Thursday, December 31, 2009

A certa altura da vida começamos a aprender
a esperar o tempo. A certa altura da vida o que
nos mata não são as horas. O que nos mata são
as palavras e a ausência de palavras.

Baptista Bastos

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Wednesday, December 30, 2009

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A solidão dos domingos

Ontem foi domingo. Um domingo plúmbeo, que nem de longe se deixou transparecer um domingo de verão. Quase enlouqueci.
Acho que o fato de ter sido véspera de feriado também ajudou, transformando as ruas de Kearny num pavilhão de escombros. Fiquei inconsolável com o panorama que se desenhou diante de meus olhos.
Da janela do apartamento, vislumbrei o manto cinza que cobria a tarde, trazendo a reboque a lembrança de muitos outros domingos melancólicos de minha vida.
Sempre vi o dia em que Deus descansou de uma forma morna, ressaqueada, como se algo tivesse se quebrado, ou reerguido das cinzas, dentro de mim.
Essa foi sempre a percepção.
Em alguns domingos, penso que o mundo vai se esvair em marasmo e melancolia.
Em 1986, aos 23 anos de idade, escrevi um livro de poesias, que batizei de “Tango Fantasma”, título de um dos poemas da obra.
No poema aludido, eu falava exatamente da solidão de um domingo qualquer, que nascia parido da solidão de outros tantos domingos, e de um sujeito que perdera a esposa e a amante durante um único ciclo de sete dias.
Lembro-me que escrevi esse poema num domingo à tarde, após retornar de um almoço na casa do poeta Marcos Pizano.
As ruas de Governador Valadares estavam desertas e, tão logo tomei o ônibus para o bairro de São Raimundo, tive uma forte impressão de que havia entrado num trem fantasma.
Apenas o motorista e o trocador fizeram-me companhia durante toda a viagem, o lotação saltando feito um cabrito ensandecido sobre a estrada esburacada.
No alto-falante do teto do ônibus, a voz de Chico Buarque cantava:
“Ó pedaço de mim ó metade arrancada de mim”...
Cheguei em casa aos frangalhos, sentindo o peso de uma barra pesadíssima que aquele domingo implacável havia jogado sobre mim. E nunca mais me curei.
E assim continua sendo, tanto tempo depois, os domingos se repetindo com os mesmos contrastes, escrevendo minha história com pedaço de carvão sobre uma superfície de pedra.
Para mim, o domingo será sempre feito do programa Globo Rural, tendo, na sequência, Rolando Boldrin apresentando modinhas de viola e contando “causos” no Som Brasil.
Meu domingo terá Ayrton Senna da Silva, incólume com seu macacão e capacete impecavelmente limpos, ultrapassando mitos, acelerando seu nome nas páginas do esporte.
Afinal, domingo sem Galvão Bueno cuspindo bairrismos ao microfone serão ilegítimos.
E é por isso - e por muito mais -, que meus domingos serão sempre de almoço em família.
Domingo de irmã chegando com filho pequeno no colo, de mãe mexendo a comida no fogão, e de sobrinhos indomáveis correndo pela casa, como se ali fosse o pátio da escola durante o recreio.
Meus domingos foram, são e serão, sempre, de macarronada, de frango assado com farofa, de empadão de camarão, e de salada de legumes cozidos com maionese.
Meus domingos terão Sílvio Santos na televisão:
- Quem quer dinheiro?
Terão, também, partidas de futebol, cerveja espumosa transbordando pelos copos e escorrendo em rios que jamais desaguarão em lugar algum.
Serão domingos de clássico no Mineirão, sem nenhum grito de gol que nos redima e reconduza à glória.
Domingos como os de sempre,com folhas de jornal previamente lidas, amassadas, levadas pelo vento no bojo das tardes abandonadas.
Esse abandono com cara de ‘nunca’, semblante de ‘jamais’ é igual para todos nós. E ele se repete semana após semana, e tem o gosto requentado do jantar de ontem.
Sabemos, sempre, que o próximo virá vestido de um até breve e, como este que agora escorre entre nossos dedos, terá trejeitos decadentes de fim de festa. E essa é a nossa única certeza.
O fim da festa, moça. O fim de tudo, rapaz.
O viver verdadeiro, pleno e feliz, esse quase-milagre, só chegará amanhã, com o clareamento do dia, o corre-corre dos transeuntes e as buzinas dos automóveis nos ensurdecendo pelas ruas.
Segunda-feira não é mais o fino da fossa.
Segunda-feira é o berço da ressurreição da raça humana.


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Monday, December 28, 2009


Os Estatutos do Homem
(Ato Institucional Permanente)

A Carlos Heitor Cony



Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

Thiago de Mello
Santiago do Chile, abril de 1964

Saturday, December 26, 2009

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Tramas de um tema fugidio

Nem sempre quem vive do ofício de escrever consegue traduzir em palavras as suas visões, obsessões e sentimentos. Já me frustrei em várias situações, vendo-me obrigado a enterrar temas que julgava bons.
Alguns eram de cunho pessoal, outros meramente circunstanciais.
Os circunstanciais costumam passar.
Os de cunho pessoal, não.
E ficam ardendo em quem não teve lastro para parir seu invento, marcando na pele da alma como se ferro quente fosse.
Quando minha avó paterna morreu, eu quis escrever uma crônica declarando a ela todo o meu amor.
Tínhamos uma história maior do que aquelas normalmente inerentes - e que já são imensas, por si - a uma avó e seu neto.
Eu, que nasci à luz de uma lamparina numa cidadezinha do interior de Minas Gerais, tive em Ana Emília a parteira.
Foi por suas mãos que vim ao mundo.
Ela foi a primeira pessoa a me tocar e a embalar um choro meu.
Cresci apreciando seus frangos ao molho pardo, seus biscoitos de polvilho e a habilidade de alinhavar versos de encantadora pureza.
Acho que meu gosto pela poesia veio dali, daquelas singelas trovinhas de Ana Emília.
Mas Ana Emília se foi.
Ao contrário de tanta gente que pede a conta da vida, paga e sobe, contente, Ana Emília driblou, o quanto pode, o “garçom” da vida.
Tinha 104 anos quando se viu obrigada a assinar a fatura.
Deixou saudades, lições preciosas, e uma lacuna impossível de ser preenchida.
Senti tanto sua morte, que não logrei escrever absolutamente nada que traduzisse o que sentia - e sinto - por ela.
Sentava-me à frente do computador e não conseguia digitar mais do que meia dúzia de frases.
Lia em voz alta, relia, tentava costurar palavras às emoções e apagava tudo, logo a seguir.
Mais de um ano depois de Ana Emília nos ter deixado, vira e mexe, a vontade de escrever alguma coisa para ela renasce. E me ilude, uma vez mais.
Como uma brasa acesa pela brisa da saudade, a fogueira da inspiração até chega a se insinuar.
Mas aí bate um vento mais forte que a tudo apaga, bloqueando os sentimentos.
E uma chuvinha fina, a do desânimo, começa a respingar sobre as idéias, arrefecendo o desejo de homenagear minha avó.
E esta não é a única frustração que carrego neste, digamos, “departamento”.
Existem outros temas que também não foram bem resolvidos, mas que precisam ser.
Durante um bom tempo de um tempo bom de minha vida, pensei em escrever uma história de amor.
O palco: Santana dos Ferros, terra de Roberto Drummond, uma figura definitiva em minha trajetória de operário da palavra.
Como um pupilo que provocasse o mestre, eu queria surpreender Roberto, que tinha obsessão pela morte. Seus livros evocavam isto:
Quando Fui Morto em Cuba, A Morte de D.J. em Paris, O Dia em que Ernest Hemingway Morreu Crucificado, Os Mortos Não Dançam Valsa, sua última publicação, atestam bem essa obsessão.
E eu queria algo que evocasse e celebrasse a vida.
Uma estória que, ao contrário das suas, tivesse um final feliz.
Uma estória simplória como a água da chuva, cuja sofisticação residisse justamente nessa singularidade.
Não haveria eletrizantes perseguições policiais, mas uma charrete rodando numa estrada de pé-de-moleque, ao som da percussão das ferraduras batendo nos cubos de pedra.
Ao invés de ditadores e agentes de espionagem truculentos dos seus romances, crianças correndo pelo jardim forrado de margaridas, lírios e jasmins.
Ao contrário de seus assassinos de aluguel, seresteiros.
No lugar do estampido de tiros de pistolas, metralhadoras e revólveres dos seus livros, a suavidade de cavaquinhos, bandolins, violões e flautas.
Na contramão dos golpes de estado, saraus.
E uma lua cheia cuja luz atravessasse a vidraça e a cortina do quarto desta aludida casa das margaridas, e iluminasse um casal trocando beijos e juras de amor eterno.
Mas sei que Roberto Drummond acharia essa idéia ingênua demais.
"Não vai vender nem para a sua própria família", imaginei sua voz ao meu ouvido.
Ele certamente não me permitiria escrevê-la, até o fim.
Meu mestre sempre preferiu beber da água turva do caos.
Ou a morte pela sede, com a dramaticidade apropriada de um personagem seu.

Nota de rodapé:
Certa noite, em BH, comecei a falar desse impossível futuro romance para Roberto e ele me pediu que parasse de contar, imediatamente. E argumentou:
- Páre, ou você terá que me matar aqui mesmo. Se me contar mais uma palavra, começo eu mesmo a contar esta estória quando chegar em casa. E dou um jeito de avacalhá-la com algum incesto, alguma vingança de família, algum corruptor...
Menos de um ano depois, Roberto morreria, de ataque cardíaco, horas antes do jogo Brasil X Inglaterra, naquela copa do mundo disputada na Ásia.
Meu amigo, meu mentor e parceiro de chopes e quimeras também deixou uma lacuna impreenchível.
Ao contrário de minha avó, escrevi uma dúzia de crônicas relembrando momentos nossos, esmiuçando essa saudade que nunca terá um fim

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Quem faz um poema abre uma janela.

Respira, tu que estás numa cela abafada,
esse ar que entra por ela.

Por isso é que os poemas têm ritmo

- para que possas profundamente respirar.

Quem faz um poema salva um afogado.

Mário Quintana

*

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video

Ponto de Encontro

(Milton Nascimento e Zé Renato)

Corro ao portão
Que esperança
Correio já passou e não deixou nada
Segura essa coração
Vamos ver se amanhã a coisa...muda
O telefone diz
A voz é outra...
Fala do trivial
Não faz mal. Agrada...
Olhar não mente e se mostrou
Narrando uma ansiedade
Quase louca
É muito amor que se viveu
Pra se apagar na sombra
Da saudade... Que saudade

Onde se perdeu...
Onde se esqueceu...

Tudo tem seu momento, é tudo ou nada...
E lá no fundo sei talvez seja tarde
Só a imagem que ficou
Virá me visitar o pensamento
Virá me embriagar de fantasia
O teu perfume então estará na vida
A hora certa já passou
E o tempo não curou essa ferida
O muro cresce já subiu
E corro atrás da porta de saída...
A saída...

De te respirar...
De reconquistar...
De te respirar...
De reconquistar...

Corro ao portão, que esperança.
Correio já passou e não deixou nada
Segura essa coração, vamos ver se amanhã a coisa muda.

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Friday, December 25, 2009

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No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas
que o vento não conseguiu levar:
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento...

(Mário Quintana)

Thursday, December 24, 2009

Missiva Para o velho Noel

Papai Noel, neste natal que se aproxima, não quero nada. Não me comportei bem o suficiente em 2009, eu sei.
Portanto, não receberá minha costumeira cartinha, aquela que todos os anos lhe chega às mãos repleta de pedidos, alguns mais impossíveis de se obter, do que a solução pacífica para palestinos e judeus.
Mas receberá uma substituta, bem menor, e também de punho meu.
E, nela, Papai Noel, não pedirei nada para este raso escrevinhador de sonhos.
Nas minhas mal traçadas linhas, intermediarei pedidos de pessoas queridas.
Farei a missiva chegar às frias paisagens do Polo Norte com o desejo de que a leia com carinho e que a atenda, na medida do possível, recolhendo as prendas quando seu trenó estiver sobrevoando o Brasil.
Meu amigo Corrêa, que é de Curvelo, quer o cheiro de um pequi maduro.
Na falta da fruta, caso não seja esta a sua estação, pode trazer uma generosa porção de carne de sol com mandioca, típicas e abundantes da região do norte de Minas.
Caso traga a segunda parte, Waltinho Capistrano vai aproveitar a pedida e o pedido, e fará companhia a Corrêa, com quem dividirá sua prenda: uma boa cachaça de Salinas, envelhecida em barril de imburana e servida num copo lagoínha, como manda a etiqueta dos que entendem do assunto.
Kiko de Souza se contentará com a brisa da manhã de São João Del Rei, abanando as palmeiras do pátio da igreja de São Francisco.
Andréa Pérola, moça do norte do Paraná, quer um punhado de terra vermelha do chão de sua Maringá.
Para o pernambucano Francisco Sampa, uma escultura do Padre Cícero, feita em barro, dos quintais de Caruaru.
O mundo precisa de milagres, Papai Noel.
Regina Pacheco, embaixatriz de Vila Velha no mundo, quer a fotografia de um entardecer na Praia da Costa, da qual tem imensa saudade.
Regina cresceu naquelas areias.
Aquele mar era seu, como também eram seus o sol vermelho do entardecer, as areias da praia e o Convento da Penha, majestoso, imponente na paisagem ao fundo.
O polêmico João Leite, que nasceu em Ipatinga mas cismou de torcer por um time do Rio, quer que o Flamengo repita o sucesso de 2009.
Como de costume, sei que será difícil manter em dia o salário dos jogadores rubro-negros, e que alguns craques estão de partida. Vá, Papai Noel, dá para João Leite e seu Flamengo, um lugar honroso na tabela em 2010...
Chiquinho Woodstock pede o canto de um legítimo canário do reino. Na falta deste, pode ser o de uma cotovia, ou de uma sabiá-laranjeira.
Para o brasiliense Ewerton Oliveira peço pouco, uma garrafa transparente, contendo o ar inconfundivelmente seco da capital federal.
Para Mario Bittencourt, que é do Rio, consiga-lhe a partitura de um samba de Noel, ou de um choro de Pixinguinha.
Para meu compadre Fábio Portugal peço um grito de gol de sua Ponte Preta.
De preferência num derby campineiro.
Gol de vitória, suado, libertador, aos 45 do segundo tempo.
Pode ser até de mão.
Para Rodrigo Barbosa, um desenho mágico, jamais publicado, da lavra do mago Henfil.
Para Amália Prata, mulher do interior de Minas Gerais, uma serenata, com violões, bandolins, pandeiros e flautas.
E uma noite com lua para acompanhar.
Márcio Pretto, que é curitibano, ficará feliz com o eco de um show de rock na Pedreira Leminski.
Sofrendo de banzo, Orlando Norberto, que nasceu e cresceu nos Pampas, anda precisando escutar o silvo do minuano, seguido de uma milonga chorada de uma gaita distante.
Ou uma Ramilonga do Vitor, irmão de Kleiton e Kledir.
Atendei seu pedido, Papai Noel.
Para Peter Pantoliano, que admira a beleza de nosso povo, traga o gingado das cadeiras de alguma das moças do funk carioca.
E se depois disto tudo ainda tiver sobrando algum espaço em sua bagagem, traga um bom bocado de paz e solidariedade semeados em solo brasileiro pelo saudoso Betinho e por Zilda Arns, que é pra eu dividir com quem encontrar pelo caminho.
E, se todo mundo já estiver servido, posso até ficar com um pedacinho para mim.

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Tuesday, December 22, 2009


Por quem os sinos dobram

Conheci Raul Seixas. Será que posso afirmar isto?
Eu tinha 16 anos e fazia um bico em um restaurante de posto de gasolina na saída de Governador Valadares.
Devia ser umas duas da tarde e o calor infernal daquele dia de verão era suficiente para fritar um ovo no asfalto.
O roqueiro chegou a bordo de um modesto Fiat, atravessou o salão e levou seu corpo magro ao banheiro.
Voltou de lá alguns minutos depois, debruçou-se sobre o balcão e pediu uma água mineral.
Dali a pouco chegou uma mulher, que ele chamava carinhosamente de Kika.
Servi-lhes a água pedida, e fiquei olhando para aquela figura esquálida de cabelos desalinhados, cavanhaque generoso e óculos ray-ban de lentes escuras. O rosto miúdo e fino dava a impressão de que os óculos eram muito maiores do que realmente eram.
A companheira se ajeitou, carinhosamente, ao seu lado e os dois ficaram ali, em pé, saciando a sede, trocando carinhos e olhando para a prateleira cheia de Undembergs, conhaques de São João da Barra e Jurubebas Leão do Norte.
Curioso, inconveniente, num daqueles arroubos adolescentes, perguntei se ele era o Raul Seixas. Ao que respondeu com simpatia, quase doçura:
- Raul Seixas, Raulzito... Pode me chamar como quiser.
Nem parecia uma estrela da MPB.
Animado, contei que em Valadares tinha um sujeito meio maluco que tocava violão, cantava suas canções, imitava seu visual e que dizia ser ele, Raul Seixas.
E o ‘original’ ali na minha frente sorriu, interrompido pela mulher, que contou que havia muitos outros clones de Raulzito espalhados pelo Brasil.
No coração de Minas Gerais, haviam acabado de encontrar mais um “maluco beleza”. E aquilo os alegrava.
Raul fez perguntas sobre seu clone valadarense, o Landinho, e se divertiu com as peripécias do fã.
Ficamos conversando durante uns dez minutos e, quando ele se preparava para ir embora, pedi um autógrafo, um dos muitos que ainda pediria pela vida.
Ele foi ao carro e trouxe de lá um pôster de divulgação do seu LP “Por Quem os Sinos Dobram”, perguntou meu nome e nele escreveu:
“Roberto, os sinos dobram por você. O abraço do Raul Seixas”.

Uns 20 anos depois, estou na nova casa de meus pais em Belo Horizonte e minha mãe apareceu com uma caixa cheia de papéis e outras bugigangas, perguntando o que deveria fazer com aquilo.
Abri uma cerveja gelada, sentei-me no chão do quarto e fui retirando de dentro da caixa todos aqueles pedaços esquecidos de mim.
Achei um caderno grosso com meus primeiros poemas e duas mini-crônicas, manuscritas no verso de um cartaz anunciando a candidatura de Tancredo Neves para o Senado.
Resgatei um cartão postal da cidade do Serro-MG, lugar escolhido para as férias de um meio de ano do poeta Abel Costa. Nele estava escrito:
“No Serro, subi a serra e fui a um enterro”.

Reli cartas de amigos e ex-namoradas, fotografias, bolas de gude que sobreviveram à minha infância, recortes de jornais e revistas.
Um destes recortes era a capa da revista Veja que anunciava a morte de Elis Regina. “Nasce uma Estrela”, era a manchete.
Emocionei-me, como havia me emocionado no dia em que Elis resolveu subir aos céus e se tornar zelação.
Encontrei um livro de Carlos Drummond de Andrade todo perfurado por traças.
Abri, numa página qualquer e, de lá de dentro saltou, além do cheiro implacável do tempo que passou, uma pergunta que cortou feito navalha:
“E agora, José?”.

De dentro de uma caixa de pó-de-arroz ainda em bom estado de conservação retirei o primeiro dente de leite que me caiu e um pedaço pequeno do cordão umbilical já mumificado, amarrado por um cordão de desbotado azul.
No diminuto folheto do circo mexicano se espremiam os maiores trapezistas do mundo, o homem-bala e um anão que cospia fogo.
Exatamente como no dia que o encontrei na avenida JK, naquele diadema prateado faltava uma pedra de imitação, que sempre imaginei ter sido da cor vermelha.
Tinha também um calendário dos pneus Pirelli, cheio de moças desnudas, lindas, musas de um tempo que não volta mais.
Encontrei ainda um exemplar do Novo Testamento em miniatura, um álbum de figurinhas com os heróis do tri – incompleto -, meio time de futebol de botão, um espelho de bolso oval com o escudo do Cruzeiro em seu verso, uma fita arrebentada do Senhor do Bonfim – sem que meu pedido jamais tenha se cumprido -, um frasco de seiva de alfazema quase pela metade e aquele surpreendente pôster de Raul Seixas.
Abri um sorriso bom e em algum lugar dentro de mim, a lembrança do doce encontro com o cantor fez com que se dobrassem sinos.
E eles dobraram por Raulzito, santo padroeiro de todos os malucos-belezas desse mundo.
E dobraram, também – e por que não? -, como naquela dedicatória assinada por ele, pela vez derradeira, por mim.
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Saturday, December 19, 2009

dos lírios de líria...


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perdulário

amanhã será hoje
e hoje passado
(ter-se-á esgotado
o tempo de viver)

) quem joga vida fora
não sabe a importância
do agora (

**

lembranças

quando amanhã for ontem
esperanças serão acervo


(líria porto)

Thursday, December 17, 2009

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"
... as palavras mordendo a solidão
são a grande razão, a única razão.
"
Eugenio de Andrade

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Wednesday, December 16, 2009

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O Verdadeiro Peso da Terra

E se tudo o que disseram tiver sido mentira? E se não houver, finalmente, vida após a morte? Já imaginaram?
De um instante para o outro a chama da vida se extingue e, como uma vela apagada, deixaremos de iluminar a escuridão à nossa volta.
Assim, de repente, não mais que de repente e, como que reagindo ao movimento do dedo no interruptor, ou no botão onde Deus escreveu, em inglês, a palavra Off, chegamos ao fim.
Cessa o movimento do corpo, a memória se apaga e a estrada da vida chega ao seu final.
Acabou. The End. Fim.
Não há mais acerto de contas, nem purgatório, nem dono do inferno ou senhor do céu.
Não haverá São Pedro, nem Satanás para dar as boas-vindas à porta da próxima parada.
Nem céu, nem inferno, apenas o buraco negro do nada e a matéria se desintegrando, gradualmente, pasto de vermes.
Este é o ponto final. Todo mundo desce aqui.
A partir daqui, só o silêncio, a escuridão, a inércia, nada mais.
Já imaginaram?
Eu, que imaginei e fiz as contas, considero-me no lucro. Se não houver nada além, já terá valido a pena.
E valeu, porque andei de pés descalços sobre a grama orvalhada, mergulhei no doce das águas de um rio e no sal das ondas do mar. Vi o sol nascer e se pôr, conheci o amor, gerei crianças perfeitas, lindas.
Fui abraçado por mornas manhãs, fiz serenatas em noites de lua cheia, recebi o afago do vento e tomei banhos de chuva.
Li livros bons e ruins, conheci pessoas interessantes, gritei “gol”.
Chorei de alegria e de dor. Gargalhei, sorri.
Bebi a poesia de Neruda, Drummond e Lorca. Sonhei mudar o mundo e acordei, pacificado e nu, diante de um imenso deserto.
Não conheci a fome ou equivalente flagelo. Sempre existiu um cobertor para me proteger do frio e um teto como abrigo às tempestades. Decifrei, menino ainda, o significado da palavra lar.
Fiz amigos, muitos. E inimigos que não enchem uma mão.
Comi pão com mortadela de padaria, colhi fruta madura no pé, senti o perfume de um jasmineiro em noite de estrelas.
Nunca roubei, matei ou envergonhei quem me trouxe ao mundo. Fui abençoado por ter vindo de quem vim.
Ao longo dos anos tentei vencer a inveja e a mesquinhez. Não sei se consegui.
Mas meus pecados podem ser considerados menores, e os medos nunca me assustaram além da conta.
Saí de minha aldeia, corri trecho, visitei mundos que imaginava longínquos demais, paisagens tiradas de páginas impossíveis. Fui e voltei.
Aprendi a me arrepender dos erros e a pedir perdão, uma das tarefas mais difíceis para o ser humano.
Obra em andamento, eu sei que ainda tenho muito a melhorar. Mas não perdi a esperança.
Se tudo o que disseram durante toda a vida tiver sido mentira, não terei mais perguntas a fazer. Nem queixumes.
E me darei por satisfeito se tiver conseguido melhorar o produto final, quando tiver chegado àquela hora de ir desta para lugar nenhum.
Reduzido a simples matéria, sei que a terra me será leve, muito leve.

Sunday, December 13, 2009

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"Paulo tinha fama de mentiroso. Um dia chegou em casa dizendo que vira no campo dois dragões da independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas.
A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte ele veio contando que caíra no pátio da escola um pedaço de lua, todo cheio de buraquinhos, feito queijo, e ele provou e tinha gosto de queijo.
Desta vez, Paulo não só ficou sem sobremesa como foi proibido de jogar futebol durante quinze dias.
Quando o menino voltou falando que todas as borboletas da Terra passaram pala chácara de Siá Elpídia e queriam formar um tapete voador para transportá-lo ao sétimo céu, a mãe decidiu levá-lo ao médico.
Após o exame, o Dr. Epaminondas abanou a cabeça:
-Não há nada a fazer, Dona Coló. Este menino é mesmo um caso de poesia".

(Carlos Drummond de Andrade).

Wednesday, December 9, 2009

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Tempo, o Senhor de Tudo
(Para Ciro e Marcie)

O tempo, às vezes, é um objeto. Ainda ontem escutei alguém afirmar tê-lo perdido. E comigo! Eu não o tenho em minha posse (juro!).
Eu, que já perdi a carteira, o telefone celular, as chaves de casa e do carro, e até algumas oportunidades na vida, fiquei matutando se já perdi o meu tempo.
Pensando nestes termos, é uma obviedade afirmar que tanto se perde quanto se ganha tempo. Já me peguei adiantando umas coisas para ganhar tempo. É regra geral.
Quem mata o tempo não é um assassino e, sim, um suicida. Afinal, o tempo é imortal. Desde o início dos tempos.
Ponho-me a divagar sobre o tema, mesmo sabendo que isto será pura perda do próprio.
O tempo é cruel. Erode. Enruga. Estraga. Desbota.
Apenas algumas coisas ficam melhores com sua passagem. Dizem que o vinho é uma delas. Certas pessoas, também.
O tempo é matéria: é duro, de ferro.... É volátil e evapora feito éter. Tudo depende de sua vontade.
É um atleta e corre como ninguém. Mas às vezes demonstra vocação para lesma – e passa bem devagar.
Ele é inesquecível. Deixa sempre sua marca. Basta um olhar no espelho para encarar essa triste realidade.
Nascemos condenados a sua ditadura, concluo. Mas ele também é democrático, pois passa para todo mundo.
É um estilista. Dita a moda. Nunca é omisso, está sempre presente. Ele é sina, comprida ou curta.
Tive um irmão que morreu aos três anos de idade. E uma irmã que partiu logo ao nascer. Não tiveram tempo sequer de olhar no relógio.
Tempos modernos. Tempos passados. Tempo, tempo, tempo...
Bons tempos. Velhos tempos. Tempos de guerra e paz.
Inventor da saudade e da nostalgia.
Latifundiário, criador de vacas magras. E também de vacas gordas. Vale perguntar: onde foram parar os bois do tempo? Ou serão eles os Bois-tempo de Drummond?
Trabalha com agricultura. É de semear e colher.
É capitalista. É dinheiro.
Algumas pessoas o possuem de sobra. Outras não o tem para nada.
Às vezes ele nos cobra na mesma moeda. E não temos outra opção senão dar tempo ao tempo.
De vez em quando, o temos a nosso favor. Mas, quase sempre, ele joga contra.
Vivemos correndo contra ele, quando na verdade é ele que corre contra nós. Sobre todos e sobre tudo. Ele nos atropela como um rolo compressor. Mas consegue ser sábio e justo.
É como um juiz que não erra em seus vereditos. Diz quem está certo ou errado. Ou será que vocês nunca escutaram o refrão: “o tempo dirá quem tem razão”?
E esta é uma grande responsabilidade da qual o tempo não se esquiva. Ele faz chuva e faz sol. É de boa e, ao mesmo tempo, má índole. Escutei no rádio, por exemplo, que amanhã vai fazer tempo bom. Mas que depois de amanhã fará mau tempo.
Este senhor de mil faces é, de fato, inquieto.
Ele não pára.
É um automóvel sem freios.
Não, não pára. O tempo é tic, tac – e o que o fica entre o tic e o tac.
É um tipo raro de pássaro sem asas. Mas voa.
É uma espécie de guru que desperta em nós a generosidade: devotamos tempo aos outros e ficamos sem tê-lo para nós mesmos. É onipresente. Está em todo lugar. Ou melhor, passa por todo lugar. Passa sempre. O que às vezes me faz pensar que o tempo é Deus.



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Monday, December 7, 2009

Drummond Para Ser Bebido Em 3 Goles

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Definitivo

Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.

Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções
irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado
do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter
tido
junto e não tivemos,por todos os shows e livros e silêncios que
gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.

Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas
as horas livres que deixamos de ter
para ir ao cinema, para conversar com um
amigo, para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os
momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas
angústias se ela estivesse interessada em nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo
confiscado de nós
, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.

Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma
pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez
companhia por um tempo razoável,um tempo feliz.

Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um
verso:

Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida
está no amor que não damos
, nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do
sofrimento,perdemos também a felicidade.


A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional...

Carlos Drummond de Andrade

Friday, December 4, 2009


Tempos Quase Modernos


(Roberto Mendes e Capinan)



Qual o assunto que mais lhe interessa?
Qual o assunto que mais lhe interessa?
Além da vida in vitro feita nas coxas
E vivida às pressas

A empresa da guerra
A mais-valia da morte
A última sentença
A violência nas ruas
O bio terrorismo

A soja transgênica
Clonagem da mente
Dos órgãos vitais
A nova ciência
Moral decadente
Tradição milenar
Outra tendência

Suicídio, livre arbítrio
Aborto consentido, eutanásia
A dívida congênita
O quinto partido, o tempo
Das máquinas

Monarquia playback
A república inventa
O eclipse lunar,
a decadência moral

A calota polar, o império dos egos
O vidente cego, o cachimbo de Édipo
A paixão de Romeu, colapso dos mares
Crianças sem lares, a ausência de Deus

A assembléia dos loucos,
O juízo dos lobos
A vontade dos céus
A escala econômica em que o crime compensa

Qual o assunto que mais você pensa?

Sexo, amor, culpa ou inocência
A dieta do Papa, o segredo de Fátima
A última penitência

Bom dia Vietnã, boa noite Bagdá
Adeus Sherazade

Qual o assunto que mais lhe interessa?
Qual a verdade em que mais você pensa?

O fim da natureza
E o final da história
Glória, glória, glória?

Apenas uma canção invento agora
Um poema
A madrugada é silêncio, a dor acalenta

Esquece o início de tudo e o fim dos tempos
Deita no colo de tua amada
Onde da misteriosa expansão do nada
O universo se alimenta

Qual o assunto em que mais você pensa?
Qual é a verdade em que mais você sente?
Qual a mentira em que mais acredita?
Qual é o nome que você mais grita?
Qual é a força que mais te enfraquece?
Qual é a fome que mais te alimenta?
Qual é o prato que mais te apetece?
Qual é o mapa que mais te orienta?
Qual é o jogo que mais você ganha?
Qual é o ganho que mais te enriquece?
Qual é a perda que mais você chora?
Qual é a casa em que mais você mora?
Qual é a frase que mais você fala?
Qual é a fala que mais você cala?
Qual é o assunto que mais você teme?
Qual é o tema que mais ignora?

Qual o assunto que mais lhe interessa?
"...
Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer..."

Mia Couto


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Aquele incômodo dedinho que dói

Quando estamos tristes, tudo fica pior. É como quando estamos com um dedo do pé machucado e temos aquela impressão de que sempre o estamos batendo pelos cantos por onde passamos.
Não percebemos que sempre o batemos pelos cantos, desde que nascemos e aprendemos a caminhar, mas que não o sentimos porque ele só dói, quando realmente está machucado.
E não estamos com o dedinho do pé machucado, sempre.
Ou estamos?
Quando estamos nesses dias plúmbeos em que o corpo inteiro se transforma num grande dedinho machucado, ficamos expostos demais, sensíveis demais, fragilizados demais.
Um engarrafamento no trânsito torna-se uma calamidade de proporções tsunâmicas, a derrota do time de coração trucida tanto quanto a perda de um ente querido, e por aí vai.
Só dói quando eu respiro, posso afirmar. Por isso tento aprender a respirar mais miudinho.
Ando meio assim ultimamente, de braço dado com a tristeza, enamorado dela, mas pensando numa possibilidade de fugir do altar.
Dona Tristeza que fique solteira!
Meu médico falou em depressão. Recusei o diagnóstico.
Depressão é coisa de bacana. Ando triste. E pronto.
E não adianta culpar a descoberta de que Obama não é Superman, que os impostos aumentaram e as benesses escassearam, que o verão foi um arremedo ou que ganhamos mais uma nova ruga e acumulamos outros fios brancos entre os cabelos que restaram.
Não tem jeito.
Às vezes penso que nascemos com esse gen da dor, e que passamos a vida inteira tentando dar-lhe um nó.
Inventamos paixões, as transmutamos em amor, fazemos filhos, depositamos neles a esperanças de que sejam tudo aquilo que jamais seremos, devoramos livros, viajamos pelo mundo, pregamos diplomas na parede, nos empanturramos de lagosta e vinho.
Quando não dá para tanto, mastigamos couve e arrotamos caviar.
Tudo para driblar o gen da dor. Nem sempre conseguimos, obviamente.
Quem não tem o suficiente para pagar o analista – ou não acredita nisto -, tenta arranjar uma comadre.
Conversar faz bem, eu sei. Mas anda cada vez mais difícil encontrar alguém que nos escute mais do que tenha para dizer.
Hoje em dia todo mundo tem tanto a dizer... E nem tudo nos faz sentido.
Terei me tornado egoístas demais?
Na falta de grana pro analista ou de uma comadre para chorar em seu colo, dei de falar sozinho ultimamente. Mas nem eu próprio tenho tido paciência para tantas lamentações.
Religião, não. Obrigado.
Deus deve estar com a agenda cheia. E a fila é enorme.
E, pegar fila é outra coisa que deprime qualquer cristão. Mesmo cristãos não tão cristãos assim, como esse do dedinho machucado que batuca no teclado desse computador.
Reaprendo na marra, a ‘catilografar’ com o dedo indicador.
E assim termino mais um texto.
E assim eu venço mais um dia.
Pode ser que amanhã já não doa tanto. Pode ser até que já não doa mais.

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Wednesday, December 2, 2009

Um amigo é às vezes o deserto

Um amigo é às vezes o deserto,
outras a água.
Desprende-te do ínfimo rumor
de agosto; nem sempre

um corpo é o lugar da furtiva
luz despida, de carregados
limoeiros de pássaros
e o verão nos cabelos;

é na escura folhagem do sono
que brilha
a pele molhada,
a difícil floração da língua.

O real é a palavra.

(Eugénio de Andrade)

Tuesday, December 1, 2009















Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração

Ruy Belo

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Foto: Alfred Hitchcock, divulgando "Pássaros"

Sunday, November 29, 2009

"
O tempo é a minha matéria, o tempo presente,
os homens presentes,
a vida presente."

(Carlos Drummond de Andrade)

Friday, November 27, 2009

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Cortar o tempo

"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente".

Carlos Drummond de Andrade
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"Tenho apenas duas mãos e todo o sentimento do mundo".

Carlos Drummond de Andrade
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Wednesday, November 25, 2009

Viagem na boléia do tempo

Venho a Minas Gerais por um motivo diferente. Venho dar uma força a meu pai, que há alguns dias teve um derrame cerebral.
Ainda nem aterrisei no aeroporto internacional de Confins, e uma sensação estranha começa a tomar conta de mim. Lá de cima, as montanhas mineiras ganham uma dimensão de beleza para mim, filho da terra, que é impossível descrever em palavras.
O sol brilhante fabrica sombra em árvores, transforma riachos e lagos em espelhos de prata, realça a trajetória de uma caminhonete levantando um poeirão na estrada.
Para onde estará indo essa caminhonete? – pergunto eu.
Durante alguns segundos, pego uma carona e, na boléia da caminhonete, saio "passeando" pelas Gerais.
Minha primeira parada é Ouro Preto, lugar que ocupa a prateleira de cima entre todas as minhas lembranças.
Passear sobre mortos em igrejas pintadas de ouro pode parecer estranho, e é. Mas amo demais esta cidade, que é a minha Paris, minha Pamplona, minha Nova York e minha Quebec, tudo reunido numa só.
Subo e desço ladeiras, as ruas apertadas, o chão de pedras lisas, colocadas ali por mãos escravas.
Entro na casa onde viveu Tomás Antônio Gonzaga e de sua janela quase consigo ver a cabeleira de Marília de Dirceu, crina de égua ao vento. Quero ficar pra dormir, mas a caminhonete da saudade não pode parar.
E é assim que, em alguns instantes, estacionamos na boca de entrada da gruta do Maquiné. Um rápido tour, os olhos cheios de beleza que a natureza esculpiu ao longo de milhares de anos, e já estou pronto para uma visitinha à casa onde viveu um certo João Guimarães Rosa, em Cordisburgo.
Sento-me na cama onde dormiu o criador do Grande Sertão Veredas, bebo café numa caneca de esmalte descascada pelo tempo.
Despeço-me do lugar onde viveu o escritor e já estou na Governador Valadares da minha história, comendo cascudo frito e carne-de-sol - de dois pelos - de Frei Inocêncio (acompanhada de mandioca cozida e manteiga de garrafa), bebendo cerveja estupendamente gelada num bar, enquanto asas-deltas e paragliders fazem um bailado colorido no céu.
Ali, com amigos de infância, bebendo uma boa pinga de alambique, tricoteando brinca­deiras de um tempo que se foi, sou de novo um menino, correndo atrás de uma bola de meia, soltando pipa, levando à tiracolo um embornal cheio de bolinhas de gude.
Muito mais que isto, sou um homem correndo atrás de mim mesmo, como um cachorro rodopiando, tentando morder o próprio rabo. É assim a trajetória do homem, insistente em passar o resto de seus dias correndo atrás do menino que um dia foi.
E amanhecer na Serra do Caraça, passar a tarde num vapor do Rio São Francisco, escutando estórias de pescador.
Anoitecer em Diamantina e participar das serestas das noites de quinta-feira em Montes Claros, quando o mercado municipal se fecha para as vendas, e reabre para receber a população para uma cantoria de respeito.
Violões, cavaquinhos, tambores, pandeiros e flautas: a voz brotando dos pulmões num entusiasmo que te leva a abraçar estranhos, irmãos em outras vidas, e te dá uma indescritível alegria por saber, de cor, a letra de preciosidade como essa aqui:

“A deusa da minha rua
Tem os olhos onde a lua
costuma se embriagar
Nos seus olhos, eu suponho
Que o sol, num dourado sonho
Vai Claridade buscar” (...)

E acordar, nas cercanias de Belo Horizonte, lugar onde vive meu pai.
Sentar-me com ele à mesa, beber queimadinho, comer pão de queijo e biscoito de polvilho e um naco de broa de fubá.
Ver que ele está bem, lúcido, ligeiramente ranzinza, sem acusar nenhum resquício do acidente vascular que quase o levou de nós. Consigo sentir o seu cheiro...
Mas um barulho metálico me traz de volta ao mundo real.
A aeromoça anuncia que pousaremos em segundos. Aperto o cinto de segurança e retorno a poltrona à sua posição inicial.
Viro o rosto e, da janela do avião posso avistar ainda, lá em baixo, a caminhonete sumir no meio do poeira e da minha imaginação.
E o meu coração bate apressado, como o de um menino saudoso, que não vê o momento de abraçar seu pai.

*

"O correr da vida embrulha tudo.

A vida é assim: esquenta e esfria,

aperta e daí afrouxa,

sossega e depois desinquieta.

O que ela quer da gente é coragem".

João Guimarães Rosa
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Pequeno Exercício
Para a Alma (Fazenda)


Bom mesmo teria sido acordar com o canto do galo. São seis da manhã. Fecho momentaneamente os olhos e em algum lugar um cachorro late e um carro barulhento ronca o seu motor. Deve estar a quilômetros de distância, mas parece ziguezaguear dentro de meu cérebro. O breu da madrugada oculta o poeirão que cobre a folhagem do capim que margeia a estrada. Posso imaginá-lo amarelando tudo.
Sei que escutar a sinfonia serelepe dos primeiros passarinhos, ainda rolando na cama, dá uma sensação agradável. É como se uma substância que causasse, ao mesmo tempo, euforia e tranqüilidade, fosse injetada na veia ‘da alma’ da gente. E aí, sentir o cheiro de café que escorre do bico do coador de flanela até definhar, transformando-se em pingos esparsos, deixando para trás uma borra escura agarrada ao fundo do saco.
E só então levantar da cama, calçar os chinelos e, ainda de pijama, tomar o lugar à mesa.
Temperar o café com a raspa da rapadura, misturar nele a brancura do leite gordo, tirado momentos antes da teta de alguma vaquinha generosa.
Saborear a coalhada, o queijo, o melado da cana respingado sobre a batata doce, assada no forno à lenha.
Comer a broa de fubá, o pão de queijo ainda quentinho, os biscoitos doces e salgados, a brevidade, a geléia de jabuticaba espalhada no pão, e as frutas que no dia anterior adornaram o pomar.
Escolher entre mangas, laranjas, pêssegos, cajás, mexericas, jambos, pitangas, caquis, frutas-do-conde, carambolas...
Escavar um gomo daquela viscosa e (perfumada!) jaca, que se oferece no canto da fruteira...
E, só aí me levantar da mesa e tomar o destino da vida. Antes, um ritual:
Sentir o orvalho no gramado sob os meus pés e perceber, no jardim, o momento em que ele desliza, quase uma lágrima, na pétala de alguma flor.
E essa gota cristalina poderia estar percorrendo o vermelho de algum hibisco, ou o branco de uma margarida, linda em sua simplicidade.
Perto dali, galinhas ciscam no terreiro e uma andorinha estica o pescoço pra fora de seu ninho, construído no vão da madeira que suporta o telhado da varanda.
Um bem-te-vi canta na vizinhança, um tiziu pula na cerca, e um bezerro desesperado berra à procura da mãe.
O João-de-barro passa apressado, num vôo rasante.
Leva no bico um pedaço de capim.
Sua casa no alto do jenipapeiro já ganhou forma. Em breve estará na fase do acabamento.
Um vaqueiro chega e acena de sua montaria. Vai cercar o gado. Mas não tem pressa.
- Ô, malhada..
- A-ê-ê, estrela...
- Ô-ô, dengoso!
Na beirada do riacho uma garça espeta um lambari, que desce pelo pescoço comprido, numa agonia prateada...
E a ave o engole com facilidade, como se nem um “glup!” fizesse.
Por alguns segundos, acho que fazenda é o playground de Deus.
E a vida pulsa em todo lugar.
Raios de um sol inigualável se refletem na água, dourando e embelezando o deslizar animado dos patos, dos gansos e dos marrecos...
Uma moça ainda nova passa com uma trouxa de roupas sobre a cabeça. Suas cadeiras balançam como se ela ouvisse um samba.
Em breve escutarei a roupa sendo batida na pedra, ritmando definitivamente o seu ritual:
- Plaft, plaft, plaftz...
E as lavadeiras cantam.
Quatro meninos nadam fazendo algazarra.
Na porta da cozinha outra moça cata o arroz em uma peneira de palha. Está concentrada, separando o joio da jóia.
Um rapaz passa a cavalo.
E uma anciã atravessa vagarosamente o quintal. Está amparada por uma bengala feita de cana-da-índia. Está indo para algum lugar.
E eu?
Bem... Eu estou à boca de entrada do Lincoln Tunnel, esperando impacientemente a minha vez de fazer a travessia que me levará a Nova York, oposto de tudo o que imaginei e descrevi nesta crônica, parida com o único intuito de não me deixar enlouquecer no trânsito desta metrópole.
Ah, antes que me esqueça: são seis horas da manhã.

Tuesday, November 24, 2009

"Há um tempo em que é preciso
abandonar as roupas usadas,
que já têm a forma do nosso corpo,
e esquecer os nossos caminhos,
que nos levam sempre aos mesmos lugares.
É o tempo da travessia:
e, se não ousarmos fazê-la,
teremos ficado, para sempre,
à margem de nós mesmos".

Fernando Teixeira de Andrade
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Reescrever a Vida Numa Página em Branco

Vamos falar do mel. Das coisas boas. De mais encontros e menos despedidas. Mais delírios e menos porradas. Mais afeto e menos traição de pessoas próximas, posto que as que estão distantes, o espaço físico estabelecido se encarrega de nos proteger delas.
Vamos falar do mel das palavras bonitas e benfazejas.
E esquecer o fel daquelas que envenenam e coalham nosso sangue.
Vamos tecer alegrias e despedaçar mágoas. A hora é agora!
Mágoas passadas não movem moinhos.
Precisamos jogar no ralo da vida essas amarguras e tristezas que às vezes nos fazem sentir como se tivéssemos pregado Jesus Cristo à cruz.
Esse calvário não é nosso. Essa conta já foi quitada há mais de 2 mil anos.
Para que permitir que os erros e mazelas do passado nos aterrem, nos joguem nessa poça de lama que nos faz parecer ilhas flutuantes, sempre na iminência de um passo em falso?
Para que viver com um pé no presente e o outro no ontem?
É sabido que o passado é uma roupa que não nos serve mais. Assim sendo, para que insistir em vesti-lo, se as traças do tempo puíram o vestido, e as costuras do terno não resistiram ao passar dos anos?
Para que mastigar reminiscências que magoam?
Para que ruminar o vidro moído do ressentimento?
Aprendamos com os erros. Os nossos e os dos outros.
Reconheçamos a proximidade do perigo, todas as vezes que a vida o colocar travestido de tentação à nossa frente.
Precisamos nos desviar dele, sequer olhá-lo nos olhos, ignorá-lo, simplificando o ofício de viver.
Cortar laços nocivos e recomeçar do zero, se preciso.
Toda manhã é um convite ao recomeço.
Cada nascer do sol traz consigo a possibilidade de se reescrever a história a partir de uma página em branco.
O passado nos persegue, eu sei. Estejamos atentos.
Aprumemo-nos.
Acertemos os passos.
Desviar do que ficou para trás faz-se necessário.
Esse fantasma que insiste em voltar nos sonhos, quando dormimos, transformando nossas noites em pesadelos, aprendamos a assustá-lo.
Expulsemos esse verdugo para longe de nós.
Reinventemos as noites, se preciso. O que seria da raça humana sem a sua capacidade de sonhar?
Sonhemos!
Sonhemos dias sem tempestade, de céu claro e sol brilhante.
Dias que começam com a grama orvalhada e se encerram com uma lua cheia.
Dias de sorvete de limão para aliviar o calor, de algazarra de crianças brincando no recreio da escola e de pipa colorida desenhando o vento no ar.
Dias de música bonita tocando no radio e de notícias boas. De abraços sinceros e do calor das verdadeiras amizades. Dia de visita de irmão. Dia de colo de mãe.
Dias de sessão de cinema, de pipoca, de chope com os amigos e conversa leve no bar.
Dia de sonhar acordado com um amanhã melhor que o hoje. Esse hoje, que já foi muito bom.
Vamos falar de futuro...
De quintais embandeirados. De flores de laranjeira e serenata entre amigos.
Tempo de quadros de Marina Jardim nas paredes da sala, de bibliotecas acolhedoras, camas confortáveis, lençóis perfumados, macios, e travesseiros de penas de ganso.
Tempo de quintal com pomar, horta e canteiros floridos. Tempo de açucenas, margaridas e girassóis. Sonhemos...
Sonhemos poemas e canções.
Sonhemos o companheirismo e a amizade. Sonhemos mangueiras em flor.
Sonhemos...
Sonhemos a cumplicidade das coisas boas, a gargalhada solta, o afago gratuito e o olhar sincero.
Sonhemos aquela reparadora viagem a Matchu Pitchu, a Paris, a Buenos Aires, ao Komala ou onde quer que seja.
Tomemos coragem para fazer as malas. E embarquemos no primeiro navio.
Deixemos que o vento nos afague o rosto e nos percamos no azul do mar.
É muito provável que nesse se perder resida o se encontrar.
Vamos falar do mel.
Precisamos nos lambuzar dele.

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"Comigo a anatomia endoideceu: sou todo coração"
Maiakovski

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Sunday, November 22, 2009

"A tua vida é uma história triste. A minha é igual à tua. Presas as mãos e preso o coração, enchemos de sombra a mesma rua."

Eugénio de Andrade
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Saturday, November 21, 2009

Isabella Sonhava

Será que ela tinha uma boneca Hello Kitty?
Assistiria Bob Esponja na televisão? Gostava de A Bela e a Fera e da Pequena Sereia? Qual seria a sua favorita fábula infantil?
Será que seu cabelo ficava bonito amarrado por laço de fita? Usava trancinhas? Tererês?
Será que ela gostava de sorvete de morango?
Será que comia brócolis?
Do que gostava de brincar?
Amarelinha, videogame, bonecas de pano – às quais tratava como pequenas filhas e lhes dava amor e cuidados -, ou esconde-esconde?
Pedra, papel e tesoura?
O que gostava de cantar Isabella?
Ciranda-Cirandinha? Twinkle twinkle little star?
Nos seus sonhos, feitos de inocência e nuvens, será que ela conversava com animais de estimação? Falaria com anjos? Teria amiguinhos imaginários, daqueles que só as crianças vêem e que os adultos dizem ser o anjo da guarda?
Nos seus pesadelos, feitos de monstros de outras dimensões e bruxas malvadas, quem era o herói que a salvava?
O Pai? O amiguinho imaginário? Ou despencaria de um precipício até beijar o chão?
Será que Isabella acordava chorando no meio da noite?
Será que sorria?
Quando nasceu o seu primeiro dentinho?
Quando caiu o primeiro?
Gostaria de cães e gatos? Teria um? Gostaria de ter um?
Amaria passear pelo zoológico?
Gostaria de livros, de desenhar? Gostaria de flores?
Qual a flor favorita de Isabella Nardoni?
Cravo, lírio ou jasmim?
O que desenhava Isabella Nardoni?
Os irmãos? Bichinhos? Criaturas como as dos cartoons?
Qual era a sua cor predileta?
Azul? Rosa? Cobalto? Carvão?
Qual o tamanho de seus sapatos? Já teria pintado suas unhas?
Será que algum dia mergulhou no oceano? Teria gostado do carinho das águas deslizando pelo corpo? Gostaria de mar e brisa, de vento e verão?
Seria fogo ou água, essa menina tão linda?
Qual seria o seu signo no horóscopo chinês?
O que lhe reservaria o futuro?
Na adolescência iria ter acne no rosto? Sardas quando exposta ao sol?
O que estaria escondido nas cartas da cartomante, ou nas linhas desenhadas na palminha de sua mão?
Quando se apaixonaria pela primeira vez? Estaria, em seu futuro, reservado um grande amor?
Que profissão teria a adulta Isabella Nardoni?
Médica-veterinária? Trabalharia num banco? Venderia passagens aéreas para ilhas paradisíacas e pacotes para a Disney? Seria dona de casa?
Se casaria? Teria filhos?
Ninguém sabe. Ninguém saberá.
Isabella Nardoni voôu.
Foi atirada do 6º andar do edifício em que vivia com o pai, a madrasta e dois irmãos.
Saiu pela janela e voôu. Virou anjo.
Como aqueles com os quais conversava nas noites em que sonhava.
Sim, Isabella sonhava.
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Na Bagagem do Ex-presidente


Vejo na televisão a imagem de George W. Bush adentrando o helicóptero que o levará ao seu rancho, no Texas, onde ele inicia uma nova fase em sua vida.
Minutos antes, esse que agora é um ex-presidente, entregou ao seu sucessor Barack Obama um país mergulhado em duas guerras, trincado pela crise econômica e com a auto-estima em frangalhos, como se dissesse: Toma! É seu. Agora, se vira nos quatro!
O que levou George Bush, no helicóptero que o transportou ao Texas?
Terá levado sabonetes e toalhas dos banheiros da Casa Branca?
Terá levado uma almofada da sala oval, ou o seu travesseiro favorito?
Terá levado sementes das flores do jardim da residência oficial da presidência, para transplantá-las em seu quintal texano?
Terá levado talheres de prata?
Terá levado charutos, cinzeiros ou um chapéu de cowboy?
Presentes de dignatários de outros países terão cabido em suas malas, ou seguiram por terra, num caminhão da U-haul?
Será que Bush levou consigo um abridor de envelopes de prata, com a insígnia da presidência?
Terá levado algum livro da biblioteca? Algum souvenir?
Terá levado sua coleção de música country? Seus ternos bem cortados e suas gravatas vermelhas?
O que terá seguido por terra, em sua bagagem?
Será que ele conseguir fazer com que coubesse a ganância dos banqueiros e especuladores de Wall Street?
Terá levado um volume somente com a truculência de seus falcões?
Terá levado cópias dos discursos ufanistas de seu vice, Dick Chenney, ou o penteado austero de Donald Rumsfeld?
Terá levado um pouco do charme discreto de Condoleezza Rice, ou uma fotografia em preto e branco de Thomas Jefferson, retirada de alguma parede?
Terá levado um litro de sangue de um infante morto no Iraque?
Ou, a infinita dor de uma viúva de um marine tombado no Afeganistão?
Será que Bush alocou em sua mala a angústia de um desempregado de Detroit?
A frustração de um doente incapacitado de ter acesso ao seguro-saúde?
Terá levado a fragilidade de um aposentado?
Ou, a sensação de abandono de algum ex-proprietário de imóvel, que acabou de declarar falência e entregou ao banco a casa que não conseguiu quitar?
Será que ele levou consigo o que restava da alegria desbotada dos velhos da América, antes dessa sua administração?
Ou o desapontamento de um jovem, descrente com os rumos que tomou a nação e sem saber se poderá freqüentar, algum dia, a cadeira de uma universidade?
Terá levado o sorriso inocente de alguma criança?
Será que levou entre as suas coisas a incerteza de um imigrante indocumentado, ou a dor desses que deixam suor e juventude adubando esse solo, e que são humilhados cotidianamente como se fossem os culpados por todas as mazelas por que passa o país?
Será que levou consigo a tampa do poço? Sim, esse poço infinito, do qual nos últimos anos do seu governo não conseguimos ver o fundo... Será?...
O helicóptero levanta vôo e, lá de cima, George W. Bush deve estar vendo, certamente, a multidão que marcha enfrentando o frio cortante de Washington DC, com a alegria dos que vão a um desfile de carnaval em pleno verão.
Não sei se a massa que se arrasta freneticamente na frente do capitólio e dos principais monumentos da capital do poder sente ressentimento. Sente frio, é natural, mas um desejo maior os conduz em direção ao futuro.
Consigo imaginar que estejam sentindo o que eu sinto, nesse instante.
Isto, que vai além de um arrepio constante da cabeça aos pés, um frenesi que causa uma enorme vontade de cantar e abraçar todos os que cruzarem o meu caminho.
Bush levou muito da tranqüilidade do povo americano em sua bagagem, é verdade. E sei que levou muito mais.
Mas ele esqueceu-se de levar a nossa esperança, nossa vontade de virar o jogo e a fé em melhores dias.
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David Duarte, cantor e compositor cearense, dizendo Clarice Lispector.

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Frágil coração de poeta

Coração de poeta é um objeto frágil, peça de cristaleira que, se cair, pode quebrar. O meu deu um grande susto na semana que passou. Estava deitado, encafifado com um mote qualquer, pintando na tela branca do teto mais um impossível Renoir. Foi quando senti aquela pontadazinha no peito. Ignorei, pensei que fosse prisão de ventre. Não era. Fui ficando assustado.
Diante daquela súbita ameaça, dei um salto da cama e fiz a coisa mais sensata que qualquer homem faria num momento desses: gritei por mamãe.
E ela veio.
Dona Rute, de visita, correu pra me socorrer. Fez massagem, compressa de toalha molhada, rezou para São Judas Tadeu, mas o suadouro não parava. O jeito foi rumar para o hospital mais próximo, antes que fosse tarde demais.
No hospital, demorou a cair a ficha. Veio a bateria de exames de coração e a coleta de sangue suficiente para escrever um poema num muro qualquer. O eletrocardiograma indicava que estava tudo bem, mas o exame de sangue não deixava dúvidas: eu havia enfartado.
Enfarte é uma palavra tabu. Como a brochada, o exame de próstata e a “freada de bicicleta”. Homem evita tocar nesses assuntos.
É como se um vampiro escutasse alguém pronunciar “alhos e bugalhos”. Ou Disábato diante de um prato cheio de bananas. Ou, ainda, George W Bush recebendo pela Fedex um pacote de Osama. Mas, ali estava eu, na contra-mão da história, sofrendo por assuntos periféricos, que não mereciam mais a atenção. E enfartado.
No escuro do quarto de hospital depois que todos se foram, chorei miúdo. Afinal, quem tem coração, costuma chorar numa situação dessas.
Pensei nas pessoas que dependiam de meu trabalho para ter sobre suas mesas um pedaço de pão, nos que verdadeiramente me queriam bem e nos que não mereciam participar daquele pensamento dolorido na solidão de meu corner. Custou a amanhecer.
Sabino Torre, um italiano de aproximadamente 50 anos, bigode à Barão do Rio Branco, considerado uma das maiores autoridades em cardiologia em New Jersey, cuidou do caso. Antes de entrarmos na sala de procedimento cirúrgico, enquanto uma enfermeira filipina muita bonita depilava minha virilha – o que muito me constrangia -, ele chegou ao meu ouvido e cantou a bola. “Deixa comigo, meu chapa. Você não poderia estar em melhores mãos. Vai ser uma viagem suave”.
Mais um calafrio.
Felizmente, o cateterismo mostrou que não havia bloqueamento das artérias. Eu não havia, verdadeiramente, enfartado. Tratou-se de um vírus que se espalhara por várias partes do corpo e tentou, num momento de suprema audácia, se alojar no lugar sagrado onde só deveriam entrar as musas, os familiares, os bons amigos e as letras do alfabeto usadas na composição de poemas e canções.
O músculo da emoção, diante da ameaça de invasão, expele uma enzima que só é dectada através de exame sanguíneo. Trata-se da mesmíssima enzima que anuncia o enfarte. Após uma semana sob observação e transformando minha ala do hospital numa Marquês de Sapucaí, fui liberado. As enfermeiras, acostumadas a lidar com velhinhos descendo a serra e suas bocas sempre abertas, abandonaram por alguns dias a sisudez e o pragmatismo pelos quais elas são conhecidas, e entraram no samba do mineiro doido. Foi quase uma festa.
Fazia muito que as moças do Saint Barnabas não cuidavam de um paciente tão pirado. Uma delas chegou a sugerir que eu estaria na ala errada. A de psiquiatria ficava no outro extremo do grande complexo hospitalar de Livingston. Se não deixei saudades, terei deixado alívio. Vou enviar flores e chocolates qualquer dia destes. Junto com meu pedido de desculpas, obviamente.
Conversando sobre o assunto com Kledir Ramil, recebi algumas recomendações, que deverei seguir à risca. Para quem não sabe, além de inspirado cronista e cantor, ele é também dublê de proctologista e consultor de informática para leigos de todos os credos.
Usando seu método infalível irei cortar radicalmente o consumo de bebidas alcóolicas, sexo, rapé e alimentos gordurosos, como o torresmo de armazém e o pé-de-porco de botequim.
Passada essa fase de abstenção, entrarei na fase da prática de hábitos saudáveis. Caminhada na esteira, um litro de chimarrão por dia e vegetarianismo.
Vegetarianismo vem a ser um tipo de alimentação praticado por antigos povos afeminados, como os espartanos e os pelotenses, que sabidamente desenvolve a resistência das coronárias e a sensibilidade artística. Com sorte, serei parceiro de Kleiton & Kledir numa penca de canções.
Irei cortar os açúcares, as massas e, em caso supremo, os pulsos.
Se tudo isso não adiantar, instalarei um antivirus no coração. Segundo Kledir, se dá certo no computador, deve dar certo na gente também. Pode ser um Norton, um McAfee, ou de uma outra marca qualquer.
Embora eu preferisse, caso já existissem no mercado, os da marca Drummond, Rimbaud ou Baudelaire. Esses, sim, os antivírus mais adequados para coração de poeta.

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A certa altura da vida começamos a aprender
a esperar o tempo. A certa altura da vida o que
nos mata não são as horas. O que nos mata são
as palavras e a ausência de palavras.

Baptista Bastos

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Limando o Lima


Fosse aqui nos Estados Unidos, alguém com o sobrenome Lima iria procurar quem inventou a expressão “Mandar o Lima” e processá-lo. O bordão é sinônimo de descaso e é usado toda vez que alguém não quer ir a algum compromisso, e resolve mandar o Lima em seu lugar. Dizem que Tim Maia mandou o Lima a muitos de seus shows, e que teria sido ele o cunhador do mote.
Estivesse vivo e morando nos Estados Unidos, algum distante parente meu arranjaria um jeito de processá-lo, demandando milhões. Aqui se processa por tudo. Teve uma dona que ganhou uma grana porque uma lanchonete McDonalds serviu-lhe um café quente. Já no carro, o copo de café caiu-lhe sobre o colo, queimando parte das coxas. Isto talvez explique o cafezinho morno que andam servindo por aí.
Nos anos noventa, “Bráulios” do Oiapoque ao Chuí bem que poderiam ter se manifestado em tribunal. Foram injustamente estigmatizados.
Fosse o Brasil os Estados Unidos, o processo teria sido movido contra o ministério da Saúde, que na campanha de prevenção contra a aids, sugeriu que se plastificasse, encapuzasse, encamisasse os suscetíveis a doenças sexualmente transmissíveis, Bráulios de todo o país.
Os imprudentes burocratas da Saúde teriam facilitado as coisas sem traumatizar ou ofender ninguém, tivessem escolhido um nome que não quisesse dizer outra coisa, que não o próprio dito-cujo. Qualquer slogan simpático resolveria:
“Não corra riscos desnecessários! Na hora da transa, plastifique o seu Bilau”.
Não conheço ninguém com esse nome. Bilau da Silva; Bilau Osório; Bilau de Andrade.
Essa de mandar o Lima é uma bossa relativamente nova. Mas existem registrados alguns casos bem antigos. Dizem que o Lima fez muitos dos exames anti-dopings de Diego Maradona, quando este jogava no Napoli. Aliás, era o Limone quem fazia o xixi no lugar do baixinho.
Aldir Blanc narra em seu livro Rua dos Artistas & Arredores, uma preciosidade, que conto aqui com algumas “adaptações”.
Um rapaz do bairro havia combinado de fazer uma serenata junto à janela de uma moça. Seria uma serenata em que pediria a mão da beldade em casamento, e para a qual já estavam confirmados alguns dos melhores músicos da região.
Os preparativos corriam dentro dos conformes e houve até quem consultasse a folhinha Mariana para ver se seria noite de lua cheia. Afinal, serenata e lua cheia ficam perfeitas juntas.
A uma semana da grande serenata, no entanto, o candidato a noivo classificou-se para as semifinais de um campeonato de sinuca no bairro vizinho. A partir daquele momento criou-se um impasse. E ele teria que tomar uma decisão importante.
Uma decisão que denotasse responsabilidade e bom senso.
Foi assim que ele acabou em terceiro lugar no campeonato, sem fazer feio na serenata.
Um amigo dele – provavelmente de sobrenome Lima – fez um emocionado discurso, declamando versos românticos e pedindo a mão da noiva em nome do ausente, informando que este tivera um “compromisso inadiável”.
Foi muito aplaudido e o pai da moça não só permitiu o namoro, como ainda abriu uma garrafa de uísque, que guardara durante muitos anos para uma ocasião especial.
Se aconteceu, verdadeiramente, eu não sei, mas o certo é que todos estamos sujeitos a levar um bolo. E muitos destes bolos são involuntários. Aconteceu, muito recentemente, comigo.
Kiko Sales descobriu que seria aniversário de César Augusto, amigo querido de ambos. Precisávamos homenageá-lo.
Combinamos com outros amigos comuns de sairmos juntos, e celebrarmos a data magna do jornalista. Só que César e a esposa Luciana estavam de viagem marcada para as Bahamas naquele dia, e não poderia participar. Na ausência deles, remarcamos para a volta.
Quando ligamos novamente para avisar da nova farra, ficamos sabendo que na data escolhida, eles estariam a trabalho em Boston.
Não desanimamos.
Saímos, jantamos, festejamos e ligamos para ele na hora do parabéns, com todos soltando a voz em desafinado uníssono. Até os garçons ajudaram a engrossar o coro ligeiramente alcoolizado.
No dia seguinte, logo pela manhã, encontro no celular uma mensagem do aniversariante:
- Foi minha melhor festa de aniversário de que não participei. Muito obrigado!
Espirituoso, César Augusto não perdeu a piada e nem os amigos. E ainda ganhou, de presente, esta crônica aqui.

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Friday, November 20, 2009

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Tempo, o Senhor de Tudo
(Para Ciro e Marcie)

O tempo, às vezes, é um objeto. Ainda ontem escutei alguém afirmar tê-lo perdido. E comigo! Eu não o tenho em minha posse (juro!).
Eu, que já perdi a carteira, o telefone celular, as chaves de casa e do carro, e até algumas oportunidades na vida, fiquei matutando se já perdi o meu tempo.
Pensando nestes termos, é uma obviedade afirmar que tanto se perde quanto se ganha tempo. Já me peguei adiantando umas coisas para ganhar tempo. É regra geral.
Quem mata o tempo não é um assassino e, sim, um suicida. Afinal, o tempo é imortal. Desde o início dos tempos.
Ponho-me a divagar sobre o tema, mesmo sabendo que isto será pura perda do próprio.
O tempo é cruel. Erode. Enruga. Estraga. Desbota.
Apenas algumas coisas ficam melhores com sua passagem. Dizem que o vinho é uma delas. Certas pessoas, também.
O tempo é matéria: é duro, de ferro.... É volátil e evapora feito éter. Tudo depende de sua vontade.
É um atleta e corre como ninguém. Mas às vezes demonstra vocação para lesma – e passa bem devagar.
Ele é inesquecível. Deixa sempre sua marca. Basta um olhar no espelho para encarar essa triste realidade.
Nascemos condenados a sua ditadura, concluo. Mas ele também é democrático, pois passa para todo mundo.
É um estilista. Dita a moda. Nunca é omisso, está sempre presente. Ele é sina, comprida ou curta.
Tive um irmão que morreu aos três anos de idade. E uma irmã que partiu logo ao nascer. Não tiveram tempo sequer de olhar no relógio.
Tempos modernos. Tempos passados. Tempo, tempo, tempo...
Bons tempos. Velhos tempos. Tempos de guerra e paz.
Inventor da saudade e da nostalgia.
Latifundiário, criador de vacas magras. E também de vacas gordas. Vale perguntar: onde foram parar os bois do tempo? Ou serão eles os Bois-tempo de Drummond?
Trabalha com agricultura. É de semear e colher.
É capitalista. É dinheiro.
Algumas pessoas o possuem de sobra. Outras não o tem para nada.
Às vezes ele nos cobra na mesma moeda. E não temos outra opção senão dar tempo ao tempo.
De vez em quando, o temos a nosso favor. Mas, quase sempre, ele joga contra.
Vivemos correndo contra ele, quando na verdade é ele que corre contra nós. Sobre todos e sobre tudo. Ele nos atropela como um rolo compressor. Mas consegue ser sábio e justo.
É como um juiz que não erra em seus vereditos. Diz quem está certo ou errado. Ou será que vocês nunca escutaram o refrão: “o tempo dirá quem tem razão”?
E esta é uma grande responsabilidade da qual o tempo não se esquiva. Ele faz chuva e faz sol. É de boa e, ao mesmo tempo, má índole. Escutei no rádio, por exemplo, que amanhã vai fazer tempo bom. Mas que depois de amanhã fará mau tempo.
Este senhor de mil faces é, de fato, inquieto.
Ele não pára.
É um automóvel sem freios.
Não, não pára. O tempo é tic, tac – e o que o fica entre o tic e o tac.
É um tipo raro de pássaro sem asas. Mas voa.
É uma espécie de guru que desperta em nós a generosidade: devotamos tempo aos outros e ficamos sem tê-lo para nós mesmos. É onipresente. Está em todo lugar. Ou melhor, passa por todo lugar. Passa sempre. O que às vezes me faz pensar que o tempo é Deus.



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No dia 11 de Setembro

Como aconteceu no dia 8, no dia 9 e em muitos outros dias que o antecederam, o mundo irá acordar com o sol neste 11 de setembro.
No Tibet, um monge se levantará e fará sua primeira oração da manhã.
Em sua prece, pedirá à divindade que derrame sobre o mundo um manto de luz.
Luz para enxergar na escuridão da intolerância.
Luz para caminhar na retidão dos justos.
Luz para fazer transparecer as almas aflitas deste mundo.
Luz para aqueles que não conhecem outro caminho que não o do ressentimento.
Em Estocolmo, na civilizadíssima Suécia, uma moça loura como uma princesa viking, abrirá a janela para permitir que a brisa fresca de final de verão, entre em seu quarto e se espalhe pelos quatro cantos, trazendo fluidos bons.
Na Espanha, numa casa de pedra da Andaluzia, uma menina cigana cantará um canto místico, um canto gitano da mais pura magia.
Em Varadero, Cuba, uma senhora de setenta anos de idade, confidente dos Orixás, irá a uma cachoeira com uma oferenda de agradecimento.
Ela molhará seus cabelos grisalhos nas águas do riacho, e sentirá escorrendo por seu rosto uma alfazema límpida e confortante.
Tranqüila, entenderá perfeitamente a linguagem dos peixes e conversará com as plantas num idioma que só os graduados da umbanda sabem entender.
Numa savana do Quênia um grupo de meninos sairá correndo, peito nu de encontro ao vento, livres e leves, sentindo na pele uma carícia da natureza.
Nos pampas argentinos, um vaqueiro levará o seu gado para pastar num vale bonito, verdejante, e o minuano soprará ao seu ouvido uma confidência:
- Algo de bom está acontecendo neste instante, aqui no lugar em que habitas.
No limite das duas Coréias, dois camponeses, um de cada lado da História, estarão sentados no espaço imaginário onde, provavelmente, foi desenhada a linha da fronteira e, juntos, dividirão um prato de comida.
Um padeiro francês, na volta de sua derradeira entrega da madrugada, esfacelará os pães que não foram vendidos no dia anterior, e os dividirá com os esquilos famintos da praça.
Numa igreja siciliana, um padre se porá de joelhos evocando a figura perene de Deus e, numa emocionada oração, pleiteará para que o Todo Poderoso derrame sua bondade sobre a humanidade, tocando a cada cidadão, independente de credo ou cor.
Nas ruas de Belfast, na Irlanda, um grupo de católicos e protestantes conversará normalmente, como se todo o ódio e amargura fizesse parte de um passado que deve ser esquecido.
Em Sidney, na Austrália, um aborígine trafegará pelas ruas da cidade sentindo-se parte daquele quadrado de concreto, carros, buzina e progresso.
Na Cidade do Cabo, no extremo da África do Sul, negros e brancos estarão fazendo uma passeata pacífica, uma via-sacra de agradecimento pelo progresso obtido na convivência entre ambos nos últimos tempos. E pela promessa de harmonia de tempos que ainda hão de vir.
Juntos, combinarão que a palavra Apartheid será excluída do dicionário. E sairão dançando pela cidade como se fosse carnaval.
Num bairro distante da zona norte de São Paulo, um grupo de meninos jogará futebol durante o recreio escolar.
Uma moça bonita e bem vestida, saída provavelmente da capa de alguma revista de moda, auxiliará uma anciã a atravessar uma movimentada rua londrina.
Em Santiago do Chile, um motorista mostrará ao turista suíço um grupo de mães numa praça do centro da cidade.
Ao contrário do canto de tristeza pelo desaparecimento de seus filhos durante a ditadura de Pinochet, hoje elas entoam uma marcha folclórica, saudando a chegada da colheita nos campos chilenos.
Numa mesquita da faixa de Gaza, um rapaz que queria ser homem-bomba muda de idéia e promete plantar um jardim. Nesse mesmo instante, em Jerusalém, Ariel Sharon receberá uma comitiva árabe para uma reunião que decretará um cessar-fogo definitivo.
E nós, que vivemos nas cercanias de Nova York, olharemos para o céu cristalino de setembro e nele não haverá nenhum sinal de perigo.

Apenas um bando de pombas brancas, sinalizando a existência de um mundo em paz.


** Essa crônica foi escrita um ano após o ­ataque terrorista de 11 de setembro e será publicada nesta época do ano, enquanto eu viver, como forma de tributo a todos que perderam sua vida no episódio.


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