Monday, September 4, 2017

Neste 11 de setembro


Como aconteceu no dia 8, no dia 9 e em muitos outros dias que o antecederam, o mundo irá acordar com o sol neste 11 de setembro.
No Tibete, um monge se levantará e fará sua primeira oração da manhã.
Em sua prece, pedirá à divindade que derrame sobre o mundo um manto de luz.
Luz para enxergar na escuridão da intolerância.
Luz para caminhar na retidão dos justos.
Luz para fazer transparecer as almas aflitas deste mundo.
Luz para aqueles que não conhecem outro caminho que não o do ressentimento.
Em Estocolmo, na civilizadíssima Suécia, uma moça loura como uma princesa viking, abrirá a janela para permitir que a brisa fresca de final de verão, entre em seu quarto e se espalhe pelos quatro cantos, trazendo fluidos bons.
Na Espanha, numa casa de pedra da Andaluzia, uma menina cigana cantará um canto místico, um canto gitano da mais pura magia.
Em Varadero, Cuba, uma senhora de setenta anos de idade, confidente dos Orixás, irá a uma cachoeira com uma oferenda de agradecimento.
Tranquila, entenderá a linguagem dos peixes e conversará com as plantas num idioma que só os graduados da umbanda sabem entender.
Numa savana do Quênia um grupo de meninos sairá correndo, peito nu de encontro ao vento, livres e leves, sentindo na pele uma carícia da natureza.
Nos pampas argentinos, um vaqueiro levará o seu gado para pastar num vale verdejante e o minuano soprará ao seu ouvido uma confidência:
- Algo de bom está acontecendo neste instante, aqui no lugar em que habitas.

No limite das duas Coreias, dois camponeses, um de cada lado da História, estarão sentados no espaço imaginário onde, provavelmente, foi desenhada a linha da fronteira e, juntos, dividirão um prato de comida.
Um padeiro francês, na volta de sua derradeira entrega da madrugada, esfacelará os pães que não foram vendidos no dia anterior, e os dividirá com os esquilos famintos da praça.
Numa igreja siciliana, um padre se porá de joelhos evocando a figura perene de Deus e, numa emocionada oração, pleiteará para que o Todo Poderoso derrame sua bondade sobre a humanidade, tocando a cada cidadão, independente de credo ou cor.
Nas ruas de Belfast, na Irlanda, um grupo de católicos e protestantes conversará normalmente, como se todo o ódio e amargura fizesse parte de um passado que deve ser esquecido.
Em Sidney, na Austrália, um aborígine trafegará pelas ruas da cidade sentindo-se parte daquele quadrado de concreto e progresso.
Na Cidade do Cabo, no extremo da África do Sul, negros e brancos estarão fazendo uma passeata pacífica, uma via-sacra de agradecimento pelo progresso obtido na convivência entre ambos nos últimos tempos. E pela promessa de harmonia de tempos que ainda hão de vir.
Juntos, combinarão que a palavra Apartheid será excluída do dicionário. E sairão dançando pela cidade como se fosse carnaval.
Num bairro distante da zona leste de São Paulo, um grupo de meninos jogará futebol durante o recreio escolar.
Uma moça bonita e bem vestida, saída provavelmente da capa de alguma revista de moda, auxiliará uma anciã a atravessar uma movimentada avenida londrina.
Em Santiago do Chile, um motorista mostrará ao turista suíço um grupo de mães numa praça do centro da cidade.
Ao contrário do canto de tristeza pelo desaparecimento de seus filhos durante a ditadura de Pinochet, hoje elas entoam uma marcha folclórica, saudando a chegada da colheita nos campos do país.
Numa mesquita da faixa de Gaza, um rapaz que queria ser homem-bomba muda de ideia e promete plantar um jardim.

Nesse mesmo instante, em Jerusalém, Benjamin Netanyahu receberá uma comitiva árabe para uma reunião que decretará um cessar-fogo definitivo.
E nós, que vivemos nas cercanias de Nova York, olharemos para o céu cristalino de setembro e nele não haverá nenhum sinal de perigo.
Apenas um bando de pombas brancas, sinalizando a existência de um mundo em paz.

Monday, August 28, 2017

Alô Sampa!



Estou muito feliz por ter fechado, hoje, o local de lançamento de Papoulas de Kandahar em São Paulo.

Será no dia 7 de Novembro, na belíssima livraria Blooks (Shopping Frei Caneca — Rua Frei Caneca, nº 569 – 3º Piso).
A noite fará parte do Sempre Um Papo (obrigado Afonso Borges!) na cidade e contará com a participação especialíssima de um amigo querido (surpresa, por enquanto), que certamente irá abrilhantar ainda mais a nossa noite.
Anuncio nos próximos dias detalhes das presenças em Goiânia, Poços de Caldas e FliAraxá.
Estou feliz.
Sei que estarei entre amigos.

Tuesday, August 22, 2017

Banquete animal



Célio Dimas Cordeiro da Silva: esse é o nome impresso na certidão de nascimento.
Nasceu em Governador Valadares e por lá deve estar vivendo.
Para sua mãe ele era Célio Dimas, e parecia sempre prestes a lhe passar um cerimonioso sabão:
- Célio Dimas, quem soltou o canário?
- Isto lá são horas de chegar em casa, Célio Dimas?
- Célio Dimas, você bebeu outra vez?
Para a turma na rua, no entanto, ele era Celim, um dos sujeitos mais divertidos que a vida já produziu.
Ficamos amigos no início dos oitenta, jovens e ingênuos. Nosso encontro era religiosamente dominical e, como tal, era chamado de missa.
- Te vejo na missa, domingo que vem.
- Combinado, o outro respondia.
O padre eu não sei quem era. Mas os santos de nossa devoção eram São Rafael, e São João da Barra, aquele "milagroso".
Eu era um dos viajantes na maionese de um certo Varal de Poesias, que acontecia todos os domingos na Feira Hippie da cidade.
Celim, por sua vez, vendia umas ‘tabuínhas’ em que desenhava a pirógrafo, motivos infantis e nomes de crianças.
Nós gritávamos "Óia o Varal"; ele respondia "Óia a ‘talbinha’".
Na saída, talbinhas (ou seria tabuínhas?) e varais saiam para beber cerveja.
E ficava-se ali no Bar Pedrão, as pernas esticadas na calçada, comendo pipoca com queijo ralado, olhando as moças passarem, as horas definhando na preguiça da tarde.
A medida que o tempo passava, a cerveja minguava nos copos, e apenas a incerteza de melhores dias transbordava das conversações. Muito injusto, o Brasil, pois aquele moço tinha muito talento. 
Era mestre da caricatura e do cartum, e criava personagens que dava pra montar uma Disneylândia só dele.
Ficávamos espantados com a firmeza de seus traços, levando em conta que ele tremia muito, como se sofresse do Mal de Parkinson. Excesso, talvez, de cachaça.
Celim não tinha um único osso maldoso em seu corpo.
Vim para os Estados Unidos e ele ficou por lá assinando uma charge no Diário do Rio Doce, diagramando textos e propagandas numa agência. Aos domingos, continuava vendendo ‘talbinhas’ na feira da Praça Serra Lima.
Anos depois recebi uma carta dele aqui em New Jersey. Estava vivendo na Califórnia, trabalhando com chicanos numa fábrica de fios de cobre.
Mandei uma resposta falando que queria fundar um jornal brasileiro. Dois meses depois ele apareceria por aqui, sócio da empresa, trazendo à tiracolo um esdrúxulo guarda-roupas, uma coleção de óculos de grau comprada num brechó.
Com a turma da República do Babujo vivemos dias e noites gloriosos, numa época em que esbanjávamos saúde e nossos fígados ainda resistiam.
Era o período do Scorpio’s, do grupo Brazilian Energy e dos shows de MPB na cidade. Fomos em todos eles: Gonzaguinha, Gilberto Gil, Alceu Valença, Sá & Guarabyra, Elba Ramalho, Fagner, Beto Guedes, Zé Ramalho... nossos ídolos.
Celim, como sempre, protagonizou estórias engraçadas, várias delas antológicas e nem sempre publicáveis, hoje temas de retóricas animadíssimas, toda vez que dois ou mais pensionistas do Babujo se encontram.
Era hilário vê-lo "traduzindo os diálogos da televisão americana para brasucas recém-chegados.
Ele, que não sabia nadinha de inglês, sentia-se na obrigação de traduzir a língua para os neófitos. E a todos enganava com seu sotaque estranho e palavras que inventava.
Recordo-me de uma noite em que ele não estava conosco no bar onde costumávamos nos encontrar. Havia ficado em casa dormindo.
Duas da manhã resolvemos retornar e, quando entramos na cozinha, o encontramos de pijama, com uma cara sonolenta, debruçado vorazmente sobre um prato contendo uma gororoba.
Sabedores de sua total inabilidade para cozinhar, tratamos de desvendar o que ele comia com uma boca tão boa.
Encontramos a resposta no cesto do lixo: uma lata da Purina.
Celim, que não soube o ler o que estava escrito na lata, tinha esquentado a comida de Rocky, o pastor alemão que meu irmão Toninho criava no quintal.
Para não comprometer o rebolado, Celim - que não perdia o amigo e nem a piada -, continuou jantando.
Ato contínuo, passou o que sobrou daquela noite sentado no parapeito da janela do quarto bebendo cerveja. Entre um gole e outro de budweiser, latia e uivava para a lua.

Friday, August 11, 2017

Assim se estreitam as margens do oceano


Esta é a segunda vez que vou à Europa mostrar um livro meu. A primeira foi em 2013, junto com o poeta Bispo Filho, divulgando “Meninos de São Raimundo”. Nós fomos muito bem recebidos em Portugal, Espanha e Inglaterra. Senti ali que ainda voltaria.
Quatro anos depois, retorno só, levando minhas Papoulas de Kandahar. Vou com o coração batendo miudinho, sabedor de que sentirei tremenda falta do Bispo Filho. Aquela viagem foi uma espécie de ponte, que nos irmanou novamente e levou a velha amizade a um lugar maior.
Começarei a pequena maratona pela Ilha de São Miguel, nos Açores. O livro será apresentado pela professora Leonor Sampaio Silva, no Instituto Cultural de Ponta Delgada, dia 7 de setembro. Trata-se de uma enorme responsabilidade, dada a importância e seriedade do trabalho desenvolvido naquela instituição. 
Na sequência, embarco para a Ilha da Madeira, que tem um dos aeroportos mais complicados do mundo. É público e notório o meu medo de avião e ainda não sei de qual uísque me valerei para chegar até lá. Mas é certo que chegarei.
Na ilha das flores terei uma agenda super agitada, com apresentação do livro em uma confraria de autores e recitadores madeirenses, na noite do dia 8 de setembro. No dia seguinte, 9 de setembro, terei contato mais direto com os madeirenses na livraria FNAC do Funchal.
Retorno à cidade do Porto na segunda-feira para um breve descanso e reminiscências. Rumarei em seguida em direção a Braga, que é uma espécie de segunda casa para mim. Na Bracara Augusta, o livro será apresentado pelos professores Jorge Pimenta e Margarida Figueiredo, amigos queridos e principais artífices de meu retorno ao Velho Continente. Acontecerá na Biblioteca Lúcio Craveiro de Souza, no dia 15 de setembro. 
Pegaremos a estrada bem cedinho, na manhã de sábado, rumo A Orense, na Galícia, onde um emocionado reencontro se anuncia. 
Caberá à escritora Concha Rousia e ao jornalista galego Joel Gomes a apresentação de Papoulas de Kandahar na cidade. A Arca da Noe, um centro cultural em uma taberna de Vilar de Santos nos receberá. Acabará em vinho, carinho, presunto e camarões ao alho esta nova passagem pela Península Ibérica.
Caso possam, compartilhem com os amigos, ajudem-me a divulgar este roteiro. Ficarei feliz em receber um abraço encomendado por qualquer um de vocês.
Admirável velho mundo, aí vou eu.
Grande beijo do 

Roberto

PS: Quero agradecer aos amigos Concha Rousia, Jorge Pimenta, Karla Alcântara, Eleonora Marino Duarte, Margarida Figueiredo e Joel Gomes por terem levantado esta bandeira e estreitado - com a força do amor e da amizade - as margens do Atlântico. 
São para vocês essas minhas papoulas.

Monday, August 7, 2017

O passageiro do silêncio



(Para José e Ana, no pra sempre e no jamais)

Tudo se torna um desassossego. A comida fica ruim, o apetite some. Os ponteiros do relógios são os maiores inimigos. Os dias não tem fim.
O local de trabalho se transforma em um campo de concentração e a casa fica do tamanho do Maracanã. As coisas perdem o sentido e reina a desordem.
Não há lugar no mundo para os que se desacertam, para os que se perdem do caminho por miudezas vãs.
A vida ensinará a dura lição do que é a tristeza.
E apontará o canto sombrio em que abraçará a solidão.
Mesmo que esteja rodeado por uma multidão, você se sentirá só. Miseravelmente só.
O sono evaporará e se mudará para outro código postal. E a cama se tornará imensa e fria, com seus lençóis de arame farpado e travesseiros de espinhos.
Os dèjavus se amontoarão.
O rosto dela se materializará na fumaça do cigarro ou no fundo de um copo de conhaque. Uma onipresença quase de Deus.
Assim como Einstein, que não sabia que a partir de sua teoria seria desenvolvida a bomba atômica, Deus não sabia que, quando inventou o silêncio, ele seria usado para magoar.
O silêncio é nuclear.
E o mundo, 'vasto mundo', vai se comprimindo, as paredes se fechando, tirando-lhe também o ar. Ficará difícil respirar.
O sol não voltará a brilhar amanhã, dirão-lhe os seus botões.
E nem depois de manhã.
Nunca mais, nunca mais, nunca mais, concluirá você.
Como se tornasse um cego, de repente, incapaz de ver a luz, você vegetará perenemente em um túnel sem fim.
É como se o carro tivesse acabado a gasolina no meio do nada.
Faltará combustível para seguir adiante, temerá.
A partir daqui, apenas a inércia, o carro parado no acostamento e a contagem modorrenta dos dias que ainda lhe restam. E nada mais.
É como se você fosse exilado em um país estrangeiro e não dominasse a língua.
E todos à sua volta falassem aramaico.
E tudo trouxesse a lembrança dela.
Como o casal que entra no táxi, a moça bebendo um capucino, o homem conversando com seu uísque no Café, nesta noite que cai sobre a cidade enchendo os bares de trabalhadores morrendo de sede e homens e mulheres no cio.
Os carros trafegam lentamente no engarrafamento e só a lembrança dela lhe fará companhia. Estão todos indo para uma grande festa em homenagem a ela.
Menos você.
Ela estará linda, com aquele vestido que você já despiu tantas vezes vindo de outras festas.
Ela, com o colar de pérolas que você presenteou. E os brincos tão sutis.
"Mudou o cabelo", você dirá.
"Remoçou".
Só você e a sua triste figura permanecerão inalterados.
O avião que cruza o céu está indo para Bruxelas, mas você acha que ele está indo para lá, onde se encontra o domicílio em que os telegramas são devolvidos e as cartas se extraviam.
O avião está indo para Dublin ou Milão.
Para a velha Lisboa.
Ou para Madri.
Mas você acha que ele está indo para Istambul, quando na verdade, o destino é outro. Tão outro.
Este avião está cruzando o céu em direção ao inferno. Está em piloto automático e você, cá de baixo, é seu único passageiro.

Monday, July 31, 2017

O abacateiro


(Ao Fábio Portugal)

Os amigos são os irmãos que escolhemos, diz o bordão. Acho isto fantástico. Costumo dizer que tenho os melhores amigos que o afeto pode comprar.
Meu pai tinha um entendimento muito peculiar das amizades dos filhos. Primeiro, procurava se aproximar, estudando - à partir de seus conhecimentos de policial militar - os hábitos e caráter de cada um. Para andar com os filhos de Seu Antônio tinha que ser boa bisca e não ter ficha na delegacia. 
Justiça seja feita, uma vez aprovado, o amigo seria tratado como se fosse filho legítimo. Era o começo de um caminho que, naturalmente, resultaria em um lugar cativo à mesa, um prato de comida e uma cama com cobertor.
E isto, junto a tantas outras coisas, faz com que eu me lembre de Seu Totoca (para os íntimos) com ternura. 
No decorrer dos anos, ele criou com meus camaradas um laço que já não dependia da minha presença. 
Em uma linguagem e formato diferentes eles tornavam-se amigos, com rituais e momentos só deles. É o caso de Fábio Portugal, por quem papai tinha grande apreço.
Fábio viveu muitos anos nos EUA, mas retornaria à sua Campinas em 2013. 
À partir da volta, todos os anos, quando eu ia visitar meus velhos em Belo Horizonte - sempre no mês de outubro, para coincidir com o aniversário de minha mãe -, ele se juntaria a nós.
Em um dado momento da estadia dele na casa, os dois rumavam para o quintal. 
Era uma coisa absolutamente deles, aquilo de passarem em vistoria por cada planta, cada canteiro, cada árvore daquele minifúndio.

"Não gosto de planta que só dá flor. É como certas pessoas, que só tem vaidade e boniteza e não saciam a fome de ninguém", repetia, como se o dissesse pela primeira vez.


Papai tinha orgulho de seus pés de manga. Mesmo aquele, logo à direita do portão e de onde ele caiu fazendo uma poda, aos 71 anos. 
A queda rendeu-lhe oito parafusos de titânio e um andar meio de banda. Ainda assim, ele cuidava daquela árvore com o mesmo carinho dedicado às demais.
Iam passando pela pitangueira, cheia de estrelas vermelhas e papai lhes enaltecia a doçura.
Elogiava as bananeiras, nanica, prata e ouro. 
Recitava os limoeiros como se fossem sonetos e olhava para o cume da caramboleira, como se procurasse estrelas em plena manhã.
Fruta-do-conde, jambeiro, bergamota, jabuticaba e até a touceira de cana caiana iam recebendo elogios, como se deles lhes dependesse o viço.   
Havia ainda um canteiro para ervas curandeiras e outro para as comestíveis. 
Papai explicava - de novo e de novo - que o boldo do chile era para o fígado e que a camomila acalmava, ajudava a dormir.
Iam até o canteiro de couves e cheiro verde. Ele quebrava uma folha de manjericão e a levava ao nariz do amigo, louvando o perfume.
Explicava que as avencas e bromélias eram coisas de minha mãe e apontava para a bougainvíllea se derramando para o outro lado do muro, queixando-se:

"Presente de grego. Tive que plantar", aludindo ao fato de eu ter aparecido em casa com a muda já sangrando umas flores boninas.

Moto perpétuo, quando chegavam ao abacateiro, já no final do trajeto, Fábio apontava para a copa toda florida e suspirava:

"É uma pena que no mês de outubro, ele só tenha flores, Seu Totoca."

Papai enchia o peito e respondia com ar solene:

"Volte em janeiro, que ele vai estar carregado de abacates e você pode pegar quantos quiser."

Seu Totoca morreria no dia 14 de janeiro deste ano e Fábio foi a Belo Horizonte prestar-lhe a derradeira homenagem.
Voltamos do velório por volta de duas da tarde e ele foi direto para o quintal. Voltaria de lá com os olhos marejados e dois abacates na mão. Visivelmente emocionado, justificou:


"Eu só quis dois."

Mas poderia ter pego quantos quisesse. Era essa a vontade de meu pai.

Wednesday, July 26, 2017

Memórias do Abcedário


(Para a Juliana Loyola)


Fui alfabetizado por uma velhinha que, diziam as más línguas, teria sido prostituta na juventude.
Baixinha, magra - daquelas bem ossudas - e de bigode, não consigo imaginar que tenha sido profissional do sexo.
Não teria sido das moças mais atraentes, a nossa dona Rita. Para piorar, tinha as pernas muito finas e peludas.
Como sei disto? Ora, ela me colocava para rezar, ajoelhado, diante da imagem de uma santa cujo nome me foge à lembrança. E eu via seus cambitos, quando ela se aproximava para anunciar o fim do castigo.
Não creio que seu método didático tenha funcionado comigo, pois até hoje tenho dificuldade de me lembrar quanto é sete vezes seis, o calcanhar de Aquiles nas arguições de tabuada.
Por mérito dela e medo meu (de rezar ajoelhado de novo e de novo e de novo), eu entrei no grupo escolar sabendo ler e escrever.
A primeira professora "oficial" chamava-se Dionete e me dei bem com ela. Terminei o ano com honras e só não gostava da hora da merenda, no recreio. 
A fila quilométrica de caneca plástica na mão para encarar uma gororoba - que chamavam de "triguilho" - não deixava tempo para brincar com a meninada.
Nas festas do Manoel Byrro eu fazia dupla com Maurício Zói de Gato, porque ele tinha os olhos azuis.
Nós cantávamos Era Um Garoto Que Como Eu Amava os Beatles e os Rolling Stones, do grupo Os Incríveis.
Começava ali uma carreira promissora na música.
Nosso palco era uma mesa de fundo bambo, suspeitíssimo e, na hora do refrão, imitávamos uma metralhadora com as mãos, apontando um para o outro e gritando ra-ta-ta-ta-ta-ta.
Ao final da performance, caíamos para trás, como que atingidos por balas vietnamitas. Choviam aplausos, mas como nosso repertório se resumia a uma única música, a platéia enjoou e terminou ali aquela promissora carreira musical.
Adultos, Maurício entraria para a polícia militar e eu viria lavar pratos nos Estados Unidos.
Cantar, para ambos, hoje, acho que nem no banheiro.
Quando completei oito anos minha família foi de mala e cuia para Barra do Cuieté, um lugarejo quase na divisa com o Espírito Santo e para onde meu pai havia sido transferido.
Vivemos lá durante um ano e meio e foi um período muito feliz de minha vida. Nadava na foz do Rio Caratinga com o Rio Doce, tomava banho de cachoeira, pescava e caçava passarinho.
E foi lá, no Grupo Escolar Maria Ortiz, que iniciei a 'trajetória nas letras'.
Todos os anos acontecia uma concorrida gincana em que os alunos tinham que executar tarefas que dariam os pontos para a sua equipe. Os vencedores iam em cima de um caminhão de leite a Conselheiro Pena  tomar sorvete e passear na pracinha.
Na tarefa de redação, cujo tema era "Meu brinquedo favorito", conquistei o ponto para a equipe azul ao enumerar os gols que faria (e não fiz) com a bola de futebol que minha tia Terezinha ainda haveria de me dar.
E aquele sorvete sentado num banquinha da Praça da Matriz em Conselheiro foi meu Jabuti, meu Nobel de literatura, meu Oceanos, meu Camões.
Era de creme, o prêmio.
E até hoje eu consigo sentir o seu gosto doce.


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Tuesday, July 18, 2017

Eu tinha muito de caminhoneiro em mim

 O ouvinte compra uma ficha telefônica e liga para a rádio. Na sequência, inicia um diálogo com o apresentador, que indaga algumas coisas a seu respeito. De onde ele é, com o que trabalha, perguntas recorrentes. Para fechar a conversa, o ouvinte pede uma canção e a dedica a alguém. 
Com a ajuda do apresentador - que emposta a voz e capricha nos floreios - ele chega ao ouvido e coração do homenageado:
"Alô, Dona Maria, sua filha Carmen dedica-lhe ‘Tranquei A Vida’, de Ronnie Von." 
As empregadas domésticas eram grandes apreciadoras desses programas. Os motoristas de praça e caminhão, também. O rádio de pilha era um grande companheiro, remédio eficaz no combate à solidão.
Rapazes apaixonados também telefonavam, e cada canção era uma espécie de rosa tremulando na mão.
"Para a Josiana, com votos de amor eterno do seu admirador secreto, 'Os Seus Botões', do rei Roberto Carlos."
"Para o José Carlos, da Drogaria Pague Menos, com o carinho da sua noiva Priscila, que oferece 'Lábios de Mel', na voz de Ângela Maria."
Às vezes dava até em casamento. Também atenuava mágoas e encerrava brigas entre casais. 
Quando isso?
Segunda metade do século passado, início dos anos 1970.
Eu era menino e tinha muito de caminhoneiro em mim. Cresci escutando rádio. Todas as noites levava o Philco portátil para a cama e esperava o programa Noturno, da Rádio Jornal do Brasil. Às 23h em ponto começava o deleite.
Dormia escutando Milton, Elis, Alceu, Belchior e Caymmi, o pai. 
E tinha Gonzaguinha e Gonzagão, Nara Leão, Edu Lobo, melodias de um terceiro Luiz e tantas baladas, sambas, bossas e chorinhos, que ficavam fazendo cosquinha em minhas orelhas até o sono chegar.
Não cheguei a pegar a fase de ouro do rádio, que reinou absoluto antes da chegada da televisão.
Não escutei Ary Barroso, que, além de comentarista esportivo e apresentador, era um talentoso compositor, autor de clássicos como “Aquarela do Brasil”, “No Tabuleiro da Baiana” e “Na Baixa do Sapateiro”. Com o primeiro concorreu ao Oscar de melhor canção-tema de filme. Era o rei do samba-exaltação.
Não convivi com Marlene e Emilinha, as rainhas de uma era que hoje parece inverossímil como os dinossauros.
Cheguei depois das novelas radiofônicas, que, como as partidas de futebol, ofereciam uma poderosa parceria em que a imaginação do ouvinte dava cores ao cenário onde as tramas ganhavam vida.
Imaginar um campo de batalha ou um Maracanã lotado em dia de Fla x Flu incendiava o imaginário do espectador, algo que acontecia naturalmente. Por mais que cada um enxergasse do jeito que quisesse, algo ali os irmanava, tornando-os iguais.
Os narradores inventavam bordões e verbetes, eram profetas de um tempo que parecia melhor. Cada partida de futebol era um espetáculo, um recital, como quis nos fazer crer Fiori Gigliotti, que começava as narrações decretando que se 'abrissem as cortinas' do velho Pacaembu.
Entre as lembranças ainda reverbera a Rádio Relógio, que passava o dia inteiro dando a hora certa. 
Sediada no Rio de Janeiro, ela ainda opera no dial AM, na frequência 580 kHz, mas rompeu há muito com as suas tradições. Conhecida por tocar ao fundo das suas transmissões a hora certa vinda do Observatório Nacional, hoje ela é mais uma ferramenta de divulgação da igreja do bispo RR Soares, o quarto pastor mais rico do país, segundo a revista econômica Forbes.
Não dá para falar de rádio no Brasil sem abordar aspectos nostálgicos.
Às seis da tarde, em ponto, era a hora do Ângelus.  
De dentro das casas vazava o som de um coral relembrando aos católicos, mediante meditação e orações, o momento da Anunciação - feita pelo anjo Gabriel à Virgem Maria - da concepção de Jesus Cristo, que diziam estar livre do pecado original. As ruas ganhavam um ar solene.
E tinha a famigerada “A Voz do Brasil”, que os empoderados militares tornaram obrigatória em todas as emissoras. Dessa época de tortura e ufanismo ficaram canções como “Você Também É Responsável” e “Eu te Amo, Meu Brasil”, dos irmãos cearenses Dom e Ravel, queridinhos dos generais.
Sem falar nos programas policiais, ainda hoje em voga, que relatavam o cotidiano das delegacias. Os boletins faziam escorrer sangue dos alto-falantes, saciando uma necessidade estranha da raça humana. 
Os noticiários, às vezes com fatos requentados de todas as partes do globo, eram temas de animadas conversas entre os homens e as mulheres daquele Brasil. Era comum alguém comentar um assunto e o interlocutor responder que "viu no rádio".
E tinha visto mesmo.

Thursday, July 6, 2017

Pequena sonata de impuro maldizer


onde havia uma
frase no muro
surgiu esse amargo de lima,
vestígios de serenata
e um buraco de bala.

no lugar do peito florindo
ficou essa trincheira,
um buquê de folhas secas,
odor de leite derramado
e o endereço errado
no carimbo dos correios.

ao invés
de um poema,
um desagravo.

No lugar 
onde bateu um dia
um coração
ela hasteou
uma bandeira pirata.

Monday, June 26, 2017

Antúrios



Quando o telefone silenciou
olhei em volta,
olhei para dentro
e vi o tamanho do caos.


Contabilizei
uma Hiroshima, duas Nagazakis
um  Columbine e três tsunamis
que chegaram varrendo tudo.


Duas fukushimas e um Chernobyl desabrocharam
no vaso de anturios;
nasceram trifoliums repens
entre os azulejos
e uvas com gosto amargo de lima
se espalharam pelos quartos.


Desde então, ficou este
coração radiotivo e burocrático
com cercas eletrificadas muito altas
e um hálito de tango brotando do chão.

Ontem, nasceram rosas de arame farpado,
 lírios de césio e mercúrio,
acácias que não disseram nada
e a visão de um sorriso de Marlene Dietrich.

Quando o telefone silenciou,
olhei em volta
olhei para dentro
e somente o seu perfume
persistiu.



(29 de julho de 2016)

Sunday, April 30, 2017

Pequeno mapa do medo



(Para Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes)


A ansiedade é a véspera do medo.
E o medo é um homem-bomba que vive dentro de nós.
Quando não domesticado, o medo pode se transformar em uma grave doença, péssima companhia que nos influencia e transtorna, e que nos leva a viver um lugar árido e frio, uma espécie de cidade pavimentada pela tristeza.
Sou defensor da tese de que em doses homeopáticas o medo pode até  jogar a nosso favor.
Ele pode demarcar limites benéficos e nos dar uma sensação – nem sempre verdadeira - de segurança.
Na infância eu tive um amiguinho que tinha medo de borboletas. Foi o primeiro caso de motefobia de que tive notícia.
A borboleta que enfeitava a primavera e que pousou em flores o aterrorizava. Vista por seus olhos microscópicos ela era um monstro horrendo e que só ele via.
Ele percebeu, ali, que de perto ninguém é perfeito. Ninguém é tão bonito. Ninguém.
Naqueles mesmos dias passariam por mim a mula-sem-cabeça e o lobisomem. E eu sobrevivi.
E eu ainda temia o caboclinho d’água, uma lenda do rio que corria pela minha infância.
Por isto nunca pescava sozinho.
Veio daí essa tendência gregária - já adulto-, esse hábito de só andar em bando.
A vida tem tantos outros medos, constataria, à medida que molhava os pés em suas águas.
Mais medos do que certezas, concluiria.
Medo da cuca, que vem pegar.
Medo de andar de avião.
Medo de andar.
Medo de lugares fechados.
Medo de o elevador despencar.
Medo de dirigir um automóvel.
Medo de entrar na multidão.
Medo do escuro, da chuva, do relâmpago e do trovão.
Medo da violência urbana, de parar no sinal de trânsito e ver aproximar aquele motoqueiro com um garupa.
Medo de seguir em frente.
Medo do pivete, do sequestrador-relâmpago e das polícias.
Medo das milícias.
Estereotipamos, já perceberam? É o medo nos manipulando.
Temos medo de qualquer um. Às vezes temos medo de nós próprios.
Medo. Muito medo.
Medo de cair para a segunda divisão.
Medo de cair e não levantar.
Medo da mão pesada de Deus.
O tal temor a Ele, anunciado nas escrituras.
Medo de morrer e ir para o inferno.
Da chapa quente do inferno, do chifrudo de olhos vermelhos e seu tridente pontiagudo.
Estereotipamos.
Medo do fracasso.
Medo de broxar.
Medo de arriscar, mesmo sabendo que quem não arrisca, não petisca.
Medo da libertação.
Medo da autonomia.
Ablutofobia, Acrofobia, Belonefobia, Bienofobia, Claustrofobia, Lalofobia, Lactofobia, Motefobia, Nasofobia, Queimofobia, Tafefobia e Xenofobia.
Tudo é medo, medo, medo, como cantou o cearense Belchior, em Pequeno Mapa do Tempo.
E existem muitos outros, comprova a ciência.
O pior de todos, no entanto, é o medo de ser feliz.
Posso garantir e passar recibo, meus amigos, que não existe medo pior.



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* Pequeno Mapa do Medo é o nome de meu próximo livro e será dedicado à memória de Belchior e a José e Ana, dois amigos de Minas Gerais.

Monday, April 17, 2017

Porque eu também sou mãe


Eu entendo a sua dor porque também sou mãe. 
Assim como você, eu sou aquela que esperou com ansiedade a chegada deste filho que encheu a casa de felicidade quando nasceu.
Se ele foi o primeiro, se foi o único, pouco importa.
Para uma mãe todos os filhos são únicos, todos são o primeiro, todos são iguais no amor que ela sente desde o momento em que nasce.
Uma mãe começa a amar o filho antes mesmo de sua chegada, naquilo que o guarda dentro da barriga e por ele espera.
E eu o guardei e desejei que nada lhe faltasse, que nada (nunca!) lhe doesse, que nada lhe afligisse desde que respirou fora de mim pela primeira vez.
E eu o amamentei até que ele não precisasse mais do meu leite.
Estive com ele nas noites de febre, trocava suas fraldas, saciava fome e sede e o acompanhei enquanto ele crescia.
Caía a noite e eu ficava olhando para aquele menino bonito, a face inocente descansando de nadas, e desejando que ele tivesse um sono tranquilo, cheio de sonhos leves.
Eu implorava para que ventos ligeiros levassem para longe dali os eventuais pesadelos.
Vi quando ele deu os primeiros passos e quando perdeu o primeiro dentinho.
Ainda guardo na memória cada pedacinho dele, a imagem no porta-retratos, o sorriso ingênuo, o olhar de ave, o cabelinho de nuvem.
Eu estive sempre com o meu menino.  (E gostaria de ter estado mais, mesmo depois que ele cresceu.)
Eu quis para ele futuros brilhantes, tão maiores e melhores que o meu.
Quis que ele salvasse vidas como um médico, que educasse o mundo como um professor, que fosse piloto de avião, artista ou atleta profissional.
Que ele fosse o que escolhesse ser. Acima de tudo, que ele fosse feliz.
Portanto, eu sou aquela que não sabe onde errou e que preferia que tudo fosse de outra maneira.
Eu sou a mãe daquele menino que se tornou rapaz e se perdeu de mim.
Aquele menino que foi adotado pelo crime e que hoje chama a violência de senhora.
E é por isto que entendo a sua dor de mãe, que teve a trajetória do seu filho interrompida pelo meu.
Sou a mãe do pivete que lhe assalta fumado de crack e que coloca a sua história de cidadão a um clique de revólver, a sua vida por um triz.
Sou a mãe do homem-bomba que entra num mercado e leva dezenas de inocentes com ele, sabe lá Alá para onde.
Sou a mãe do sequestrador que lhe priva dos seus, daquele que pede resgate e que talvez nem devolva o que não lhe pertence, o que nunca lhe pertenceu.
Eu sou a mãe de Mark Chapman, aquele jovem que matou John Lennon e roubou do mundo a luminosidade de novas canções.
Apareço como genitora na certidão de nascimento de Charles Manson.
Osama Bin Laden me chama de mãe.
Meu DNA está em Hitler, em Franco, em Gaddafi e Sadam Hussein.
Está nos policiais dos grupos de extermínio da Baixada Fluminense e nos estropiados do Talibã.
Está nas artérias de George Bush, nos cabelos de Manuel Noriega e na arcada dentária de outro tirano qualquer.
Meu filho é aquele que entra no cinema vestido de Batman e abre fogo contra inocentes, filhos de outras mulheres como você.
Eu sou a mãe de todos estes meninos enlouquecidos que se armam até os dentes e promovem carnificinas nos Colombines e Realengos desta vida.
Portanto, pode chorar nos meus ombros que eu entendo a sua dor, minha senhora. Entendo, porque também sou mãe.
E porque toda vez que um filho meu mata o seu, eu morro um pouquinho junto com os dois.


* Foto de Osama Bin Laden na infância.

Thursday, March 30, 2017

Pequenas memórias


Eu, que hoje entendo muito pouco de quase nada, naquele tempo entendia menos ainda.
Usava calças-curtas e cantava o hino nacional na escola, todos os dias, antes do começo das aulas.
Eu era um menino católico – como quase todos os outros – que emprestava a voz a um Padre Nosso capenga.
Não, eu não sabia melhor. Eu não sabia.
Como um mestre-sala mirim, desfilava com uma legião de soldadinhos de carne e osso ao som de marchas militares. Era sete de setembro, feriado nacional.
Às vezes um tanque de guerra abria o caminho, e aquilo era imponente e intimidador.
No palanque, sorriam homens com estrelas nos ombros, roupas engomadas e sapatos lustrosos.
No rádio de ondas curtas, Dom e Ravel cantavam que aquele era o lugar dos patriotas, dos amantes do país.

“Eu te amo meu Brasil, eu te amo
Meu coração é verde, amarelo, branco e azul anil
eu te amo, meu Brasil, eu te amo
ninguém segura a juventude do Brasil”.

A infância fedia, inocente.
Meninos e meninas não tinham consciência do que se passava. No interior do interior do Brasil, éramos pequenos demais para tomar conhecimento de que os descontentes desapareciam em úmidos porões.
Eu não sabia que o País do Futuro, naquele presente, não passava de mais uma republiqueta das bananas da América Latina.
Eu era um passarinho engaiolado e não o sentia. Faço parte da geração que foi uma das mais sacrificadas desde que Pero Vaz de Caminha escreveu uma carta ao rei de Portugal.
Formamos a geração perdida, a que descobriu o caminho da emigração e despachou brasileirinhos e brasileirinhas para os quatro cantos do mundo.
Estamos instalados entre os aborígenes da Austrália, os malditos chicanos e os brasiguaios de algum lugar tão miserável quanto o nosso.
Somos os subalternos, os estafetas, os contínuos.
Somos os decasseguis, os brasucas, os expatriados.
Somos aqueles que batem continência, os que abrem as portas dos carros e dos hotéis; os que guardam o veículo e a casa alheia; os que se conformam com a sorte menor.
Somos os que lavam os pratos; os que limpam o chão.
Somos os que higienizam os cadáveres nos necrotérios no Harlem e no Bronx.
Os que passeiam os cães das madames no Hyde Park.
Os que servem à mesa nos bistrôs de Saint Germain.
Os que cozinham.
Os que ralam.
Exceções?
É claro que as há, como em toda regra criada pelo homem-lobo-do-homem.
Mas não somos páreo para os de antes, nem para os de depois da década de 1960.
Nós somos os de durante.
Somos os zés e marias-ninguém deste gigante fincado nas Américas.
No grande esquema das coisas, somos os ‘desinfluentes’, quase sempre fedendo a suor e picotando o cartão de ponto em algum lugar do mundo.

Sunday, March 26, 2017

Desassossego na bagagem



(Para Jorge Pimenta, que rabisca fotografias com seu olho lírico)


O que trarei na bagagem desta minha viagem?
Trarei as luzes derramadas sobre a ribeira?
Trarei a ribeira do D’Ouro e suas águas a um passo da foz?
Trarei barcos carregado de pipas? 
Uma janela da torre dos Clérigos e a proteção do anjo apinhado de pombas no topo do hospital Santo Antônio?
Trarei uma lua cheia? 
Trarei estrelas nortenhas? 
Azulejos?
Trarei as vielas estreitas desta cidade, como aquelas transportadas em nuvens para as vilas portuguesas da Minas Gerais colonial?
Sim, porque existe muito do lugar de onde venho neste lugar que visito pela primeira vez.
Existe um bairrismo, um orgulho ingênuo, um sotaque distinto e uma quase doçura na voz.
Existem ladeiras que sobem e descem, mercados permeados por um burburinho e vozerio que ecoam de dentro dos cafés e tascas espalhados por todos os cantos, dentro de mim.
É manhã na cidade do Porto e, no que chego, chove turvando a visão diante de uma paisagem que nunca vi.
Lanço o olhar-turista sobre pessoas e coisas com a sede dos que tem sede, com a fome dos que tem fome.
Chego e sou bem acolhido já à entrada, sentindo-me imediatamente em casa.
Eu, que caminho por essas ruas como se fossem minhas.
Eu, que sou afeito a intuir e a intuir somente.
Eu, que só sei sentir, intuo que trarei desta cidade, quando retornar ao lugar que chamo casa, as cenas épicas dos painéis da estação de São Bento.
Trarei a conversa intimista do motorista do táxi.
Trarei tripas à moda do Porto, alheiras de Mirandela, tremoços e sarabulhos.
Trarei romãs e dióspiros.
Trarei o gosto picante do molho da francesinha degustada numa transversal da rua onde as putas fazem ponto quando a noite cai sobre a cidade.
Trarei poemas de Eugénio de Andrade e textos de Valter Hugo Mãe.
Trarei um solo da guitarra de Rui Veloso e uma pedaço de toucinho do céu, fatiado das páginas do menu do Dom Tonho.
Trarei os muros e paredes pichados, espirrados da fúria de um povo que não se dobra ou aceita as injustiças que ainda persistem.
Trarei o doce-azedo das uvas que espremeram para fazer o vinho que embriagou e irmanou todos nós, durante a estada.
O calor dos abraços que entreguei e recebi, mais que em dobro.
Trarei na mala o luto das mulheres que trafegam pelas ruas, como se ainda vivêssemos num século distante.
Trarei um olhar de adeus diante do mar.
Trarei tradição.
Trarei o peso da história e um pedaço dela, impregnado, essa tatuagem nas retinas.
Trarei uma travessia à pé da ponte Dom Luís I.
Trarei as canções de um concerto que reverbera, ainda, como se estivessem frescas como as laranjas dos pomares que adornam o norte de Portugal.
Trarei um livro retirado do acervo da livraria Lello, que é uma espécie de relicário das palavras, um dos lugares mais bonitos que meus olhos já viram.
E farei o caminho de volta como quem atravessa um abismo.
Porque o oceano Atlântico é um abismo que separa os dois continentes e impede um abraço.
E eu cumprirei duas vezes este percurso numa agonizante jornada.
Nas despedidas, ficará o refrão de um fado.
No coração, o desassossego dos que deixam para trás um pedaço grande da alma.
Ainda assim, ficará a sensação de que levo muito mais do que deixo nesta cidade, neste país.


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Thursday, March 23, 2017

PAPOULAS DE KANDAHAR - Roteiro de lançamento


Roteiro de lançamento do livro
Espero vê-lo nesta minha caminhada 
de divulgação do livro.
Clique na foto para ver a lista de cidades 
que nos receberão durante 2017.
Compartilhe em suas redes sociais, caso possa.

Monday, March 20, 2017

A caixa lilás (II)


(Segunda parte)

Ela perambula pela memória do bisavô mascate, um homem de gestos doces e que lhe emprestou os lamentos árabes com que demarcaria o terreno, riscaria o chão. 
Seu coração foi futuro do pretérito imperfeito, mas ela não percebeu. 
Desvendou o mistério de transformar o inverno da vida em verão. Até que, um dia, decidiu que o inverno continuaria sendo inverno, apagando o sol com a ponta dos dedos, como quem apaga uma vela de sete dias.
E aí decidiu pintar a caixa de segredos. Escolheu a cor lilás, que é a cor com que forram o fundo dos caixões onde os humanos guardam os seus mortos. 
E dentro desta caixa foi colocando todos aqueles pedacinhos seus.
Guardou o irmão que escreve poemas e a mãe que tece cachecóis.
Colocou-os, em um cantinho, junto com o pai de alma cigana e coração burocrático.
Pôs junto deles o livro com o nome da indiazinha a quem daria vida, fazendo sorrir Darcy Ribeiro.
Na sequência, foi colocando, pouco a pouco, sentimentos e coisas que, distraída, recolheria pelo chão:
Um pingente de coração com a flecha de um símbolo do zodíaco.
A fotografia de um pedaço de pedra onde o mar virou sertão.
Abraços em praças públicas e beijos nos quartos da casa de João.
Amontoou gozos, frenesis de música e poesia, delírios arrancados com fórceps.
Guardou contos de Eça, romances de Mia Couto e poemas perfumados de Drummond.
Empilhou tangos cansados, um trevo de quatro folhas e um pequeno mapa do medo. 
Emendou pedaços de cantos do mundo com o sorriso de Mick Jaeger.
Incendiou flamboyants.
Acondicionou remédios que talvez curassem males menores, mas que se recusou a tomar. 
Pegou um escapulário incapaz de um milagre, livros que jamais vai ler e canções que não irá escutar.
Roupas que nunca serviram, cuidados que rejeita e rejeitará, flores que não dão enfeite e duas papoulas de Kandahar.
Não achou os diamantes de mentirinha e a miniatura de uma Mercedes Benz. 
Vez por outra, abre a caixa e fica olhando os objetos espalhados entre os pontos de interrogação que inventou.
Deste rosário de inutilidades recende o perfume masculino que insiste em não evaporar.
Sempre que ela tem que mexer nesta caixa sente um arrepio de medo. Muito medo.
Medo, principalmente, de ter trocado os pés pelas mãos.
Ela sabe que dentro deste baú adormecem finais felizes em Casablanca, sabonetes embrulhados em papel de seda, a abolição dos mal-entendidos deste mundo e dois passos de um bolero inacabado.
E ela começa a dançar sozinha pela sala do apartamento de décimo terceiro andar.
Ela dança. Ela dança...
Dá dois passinhos para lá.
E mais dois passinhos para cá.