Tuesday, July 18, 2017

Eu tinha muito de caminhoneiro em mim

 O ouvinte compra uma ficha telefônica e liga para a rádio. Na sequência, inicia um diálogo com o apresentador, que indaga algumas coisas a seu respeito. De onde ele é, com o que trabalha, perguntas recorrentes. Para fechar a conversa, o ouvinte pede uma canção e a dedica a alguém. 
Com a ajuda do apresentador - que emposta a voz e capricha nos floreios - ele chega ao ouvido e coração do homenageado:
"Alô, Dona Maria, sua filha Carmen dedica-lhe ‘Tranquei A Vida’, de Ronnie Von." 
As empregadas domésticas eram grandes apreciadoras desses programas. Os motoristas de praça e caminhão, também. O rádio de pilha era um grande companheiro, remédio eficaz no combate à solidão.
Rapazes apaixonados também telefonavam, e cada canção era uma espécie de rosa tremulando na mão.
"Para a Josiana, com votos de amor eterno do seu admirador secreto, 'Os Seus Botões', do rei Roberto Carlos."
"Para o José Carlos, da Drogaria Pague Menos, com o carinho da sua noiva Priscila, que oferece 'Lábios de Mel', na voz de Ângela Maria."
Às vezes dava até em casamento. Também atenuava mágoas e encerrava brigas entre casais. 
Quando isso?
Segunda metade do século passado, início dos anos 1970.
Eu era menino e tinha muito de caminhoneiro em mim. Cresci escutando rádio. Todas as noites levava o Philco portátil para a cama e esperava o programa Noturno, da Rádio Jornal do Brasil. Às 23h em ponto começava o deleite.
Dormia escutando Milton, Elis, Alceu, Belchior e Caymmi, o pai. 
E tinha Gonzaguinha e Gonzagão, Nara Leão, Edu Lobo, melodias de um terceiro Luiz e tantas baladas, sambas, bossas e chorinhos, que ficavam fazendo cosquinha em minhas orelhas até o sono chegar.
Não cheguei a pegar a fase de ouro do rádio, que reinou absoluto antes da chegada da televisão.
Não escutei Ary Barroso, que, além de comentarista esportivo e apresentador, era um talentoso compositor, autor de clássicos como “Aquarela do Brasil”, “No Tabuleiro da Baiana” e “Na Baixa do Sapateiro”. Com o primeiro concorreu ao Oscar de melhor canção-tema de filme. Era o rei do samba-exaltação.
Não convivi com Marlene e Emilinha, as rainhas de uma era que hoje parece inverossímil como os dinossauros.
Cheguei depois das novelas radiofônicas, que, como as partidas de futebol, ofereciam uma poderosa parceria em que a imaginação do ouvinte dava cores ao cenário onde as tramas ganhavam vida.
Imaginar um campo de batalha ou um Maracanã lotado em dia de Fla x Flu incendiava o imaginário do espectador, algo que acontecia naturalmente. Por mais que cada um enxergasse do jeito que quisesse, algo ali os irmanava, tornando-os iguais.
Os narradores inventavam bordões e verbetes, eram profetas de um tempo que parecia melhor. Cada partida de futebol era um espetáculo, um recital, como quis nos fazer crer Fiori Gigliotti, que começava as narrações decretando que se 'abrissem as cortinas' do velho Pacaembu.
Entre as lembranças ainda reverbera a Rádio Relógio, que passava o dia inteiro dando a hora certa. 
Sediada no Rio de Janeiro, ela ainda opera no dial AM, na frequência 580 kHz, mas rompeu há muito com as suas tradições. Conhecida por tocar ao fundo das suas transmissões a hora certa vinda do Observatório Nacional, hoje ela é mais uma ferramenta de divulgação da igreja do bispo RR Soares, o quarto pastor mais rico do país, segundo a revista econômica Forbes.
Não dá para falar de rádio no Brasil sem abordar aspectos nostálgicos.
Às seis da tarde, em ponto, era a hora do Ângelus.  
De dentro das casas vazava o som de um coral relembrando aos católicos, mediante meditação e orações, o momento da Anunciação - feita pelo anjo Gabriel à Virgem Maria - da concepção de Jesus Cristo, que diziam estar livre do pecado original. As ruas ganhavam um ar solene.
E tinha a famigerada “A Voz do Brasil”, que os empoderados militares tornaram obrigatória em todas as emissoras. Dessa época de tortura e ufanismo ficaram canções como “Você Também É Responsável” e “Eu te Amo, Meu Brasil”, dos irmãos cearenses Dom e Ravel, queridinhos dos generais.
Sem falar nos programas policiais, ainda hoje em voga, que relatavam o cotidiano das delegacias. Os boletins faziam escorrer sangue dos alto-falantes, saciando uma necessidade estranha da raça humana. 
Os noticiários, às vezes com fatos requentados de todas as partes do globo, eram temas de animadas conversas entre os homens e as mulheres daquele Brasil. Era comum alguém comentar um assunto e o interlocutor responder que "viu no rádio".
E tinha visto mesmo.

Thursday, July 6, 2017

Pequena sonata de impuro maldizer


onde havia uma
frase no muro
surgiu esse amargo de lima,
vestígios de serenata
e um buraco de bala.

no lugar do peito florindo
ficou essa trincheira,
um buquê de folhas secas,
odor de leite derramado
e o endereço errado
no carimbo dos correios.

ao invés
de um poema,
um desagravo.

No lugar 
onde bateu um dia
um coração
ela hasteou
uma bandeira pirata.

Monday, June 26, 2017

Antúrios



Quando o telefone silenciou
olhei em volta,
olhei para dentro
e vi o tamanho do caos.


Contabilizei
uma Hiroshima, duas Nagazakis
um  Columbine e três tsunamis
que chegaram varrendo tudo.


Duas fukushimas e um Chernobyl desabrocharam
no vaso de anturios;
nasceram trifoliums repens
entre os azulejos
e uvas com gosto amargo de lima
se espalharam pelos quartos.


Desde então, ficou este
coração radiotivo e burocrático
com cercas eletrificadas muito altas
e um hálito de tango brotando do chão.

Ontem, nasceram rosas de arame farpado,
 lírios de césio e mercúrio,
acácias que não disseram nada
e a visão de um sorriso de Marlene Dietrich.

Quando o telefone silenciou,
olhei em volta
olhei para dentro
e somente o seu perfume
persistiu.



(29 de julho de 2016)

Sunday, April 30, 2017

Pequeno mapa do medo



(Para Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes)


A ansiedade é a véspera do medo.
E o medo é um homem-bomba que vive dentro de nós.
Quando não domesticado, o medo pode se transformar em uma grave doença, péssima companhia que nos influencia e transtorna, e que nos leva a viver um lugar árido e frio, uma espécie de cidade pavimentada pela tristeza.
Sou defensor da tese de que em doses homeopáticas o medo pode até  jogar a nosso favor.
Ele pode demarcar limites benéficos e nos dar uma sensação – nem sempre verdadeira - de segurança.
Na infância eu tive um amiguinho que tinha medo de borboletas. Foi o primeiro caso de motefobia de que tive notícia.
A borboleta que enfeitava a primavera e que pousou em flores o aterrorizava. Vista por seus olhos microscópicos ela era um monstro horrendo e que só ele via.
Ele percebeu, ali, que de perto ninguém é perfeito. Ninguém é tão bonito. Ninguém.
Naqueles mesmos dias passariam por mim a mula-sem-cabeça e o lobisomem. E eu sobrevivi.
E eu ainda temia o caboclinho d’água, uma lenda do rio que corria pela minha infância.
Por isto nunca pescava sozinho.
Veio daí essa tendência gregária - já adulto-, esse hábito de só andar em bando.
A vida tem tantos outros medos, constataria, à medida que molhava os pés em suas águas.
Mais medos do que certezas, concluiria.
Medo da cuca, que vem pegar.
Medo de andar de avião.
Medo de andar.
Medo de lugares fechados.
Medo de o elevador despencar.
Medo de dirigir um automóvel.
Medo de entrar na multidão.
Medo do escuro, da chuva, do relâmpago e do trovão.
Medo da violência urbana, de parar no sinal de trânsito e ver aproximar aquele motoqueiro com um garupa.
Medo de seguir em frente.
Medo do pivete, do sequestrador-relâmpago e das polícias.
Medo das milícias.
Estereotipamos, já perceberam? É o medo nos manipulando.
Temos medo de qualquer um. Às vezes temos medo de nós próprios.
Medo. Muito medo.
Medo de cair para a segunda divisão.
Medo de cair e não levantar.
Medo da mão pesada de Deus.
O tal temor a Ele, anunciado nas escrituras.
Medo de morrer e ir para o inferno.
Da chapa quente do inferno, do chifrudo de olhos vermelhos e seu tridente pontiagudo.
Estereotipamos.
Medo do fracasso.
Medo de broxar.
Medo de arriscar, mesmo sabendo que quem não arrisca, não petisca.
Medo da libertação.
Medo da autonomia.
Ablutofobia, Acrofobia, Belonefobia, Bienofobia, Claustrofobia, Lalofobia, Lactofobia, Motefobia, Nasofobia, Queimofobia, Tafefobia e Xenofobia.
Tudo é medo, medo, medo, como cantou o cearense Belchior, em Pequeno Mapa do Tempo.
E existem muitos outros, comprova a ciência.
O pior de todos, no entanto, é o medo de ser feliz.
Posso garantir e passar recibo, meus amigos, que não existe medo pior.



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* Pequeno Mapa do Medo é o nome de meu próximo livro e será dedicado à memória de Belchior e a José e Ana, dois amigos de Minas Gerais.

Monday, April 17, 2017

Porque eu também sou mãe


Eu entendo a sua dor porque também sou mãe. 
Assim como você, eu sou aquela que esperou com ansiedade a chegada deste filho que encheu a casa de felicidade quando nasceu.
Se ele foi o primeiro, se foi o único, pouco importa.
Para uma mãe todos os filhos são únicos, todos são o primeiro, todos são iguais no amor que ela sente desde o momento em que nasce.
Uma mãe começa a amar o filho antes mesmo de sua chegada, naquilo que o guarda dentro da barriga e por ele espera.
E eu o guardei e desejei que nada lhe faltasse, que nada (nunca!) lhe doesse, que nada lhe afligisse desde que respirou fora de mim pela primeira vez.
E eu o amamentei até que ele não precisasse mais do meu leite.
Estive com ele nas noites de febre, trocava suas fraldas, saciava fome e sede e o acompanhei enquanto ele crescia.
Caía a noite e eu ficava olhando para aquele menino bonito, a face inocente descansando de nadas, e desejando que ele tivesse um sono tranquilo, cheio de sonhos leves.
Eu implorava para que ventos ligeiros levassem para longe dali os eventuais pesadelos.
Vi quando ele deu os primeiros passos e quando perdeu o primeiro dentinho.
Ainda guardo na memória cada pedacinho dele, a imagem no porta-retratos, o sorriso ingênuo, o olhar de ave, o cabelinho de nuvem.
Eu estive sempre com o meu menino.  (E gostaria de ter estado mais, mesmo depois que ele cresceu.)
Eu quis para ele futuros brilhantes, tão maiores e melhores que o meu.
Quis que ele salvasse vidas como um médico, que educasse o mundo como um professor, que fosse piloto de avião, artista ou atleta profissional.
Que ele fosse o que escolhesse ser. Acima de tudo, que ele fosse feliz.
Portanto, eu sou aquela que não sabe onde errou e que preferia que tudo fosse de outra maneira.
Eu sou a mãe daquele menino que se tornou rapaz e se perdeu de mim.
Aquele menino que foi adotado pelo crime e que hoje chama a violência de senhora.
E é por isto que entendo a sua dor de mãe, que teve a trajetória do seu filho interrompida pelo meu.
Sou a mãe do pivete que lhe assalta fumado de crack e que coloca a sua história de cidadão a um clique de revólver, a sua vida por um triz.
Sou a mãe do homem-bomba que entra num mercado e leva dezenas de inocentes com ele, sabe lá Alá para onde.
Sou a mãe do sequestrador que lhe priva dos seus, daquele que pede resgate e que talvez nem devolva o que não lhe pertence, o que nunca lhe pertenceu.
Eu sou a mãe de Mark Chapman, aquele jovem que matou John Lennon e roubou do mundo a luminosidade de novas canções.
Apareço como genitora na certidão de nascimento de Charles Manson.
Osama Bin Laden me chama de mãe.
Meu DNA está em Hitler, em Franco, em Gaddafi e Sadam Hussein.
Está nos policiais dos grupos de extermínio da Baixada Fluminense e nos estropiados do Talibã.
Está nas artérias de George Bush, nos cabelos de Manuel Noriega e na arcada dentária de outro tirano qualquer.
Meu filho é aquele que entra no cinema vestido de Batman e abre fogo contra inocentes, filhos de outras mulheres como você.
Eu sou a mãe de todos estes meninos enlouquecidos que se armam até os dentes e promovem carnificinas nos Colombines e Realengos desta vida.
Portanto, pode chorar nos meus ombros que eu entendo a sua dor, minha senhora. Entendo, porque também sou mãe.
E porque toda vez que um filho meu mata o seu, eu morro um pouquinho junto com os dois.


* Foto de Osama Bin Laden na infância.

Thursday, March 30, 2017

Pequenas memórias


Eu, que hoje entendo muito pouco de quase nada, naquele tempo entendia menos ainda.
Usava calças-curtas e cantava o hino nacional na escola, todos os dias, antes do começo das aulas.
Eu era um menino católico – como quase todos os outros – que emprestava a voz a um Padre Nosso capenga.
Não, eu não sabia melhor. Eu não sabia.
Como um mestre-sala mirim, desfilava com uma legião de soldadinhos de carne e osso ao som de marchas militares. Era sete de setembro, feriado nacional.
Às vezes um tanque de guerra abria o caminho, e aquilo era imponente e intimidador.
No palanque, sorriam homens com estrelas nos ombros, roupas engomadas e sapatos lustrosos.
No rádio de ondas curtas, Dom e Ravel cantavam que aquele era o lugar dos patriotas, dos amantes do país.

“Eu te amo meu Brasil, eu te amo
Meu coração é verde, amarelo, branco e azul anil
eu te amo, meu Brasil, eu te amo
ninguém segura a juventude do Brasil”.

A infância fedia, inocente.
Meninos e meninas não tinham consciência do que se passava. No interior do interior do Brasil, éramos pequenos demais para tomar conhecimento de que os descontentes desapareciam em úmidos porões.
Eu não sabia que o País do Futuro, naquele presente, não passava de mais uma republiqueta das bananas da América Latina.
Eu era um passarinho engaiolado e não o sentia. Faço parte da geração que foi uma das mais sacrificadas desde que Pero Vaz de Caminha escreveu uma carta ao rei de Portugal.
Formamos a geração perdida, a que descobriu o caminho da emigração e despachou brasileirinhos e brasileirinhas para os quatro cantos do mundo.
Estamos instalados entre os aborígenes da Austrália, os malditos chicanos e os brasiguaios de algum lugar tão miserável quanto o nosso.
Somos os subalternos, os estafetas, os contínuos.
Somos os decasseguis, os brasucas, os expatriados.
Somos aqueles que batem continência, os que abrem as portas dos carros e dos hotéis; os que guardam o veículo e a casa alheia; os que se conformam com a sorte menor.
Somos os que lavam os pratos; os que limpam o chão.
Somos os que higienizam os cadáveres nos necrotérios no Harlem e no Bronx.
Os que passeiam os cães das madames no Hyde Park.
Os que servem à mesa nos bistrôs de Saint Germain.
Os que cozinham.
Os que ralam.
Exceções?
É claro que as há, como em toda regra criada pelo homem-lobo-do-homem.
Mas não somos páreo para os de antes, nem para os de depois da década de 1960.
Nós somos os de durante.
Somos os zés e marias-ninguém deste gigante fincado nas Américas.
No grande esquema das coisas, somos os ‘desinfluentes’, quase sempre fedendo a suor e picotando o cartão de ponto em algum lugar do mundo.

Sunday, March 26, 2017

Desassossego na bagagem



(Para Jorge Pimenta, que rabisca fotografias com seu olho lírico)


O que trarei na bagagem desta minha viagem?
Trarei as luzes derramadas sobre a ribeira?
Trarei a ribeira do D’Ouro e suas águas a um passo da foz?
Trarei barcos carregado de pipas? 
Uma janela da torre dos Clérigos e a proteção do anjo apinhado de pombas no topo do hospital Santo Antônio?
Trarei uma lua cheia? 
Trarei estrelas nortenhas? 
Azulejos?
Trarei as vielas estreitas desta cidade, como aquelas transportadas em nuvens para as vilas portuguesas da Minas Gerais colonial?
Sim, porque existe muito do lugar de onde venho neste lugar que visito pela primeira vez.
Existe um bairrismo, um orgulho ingênuo, um sotaque distinto e uma quase doçura na voz.
Existem ladeiras que sobem e descem, mercados permeados por um burburinho e vozerio que ecoam de dentro dos cafés e tascas espalhados por todos os cantos, dentro de mim.
É manhã na cidade do Porto e, no que chego, chove turvando a visão diante de uma paisagem que nunca vi.
Lanço o olhar-turista sobre pessoas e coisas com a sede dos que tem sede, com a fome dos que tem fome.
Chego e sou bem acolhido já à entrada, sentindo-me imediatamente em casa.
Eu, que caminho por essas ruas como se fossem minhas.
Eu, que sou afeito a intuir e a intuir somente.
Eu, que só sei sentir, intuo que trarei desta cidade, quando retornar ao lugar que chamo casa, as cenas épicas dos painéis da estação de São Bento.
Trarei a conversa intimista do motorista do táxi.
Trarei tripas à moda do Porto, alheiras de Mirandela, tremoços e sarabulhos.
Trarei romãs e dióspiros.
Trarei o gosto picante do molho da francesinha degustada numa transversal da rua onde as putas fazem ponto quando a noite cai sobre a cidade.
Trarei poemas de Eugénio de Andrade e textos de Valter Hugo Mãe.
Trarei um solo da guitarra de Rui Veloso e uma pedaço de toucinho do céu, fatiado das páginas do menu do Dom Tonho.
Trarei os muros e paredes pichados, espirrados da fúria de um povo que não se dobra ou aceita as injustiças que ainda persistem.
Trarei o doce-azedo das uvas que espremeram para fazer o vinho que embriagou e irmanou todos nós, durante a estada.
O calor dos abraços que entreguei e recebi, mais que em dobro.
Trarei na mala o luto das mulheres que trafegam pelas ruas, como se ainda vivêssemos num século distante.
Trarei um olhar de adeus diante do mar.
Trarei tradição.
Trarei o peso da história e um pedaço dela, impregnado, essa tatuagem nas retinas.
Trarei uma travessia à pé da ponte Dom Luís I.
Trarei as canções de um concerto que reverbera, ainda, como se estivessem frescas como as laranjas dos pomares que adornam o norte de Portugal.
Trarei um livro retirado do acervo da livraria Lello, que é uma espécie de relicário das palavras, um dos lugares mais bonitos que meus olhos já viram.
E farei o caminho de volta como quem atravessa um abismo.
Porque o oceano Atlântico é um abismo que separa os dois continentes e impede um abraço.
E eu cumprirei duas vezes este percurso numa agonizante jornada.
Nas despedidas, ficará o refrão de um fado.
No coração, o desassossego dos que deixam para trás um pedaço grande da alma.
Ainda assim, ficará a sensação de que levo muito mais do que deixo nesta cidade, neste país.


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Thursday, March 23, 2017

PAPOULAS DE KANDAHAR - Roteiro de lançamento


Roteiro de lançamento do livro
Espero vê-lo nesta minha caminhada 
de divulgação do livro.
Clique na foto para ver a lista de cidades 
que nos receberão durante 2017.
Compartilhe em suas redes sociais, caso possa.

Monday, March 20, 2017

A caixa lilás (II)


(Segunda parte)

Ela perambula pela memória do bisavô mascate, um homem de gestos doces e que lhe emprestou os lamentos árabes com que demarcaria o terreno, riscaria o chão. 
Seu coração foi futuro do pretérito imperfeito, mas ela não percebeu. 
Desvendou o mistério de transformar o inverno da vida em verão. Até que, um dia, decidiu que o inverno continuaria sendo inverno, apagando o sol com a ponta dos dedos, como quem apaga uma vela de sete dias.
E aí decidiu pintar a caixa de segredos. Escolheu a cor lilás, que é a cor com que forram o fundo dos caixões onde os humanos guardam os seus mortos. 
E dentro desta caixa foi colocando todos aqueles pedacinhos seus.
Guardou o irmão que escreve poemas e a mãe que tece cachecóis.
Colocou-os, em um cantinho, junto com o pai de alma cigana e coração burocrático.
Pôs junto deles o livro com o nome da indiazinha a quem daria vida, fazendo sorrir Darcy Ribeiro.
Na sequência, foi colocando, pouco a pouco, sentimentos e coisas que, distraída, recolheria pelo chão:
Um pingente de coração com a flecha de um símbolo do zodíaco.
A fotografia de um pedaço de pedra onde o mar virou sertão.
Abraços em praças públicas e beijos nos quartos da casa de João.
Amontoou gozos, frenesis de música e poesia, delírios arrancados com fórceps.
Guardou contos de Eça, romances de Mia Couto e poemas perfumados de Drummond.
Empilhou tangos cansados, um trevo de quatro folhas e um pequeno mapa do medo. 
Emendou pedaços de cantos do mundo com o sorriso de Mick Jaeger.
Incendiou flamboyants.
Acondicionou remédios que talvez curassem males menores, mas que se recusou a tomar. 
Pegou um escapulário incapaz de um milagre, livros que jamais vai ler e canções que não irá escutar.
Roupas que nunca serviram, cuidados que rejeita e rejeitará, flores que não dão enfeite e duas papoulas de Kandahar.
Não achou os diamantes de mentirinha e a miniatura de uma Mercedes Benz. 
Vez por outra, abre a caixa e fica olhando os objetos espalhados entre os pontos de interrogação que inventou.
Deste rosário de inutilidades recende o perfume masculino que insiste em não evaporar.
Sempre que ela tem que mexer nesta caixa sente um arrepio de medo. Muito medo.
Medo, principalmente, de ter trocado os pés pelas mãos.
Ela sabe que dentro deste baú adormecem finais felizes em Casablanca, sabonetes embrulhados em papel de seda, a abolição dos mal-entendidos deste mundo e dois passos de um bolero inacabado.
E ela começa a dançar sozinha pela sala do apartamento de décimo terceiro andar.
Ela dança. Ela dança...
Dá dois passinhos para lá.
E mais dois passinhos para cá.





Friday, March 17, 2017

A caixa lilás



(I Parte)

Ela começou a construir a caixa de segredos ainda menina.
Enfiada em um vestido de gesso, passava dias a fio vendo as nuvens lamberem o Ibituruna, no que atravessavam a janela da esquerda para a direita, como se fossem ovelhas desnorteadas.
Não imaginou que durasse tanto, tanta dor.
Não pensou que durasse nada, ela própria.
Fez alguns pactos. Criou asas. Arrefeceu.
Ornamentou o baú onde guardaria suas calmas e turbilhões com dois sóis sustenidos, um aboio chorado às duas horas da tarde e penas da asa de uma graúna,
Cultivou Hiroshimas e Xangri-las de bolso, naquilo que crescia.
                                                                (Não abriria mão delas)


Fez tsunamis em copos d'água,  bebeu tornados com alka seltzer e despenteou os cabelos com vendavais.

Pelo tecido da pele, por cada poro do corpo, deixou entrar Dolores, Cartola e Jobim.
Mas não foi fácil.
Adormecia na Faixa de Gaza e acordava em Pasárgada, onde era a nobreza de um castelo sem rei.
Era a marquesa de Tordesilhas, Lisboa e Pombal.
Nas noites de insônia atravessava descalça os braseiros das fogueiras de São João que ia criando. Sangravam-lhe os pés e caminhar pela vida sempre lhe trouxe dor.
Para não ter que tocar o chão, aprenderia a voar através da dança.
É por isto que, todas as vezes que doem-lhe a alma e os pés, ela coloca o vestido branco e começa a girar.
Ela voa.
Gira num tablado flamenco, em Málaga.
Flutua numa valsa, em Versailles.
Rodopia numa rua de Havana diante dos olhos de um homem sem rosto, charuto apagado em uma das mãos, o copo de rum pela metade, na outra.
Na cintura dela repousa a mão de um jovem negro.
Nos olhos dele, ciúme e contemplação.
Trata-se de uma imagem recorrente, uma espécie de alucinação.
Ela a tudo vê, mas se fecha em copas, e bebe o silêncio em goles miúdos.
Degusta o silêncio, esse veneno que vai matando aos pouquinhos, como se fosse vinho feito a partir de uma uva colhida numa parreira de Chernobyl.


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Monday, March 13, 2017

Cenas de aeroporto


(Para José e Ana, que odeiam despedidas, mas vivem se despedindo)

Eu gosto dos aeroportos, mas tenho pavor de voar. 
Fico muito religioso quando tenho que entrar em um avião. Rezo, peço proteção e, para garantir, tomo um comprimidinho com uma dose de uísque para relaxar. 
Quase nunca funciona, principalmente nas nove horas e meia que separam Nova York de São Paulo, mas dá aquela zonzeirinha boa.
Eu dizia que gosto dos aeroportos. Gosto muito.
Se eu estou partindo, esforço-me para chegar mais cedo e beber um chope enquanto fico observando as pessoas, tentando adivinhar-lhes a parada final. 
Aquela moça bonita está indo para Havana cumprir o seu destino. Um amor espera por ela no aeroporto José Martí.
O homem magro vai para Amsterdã. Vai a negócios.
Já aquela família - casal e três filhos pré-adolescentes - está indo à Disney pedir a bênção ao camundongo Mickey.
A voz vinda do alto-falante anuncia chegadas e partidas que jamais serão minhas, mas é música para todos os ouvidos: 
Bruxelas, Roma, Tóquio, Montevidéu, Londres e Moscou são poemas recitados de uma forma tão bonita, que alegra o espírito e acende a vontade de, um dia, conhecer todos aqueles lugares.
Indo ou vindo, eu gosto dos abraços de aeroporto. 
Dos sorrisos na chegada. 
E da emoção nas despedidas, as mãos acenando até breves.
Sei que, às vezes, são acenos de adeus, definitivos, vidas que se desencontram para sempre.
Aprecio o barulho das rodinhas das malas deslizando pelo saguão. Elas já estão em viagem.
Na chegada ao destino, é sempre deliciosa a sensação de esticar as pernas e colocar os pés em terra firme. Sinto um alívio muito grande, como se tivesse acabado de escapar de uma tragédia.
Antes da partida, encheu-me os olhos a visão das equipes de tripulação, as suaves aeromoças com o cabelo amarrado, perfumadas, maquiadas, com as suas bagagens de mão. 
E os comandantes, com os quepes debaixo do braço, as túnicas impecáveis, aquele ar de que possuem superpoderes. 
Penso sempre no que vai dentro da cabeça daqueles filhos de Ícaro.
Serão homens de carne e osso, como eu?
Terão bebido como eu?
Tomam antidepressivos?
Brigaram com as esposas e namoradas?
Gozam de perfeita saúde para o desempenho da função?
Estarão em paz?
Afinal, a vida de centenas de mortais estará em suas mãos enquanto durar esta viagem, que pode ter como destino final o inferno ou o paraíso. 


Thursday, March 2, 2017

Achados e perdidos


Preciso encontrar meu passaporte brasileiro, que se exilou de mim.
Desde que cheguei de Portugal, em novembro do ano passado, que não sei do seu paradeiro.
Estará no bolso do paletó que me acompanhou na viagem?
Será que caiu no chão e foi encontrado pela mulher da limpeza, e colocado num escaninho do departamento de achados e perdidos de algum lugar?
Terá sido esquecido num café de aeroporto e hoje traz a cara de um terrorista, um traficante de drogas, ou outro contraventor no lugar onde um dia existiu uma foto minha?
Eu gosto da minha fotografia naquele documento.
Estou dez anos mais moço e meu rosto ainda não era esse mapa pluvial do estado de Minas Gerais.
Estou dez anos mais novo e o mundo era um lugar bem mais jovem, ali.
Há dez anos ainda ‘não havia para mim Donald Trump, ou a sua mais completa tradução’.
Não havia Neymar nem Michel Teló, e meu time ainda não havia flertado com a Segunda Divisão.
Há dez anos eu ainda chorava as dores de outros onze de setembro.
Desde então, aumentou o buraco na camada de ozônio, subiu o preço da gasolina, árabes e judeus continuam na mesma e mesmo eu, continuo por aqui, na mesmíssima.
Só que mais gasto.
E seu eu precisar ir para o Brasil? – pergunto aos meus botões.
E se explodir uma guerra, e eu tiver que fugir como um cão, com o rabo entre as pernas? – pergunto a minha covardia.
Preciso encontrar a coragem para não fugir, é verdade.
Mas antes disto, preciso encontrar o meu passaporte.
E preciso de muito mais.
Preciso encontrar a coletânea de Carlos Drummond de
Andrade, e ler em voz alta o Poema das Sete Faces.

(…) Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração (…)

Preciso encontrar minhas sete faces e, se preciso for, dá-las a tapa, pois ainda há tempo.
Ainda há tempo de mudar de opinião.
De mudar de ares, de roupa e de vida.
Há tempo de virar o jogo.
De ganhar o jogo.
De criar novas regras e de reinventá-lo, o jogo.
Tempo de rabiscar montanhas e dar novas formas às nuvens.
E de pagar o preço.
Pois ainda há tempo de cuidar da saúde e retomar as caminhadas matinais.
Preciso encontrar, ainda, o amor próprio, a inteligência de querer ser longevo, de querer viver mais e melhor.
Inteligência, pois sim.
E encontrar os meus óculos, perdidos num lugar interior.
Mas não os óculos, esses que me permitem enxergar o mundo com meus dois graus de astigmatismo no olho esquerdo, e um ponto cinco de miopia no direito.
Preciso encontrar aquele par de óculos especiais que permitem enxergar-me neles, peneirando, na leveza dos aros, o sol da cegueira que me desilumina tristemente os dias.
Este par de óculos que me permite ver joio e joia, menino bonito de mim.



Saturday, February 25, 2017

Antropônimos esdrúxulos




Li em algum lugar que os nomes mais populares de 2015 foram Alice, Sophia e Julia para as meninas e Miguel, Artur e Davi para os garotos, repetindo o mesmo resultado do ano anterior, mudando apenas a ordem das preferências.



Nome próprio ou antropônimo é o nome dado à pessoa ao nascer.  O nome é considerado o elemento mais antigo de identificação do homem.
No Direito, o nome atribuído à pessoa física é chamado de nome civil e tem a função de identificar e individualizar a pessoa durante toda a sua existência e até depois dela. Ter um nome civil é um Direito garantido por lei.
A menos que algo muito impactante aconteça na vida da pessoa – uma operação de mudança de sexo, por exemplo – o nome é uma das poucas coisas que o indivíduo vai carregar para sempre. Os pais deveriam pensar muito antes de nomear seus filhos.
No Brasil os nomes próprios são muito imaginativos. Muitos pais brasileiros fazem uma geleia geral na escolha deste substantivo tão essencial. E o resultado quase nunca é bom.
Os genitores gostam de homenagear alguém, toda vez que nasce uma criança na casa. Em geral, escolhem alguma celebridade, um cantor, uma atriz, o que quase sempre dá um rolo danado.
Os mocinhos da novela das 8 abundarão no ano que vem, podem apostar. Já vivemos a era dos “ciganinhos” Igor de Explode Coração e das odaliscas Jade, de O Clone, e os novos folhetins globais já devem estar rendendo muitas homenagens por todo o país. Novos Chicos, eu asseguro, ainda virão.
Os jogadores de futebol também se reproduzem em cativeiro.  Entre tantos, tem o Kempes da Chapecoense, o Breitner do Figueirense, que não me deixam mentir.
E tem os Maikes, Mikes e Maicons, que fazem parte de um corrente mais americanizada da coisa. Eles são tantos, que daria uma crônica só deles.
Conheci um sujeito chamado Waldisney. O pai era vidrado nos gibis de Walt Disney. E teve também o Uesneive, uma singela homenagem à marinha americana, a potente Us Navy. E tem ainda as sandices absolutas. Como no caso de Chevrolet da Silva Ford, que achei na internet. O seu pai deve ter sido um mecânico.
Existem os casos das combinações, ajuntamento dos nomes do pai e da mãe e que costumam redundar em algo curioso.
Minha amiga Claudinete logo me salta à memoria. Claudio e Janete se misturaram também no nome da filha. Tem aos milhares.
Existe também aquele caso dos malucos-beleza, que dão aos seus rebentos os nomes mais esdrúxulos de que se tem notícia. Os cantores Pepeu Gomes e Baby Consuelo, hoje Baby do Brasil, por exemplo, foram cruéis com suas crias.
Riroca era um nome carinhoso que o guitarrista chamava Baby.  Zabelê é o nome de um pássaro da Bahia. Nãnashara é uma mistura de shara (que quer dizer som) com nana, que era como a Riroca chamava a irmã;  Pedro Baby foi uma homenagem que fizeram a si próprios e teve ainda o menino  Kryshna Baby, que Pepeu diz ter sido um tributo a Deus.
Riroca, que hoje é pastora evangélica, mudou legalmente o seu nome. Ela agora é Sarah Shiva.
As homenagens aos santos também são muito comuns. Curiosamente, um dos santos mais populares dos dias de hoje, São Judas Tadeu – o das causas impossíveis – quase ficou de fora. Mas é frequentemente confundido com Judas Iscariotes, que traiu Jesus. Aliás, conheço muitos Jesuses.
Na década de 1960 e 1970 eram muito comuns os nomes compostos. Marta Cristina, Regina Maria, Paulo Sérgio, José Luiz, Luiz Carlos, Maria Aparecida e por aí afora.
La em casa éramos todos Carlos. Meu pai queria demonstrar gratidão a uma pessoa que o acolheu quando ele trocou a roça pela cidade, em 1958.
Carlos Antonio - que já morreu - e Antonio Carlos são irmãos deste Carlos Roberto que vos fala.
Até pouco tempo eu não gostava do nome que me deram. Achava que o primeiro nome é que conta e que eu não poderia ser Carlos, como o primogênito e o caçula da casa.
Para nos distinguir, eu virei o Roberto, irmão de Toninho.
Carlos Antonio era Carlos Antonio mesmo.
Na infância, eu odiava quando minha mãe me chamava pelo nome completo. Nestes casos, só Jesus na causa.
Quando ela chegava no portão da casa e gritava ‘Carloooos Robeeeerto’, eu sabia que era bronca.
Aqui nos Estados Unidos é costume nos chamarem pelo primeiro e último nome, o que pra mim é sempre complicado.
Quando recebo a correspondência do leão do imposto de renda, por exemplo, é um calafrio. O homem da imigração também me chama de Carlos Lima, quando retorno ao país.
Quando dito por inteiro, meu nome soa como o de um cantor de bolero, destes que ganham a vida cantando em churrascarias.

“E agora, respeitável público, com vocês… Caaaaarrloooooos Robeeeeeerto!!!”.

Com o passar do tempo tenho me pacificado e aprendendo a aceitar as coisas que fogem ao meu controle. Eu já não me torturo com a escolha do nome que me deram e até consigo encontrar alguma beleza nele.
Aceitar dói menos, certo?
Hoje eu sei que Carlos Roberto não foi uma brincadeira de mau gosto dos meus pais. Dito da maneira correta, no tom certo, é quase um poema.


Tuesday, February 21, 2017

Três poemicos sem a menor importância


(I)
Desorizonte

Em Belo Horizonte
Enterrei minha avó
E seu filho, meu pai

Em Belo Horizonte
Enterrei o sonho
De transformar
O inverno da vida
Em feliz verão

Belo Horizonte 
É o cemitério
Onde estão enterrados
Passados e futuros
Meus.


(II)
Desmágica

No que acendo a luz,
apago o silêncio
do quarto.


(III)

Desastre

Vasculham a alma, os dois,
Tentando achar a caixa-preta 
daquele grande amor.

Tuesday, February 14, 2017

Os gauloises de Brigitte


Parei de fumar no dia 1º de dezembro de 2011, após tentar escalar um poste da South Street. Bati a cabeça no painel do carro e até hoje não lembro de nada relativo ao acidente.
No dia seguinte, entrando numa máquina de tomografia do hospital, fiz um pacto com Deus.
Entendi que havia recebido uma segunda oportunidade e tinha que dar algo em troca. Dei os cigarros.
Por que não o álcool, principal fator causador do acidente?
Porque achei que o cigarro estava me fazendo mais mal do que a bebida, o que pode parecer um ato de negação, observada a gravidade do acidente, mas que para mim fazia mais sentido naquele momento.
Achei que controlar a bebida era mais fácil do que o cigarro consumido compulsivamente,  quase quarenta todos os dias.
Talvez tenha sido influenciado pelas campanhas anti-tabagismo na televisão.
O tabaco é um assassino silencioso, que mata aos pouquinhos. Mas quem tem pressa de morrer?
Quando comecei a fumar o cigarro ainda não causava câncer. Nem enfizema ou impotência sexual, como apregoam os maços de cigarro dos dias de hoje.
Todo mundo fumava.
Meus amigos, meus ídolos e até o padre da paróquia. E eu achava lindo ver os intelectuais falando aquelas coisas todas entre uma baforada e outra, as pérolas que iam dizendo se misturando à fumaça.
Nas novelas de televisão,  nas telas do cinema e até mesmo dentro destes, as pessoas se esbaldavam na névoa esbranquiçada.
Fumava-se dentro dos bares, em praças de esportes e até no interior dos aviões.
Não havia esta irritação jihadista contra os tabagistas de agora, nem leis proibindo sua prática em lugares fechados.
O cigarro fazia companhia, aplacava a ansiedade e era uma maneira de aproximar as pessoas.
– Tem fogo?
O sujeito arrancava do bolso um isqueiro ou uma caixa de fósforos e começava ali uma amizade. Ou algo mais.
Pedir fogo já resultou em muitos romances.
Como esquecer Brigitte Bardot com um gauloises entre os lábios carnudos?
Ou o escritor franco-argelino Albert Camus na capa de O Estrangeiro, um de meus livros favoritos?
As pessoas ainda não tinham a consciência dos malefícios do tabagismo como agora, não eram estes cruzados capazes de atitudes tão rudes, tão paladinas.
Desde o primeiro de dezembro de 2011, nada de cigarro para mim. Necas! Mas não existe um único dia que eu não tenha saudade dele.
Uma saudade aguda, quase física.
No outro dia, vinha com Edilberto Mendes à caminho do consulado brasileiro, em Nova York, e deparei com o tamanho da minha fraqueza.
Descíamos a rua 46 em direção à sexta avenida, quando vi um mendigo de cabelo rastafari, o peito nu, acocorado com seu marlboro em brasa, o nike todo fodido, e aquela expressão imperturbável  de prazer. Ainda nem eram 9 da manhã.
Olhei para o homem sem disfarçar a admiração e relatei ao amigo o tamanho da inveja que ele despertara em mim.
– Inveja de um mendigo, Roberto?
Sim, inveja da durabilidade, da incorreção política e sua absoluta ausência de fé ou desejo de eternidade.
Um homem livre e que não faz pacto com ninguém.
Nem com Deus.

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Monday, January 9, 2017

Reza



Meu pai 
nasceu


cresceu 
e viveu 
ateu


No que
envelheceu
deu de ficar
cochichando
todas as noites
no ouvido
de Deus

Wednesday, January 4, 2017

Palavrão


O nome dela
feito de argila,
gesso e giz

§

Grafa-se osso, 
sêmen e rícino
e leite de rosas
no nome dela:

Substantivo impróprio
rasurado em certidão

§
O nome dela
na polaroide
(indecente e nua)
no bolso
do mendigo
dormindo sob a marquise.

§

O nome dela,
essa elegia obscena
num grafite de privada
da estação rodoviária

§