar o vidro moído do ressentimento?
Aprendamos.
Reconheçamos a proximidade do perigo.
Precisamos nos desviar dele, sequer olhá-lo nos olhos, ignorá-lo, simplificando o ofício de viver.
Recomeçar do zero, se preciso.
Toda manhã é um convite ao recomeço. Cada nascer do sol traz consigo a possibilidade de se reescrever a história a partir de uma página em branco.
Estejamos atentos. Aprumemo-nos. 
Acertemos nossos passos. 
Desviar do que ficou para trás faz-se necessário.
Enxotemos o fantasma que insiste em voltar quando dormimos, transformando nossas noites em pesadelos. Aprendamos a assustá-lo.
Expulsemos esse verdugo para longe de nós.
Reinventemos as noites, se preciso. O que seria da raça humana sem a capacidade de sonhar?
Sonhemos dias sem tempestade, de céu claro e sol brilhante.
Dias que começam com a grama orvalhada e se encerram com uma lua cheia.
Dias de sorvete de limão para aliviar o calor, de algazarra de crianças brincando e pipa colorida rabiscando o vento.
Dias de música bonita tocando no rádio e notícias boas. 
De abraços sinceros e do calor das verdadeiras amizades. Dia de visita de irmão. Dia de colo de mãe.
Dias de sessão de cinema, de pipoca, de chope com os amigos e conversa leve no bar.
Dia de sonhar acordado com um amanhã melhor que o hoje. Esse hoje, que já foi bom.
Vamos falar de futuro.
De quintais embandeirados. De flores de laranjeira e serenata entre amigos.
Tempo de bibliotecas acolhedoras, camas confortáveis, lençóis perfumados, macios, e travesseiros de penas de ganso.
Tempo de quintal com pomar, horta e canteiros coloridos. Tempo de açucenas, margaridas e girassóis. Sonhemos…
Sonhemos poemas e canções. 
Sonhemos o companheirismo e a amizade. 
Sonhemos com flamboyants sangrando e mangueiras em flor. 
Sonhemos…
Sonhemos a cumplicidade das coisas boas, a gargalhada solta, o afago gratuito e o olhar sincero. 
Sonhemos…
Sonhemos aquela reparadora viagem a Matchu Pitchu, a Paris, a Havana ou para onde a vontade apontar.
Tomemos coragem para fazer as malas e embarcar no primeiro avião.
Deixemos que o vento nos afague o rosto e nos percamos no azul.
É muito provável que neste se perder resida o se encontrar.

Thursday, November 30, 2017

Blues fúnebres


(W.H. Auden)
.
Que parem os relógios, cale o telefone,
jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás.

Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto — um laço no pescoço —
e os guardas usem finas luvas cor-de-breu.

Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto
viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana.

É hora de apagar estrelas — são molestas —
guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.

.
(Traduzido pelo poeta e escritor Nelson Ascher e um dos poemas de José e Ana, meus musos de Itaúna)

Sunday, November 26, 2017

Das estranhas invenções do homem



(Para o João)


“A maioria dos homens vive vidas de silencioso desespero” 
― Henry Thoreau

As mãos espalmadas escondendo o rosto é o gesto universal dos que sentem vergonha, dos que temem a derrota e não encontram forças para virar o placar adverso antes que se apaguem as luzes.  
É o medo do fracasso, que se aproxima rapidamente como uma matilha faminta diante de um corpo ferido. 
Cruel é o homem, lobo de si, com suas matilhas vorazes, rondando em círculos numa coreografia invísivel, tendo ao centro a indefesa presa, ele próprio.
O homem tem fome de homem.
Ele tem sede do próprio sangue.
O homem, com sua cartilha de metas inatingíveis e suas missões kamikazes.
O criador da ilusão do sucesso, seus truques sujos e atalhos ilícitos.
O inventor do fracasso e do desespero.
O criador da culpa.
O tecelão da corda.
O criador do laço.
Ferreiro que deu forma ao cano dos revólveres.
O mixologista dos coquetéis letais .
Artesão da vergonha e seu gesto universal, esse das mãos espalmadas cobrindo a face.
Como o faz o goleiro, desesperado na hora do gol. 
Do zagueiro que jogou para o fundo das próprias redes a bola branca, fugaz pomba da felicidade.
Do adolescente que não conseguiu caber em um mundo cada vez mais atrofiado e em que a barra de exigências está cada vez mais alta.
Do adulto soterrado por notas promissórias.
Do pai que não consegue colocar o pão sobre a mesa.
Da mãe que não se perdoa pelos falhanços dos filhos e os assume como se fossem seus.
É quando se escuta o barulho ensurdecedor do fracasso.
E que som seria este?
Que estranho barulho teria o desespero causado pela sensação do fracasso?
O de uma fruta que passou do ponto de maturação e se espatifou contra o chão?
O canto esganiçado de uma gralha?
O apito de um cargueiro se afastando no cais?
Ou o rufar de um trovão?
Ele pode ser estridentemente silencioso, mas pode soar como um trem carregado de tesouros minerais, deslizando sobre os trilhos em direção a um porto distante.
Não raro, aparece o paliativo da corda e seu convidativo laço.
Não raro, o fundo do poço, que esconde debaixo dos pés de quem chega a ele, um traiçoeiro alçapão.
Não raro, o cano frio entre os lábios.
O dedo no gatilho.
A coragem extrema, que não é o avesso da covardia.
O clique.
O bang.
A poça gelatinosa.
E o fim.
Não, não deveria ser o fim.
Mas a cortina do espetáculo barato da vida se fecha mesmo assim.

Tuesday, November 14, 2017

Memórias de armazém


(Para Iara Carvalho e Fátima Pereira, filhas de vendeiros, e que contribuíram para esta crônica)

Uma ou duas portas de frente para a rua. Às vezes, um banco de madeira para quem quisesse permanecer. Dentro, algumas montras feitas por marceneiro, balcão com vitrines transparentes, prateleiras, um rádio sempre ligado e a imprescindível balança Filizola. Este era o cenário do universo maravilhoso dos armazéns que ainda hoje habitam o imaginário de quem viveu há não muito tempo no interior do Brasil.
Para a população não era chamado de armazém. Era a venda.
Ah, as vendas de antanho...
Os supermercados e shopping centers nos roubaram tanto de intimidade e poesia... Tanto!
Na 'venda' que habita a minha saudade tinha rapadura, lápis sem ponta e com ponta, e com borracha na ponta. Tinha tabuadas, cadernos da marca tilibra, convencionais ou de caligrafia.
E um baleiro giratório sobre o balcão com balas sortidas e chicletes ping-pong e ploc.
A granel estavam disponíveis do alpiste ao açúcar, farinhas de trigo, mandioca e milho, feijão de várias cores e amendoim com casca.
Tinha também arroz, milho, canjiquinha e canjicão. E farelo para alimentar os porcos.
Pão?
De doce e de sal, ao gosto do freguês, e ficavam expostos na vitrine, junto com umas delícias como a maria-mole, o suspiro, as cocadas e o pé de moleque, esses últimos geralmente preparados pela esposa do proprietário.
A banana era vendida em cachos ou a dúzia: prata, maçã, caturra e ouro. Tudo era embrulhado em papel pardo e bem amarrado com barbante de algodão.
Jabuticaba era vendida ao litro. Laranjas e mexericas a dúzia ou ao cento.
Em alguns meses do ano era possível encontrar pitanga, seriguela, jambo e fruta do conde.
Aquilo pendurado na parede não era um extintor de incêndio, e sim, uma bisnaga de salame, que o atendente ia cortando de acordo com o apetite e orçamento do freguês.
Havia também uma espécie de trapézio pendendo do teto, onde eram dispostas as linguiças semidefumadas de boi, porco e mista.
Para os meninos havia bolas de borracha Pelé e Tostão. A Pelé era de cor escura, enquanto a Tostão era branca, assim como as "dente de leite", que queimavam e deixavam hematomas em quem se atrevesse a ficar na frente.
Para chutá-las era providencial adquirir um conga, um kichute ou um bamba maioral.
Havia caminhões artesanais feitos de lata de óleo de cozinha reciclada e pneus de sandálias havaianas jogadas fora.
Tinha peteca confeccionada com palha de milho e penas de galinha. E cromos para os álbuns de figurinha e 'caixinhas de segredo', que se comprava sem saber o que vinha dentro.
Bonecas de pano e matéria plástica, que viravam os olhos quando colocadas na horizontal, brincando de dormir.
Havia também times inteiros de futebol de botão, piões de madeira e soldadinhos de chumbo sempre prontos para épicas batalhas.
O Rio Doce corria pertinho e havia chumbada, linha de nylon e anzóis de todos os tamanhos. E varas de pescar feitas de bambu e ubá. Além do chumbinho para as espingardas de pressão.
E um sortimento de bolinhas-de-gude - que no interior de Minas chamávamos de biroscas -, que parecia saído da arca de algum tesouro. Eu era muito ruim de birosca.
Na venda era possível comprar manivela feita de ripa de madeira, que era usada para dar linha aos papagaios e pipas. E papel em todas as cores, para a confecção daquelas magníficas aves de seda.
Para as donas de casa tinha anil de clarear a roupa, linhas de diversas espessuras, botões de vários tamanhos, agulhas, alfinetes e dedal.
Impossível não sentir o cheiro forte recendendo de um canto detrás da porta. Era lá que ficava o tambor de querosene, que muitas famílias usavam para alimentar os lampiões e lamparinas, que também eram vendidos ali.
O combustível era disponibilizado em vasilhames reciclados. A clientela humilde podia pedir corozena ou criozena, que dava no mesmo. O balconista não reparava.
Outros itens de odor desagradável eram a naftalina - eficaz no combate às traças - e a creolina, usada para curar 'bicheiras' em animais, desinfetar galinheiros ou eliminar as pulgas.
Havia detefon para as baratas e neocid para os piolhos, duas pragas que driblavam o extermínio.
Como contraponto tinha aqua velva, seiva de alfazema, trim para passar no cabelo, talco, pomada minâncora para o 'cecê' e assaduras, e o ortodoxo polvilho granado, antídoto para o chulé.
Em determinados lugares era comum encontrar fichas de telefone e pedras de isqueiro.
Canivete, palha e fumo de rolo eram comodidades obrigatórias nos armazéns.
Da barriga da geladeira Prosdócimo ou Cônsul saíam a milenar coca-cola, fanta, crush, grapette e mirinda, sempre geladinhas. E a garapa de cana, com sua tradicional cor de água de pé de andarilho.
A turma da birita era clientela pontual.
Aposentados, desocupados e trabalhadores em fim de expediente encostavam seus umbigos no balcão para uma branquinha da roça ou uma brahma chopp com véu de noiva. Como acompanhamento, um naco de chouriço de sangue, linguiça da roça ou um torresmo sequinho, daqueles que ficavam em sacos de estopa. Ali a prosa corria solta, discutiam as injustiças do futebol e os rumos da nação.
Uma das maiores atrações das vendas, no entanto, eram as cadernetas. Numa era pré-cartão de crédito e débito era comum os clientes levarem os produtos e 'pendurarem' a conta para ser quitada depois.
São páginas bonitas e simples de um tempo tão distante, que parece ter ocorrido em outra encarnação. O que não me impede de fechar os olhos e sentir cheiros, sabores, e escutar vozes e canções vindas do rádio do armazém. São pedaços de um período bonito de minha vida, memórias embrulhadas em papel de pão.

Sunday, November 5, 2017

Pequeno rascunho sobre as lonjuras


(Para José e Ana, tecelões de lonjuras) 



Os estrangeiros dizem que a saudade é um termo exclusivamente brasileiro. Eu não concebo que um finlandês não a sinta. Que um indiano não sofra dessas lonjuras. 
Talvez seja apenas uma questão semântica, mas não consigo olhar para uma pessoa, independente do seu lugar de origem, sem imaginar que dentro dela exista uma saudade. 
Saudade de pessoas e lugares. 
De um tempo bom em suas vidas. 
De um dia especial ou de um marco pessoal nas suas respectivas histórias.
O norte-americano fala apenas que 'sente falta', mas não seria essa falta, essa bolha dentro da carcaça peitoral, a saudade da qual nós, lusófonos, tanto sentimos e falamos?
Embora não haja nenhum estudo científico que comprove, este profundo estado de melancolia que às vezes nos acomete é parte do DNA humano. 
Por mais que alguns ainda não tenham encontrado a sua definição e que lhes falte a palavra exata, ela nasce no indivíduo e é guardada no coração, como aquele som que mora na barriga das caixinhas de música .
Ela pode ser um jardim, mas pode ser também um abismo.
E dorme abraçada ao amor.
É poesia e canção.
Mas pode ser autoflagelo.
Nostalgia e privação.
Ela é distância geográfica e física.
E é mote para muita inspiração.
Pode ser uma ocorrência em um tempo que passou e não voltará. Um amor correspondido, a pré-orfandade ou a pré-viuvez.
Pode ser um arrepio, um déjà vu.
Que fique bem claro: tempo e saudade são filhos do mesmo pai, mas não são irmãos.
A saudade é irmã da impossibilidade.
É prima da aflição.
Ela pode acontecer em decorrência de um amor de adolescência ou de uma paixão de verão.
Pode ser fantasma recorrente de alguém que passou e fez tocar um frevo dentro do peito, mas que se dissolveu na paisagem ou evaporou.
Pode fazer tocar um tango de pequenas ruínas ou grandes tragédias.
E decretar no minifúndio dos afetos um perene estado de desesperança. 
Dizem que a saudade e a solidão caminham de mãos dadas, mas posso garantir que podemos nos sentir sozinhos no meio de uma multidão. 
Não que a solidão não seja chão propício para essas vertigens. Isso é que não.
Ela pode ser uma dor fina, como a raiz exposta de um dente, incomodando, trucidando devagarinho. Em alguns momentos pode se tornar insuportável e pedir um uísque ou outro analgésico.
A saudade é alguém que passou, mas que continua "aqui".
Alguém que o destino prometeu, mas não veio, e que mesmo sem ter vindo não se foi completamente.
Ela pode ser um lugar que ficou no passado e que hoje, por mais que revisitado, já não é a mesma coisa.
Mudam os lugares, mudam as pessoas. E o reencontro nem sempre é feliz.
Saudade, que é nome de cemitério e de flor.
É rima em poema e prêmio de consolação.
Restou a saudade, dizem os tristes.
Pobres tristes...
Sentimos saudades até de nós próprios, ou não sentiríamos um aperto quando recordamos dos dias em que tudo podíamos e nada nos parecia impossível.
Há quem sinta saudade da vida de solteiro.
Da infância e adolescência, sem as preocupações que afligem os adultos.
Saudade de visitar um amigo, um almoço em família ou de passar férias num determinado lugar.
Confesso que sinto saudade.
Saudade de muitas coisas e de algumas pessoas.
Saudade, principalmente, do que ainda não vivi. 
Saudade de Casablanca e Havana, lugares que não fui. 
Saudade de caminhar de mãos dadas pelas ruas de Praga e de Granada, terra de García Lorca.
Saudade de tomar um café numa esplanada de Roma ou de colher um girassol na beira de uma estrada da Toscana, como me prometeu o destino.
Eu não consigo - e nem quero - esconder que ando sentido uma vertiginosa saudade do futuro. 

Monday, October 30, 2017

Um amarelo sem charme



No Brasil eles se vestem de amarelo. Um amarelo gema de ovo, que certamente não é o tom mais bonito na paleta de cores. Um dourado diferente daquele das penas dos canários e da camisa da seleção de futebol.
Se a ideia ao escolher o fardamento foi evocar um dos temas da bandeira nacional, poderiam ter elegido outro. 
O azul do céu brasileiro, talvez. 
Ou o verde das nossas matas. 
Mas não foi assim.
Não vemos muitas pessoas vestidas de amarelo pelas ruas. Trata-se de uma cor desprestigiada e que parece ainda não ter entrado na moda. Eu, que sou pouco afeito a modismos, não tenho uma única peça desta cor em meus gaveteiros. E é provável que você, que me lê, também não tenha.
Falemos dos indivíduos vestidos de amarelo.
Se o cão for realmente o melhor amigo do homem, os carteiros ficaram de fora da lista dos profissionais a gozar do benefício do afeto canino. São tão épicos os embates entre eles, que já renderam desastradas escaladas em muros e árvores, pernas de calças rasgadas e correspondências espalhadas pela rua.
Os cães odeiam os carteiros. 
Eu, não.
Eu os admiro. Gosto muito deles.
Muito antes da popularização dos telefones inteligentes e do surgimento da internet, eram eles os mensageiros dos nossos afetos e aflições, profissionais que gozavam da estima geral. 
Naquele tempo em que as pessoas se orgulhavam das caligrafias e treinavam os manuscritos em cadernos apropriados, as missivas eram testamentos do que ia pela cabeça, alma e coração de quem remetia. 
Era tão bom receber uma carta, com seus selos comemorativos homenageando heróis da história, esportistas, criaturas da fauna e da flora caprichosamente desenhados por artistas de grande talento. 
Era ainda mais especial aquela carta que vinha do estrangeiro, com envelope de moldura quadriculada em azul e vermelho, tatuada com as palavras 'par avion' ou  air mail', indicando que chegaram a bordo de  uma aeronave proveniente de uma terra estrangeira.
Não cheguei a ser um filatelista, no sentido bíblico, mas tinha o costume de guardar os selos das cartas que recebia.
Escrevi e recebi muitas. Centenas. Talvez milhares delas.
Era comum as pessoas trocarem cartas num 'virtualismo virtuoso' que tinha muito de intimidade e confiança. 
Como não evocar as célebres correspondências de Clarice Lispector e Manuel Bandeira, ou de Mário de Andrade e Tarsila do Amaral, registradas posteriormente em livros deliciosos de ler?
Onde cresci, o carteiro subia ou descia a rua com o seu alforje cheio de envelopes. Muito raramente, entregava algum pacote maior, algum presente.
Na ausência das campainhas de hoje, eles batiam palmas ao portão, muitas vezes gritando o nome do destinatário, anunciando a chegada de notícias. 
A entrega de uma carta vinha sempre carregada de suspense e emoção. 
Ela poderia trazer notícias boas ou ruins. 
Um sobrinho que nasceu na Bahia, por exemplo. Ou o convite para um casamento ou batizado em Porto Alegre; a formatura do filho de um amigo na distante América do Norte também poderia ocorrer, e por aí afora.  
As cartas de pai e mãe traziam o calor de um afago e sábios conselhos.
A de um amigo trazia a camaradagem, a partilha.
Mas as carta de amor...
Ah, as cartas de amor...
Não tenho dúvida de que elas foram inventadas pelo cupido em dia de grande inspiração.
Elas traziam sentimento e encanto, fotografias, promessa de amanhãs risonhos e recatado tesão. Não raro, carregavam o cheiro da colônia dele ou a marca do batom dela.
Muita gente se conheceu por carta e casou respaldado pelo que leu.
É como se ficasse atraído pelo interior da outra pessoa e não pelo que os olhos, nas condições presentes, veem.
Era como se tivessem tomado conhecimento um do outro 'do umbigo para fora', e não da 'figura' escancarada nas imagens dos vídeos dos computadores.
Os tempos agora são outros, sabemos, e o resultado visual do que pregam nas academias de ginástica se tornou mais importante do que a substância de um ensinamento de Nietzsche, ou um arrepio soprado ao ouvido por Drummond.  
Assim sendo, é natural que os carteiros tenham perdido tanto do encanto. A rapidez e praticidade de um e-mail - ou uma mensagem de voz num destes aplicativos de celular - transformaram as correspondências pessoais em objetos de museu.
Em seus alforjes, nossos homens de amarelo carregam mais peso, pacotes de encomendas compradas pela internet, contas de telefone e cartões de crédito, ou de água e luz. 
Se a cor de seus uniformes permanece intacta, a magia do ofício desbotou e apenas os cães da rua ainda não se aperceberam disto.


Monday, October 23, 2017

Menino passarinho



Vivi com o Ronilton Correa por quase cinco anos, quando cheguei aos Estados Unidos. 
Eu não sou fácil. Nunca fui. Mas o coração tranquilo do "Pitico", sua infinita generosidade e capacidade de relevar, propiciou que jamais tenhamos tido um único desentendimento ao longo daquele tempo (e nem depois). 
Nós nos tornamos irmãos, destes que escolhemos na contramão da 'obrigatoriedade' imposta pela genética.
Lembro-me do dia em que alugamos um porão na Hensler Street, um lugar inesquecível e onde eu viveria alguns dos anos mais bonitos de minha vida.
Apesar de termos residido em bairros vizinhos em Governador Valadaes, não nos conhecíamos de lá. Eu era colega de classe do seu irmão Artur, no Ginásio Duque de Caxias, e conhecia Ari, casado com uma de suas irmãs.
Quando decidimos dividir o aluguel, Pitico vivia em um quarto em cima do restaurante Rio Lima, na Madison Street. Marquei de me encontrar com ele após o expediente, que para nós ocorria sempre por volta da meia noite.
Nenhum dos dois possuia carro e tivemos que levar suas trenheiras (roupas, fitas cassetes, uma caixa de sapatos cheia de cartas da família) e pouco mais em sacolas de lixo pela Ferry Street. Quatro sacolas daquelas pretas, para ser exato.
Após despejarmos seus pertences no nosso covil, demos um pulo ao Path Mark e compramos pão, mortadela e fanta laranja. Comemos a nossa primeira refeição sentados no chão, haja vista que não tínhamos sequer um colchão para dormir.
Mobiliamos o porão com móveis encontrados no lixo e ficou super legal. Transformamos aquele lugar escuro e sem vida em um lar, com pôsteres de nossos ídolos nas paredes e onde se escutava muita música brasileira.
O primeiro investimento foi uma radiola, e nela escutávamos os bolachões que comprávamos na Coisa Nossa, a pioneira das lojas de produtos brasileiros em New Jersey.
Dividíamos as incertezas do futuro e nos tínhamos um ao outro. 
Não era fácil ser brasileiro a serviço de portugueses e espanhóis nos restaurantes daquele tempo. Havia contra o brasileiro muito preconceito, um estigma disseminado sabe lá Deus por quem, e tivemos que trabalhar dobrado para desfazer o  rótulo.
Chorávamos nossas dores de amores de juventude não correspondidos no ombro um do outro e sonhávamos em, um dia, irmos ao junto ao Brasil, tão logo nos legalizássemos.
Planejamos ir a shows de MPB em BH, tomar banhos de mar nas águas de Fortaleza, curtir baladas intermináveis onde houvesse baladas e beber uma brahma gelada, acompanhada de frango assado, daqueles de 'televisão de cachorro', no mercado municipal da Governador Valadares. Infelizmente a vida nos levou para lugares diferentes e não chegamos a realizar o sonho comum aos dois, apesar de sempre gravitarmos em torno de Newark.
Vivemos momentos muito especiais e cada pequena vitória pessoal era comemorada pelo outro como uma final de copa do mundo. Tenho muitas estórias para contar daquele tempo, algumas impublicáveis. Mas tem este episódio que relato a seguir, que demonstra bem o tipo de pessoa que era o Pitico.
Rolava no apartamento um cateado nos dias de folga. Jogávamos apostado uma moeda de 25 centavos por cada partida. Naquele dia, Pitico estava com sorte e eu não conseguia tirar as cartas que necessitava para vencer. Jogamos por cerca de seis horas seguidas e ele já havia me limpado em dez dólares. Inconformado, quis recuperar, propondo a ele um tudo ou nada, casando desafiadoramente uma nota de dez.
Pitico deu uma caçoada e aceitou, antes de me aplicar uma nova surra.
Mau perdedor, pedi que apostássemos os vinte ganhados e ele, com pena, topou.
E foi me vencendo, uma vez após a outra, até já ter acumulado 170 dólares, dos 220 semanais que eu ganhava lavando pratos na cozinha do O'Campino.
Fui dormir bêbado e falido. 
Na manhã seguinte, quando acordei ele já tinha saído para o trabalho. Em cima do meu criado-mudo estava um envelope contendo o dinheiro perdido por mim na jogatina da noite anterior e um bilhete contendo uma única palavra:
    "PATO!"
Há dois anos, Pitico descobriu que estava com câncer e lhe foi dado apenas um ano para viver. Ele não se conformou, fez de conta que não era nada com ele.
Desafiou a medicina, continuou respirando, sonhando com futuros bonitos e ainda viveria o dobro do tempo dado pelos médicos.
E viveu como sempre viveu, com intensidade e paixão. 
Viveu para acompanhar um pouco mais a trajetória dos filhos adolescentes.
Viveu para a caminhar um pouco mais ao lado de Márcia.
Viveu para ver e abraçar a primeira neta e se tornar penta-campeão da Copa do Brasil com o Cruzeiro, um dos seus grandes amores.
Viveu com a nobreza de sempre, sem reclamar das dores atrozes e das cruéis impossibilidades, e nos mostrou que a vida é bela e deve ser apreciada e vivida até o último suspiro, ainda que o inevitável fim tenha data marcada.
Na madrugada passada (22 de outubro), Pitico virou passarinho. Ele, que era leve e sempre soube voar.
Vou sentir demais a sua falta, meu menino.
Até um dia, Pitico.
Você continua vivo em mim e nos seus.


* Foto tirada em 1984, na Wilson Avenue, em Newark. Éramos jovens e acreditávamos na imortalidade.