Tuesday, December 29, 2015

Super-homem


O filósofo alemão Friedrich Nietzsche explica os passos através dos quais o Homem pode tornar um 'Super-Homem' em Assim Falou Zaratustra.
Mais adiante na história os estudantes norte-americanos Jerry Siegel e Joe Shuster criaram o Superman, personagem das revistas de quadrinhos, que posteriormente ganharia as telas na pele de Christopher Reeve.
Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, eu sei.
O Superman de Christopher Reeve acabou se tornando um dos maiores fenômenos do cinema em todos os tempos.
A suposta origem dos poderes do Superman é o Sol amarelo da Terra.
Em Krypton o astro é vermelho, e essa diferença de freqüência eletromagnética entre ambos os astros faria com que, de alguma forma, as células do corpo de Kal-El fossem "carregadas" como verdadeiras baterias vivas.
Descobri isto na Internet, a mãe de todos os burros.
O homem de aço voava, atravessava estruturas, conseguia evitar o tombamento de um edifício, desentortava uma ponte de ferro, prendia bandidos com bravura e charme.
Seu corpo era impenetrável às balas e à inveja.
Quando não estava salvando a humanidade de inescrupulosos bandidos, era um esforçado repórter do jornal Planeta Diário.
Ironia do destino, o ator que deu a vida ao super-herói no cinema teve um fim trágico.
Amante da equitação, caiu de um cavalo num momento de lazer, ficando paralisado numa cadeira de rodas.
Seus últimos dias foram marcados pelo sofrimento.
Minha idéia de super-homem, no entanto, é diferente.
Em sua certidão de nascimento não consta Krypton, mas Mutum, um vilarejo remoto no Leste de Minas.
Meu super-homem trabalhou na roça até ser grande o suficiente para tentar a sorte na cidade grande.
Não se sentou num banco de escola, porque desde menino, ao invés de um lápis, empunhou uma enxada.
Ele plantou café, feijão, milho, hortaliças, cuidou da criação e amansou cavalos.
Ele, que calçou um par de sapatos pela primeira-vez aos 17 anos.
Ele, que na cidade grande, trabalhou em troca de comida e pelo direito de dormir num cubículo no fundo de um quintal.
Sua gratidão pela acolhida foi tamanha, que todos os seus filhos tiveram o nome do homem que o abrigou em sua chegada à civilização.
Conseguiu se alistar na polícia militar de Minas Gerais enxergando ali uma possibilidade única de sobrevir e criar a família.
Seu uniforme, de cor cáqui e sem nenhuma divisa nos braços, em nada se assemelhou à malha azul e vermelha dos grande herói dos quadrinhos e das telas.
Ele, que não possuía capa que lhe permitisse vôos mais altos e tinha passos miúdos, mas firmes.
Caminhou miúdo, chegou longe.
Ele, que casou e teve filhos, todos eles Carlos.
Ele, o meu pai.
A sua figura indestrutível tem sido pra mim, desde a mais tenra infância, um referencial e uma fortaleza.
Graças a ele, andei e ando de cabeça levantada pelas ruas de onde quer que meus pés pisem.
Sua honestidade era (e é!) um dos super-poderes.
A firmeza, a lealdade e a persistência eram (e são!) outros.
Hoje, meu super-homem vive momentos difíceis.
Aos '82 anos, ele trava agora uma das mais difíceis batalhas de sua vida.
Nenhum deles se chama Lex Luthor, Bizarro, Mongul, Metallo, Darkseid, Brainiac ou o Ultra-Humonóide, que foi o primeiro adversário do herói dos quadrinhos e das telas.
Seo Antônio, ou melhor, Seo Totoca, tem diante de si o desafio de nocautear uma pneumonia e uma veia entupida,o que tem lhe deixado impossibilitado de caminhar e duplicou-lhe a visão.
E eu, como no tempo em que devorava com voracidade as aventuras de meu herói das revistas em quadrinhos, quero chegar ao final desta história com a sensação de que meu mito maior venceu seu inimigo.
Meu super-herói, meu superpai, tem em mim muito mais que um admirador, ele tem em mim um crente.
Meu coração e minhas preces estão com ele lá no Brasil, aqui, e em todo o lugar.
O bem vencerá.
Tenho fé.


.

Tuesday, December 22, 2015

Papai Noel


Todo ano é a mesma ladainha e você já deve estar de saco cheio e não é, certamente, de presentes.
Pedem-lhe tanto, Papai Noel.
Pedem roupas, brinquedos, perfumes, e grandes 'modernagens'.  Foi-se o tempo em que apenas crianças faziam pedidos.
Hoje elas ganharam a companhia inconveniente dos adultos, o que aumentou o grau de dificuldade do seu ofício.O trenó ficou pequeno depois que as miudezas foram inchando e deixaram de caber debaixo de uma árvore de natal.
Sua profissão é das mais difíceis, meu amigo. Aliás, tão difícil, que acho que você é um super-herói, destes de capa e espada.
Sua missão é quase tão complicada quanto a de um engenheiro da Nasa ou de um neurocirurgião.
Fazer feliz, contentar, requer ciência e coração.
Como você consegue? Qual é o seu segredo?
Tenho tanta pena de você.  Pedem-lhe tanto. Dão-lhe nada.
Pedem video-games, computadores e celulares de última geração.
Celulares destes que mandam cartas eletrônicas, tiram fotografias panorâmicas, fazem filmes e até servem para ligações telefônicas.
Pedem coisas impossíveis, velho Noel.
Pedem um emprego novo, um patrão que não encha a paciência e um aumento de salário.
Pedem um carro zero quilômetro, um inverno sem neve e um título de campeão no futebol.
Pedem uma viagem à Europa com direito a um cappuccino em Roma e uma taça de beaujolais nos Champs-Élysées, assim, com sotaque bem francês.
Pedem-lhe uma casa-própria, com muros brancos e jardim de flores que permanecem vivas mesmo quando não for mais primavera.
Pedem uma carreira.
Imploram por uma aposentadoria.
No tempo em que apenas os pequeninos deste mundo pediam presentes, era tudo imenso e a infância parecia maior que a própria existência humana.
Você levava na algibeira bonecas de pano, bolas de futebol feitas de borracha e carrinhos de matéria plástica.
Já vi menino ganhar papagaio de papel, pião de cedro e até uma caloi.
Já vi menina ganhar bailarina que rodopiava sem ficar tonta, diademas de esmeraldas de araque e caixas de lápis de cor.
Um vizinho meu ganhou um porquinho da Índia, que acabou sendo de todos nós.
Eram outros os tempos, eu sei.
De todos os presentes do mundo, Papai Noel, a presença é, hoje, o que faz maior falta.
Não é qualquer presença. É determinada presença. Às vezes no plural.
Para mim, que vivo há tanto tempo fora do lugar onde nasci, o natal é sempre vazio de algumas presenças imprescindíveis.
Não que eu não me contente com a proximidade de minha mulher e minhas filhas, e de meu irmão Antonio e sua família, que vivem a algumas quadras de mim.
Não que os amigos que fiz aqui não preencham um espaço importante e que não sejam fundamentais no meu existir.
Ou que eu seja um sujeito ingrato, destes que nunca se contentam com o que têm.
Mas é que, às vezes, falta-me um abraço de pai, um beijo de mãe.
E este ano, mais que em todos os outros, tudo o que eu queria de presente era um abraço do meu pai e um beijo de minha mãe.
E isto não cabe no seu trenó.

Saturday, December 12, 2015

Que mistérios (e bichos) tem Clarice?





O New York Times elogiou o livro Histórias Completas, de Clarice Lispector, editado por aqui, em inglês. Achei ótimo. Sou fã.
Clarice é um fenômeno nas mídias modernas e é mais popular, hoje, do que quando estava viva.
A internet, às vezes, presta um serviço à história e promove pequenos milagres. Tem acontecido bastante e, não raro, ela faz justiça e redime o tempo, colocando alguns pingos nos is.
A poeta dizia que escrevia para não enlouquecer e, talvez por isto, seus textos tenham chegado com tanta facilidade ao coração das pessoas. Só as coisas naturalmente verdadeiras conseguem isto. Não existe atalho para se chegar ao músculo da emoção. Esta é a mensagem que fica.
Hoje proliferam na internet alguns textos muito bons e que, mesmo não sendo de sua autoria, são atribuídos a ela.
Ela, Caio Fernando Abreu e Luiz Fernando Veríssimo, são os campeões neste quesito. E os textos são tão bons, que Veríssimo disse em uma entrevista recente que já se sentiu tentado a assumir a parte que (não) lhe toca.
Algumas pessoas pensam que a escolha do nome de minha filha caçula foi uma homenagem a Clarice Lispector. Mas não foi.
Clarice Lima ganhou este nome em uma cama de hospital, ainda na barriga da mãe, uma hora antes do seu nascimento. Era para se chamar Clara, mas minha mulher teve este lampejo sob o efeito da anestesia peridural. Eu não tive argumentos para demovê-la. E nem tentei.
Foi uma gravidez complicada, em que o bebê, apressado, queria vir ao mundo aos cinco meses de gestação. Portanto, aquele não era um momento apropriado para polemizar.
Na verdade, eu nunca tive voto na escolha do nome para as minhas filhas e tive que me contentar em dar nome aos bichos da casa, que são muitos e que, sempre, foram imposição das mulheres que mandam aqui.
Foi uma espécie de pacto silêncioso, implícito, em que minha mulher nomearia as filhas e eu, os bichos, o que acabaria por transformar minha casa em um zoológico. Escolhiam o animal, eu esperneava, contrariado, e elas diziam: “não reclame. Deixamos você colocar o nome”.
E eu, bobão, fui aceitando.
A sharpei Jade, que já não se encontra conosco, foi substituída por Nina e Laila, da mesma raça. Jade morreu após 11 anos de bons serviços prestados. Não saía de perto de mim. Lambia minhas mãos, chorava de alegria quando eu chegava em casa, chorava de saudade quando eu não estava. Logo eu, que não sou “bicheiro” e que prostestei todas as vezes que algum animal entrou para a ‘família’.
O primeiro pássaro da casa, uma calopsita ‘batizada’ de Lucky (sortudo, para os que não falam inglês), era tudo de bom. Mas não foi assim tão afortunado. Ele vivia solto pela casa, até que, um dia, foi pisoteado. Adivinhem por quem?
Clarice, claro, sempre desatenta, a cabeça nas nuvens. O bichinho jaz ao fundo do quintal, ao lado da piscina.
Ela passou dois dias chorando, até receber as calopsitas Rico e Luna, como forma de ‘compensação’ por seu atabalhoamento e para cessar de uma vez por todas com o chororô que prometia não ter fim. Calou-se durante um bom tempo.
Na esteira do casal de calopsitas viria a cacatua Cacatua, que é o mesmo que você nomear um cachorro, cachorro.
Cacatua foi o maior presente de grego que recebi na vida. Peter Pantoliano, o presenteador, queria se livrar de um mico. Ou melhor, de um problema. Passou-o para mim e hoje não sei o que fazer para me desfazer deste pterodáctilo incômodo e barulhento. No entanto sei que, se houver um plebiscito, Cacatua fica na casa e eu me vou.
Cacatua passa dias a fio tentando fugir da gaiola, que batizei de Alcatraz. É incansável o monstrengo branco, com seus bicos de aço, bicho inteligente, engenhoso, obstinado e perspicaz. Nasceu para isto. De vez em quando, consegue fugir de Alcatraz.
Como? Eu não sei.
Deveria se chamar McGyver, de tão engrenhoso que é.  E, todas as vezes que foge, é um prejuízo financeiro e emocional para mim.
Já estraçalhou estantes, moldes de porta e janelas, pés-de-mesa, estofamento de cadeiras, controles remotos de televisão e até a biografia de Paulo Leminsky, escrita pelo jornalista Toninho Vaz.
Não aguento mais esta bicharada.
Por causa deles, há quatro dias Clarice não fala comigo. Ela agora cismou que quer ter um porquinho da índia. Fui contra, claro. Ela diz que posso chamá-lo de Justin Bieber. E foi aí que não aceitei mesmo. E nem vou aceitar. Mesmo que ela fique mais quatro dias sem falar comigo.
Com essa bicharada em casa é impossível viver em um ambiente silencioso e 100% limpo.
Outro dia levei o meu casaco ao tintureiro e a chinesa me disse que nunca tinha visto tanto pelo de cachorro em um outro lugar que não não fosse em um cachorro. Eu quase morri de vergonha.
Portanto, Clarice que me perdoe: porquinho da índia, só na Índia.
E c’est fini.

PS: esta seria uma crônica de homenagem a Clarice Lispector, que completaria 95 em 10 de dezembro.
Clarice Lima não permitiu.




.

Saturday, November 14, 2015

Um canto de amor a um povo (e seu rio)


Na noite do dia 3 de junho de 2007, a câmara municipal de Governador Valadares aprovou por unanimidade que a música Rio Doce, de Zé Geraldo, se tornasse o hino oficial da cidade.
A aprovação do projeto do vereador Paulinho Costa foi aplaudida de pé por todos os presentes e o autor da canção subiu à tribuna para canta-la.
 Foi arrepiante.
 Tratou-se de um daqueles momentos raros que rompem a barreira do tempo e que ainda hoje guardo com muito carinho nas retinas.
 Sim, eu estava lá naquela noite iluminada e jamais me esquecerei.
 Trata-se de uma canção de amor a uma cidade e ao seu povo.
 Uma música que canta as belezas do rio que lhe dá o nome, mas que decanta também o Ibituruna banhando seus pés.
Como se isto não bastasse, a canção aborda ainda a alma emigrante do valadarense, nossa impressão digital gfrudada no mapa do mundo.
 Infelizmente, o então prefeito José Bonifácio Mourão, uma pessoa que respeito muitíssimo, deixou-se pressionar por um grupo de pessoas ligadas ao autor do hino vigente, e que ainda hoje é oficial da cidade.
 Venceu Mourão. Perdeu a cidade.
 Lamentei muitíssimo, porque o prefeito desperdiçou a oportunidade de dar a Governador Valadares um hino que o país inteiro conhece e que o valadarense sabe a letra na ponta da língua.
 Faltou-lhe arrojo, naquele momento.
 Faltou compromisso com sua responsabilidade de promover mudanças relevantes e que colocassem a cidade em um lugar de destaque em todo o país.
 Rio Doce, de Zé Geraldo, representava também isto: mudança!
 Um hino que o país inteiro conhece?
 Qual cidade não quer?
 Ah, prefeito Mourão, se o senhor não tivesse fraquejado.
 Uma pena, sabemos.  Mas ainda podemos reparar este erro.
 Com o absurdo da tragédia do rompimento da barragem de Bento Rodrigues e a contaminação do Rio Doce pela lama e detritos químicos e minerais, o valadarense sofre como jamais sofreu, perecendo também de sede, que até aqui era saciada com as águas do rio que inspirou a canção de Zé Geraldo.
 Convoco as autoridades valadarenses a reviver a questão e que transformem a canção no nosso hino.
 Um hino de resistência e de luta.
 Um hino de amor à nossa cidade e às coisas que nos dizem respeito.
 Um hino de amor ao rio que banha e dá frescor à nossa história.
 Um hino de amor ao valadarense e seu torrão.
 E que esta canção signifique também a recuperação total do rio, que é tão essencial não apenas para os cidadãos de nossa cidade, mas à toda população ribeirinha que sobrevive às suas margens, até desaguar no mar, no estado do Espírito Santo.
E que a canção Rio Doce seja o hino de purificação de suas/nossas águas e signifique um novo capítulo na história da ecologia em nosso país.
 Atenção, Governador Valadares.
 Atenção, senhores vereadores e prefeita Elisa Costa!
 Transformemos Rio Doce no nosso hino de amor a esta cidade e seu rio.
 Eu, que tenho o coração valadarense, canto junto.

.

Tuesday, November 10, 2015

Prainha do Xuá




(Em memória do Rio Doce, que virou lama de mineradora)

Aqui, quando faz frio é de rachar a mamona.
E quando faz calor é de cozinhar os miolos.
Sendo assim, de clichê em clichê, vamos nos queixando da vida.
Memória curta, temos nós, eternos insatisfeitos.
Se faz frio, é porque faz frio.
Se neva, é porque neva.
Se chove, é porque chove.
Se faz calor, é porque faz calor.
Criei-me em Governador Valadares, que julgava ser o lugar mais quente do mundo.
Era um Saara sem beduínos, sem camelos, palmeiras, nem tempestade de areia.
No meu coração, Valadares será para sempre um oásis de brisas benfazejas, belas odaliscas e xeiques de riquezas invisíveis.
Como era bonita e quente, aquela minha Gevê!
Tão quente, que um jornalista de passagem pela cidade escreveu um texto de onde chamou “sucursal do inferno”.
Em Valadares vi um sujeito fritar um ovo no capô de um fusca.
Vi o Rio Doce emagrecer, todo ano, sua cintura afinando e produzindo dezenas de praias ao longo de seu curso. A mais famosa delas era a praia do Xuá, agregada a uma ilhota próxima à ponte São Raimundo.
Era para lá que íamos.
Foi naquela ilhota que, menino ainda, vi um índio.
Aliás, um bugre, que é como os adultos a ele se referiam.
No meu desconhecimento de geografia, imaginava que um bugre era alguém vindo de um país distante, talvez na Cordilheira dos Andes, talvez na fronteira da Indonésia ou no Aconcagua.
Bugrelândia? Bugrária?
Seria um bugre, o mesmo que um búlgaro?
Criança, ainda, pensei ter desvendado o mistério: o homem seria de Campinas, terra do Guarani, clube de futebol que tem um bugrezinho como mascote.
E o meu bugre ficava acocorado na porta de um palheiro, debulhando milho e bebendo cachaça, que os brancos davam para ele.
Aquele índio era uma espécie de guardião da ilha, e ali ele plantava algumas coisas e criava galinhas.
Não tinha mulher nem filhos.
Não tinha nada, aquele pobre homem de cabelos lisos e desgrenhados.
Era ali que ele dormia sozinho escutando apenas a música das criaturas da noite e o barulho da correnteza bolinando as pedras.
Era ali o seu reino de um homem só. E sua prisão rodeada de águas.
Quando o calor aumentava na cidade ao ponto de quase explodir os termômetros, o rio ia definhando e formando suas prainhas, o Xuá era o destino de muitos de nós.
Tinha muito de paraíso naquelas areias brancas.
Do fundo de nossas precariedades, aqueles prazeres temporões saciavam uma sede muito maior que a nossa de mar e de amor.
De quebra, ainda nos oferecia uma oportunidade única de socialização.
Farofa geral, meus senhores.
Garrafa de pinga, meio engradado de cerveja em encardidas caixas de isopor, refrigerantes, frango assado e farofa.
Muita farofa.
Confesso que fui useiro e vezeiro. Confesso…
Homens jogavam carteado, mulheres tricoteavam sobre a vida alheia, enquanto as crianças jogavam futebol com uma bola de plástico da marca Pelé. Uma pobreza de não dar dó.
Muitas vezes nos afastávamos dos adultos e saíamos explorando as margens, roubando manga, jambo, jenipapo e ingá dos quintais ribeirinhos.
Não raro, éramos expulsos a tiros de sal.
Uma vez mais, confesso.
Alguns de nós aproveitavam a oportunidade e lançavam a sorte nas pescarias.
Tinha muito piau, lambari, tucunaré, curimatã, bagre e corvina.
Nadávamos, mergulhávamos, pescávamos e passeávamos de pedra em pedra como se não existisse o amanhã.
E, para alguns, não existia mesmo.
Muita gente perdeu a vida se refrescando nas águas traiçoeiras daquele rio.
E se, as mortes ocasionais serviam como alerta para os perigos das águas, elas não eram amedrontadoras o suficiente para nos afastarem de lá.
O medo de morrer afogado terminava antes da missa do sétimo dia.
Tenho imensa saudade das prainhas do Rio Doce.
Tanta saudade que, hoje, vendo o sol e o calor nos transformarem nessas insuportáveis bolas de mau humor, carne e suor, daria qualquer coisa para aportar numa prainha como aquela do Xuá.
Ficaria quietinho, sobre uma pedra lodosa, sentindo as águas do tempo passeando tranqüilas sobre meu corpo, levando meus cansaços, meus pecados, minhas culpas, minhas dores.

Wednesday, September 9, 2015

Canção para um mundo novo


Como aconteceu no dia 8, no dia 9 e em muitos outros dias que o antecederam, o mundo irá acordar com o sol neste 11 de setembro.
No Tibete, um monge se levantará e fará sua primeira oração da manhã.
Em sua prece, pedirá à divindade que derrame sobre o mundo um manto de luz.
Luz para enxergar na escuridão da intolerância.
Luz para caminhar na retidão dos justos.
Luz para fazer transparecer as almas aflitas deste mundo.

Em Estocolmo, na civilizada Suécia, uma moça loura como uma princesa viking, abrirá a janela para permitir que a brisa fresca de final de verão entre em seu quarto e se espalhe pelos quatro cantos, trazendo fluidos bons.
Na Espanha, numa casa de pedra da Andaluzia, uma menina cigana cantará um canto gitano da mais pura magia.
Em Varadero, Cuba, uma senhora de setenta anos de idade, confidente dos Orixás, irá a uma cachoeira com uma oferenda de agradecimento.
Tranquila, entenderá a linguagem dos peixes e conversará com as plantas num idioma que só os graduados da umbanda sabem decifrar.
Numa savana do Quênia um grupo de meninos sairá correndo, passarinhos livres e leves, sentindo na pele uma carícia da natureza.
Nos pampas argentinos, um vaqueiro levará o seu gado para pastar num vale verdejante e o minuano soprará ao seu ouvido uma confidência:
- Algo de bom está acontecendo neste instante, aqui, no lugar em que habitas.

No limite das duas Coreias, dois camponeses, um de cada lado da História, estarão sentados no espaço imaginário onde, provavelmente, foi desenhada a linha da fronteira e, juntos, dividirão um prato de comida.
Um padeiro francês, na volta de sua derradeira entrega da madrugada, esfacelará os pães que não foram vendidos no dia anterior, e os dividirá com os esquilos famintos da praça.
Numa igreja siciliana, um padre se porá de joelhos evocando a figura de Deus e, numa emocionada oração, pleiteará para que o Todo Poderoso derrame sua bondade sobre a humanidade, tocando a cada cidadão, independente de credo ou cor.
Nas ruas de Belfast, na Irlanda, um grupo de católicos e protestantes conversará normalmente, como se todo o ódio e amargura fizesse parte de um passado que deve ser esquecido.
Em Sidney, na Austrália, um aborígine trafegará pelas ruas da cidade sentindo-se parte daquele quadrado de concreto.
Na Cidade do Cabo, no extremo da África do Sul, negros e brancos estarão fazendo uma passeata pacífica, uma via-sacra de agradecimento pelo progresso obtido na convivência entre ambos nos últimos tempos. E pela promessa de harmonia de tempos que ainda hão de vir.
Juntos, combinarão que a palavra Apartheid será excluída do dicionário. E sairão dançando pela cidade como se fosse carnaval.
Num bairro distante da zona norte de São Paulo, um grupo de meninos jogará futebol durante o recreio escolar.
Em Santiago do Chile, um motorista mostrará ao turista suíço um grupo de mães numa praça do centro da cidade. Ao contrário do canto de tristeza pelo desaparecimento de seus filhos durante a ditadura de Pinochet, hoje elas entoam uma marcha folclórica, saudando a chegada da colheita nos campos do país.
Numa mesquita da faixa de Gaza, um rapaz que queria ser homem-bomba muda de ideia e promete plantar um jardim.
Nesse mesmo instante, em Jerusalém, Benjamin Netanyahu receberá uma comitiva árabe para uma reunião que decretará um cessar-fogo definitivo na região.
E nós, que vivemos nas cercanias de Nova York e em todos lugar onde viver o homem, olharemos para o céu de setembro e nele não haverá nenhum sinal de perigo, apenas um bando de pombas brancas sinalizando a existência de um mundo novo.

Friday, August 7, 2015

Os carecas


Os carecas voltaram. Andam pelas ruas de Nova York e do mundo, másculos, decididos, fazendo as moças suspirar por onde eles passam. Fazem um estilo próprio, parecem ter uma linha de roupas criada especialmente para eles. Alguns usam brincos, outros mostram tatuagens épicas que poderiam ornamentar a parede de um museu. São perfumados.

Eles são modernos, pós-modernos, chegaram ocupando o espaço que até pouco tempo era dos metrossexuais, aquela turma bonita que depila o peito e usa camisas apertadinhas, insinuando o tanquinho do tórax e mostrando os bíceps esculpidos em academias. Rei morto, rei posto.
Não tenhamos dúvida: é a vez dos carecas.

Mas nem sempre foi assim. Houve um tempo que os carecas não eram tão bem vistos e chegavam a ser discriminados, objetos de comentários maldosos, tornando-se uma espécie de ponto de referência:
    “Lá na frente. Ao lado do careca”.

Num século que parece distante, houve quem escrevesse uma marchinha de carnaval como forma de redenção da classe. Com o evento das micaretas e o fim do carnaval de salão apenas os mais antigos se lembrarão do refrão daquela música de duplo sentido que garantia que é dos carecas que elas gostam mais. Fora do carnaval, nem sempre foi bom para os carecas.
Telly Savallas, o Kojack, e Yul Brynner, um dos irmãos Karamazov, foram os primeiros carecas amados e reverenciados de que tenho notícia. Com o passar do tempo vieram outros de indiscutível carisma, sendo Michael Jordan o mais amado de todos.

Hoje, muitos cabeludos raspam a cabeça por questões estéticas, para fazer parte da nova tribo. Mas não tenho dúvida de que a grande maioria raspa completamente, numa espécie de tratamento de choque para o que antes era um problema e que agora virou charme. Assim que os cabelos começam a cair, o sujeito vai à farmácia e compra uma gilete. Fim de papo.

Não existe mais aquela preocupação de esconder a falta de cabelos, hábito que existe desde o começo das coisas. Há registros históricos de que no Egito antigo recomendavam que se aplicasse no couro cabeludo a mistura de partes iguais de gordura de leão, hipopótamo, jacaré, cabrito e cobra. O imperador romano Júlio César (100-44 a.C.) sonhava recuperar seus cabelos utilizando-se de uma receita nada convencional constituída por ratos domésticos queimados, dentes de cavalo, gordura de urso e vísceras de veado.
Eu não sou imperador de nada, mas já tentei de tudo. Xampu de jaborandi, azeite de oliva, poções milagrosas vendidas por camelô de porta de estação rodoviária e, ultimamente, ando as voltas com uma espuma mágica receitada por um dermatologista. A cada dia que passa, eu tenho menos cabelos onde deveria ter, e constato a existência de cabelos onde não deveria ter.
Então eu decidi que - se os carecas continuarem em voga até o fim deste verão - irei raspar tudinho. E já escolhi uma tatuagem tribal para o braço esquerdo e adquiri um par de brincos de diamantes de mentirinha. 
Senhoras e senhores, se até o final deste verão não surgir uma nova fauna de ‘descolados’ na humanidade, este ex-jovem semicareca vai andar absolutamente na moda.

Quem viver verá.

Tuesday, May 19, 2015

De olho na placa


Roberto Drummond me apresentou ao poeta Afonso Borges  no 'século passado', em Belo Horizonte. Foi empatia à primeira prosa e eu jamais imaginaria que aquele jovem inquieto viria a criar um dos mais importantes projetos culturais do Brasil.
O seu -  nosso - Sempre um Papo é motivo de orgulho não apenas para os mineiros, pois trata-se de uma das maiores referências quando o assunto é literatura no país.
Quase três décadas depois, continuamos nos frequentando e comungando de outras afinidades que vão além do gosto pela palavra. Entre elas está a afeição pelo Mercado Central da capital mineira, um dos cartões postais da cidade, ponto de encontro dos belorizontinos e reduto de turistas.
Aquele Mercado Central que já foi motivo de crônicas deste raso escriba em outras ocasiões. 
Este, que já elogiou o doce do abacaxi vendido em suas galerias.
Que já teceu loas ao antológico fígado acebolado, tão delicioso e único, que deveria ser colocado na bandeira de Minas Gerais.
Que já rabiscou vias-sacras etílico-grastronomicas que começavam no Rei do Torresmo, continuavam no beco entre os bares Fortaleza e Governador Valadares, terminando no Bar da Loura ou no Casa Cheia.
Este, que é fã dos queijos e doces vendidos ali e que já comprou cachaça, compotas, frutas, verduras, legumes, artesanato e até carne de sol feita em Montes Claros.
Infelizmente, recentemente, este cronista começou a ver o mercado de uma forma menos bela. Por um motivo diferente do de Afonso - que já abordarei -, mas que vai desaguar no mesmo lugar.
    Esta semana Afonso esteve por lá com a filha Manuela e quase bateu o carro diante de uma faixa de dez metros de comprimento, onde se lia: 
    "Favor efetuarem o pagamento antes de se dirigirem ao veículo. Não temos cobrança no terminal de saída"
    - Onde está o erro? Aliás, onde estão, os erros? - perguntou o poeta.
   Nas redes sociais, ele pediu a participação da população no sentido de preservação da língua portuguesa nas placas e faixas espalhadas pelo país. Afonso chegou a propor a criação de um 'bunker' de defesa contra erros da língua portuguesa em áreas públicas e privadas. Falou em patrulha ortográfica, que pode soar truculento e pretensioso, mas não é.

Sem querer dissertar sobre o massacre a que é submetida cotidianamente a língua portuguesa, atenho-me ao descontentamento que levou Afonso Borges a se manifestar publicamente contra o mercado.
E aproveito a dica para falar do meu,  aos olhos do mundo menos nobre que o dele.
É que eu quero protestar contra os preços abusivos que os comerciantes estão praticando no local.
Por mais cheio que estiver, um prato de comida a quilo contendo arroz, feijão, couve, farinha e carne de panela não deveria custar 48 reais.
Mas lá ele pode e absurdamente custa.
Assim como é absurdo o preço do estacionamento.
Dez reais por hora?
Não que eu seja mesquinho e não possa pagar, mas acho demasiado caro. Trata-se de um preço muito distante da realidade brasileira.
O absurdo dos absurdos, no entanto, dá expediente no banheiro masculino.
Cobram 0.50 centavos por cada vez que se se usa um ambiente sujo, fétido e que não possui tampa sobre os vasos sanitários ou instalação para pessoas com necessidades especiais. Dois dos cubiculos dispõem daqueles vasos antigos em que o usuário tem que se equilibrar, de cócoras, conforto zero, como faziam os romanos nos tempos de César.
Onde é que a queixa de Afonso Borges se encontra com a minha?
No detalhe, meus amigos.
A ganância está fazendo com que os comerciantes do Mercado Central de Belo Horizonte parem de atentar para o detalhe.
Detalhe nas placas. Detalhes nas faixas.
Detalhe nos menores detalhes.
E transformando aquele santuário da mineiridade em um lugar comum.

Tuesday, April 14, 2015

O tanque dos tubarões

Mal coloco os pés na terra e atravesso o portão que separa o cais de uma feira de artesanato adjacente à rua, eu tenho uma sensação que já tive antes. Não é uma sensação boa.
Por alguns longos minutos sinto-me como um pedaço de carne ainda sangrando, atirado contra a vontade em um tanque cheio de tubarões.
Sinto as mandíbulas traduzidas naqueles dedos negros, suados, puxando-me pelo braço de turista em plenas 8 horas da manhã.
- Quer um taxi?
- Posso trançar seus cabelos?
- Eu levo você aonde quiser, diz um outro.
- Que tal um passeio de charrete?
Olho para o animal esquálido e confiro o visual de seu dono, um homem igualmente magro e cabelos rastafari socados dentro de um surrado boné amarelo, verde e vermelho, feito de crochê.
Não respondo positivamente a nenhum deles e caminho com passos calculadamente firmes, os olhos postos no ponto mais distante dali.  Meus ouvidos estão temporariamente surdos. Precio sumir rapidamente.
A fúria dos ambulantes e prestadores de serviços informais daquele lugar é assustadora.
São homens e mulheres que sabem que precisam agarrar sua presa tão logo ela desce no navio.
Eles têm cerca de cinco minutos para convencer um estranho a ir com eles a algum lugar ou lhes vender algo, geralmente bugingangas com as cores da bandeira do país. São peixes esculpidos em madeira, cinzeiros de casca de coco, aquarelas com fins de tarde em que o mar engole o sol ou camisetas de malha ruim.
Nas feições embrutecidas daquelas pessoas há uma dureza que eu ainda não havia experimentado nas outras vezes que estive no Caribe. 
Nelas reside uma aspereza, um olhar duro, provavelmente em virtude da vida que levam, intuí. 
Ali não há aquele carinho - talvez fingido, meio 'prostituto' - pelos turistas despejados  pelos transatlânticos como em outros lugares.
As Bahamas são um arquipélago com cerca de 700 ilhas, conta-me Lenny, um negrinho atarracado, gorducho, capaz de momentos engraçados, apesar do seu olhar desconfiado.
Lenny é capitão e instrutor de mergulho do catamarã que nos levará a uma região mais remota, localizada a algumas milhas de distância do Atlantis, o opoluento complexo hoteleiro, cartão postal arquitetônico da ilha de Paradise.
Lenny aponta para uma espécie de ponte com janelas ligando a parte mais alta dos dois edifícios e conta que á a chamada suíte Michael Jackson, uma homenagem ao seu primeiro ocupante.
- Você pode ficar naquela suíte por uma noite se tiver 25 mil dólares, anuncia.
Sorrio aquele sorriso amarelo de que não é para mim. E faço cara de pasmo, quando ele assegura que a estadia mandatória é de, no mínimo, uma semana. Para ficar uma semana na suíte inaugurada pelo irmão de Latoya eu teria que assaltar um banco ou vender um rim.
Chegamos ao local do mergulho e a surpresa é um cartão postal.
Debaixo da água vejo milhares de criaturas marinhas, estrelas, lulas, polvos, moreias e peixes de geléia de todas as cores se esgueirando entre corais rosados, belíssimos castelos de calcário esculpidos pela mão de Deus.
Um espetáculo que não verei na Broadway.
Um colorido que nem mesmo o carnaval do Rio de Janeiro me proporcionará.
Absorvo cada criatura, feliz, o corpo enfiado naquela água transparente e de um azul que não sei descrever.
Para viver estes momentos valeu a claustrofobia de sete dias à bordo de um navio.
No trajeto de volta Lenny assume o papel de guia e começa a falar de seu país com um orgulho que me comoveu. Passando novamente pela ilha de Paradise, apontou para as suntuosas mansões, com admirável intimidade.
Aquela de telhado branco pertence a Sean Connery, o verdadeiro James Bond. Aquela outra é da magnata Oprah Wimpfrey; Michael Jordan e dono daquela tríplice, sendo que as duas menores são para uso dos flhos; no alto daquela colina vive um xeique árabe com suas seis mulheres e 12 automóveis Rolls Royce; "o rapper JayZ e sua mulher Beyonce são proprietários de toda esta parte, diz apontando para um pedaço de paraíso avaliado em dezenas de milhões de dólares.
    -Você mora por perto, Lenny? - quero saber.
Ele aponta para o outro lado da ilha e diz:
    - As belezas de meu paí estão nas mãos dos estrangeiros endinheirados. Ya man!

Suas palavras ficaram dando voltas dentro de minha cabeça e nem a lembrança dos peixinhos de geleia de Paradise Island foi capaz de me consolar. 
Com o que há de melhor na mão de estrangeiros, eu talvez fosse mais um bahamense furioso, como aqueles que arrancaram de vez a carne de meus ossos, no 'tanque dos tubarões' do início da crônica.
.

Friday, February 27, 2015

Pastéis de Vento



Sempre gostei de pagar a conta do restaurante. Às vezes me levanto, vou ao banheiro, passo pelo garçom e deixo o cartão de crédito. Noutras vezes combino com o empregado de mesa antes de nos sentarmos, e ele informa a todos que a conta já havia sido paga por um bom samaritano.
No dia seguinte, volto ao local e acerto. Já aconteceu muitas vezes.


No outro dia, conversando com meu pai, descobri como surgiu este comportamento, algo que Freud ou Pink Floyd podem perfeitamente explicar.

O ano é 1968 e a família Lima reside em Conceição do Capim, quase na divisa entre Minas Gerais e Espírito Santo.

Meu pai é um policial militar e é obrigado a viver como cigano, mudando-se de comarca até três vezes por ano, pulando de lugarejo em lugarejo, como se sua família fosse a troupe de um circo mambembe.
Conselheiro Pena, Baguari, Tumiritinga, Aimorés, Mantena, Itueta, Açucena, Pedra Corrida - onde nasci -, e Resplendor, onde morreu Carlos Antônio, o primogênio.
Carlos Antonio tinha três anos quando morreu nos braços de meu pai, na traseira de um jipe, a caminho do hospital da cidade, onde clinicava o doutor Manoel, uma lenda da medicina em todo o leste do estado.
O médico era impecável, dedicadíssimo, deixou seguidores e uma das melhores reputações que um profissional da medicina poderia ter. A adoração a ele era tanta, que era confundido com milagreiros, curandeiros, homens com poderes especiais. Mesmo assim ele não conseguiu salvar meu irmão.


Carlos Antônio morreu de meningite e gastroenterite.  A doença o abateu em três dias, deixando a família desolada, restando-lhes a pobreza e um menino de um ano, também com gastroenterite.
Doutor Manoel conseguiria me resgatar e aquela criança esquálida, de olheiras profundas, passou a ser o bem maior daquele casal que tinha tão pouco.
Como se não bastasse, envolvi-me em várias trapalhadas perigosas durante a infância.


Aos quatro anos despenquei de uma pinguela a caminho de uma pescaria e fui salvo de afogamento por uma amiga da família.
Numa outra ocasião, caí da ponte com meu pai, fechados por um caminhão e jogados lá em baixo, no meio das pedras.  O soldado ia ao guidão da bicicleta e levava seu inseparável menino na garupa, o que rendeu a ambos várias escoriações.

Pouco tempo depois eu engoliria uma bala de revolver calibre 38.
Depois de beber purgante, no terceiro dia, a bala sairia por vias naturais, sob os aplausos de todos, que corriam para o banheiro a cada vez que minha barriga doía.

O pior episódio, porém, foi um atropelamento em que fui arrastado por uma rural; as costas ficaram lanhadas, os braços e pernas esfarrapados. Tudo diante dos olhos impotentes de minha mãe, de quem eu me desprendera para correr atrás de um carrinho de picolé.
A tudo isto eu sobrevivi.  E meus pais tinham muito medo de que eu, assim como Carlos Antonio, os deixasse. Eu fui muito mimado por isto.

Naquele final dos anos mil novecentos e sessenta, o governo de Minas Gerais vivia uma grave crise financeira e os funcionários do estado tinham que conviver com enormes atrasos. Dono de boa reputação, papai comprava fiado na venda de Seu Zoíl e no Bar de Raulino, onde eu era autorizado a pegar o que quisesse.
Eu pedia “paspel de vento” e “goraná” todo santo dia. Com o passar do tempo, levava os amiguinhos da rua e Raulino nos servia sem torcer o bigode.
Num daqueles hiatos, meu pai ficou seis meses sem salário. Quando chegou o mirrado pagamento, ele passou na mercearia e no bar para saldar suas dívidas.


Com Seu Zoíl tudo saiu dentro do esperado, mas quando chegou ao bar, quase caiu de costas. A conta era astronômica.
Confrontado, Raulino argumentou que meu pai havia recomendado que me fosse servido tudo o que eu quisesse.  Ele só não esperava que eu levasse todos os meninos da rua para o lanche, às vezes um time inteiro de futebol mirim.
Seu Antonio não teve como arcar com aquele prejuízo imediatamente e só saldaria a dívida após vender uma penteadeira, um rádio de pilha, uma cômoda e uma garrucha de dois canos, herança de seu avô. 
Com o dinheiro rateado ele pagou a conta e cortou o meu crédito.
A partir dali, pastéis de vento e guaraná, só com a sua presença.
E ainda hoje, toda vez que vou pagar uma conta de restaurante, lembro-me de meu velho.  Lembro-me com um sorriso de canto de boca, sorriso meio acanhado, sorriso de quem não aprendeu a lição.


* Foto de Juliana Vinagre



.

Wednesday, January 14, 2015

Trabalho de Dentista



 

(Para a Margarida)


Fui lançar meu livro em portugal e aceitei o convite para jantar na casa de Jorge Pimenta, um intelectual minhoto, gente finíssima, fã de Guimarães Rosa e Milton Nascimento.
Jorge é mais jovem que eu, tem um casal de filhos e é casado com a bela Anabela, uma das pessoas mais doces que Deus emprestou ao mundo.
Enquanto esperávamos o jantar, tomamos umas cervejas Sagres geladas, "ao ponto", daquelas impossíveis de beber uma só.
Segurei o quanto pude, mas no final tive que pedir para usar o toilete.
Apontaram para a escada que levava ao segundo andar, pois o de cima era 'melhor equipado', palavras do professor.
No que subi, vi que a porta do quarto de Margarida, a filha pré-adolescente do casal, estava aberta.
No "verso da porta" estava Justin Bieber, sorridente e descamisado, metade da cueca fazendo propaganda da Calvin Klein, a calça caindo e aquele bonezinho dos Yankees com o bico meio de lado. Intuí que, quando ela fechava a porta, a imagem do poster ficava pra dentro do quarto, bisbilhoteiro e sedutor.
Não resisti.
    - "Delinquente e desinquietador de família", disse-lhe com ar severo.

Ato contínuo, tirei do bolso uma caneta e extraí dois dentes de seu sorriso, sem a menor dó.
Depois desci, jantei normalmente e fui para o hotel dormir.

Não sei o que aconteceu quando Margarida descobriu e cheguei a ficar preocupado por ter cometido o imperdoável ato de vandalismo.
Fiquei temeroso da reação dos pais quando confrontados pela filha, e medo da Margarida, sempre tão carinhosa comigo, este visitante intruso e inconveniente.
Mas não tinha como voltar atrás.
Estava feito.
Mau feito.
Cheguei a pensar em botar a culpa na Sagres.


Sofri a noite inteira, quase não dormi.
No dia seguinte, Jorge chegou ao hotel com aquela cara boa dele, todo sorridente, dando-me um abraço dos seus. Antes que eu falasse algo, adiantou-se:

     - Eu também nunca gostei daquele rapaz.
     - E a Margarida?  quero saber, preocupado.
     E ele:
     - Ah, a Margarida disse que tus és um tremendo gozador. Ela já está em outra.

Paguei um almoço no Paulo Padeiro e tudo terminou em bacalhau.
Margarida virou sobrinha, uma de minhas favoritas. 
E eu continuo um tio daqueles bem chatos, bem ciumentos e exageradamente protetores.
O One Direction que se cuide.

.