Monday, December 15, 2014

As visões reveladoras de Geraldo



(Para o Geraldo Corredor da Paz,
que está sendo operado do coração neste momento e  precisa de boas energias)


Geraldo Carlos, o Corredor da Paz é um velho amigo.
Não fosse tão bagunçado e tivesse que se desfazer, de tempos em tempos, de seu acervo de fotografias, ele seria, sozinho, o museu da imigração brasileira nos Estados Unidos.
Vira e mexe, alguém joga fora caixas de fotos que ele pede pra deixar na casa por alguns dias, mas que nunca volta para apanhar.
Ah, Geraldo...
O danado era atleta, acreditem. E dos bons.
Vem daí o apelido 'Corredor da Paz'.
Geraldo corria maratonas e ganhou muitas provas pelo Brasil afora.
Sempre foi um espírito leve, uma alma boa que gosta de fazer o bem, sem olhar a quem.
Um homem livre.
Um indivíduo que não gosta de ter chefe. Que não pertence a ninguém.
Lembro-me de que há cerca de vinte anos, ele começou a aparecer na redação todos os dias. E ajudava em tudo o que podia.
Chamei-o à minha sala e fiz-lhe uma proposta de trabalho. Queria pagar por aquilo que ele fazia voluntariamente.
Ficou de pensar.
Reapareceria seis meses depois dizendo que, "do jeito que estava, estava bom". 
Não queria patrão. Não queria horário de trabalho e nada que o prendesse. Nem salário.
Continuou ajudando. Ajuda até hoje.
E não é só a mim que Geraldo ajuda.
Sempre que sabe de alguma criança precisando de um computador ou de livros para a escola, realiza trabalhos remunerados até conseguir o dinheiro necessário.
Ele tem o costume de passar numa padaria todas as manhãs recolhendo pães. E sai pela cidade procurando mendigos, principalmente os que vivem às margens do Rio Passaic, entre Newark e Harrison.
Geraldo é um super-herói pós-moderno. Um herói meio santo. Meio Rock n'roll.

E é neste papel que já ajudou a polícia a prender muitos "bad guys", ainda que isto significasse colocar em risco a própria vida.
O nariz torto no 3x 4 da identidade é um atestado disto, cortesia de uma gang de rua que ajudou a colocar atrás das grades.
Mas é a fotografia a sua grande paixão.
Desde que chegou , abandonou as pistas de corrida para se dedicar ao hobby, fotografando e posando ao lado de celebridades, artistas, atletas consagrados e chefes de estado. Nunca precisou de credencial ou crachá.
Excêntrico, vai chegando devagarinho, com aquele visual que é só seu.
Já o vi vestido de Tio Sam, mas ele pode aparecer de São Francisco de Assis ou Abraham Lincoln. Depende da lua.
Sua cabeça é uma tela onde, de vez em quando, reluz uma estrela de Davi.

     - Você é judeu, Geraldo?
     - Eu não, mas Jesus foi.
Possui este ar místico, gosta de contar sonhos estranhos que quase sempre falam de uma luz branca e figuras bíblicas.
De vez em quando, tem revelações.

Soube no sábado que ele estava internado em um hospital da cidade. Comprometi-me a vê-lo e recordei de uma outra internação de emergência, em que saí voando do escritório para visitá-lo no St. James.
Encontrei-o ligado a tubos eletromagnéticos, tinha uma agulha de soro enfiada na veia e aquele ar de quem está partindo para uma outra dimensão.
Assim que me viu, chamou-me para perto e falou com uma voz misteriosa:
    - Não sei o que vai acontecer comigo, mas se eu morrer, enterre meu coração em Governador Valadares.
    - "Deixa de bobagem, homem", respondi.
    Geraldo retomou o ar misterioso, chamou-me para ainda mais perto e murmurou ao pé do ouvido:
    - "Pega este papel. Guarde-o. Tive uma visão claríssima com estes números que estão escritos nele. Passe na lotérica e jogue. Somos sócios", sussurrou.

Saí do hospital e passei na lotérica, claro. A visão foi "claríssima",e a loteria correria na mesma noite.
Cheguei em casa, dormi e me esqueci.
Dois dias depois, o Corredor da Paz apareceu na redação vendendo saúde e perguntando se eu havia jogado os números que me dera.

    - "Claro", respondi.

Fomos juntos até a lotérica conferir o resultado, mais sócios do que nunca:
13, 20, 22, 32, 40 e 44.
A visão de Geraldo havia nos dado:
1, 9, 14, 29, 30 e 34.

O que me faz concluir que as visões reveladoras de Geraldo costumam falhar.
Ele, não.

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Thursday, November 13, 2014

Anunciação


 
Acordei,
calcei o coturno com bico de aço,
peguei o taco de baseball
e o soco inglês.

Tomei dois Engovs.
Mastiguei um Rivotril
E bebi meu café.

Estou prontinho.

Pode vir, vida!

 

 

Wednesday, September 24, 2014

Uma invenção do demônio


(Para Fabio Portugal)
 
 
Comecei com um uisquinho sem compromisso.
Fim de expediente, dia chato no escritório, aquele drink serviria para relaxar e eu ainda chegaria à casa a tempo de jantar.
Não deu nem para o começo. A sede era funda e pedi mais um.
E depois outro. E mais outro.
Aí apareceu um conhecido, que falou de uma cerveja belga maravilhosa, pela qual ele acabara de se apaixonar.
Sabe aquela loura gelada? – ele perguntou.
- Então. Aquela!
E continuou como se fosse um vendedor de carros falando do último modelo da Ferrari a um aficionado:
- É ela.
Molhou a palavra na tal loura e prosseguiu:
- É ela, só que mais gostosa, perfumada, acetinada, e desce como se fizesse um carinho na pele da gente. Só que por dentro.
  
Decidi que tinha que conhecer a tal loura que fazia um carinho por dentro da pele.
Virei o uísque de uma talagada só, chamei o garçom e lá fui trocar uns carinhos com a loura.
Devia ser boa.
Afinal, nove dólares por uma garrafinha de 600 ml, ela tinha que ser.
E era realmente muito boa.
Aí me atraquei com ela, e ela comigo. Foi amor ao primeiro gole.
O calor insuportável clamava por mais dessa maravilha belga.
Reparei que os donos dos bares e restaurantes desligam o ar-condicionado e mandam os cozinheiros exagerarem no sal e na pimenta dos petiscos nestes dias mais quentes.
Pedi a saideira e um táxi, porque não me sentia apto a dirigir até em casa.
O jantar em família havia ido para as cucuias e tratei de ir logo para o quarto. O trajeto até o segundo andar fez com que eu me sentisse ligeiramente zonzo e nauseado.
Despi-me - isentado do banho - e horizontalizei.
Mal me deitei, a cama deu de rodar.
- Que diabo é este? - perguntei a ninguém.
E ela rodava como se fosse um relógio e eu o seu ponteiro. E numa velocidade de ventilador.
Não sei quando parou o homem-ventilador.
Mas demorou uma eternidade.
  
Acordei com a cabeça oca como um abacate, os miolos chacoalhando como se fossem a semente.
Pus-me de pé, heroicamente, e arrastei o cadáver até o banheiro.
Uma vez lá, deixei a ducha fria correr sobre a minha miséria.
Maldito sujeito que inventou tudo isto, pus-me a pensar.
Quem inventou a ressaca inventou as piores coisas desta vida.
Ele inventou o imposto de renda, o trânsito de São Paulo, a Festa de Barretos e Zezé di Camargo e Luciano.
Inventou o sertanejo universitário, a broxada,  a ejaculação precoce e o zero a zero no futebol.
 Ele inventou Galvão Bueno, o uísque paraguaio, o cecê no transporte coletivo, a calvície e o horário eleitoral na televisão.
Inventou os jogos do Campeonato brasileiro às 10 da noite, principalmente às quartas-feiras.
 Inventou ainda a fila de banco, a repartição pública e o mau-humor das pessoas que trabalham nestes departamentos.
E inventou também o gosto do boné do chapéu do maquinista do trem.
O gosto do cabo de guarda-chuva.
E da tábua de chiqueiro de porcos, que fica na boca quando acordamos ressacados, achando que um pedaço da gente prescreveu.
Quem inventou a ressaca inventou um verdugo e o soltou dentro de nossas consciências para que ele nos faça jurar, a cada pileque, que nunca mais beberemos.
Sim, eu juro.
Eu prometo.
Eu nunca mais beberei.
 
 
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Thursday, September 11, 2014

No dia 11 de Setembro


Como aconteceu no dia 8, no dia 9 e em muitos outros dias que o antecederam, o mundo irá acordar com o sol neste 11 de setembro.
No Tibete, um monge se levantará e fará sua primeira oração da manhã.
Em sua prece, pedirá à divindade que derrame sobre o mundo um manto de luz.
Luz para enxergar na escuridão da intolerância.
Luz para caminhar na retidão dos justos.
Luz para fazer transparecer as almas aflitas deste mundo.
Luz para aqueles que não conhecem outro caminho que não o do ressentimento.
Em Estocolmo, na civilizadíssima Suécia, uma moça loura como uma princesa viking, abrirá a janela para permitir que a brisa fresca de final de verão, entre em seu quarto e se espalhe pelos quatro cantos, trazendo fluidos bons.
Na Espanha, numa casa de pedra da Andaluzia, uma menina cigana cantará um canto místico, um canto gitano da mais pura magia.
Em Varadero, Cuba, uma senhora de setenta anos de idade, confidente dos Orixás, irá a uma cachoeira com uma oferenda de agradecimento.
Tranquila, entenderá a linguagem dos peixes e conversará com as plantas num idioma que só os graduados da umbanda sabem entender.
Numa savana do Quênia um grupo de meninos sairá correndo, peito nu de encontro ao vento, livres e leves, sentindo na pele uma carícia da natureza.
Nos pampas argentinos, um vaqueiro levará o seu gado para pastar num vale verdejante e o minuano soprará ao seu ouvido uma confidência:
- Algo de bom está acontecendo neste instante, aqui no lugar em que habitas.

No limite das duas Coreias, dois camponeses, um de cada lado da História, estarão sentados no espaço imaginário onde, provavelmente, foi desenhada a linha da fronteira e, juntos, dividirão um prato de comida.
Um padeiro francês, na volta de sua derradeira entrega da madrugada, esfacelará os pães que não foram vendidos no dia anterior, e os dividirá com os esquilos famintos da praça.
Numa igreja siciliana, um padre se porá de joelhos evocando a figura perene de Deus e, numa emocionada oração, pleiteará para que o Todo Poderoso derrame sua bondade sobre a humanidade, tocando a cada cidadão, independente de credo ou cor.
Nas ruas de Belfast, na Irlanda, um grupo de católicos e protestantes conversará normalmente, como se todo o ódio e amargura fizesse parte de um passado que deve ser esquecido.
Em Sidney, na Austrália, um aborígine trafegará pelas ruas da cidade sentindo-se parte daquele quadrado de concreto e progresso.
Na Cidade do Cabo, no extremo da África do Sul, negros e brancos estarão fazendo uma passeata pacífica, uma via-sacra de agradecimento pelo progresso obtido na convivência entre ambos nos últimos tempos. E pela promessa de harmonia de tempos que ainda hão de vir.
Juntos, combinarão que a palavra Apartheid será excluída do dicionário. E sairão dançando pela cidade como se fosse carnaval.

Num bairro distante da zona norte de São Paulo, um grupo de meninos jogará futebol durante o recreio escolar.
Uma moça bonita e bem vestida, saída provavelmente da capa de alguma revista de moda, auxiliará uma anciã a atravessar uma movimentada avenida londrina.
Em Santiago do Chile, um motorista mostrará ao turista suíço um grupo de mães numa praça do centro da cidade.
Ao contrário do canto de tristeza pelo desaparecimento de seus filhos durante a ditadura de Pinochet, hoje elas entoam uma marcha folclórica, saudando a chegada da colheita nos campos do país.
Numa mesquita da faixa de Gaza, um rapaz que queria ser homem-bomba muda de ideia e promete plantar um jardim.

Nesse mesmo instante, em Jerusalém, Benjamin Netanyahu receberá uma comitiva árabe para uma reunião que decretará um cessar-fogo definitivo.
E nós, que vivemos nas cercanias de Nova York, olharemos para o céu cristalino de setembro e nele não haverá nenhum sinal de perigo.
Apenas um bando de pombas brancas, sinalizando a existência de um mundo em paz.


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Monday, July 28, 2014

Curiango


João-sem-braço
, gritam os moleques na rua.
Ele baixa a cabeça – envergonhado  -, come a poeira do chão com os olhos, aquelas duas ilhotas de jabuticaba cercadas de sangue pisado por todos os lados.
Falta-lhe o braço esquerdo. Sobra-lhe arrependimento.
O homem prossegue desequilibrado em sua rota, ziguezagueante, o corpo pendendo para os lados, metade gravidade, metade alumbramento. É assim todos os dias.
E o nome dele nem é João.

A certidão atesta que Antônio José Dos Santos nasceu num dia de Santo Antônio, em Galiléia, quase na divisa do Espírito Santo.
Daria a saber que  sua família foi subindo à margem direita do Rio Doce, até fincar estaca em Valadares.
O pai morreu novo, afogado, durante uma pescaria, neste mesmo rio. 
Dizem que ele estava bêbado, e que a cachaça corre nas veias da família há várias gerações.
Desde então, Maria Quitéria foi virando aquele  caquinho de mulher, viúva jovem ainda, com a má-sorte amalgamada num barraco de terra batida na encosta do morro, e com um filho para criar.
Trabalhava  em casas de pessoas pouco menos miseráveis do que ela. 
Sabia fazer biscoitos e cozinhar trivialidades.
Lavava, passava, consolava as patroas.
Todas as noites chorava a ausência de seu homem e a única diversão que conhecia era ir à igreja aos domingos, onde passava horas a fio confessando pecados que não eram seus.

Antônio cresceu fazendo bicos.
Escola, ele não teve.
Namorada, não conseguiu.

Ele não havia nascido para o amor. 

Era tão feio, que passou a ser chamado de Curiango, uma ave de plumagem pardo-amarelada finamente pintada de preto e com manchas pretas maiores, rêmiges pretas com fita branca.

Curiango capinava um quintal aqui, fazia um serviço de servente de pedreiro ali, caiava muros, ajudava nos carretos em troca de qualquer coisa.
Chegou a fichar na Cerâmica: um salário-mínimo , meio expediente no sábado  e o domingo de folga pra rebater as dores no corpo, porque o serviço era pesado.
Muito pesado.
Durante 12 horas por dia ele  moldava telhas do tipo cumbuca e tijolos lajota, que os caminhões levavam e o deixavam pensando que estava ajudando a construir uma cidade. Um país.

No sábado, quando saía da Cerâmica - a pele negra ainda esbranquiçada do pó de argila -, ele encostava o umbigo no balcão da venda do albino Zé Roque e pedia uma branquinha, e um pedaço de chouriço de porco.
E pedia outra dose, e mais outra e outra mais.

Após a décima pinga, Curiango começava a conversar com um amigo imaginário, que ele próprio dizia ser o diabo.
Seus olhos ficavam esbugalhados, o semblante se encarguilhava e ele balbuciava frases incompreensíveis, gesticulando, explicando, fazendo-se se entender e entendendo, maneando a cabeça positiva ou negativamente, conforme a prosa se desenrolava entre os dois.
Os clientes da casa se acostumaram à cena. Havia até quem -  por educação - cumprimentasse os dois.
Foi no balcão daquele vendeirim, que Curiango escutou a estória de um homem que sobreviveu a um atropelamento e nunca mais precisou trabalhar.
    
“A indenização da Vale do Rio Doce foi maior que o prêmio da loteria mineira”, teria sussurrado o diabo.
    
O diabo, aquela má-influência, aquela péssima companhia.
    
Desde que começaram a andar juntos, Curiango não quis mais trabalhar. Só queria saber de beber com o amigo. E, como não tinha mais salário e o diabo anda sempre duro, esmolava por cachaça:
   
-          Ô, me paga uma pinga aí ? – pedia a qualquer um que entrasse no estabelecimento.
Todos os dias, com ou sem dinheiro, chegava na venda logo pela manhã e começava a beber e a falar sozinho.
    
Sozinho, não: com o “companheiro”.


    
Naquele sábado, porém, Curiango chegou desacompanhado.
    
Havia feito a capina de um quintal da Rua Ametista e ganhado o do vício.
   
-   Bota uma branquinha aí, Zé Roque!
    
E mais uma. E mais outra. E outras tantas mais.
   
Olhou para as mãos calejadas e franziu a testa. Duas bolhas haviam arrebentado pelo peso da enxada. E ele foi ficando incomodado.
   
A todo instante, olhava para a porta, mas o amigo não chegava.
Devia ser umas duas horas da tarde, um calor infernal, o sol a pino, quando ele pediu a saideira.
Vazou pela porta, a camisa branca e suja completamente desbotoada, sumiu na curva da rua em direção ao caminho do trem.

Respirou fundo, fez um nome do pai e deitou-se paralelamente à linha férrea, abrindo os braços como um Jesus Cristo embriagado e negro, o braço esquerdo trespassando um dos trilhos até a altura do sovaco.
       A locomotiva foi se aproximando em altíssima velocidade, crescendo aos olhos, o maquinista perplexo, gritando desesperado, puxando os freios e apitando na esperança de que Curiango saísse daquele transe e se levantasse.
Tudo em vão.
Do outro lado dos trilhos, o amigo imaginário sorria. 
Diabolicamente, como é de seu feitio.


* Ilustração, "O Escravo - Personagem de Paraty", de Luciano Osório

Tuesday, June 10, 2014

Os recortes que guardo em mim

 
Guardo recortes de copas do mundo em minha memória. São imagens que fui acumulando através
dos tempos e que permanecem intactas, pristinas, imortais.
Alguns destes recortes eu vi naquilo que aconteceram, em tempo real. Outros, recorri aos arquivos da televisão.
Comecei a coleção na copa da Suécia, em 1958, quatro anos antes de eu nascer.
E o primeiro recorte traz o menino Pelé dando um chapéu, dois chapéus - uma chapelaria - dentro da área sueca e fuzilando o goleiro.
 A segunda traz o mesmo menino chorando, como se tivesse perdido alguém da família, mas era um choro de felicidade.
 Aos 17 anos de idade o menino de Três Corações era campeão do mundo. Ele já era rei.
Guardei também os dribles desconcertantes de Garrincha naquela copa, entortando joões de todas as raças.
Tudo o que veio depois destas imagens é cereja sobre o bolo, é azeitona em meu pastel.
 Como esta recolhida da copa de 1962, no Chile, toda a malandragem de Nilton Santos que, após cometer pênalti sobre o atacante espanhol, dá dois passinhos para fora da área, rápidos e discretos, ludibriando o árbitro, que marcou falta.
 De 1966, na Inglaterra, guardo pouca coisa.
 Guardei a entrada criminosa de Coluna em Pelé. Guardei o antifutebol, a violência daquela caçada em campo, antítese do que deveria ser o futebol.
 Pelé foi retirado do gramado e muitos portugueses comemoram aquele ato de violência como se fosse um gol do título.
 Não era. Não foi. Não é.
 Acabaram perdendo para os ingleses. No raso, achei bom. Nenhuma equipe merece vencer uma competição praticando o antijogo.
 Da copa de 1970 guardo tudo. Guardo os nomes Jalisco e Guadalajara, por exemplo. Guardo até gol que não foi gol. Três gols que não foram gols.
No primeiro deles, Pelé chuta do meio de campo, tentando encobrir o goleiro da Tchecoslováquia, que volta desesperado para a meta, a bola voando insinuante e perigosa, até cair detrás da trave.
No segundo não gol, Pelé dá um drible sem bola no goleiro uruguaio Mazurkiewicz e chuta cruzado, com o gol vazio, a bola caprichosamente passando ao lado.
 No terceiro, uma das defesas mais espetaculares e milagrosas que já testemunhei:
Pelé cabeceia certeiro, no chão, à queima-roupa, mas o legendário arqueiro Gordon Banks se espicha todo, puro reflexo e arrojo, evitando o gol.
Da copa de 1974 ficou a imagem da anarquia disciplinada da laranja mecânica de Rinus Mitchels, quebrando todos os padrões táticos jamais vistos até então.
Ao lado da seleção brasileira de 1982, o escrete de Johan Cruijff e Johan Neeskens entrou para a estória como o time de futebol mais bonito, aquele que convenceu, mas não venceu.
Ficaram na memória as mãos imensas do goleiro Sepp Maier, a elegância de Beckenbauer e a ausência do Rei.
 De 1978 ficou o branco do papel picado salpicado sobre o verde do gramado durante a copa que a Argentina ganhou no grito.
 E o vento que ventava raivoso, patagônico, vento encomendado por generais, como aquele placar dilatado da vitória dos anfitriões sobre o Peru, e que tirou o Brasil da final.
 Ficou a curva da bola no chute de Nelinho contra a Itália, no jogo que valeu o terceiro lugar. Dino Zoff se espichando todo, arqueando como um peixe, mas que de nada adiantou. A curva  feita pela bola foi um fenômeno impossível. Um dos gols mais inesquecíveis de um mundial.
De 1982 ficou tudo, e esta mistura de prazer e dor que ainda hoje me fazem contorcer, ora de gozo, ora de agonia e sofrimento.
 Ficou o frango de Waldir Perez diante da Rússia, as jogadas geniais de Zico e Júnior e os passes de Sócrates, usando o calcanhar.
 Ficaram os três gols de Paolo Rossi, esta eterna viagem a bordo de um trem fantasma, uma ferida aberta que o tempo não curou.
No retorno ao México, em 1986, foi mais do mesmo. Só que menos e menor.
 Principalmente, ficou o pênalti que Zico errou diante da França, minutos após ter entrado no jogo.
Em 1990, foi como se não tivesse havido Copa. Não ficou sequer o gol eliminador de Claudio Caniggia.
Da Copa seguinte, disputada aqui nos EUA, ficou a imagem de Bebeto, marcando gols e comemorando como se embalasse um bebê.
De 1998 guardei a convulsão de Ronaldo a poucas horas da final. E Roberto Carlos ajeitando o meião enquanto a anfitriã fazia 2 X 0.
Em 2002 aconteceu a primeira copa sediada por dois países. Ronaldo inovou com aquele topetinho à moda do personagem Cascão, de Maurício de Souza, e fez uma dupla preciosa com Rivaldo. Mas nada me marcou tanto quanto o jogo contra a Inglaterra.
Galvão Bueno anunciou no intervalo da partida a morte de Roberto Drummond, uma mistura de amigo e mentor meus.
O Brasil virou o jogo com um gol espírita de Ronaldinho, cobrando uma falta de muito longe, descrevendo uma curva de arco-íris e morrendo no fundo das redes de Seaman.
 Até hoje acho que teve uma mãozinha de Roberto Drummond naquela jogada. Quando nada, um sopro de seus pulmões.
Não guardei absolutamente nada da Copa da África do Sul e hoje, quatro anos depois, desta que se inicia em poucas horas pode ser que guarde uma ou outra gema garimpada da grama.
Aconteça o que acontecer, minhas roupas já cheiram a gás lacrimogênio e a alma parece ser feita de chumbo.
Ficarão esta vergonha, os elefantes brancos no norte e centro-oeste, obras inacabadas de cabo a rabo, sorrisos blasés, alguns gaiatos mais ricos e uma mancha perene na nossa história.
Muito mais do que na minha história.
Na história do meu país.

Tuesday, June 3, 2014

A janela mágica


 
A primeira vez que ouvi falar em copa do mundo foi em 1970. Tinha 8 anos de idade e em São Raimundo havia 4 aparelhos de televisão, ou televisores, como chamavam alguns.
Se não me falha a memória, foi o primeiro ano em que se transmitiu alguma coisa em cores no mundo, com aquela Copa  disputada no México.
Nenhum dos quatro aparelhos existentes era em cores, mas estava de ótimo tamanho, mesmo a imagem não sendo lá grande coisa e o vento mudando de vez em quando a qualidade da imagem.
‘Chuviscava’ muito nas telinhas de então.
Na Rua Topázio, na casa de Dona Núbia e seu Noca, passava Bonanza, Forte Apache, Terra de Gigantes, Túnel do Tempo, Perdido no Espaço e Viagem ao Fundo do Mar.
Passava um mundo feito de encantamento e magia, que não consigo descrever em palavras, por mais que tente convencer minhas filhas de que antes do videogame, existiu a televisão.

Não dava para colocar a rua inteira na casa dos Novais e Dona Núbia, generosa, abria a janela, para a molecada assistir, ainda que do lado de fora.
Amontoados uns sobre os outros, na ponta dos pés ou sobre tijolos catados em terrenos baldios, nós nos espremíamos por um pedacinho de tela.
Um cotovelo aqui, um ombro se esgueirando ali, ninguém brigava.
Ninguém reclamava, com medo de perder o lugar no futuro.
Um dia, menino de sorte que sempre fui, fui convidado a entrar e me sentar entre os filhos do casal. E nunca mais saí de lá. E nem aquela sala saiu de mim.
Eu já gostava de futebol, claro.
Jogava com os meninos na rua e queria ser Pelé.
Depois quis ser Tostão e Jairzinho, o Furacão. O time montado por João Saldanha era tão bom, que eu não me importava em ser Clodoaldo, Rivelino ou Gerson, o canhotinha de ouro.
Poderia ser até Wilson Piaza, capitão do Cruzeiro do meu coração.

Apesar de muito menino, lembro-me muito claramente de tudo o que me cercava naqueles dias.
Eu era obviamente muito novinho para entender que o país vivia sob uma ditadura militar e que o futebol, o ópio do povo, era uma eficiente ferramenta do regime para acalmar os ânimos. O futebol tem esse poder, pacifica e inflama.
E, no Brasil, não sei explicar o porquê, ganhou contornos muito diferentes mesmo dos lugares onde a paixão pelo esporte é igualmente inexplicável.

Lembro-me do foguetório a cada vitória, dos relatos no radio e do burburinho na mercearia, os adultos recitando jogadas, cantarolando gols que nem todos viram, mas ouviram pelas ondas do rádio.
A Copa seguinte eu veria em casa, praticamente sozinho, num aparelho preto e branco de segunda-mão, que tinha o auxílio luxuoso de uma tela degradê, que mais se pareciam a uma lasca do arco-íris.
E nunca mais parei de acompanhar o Brasil nas Copas do Mundo.
A de 1982 foi a que mais doeu, mas foi também a que me deu maior prazer.
O Sarriá é meu Maracanazo, mas é também meu estádio Azteca de 1970, palco da primeira vitória.
E é muito mais.
Só não foi a minha primeira. Isto é que não foi.
Quarenta e quatro anos depois daquele momento marcante em minha vida, o Brasil recebe uma Copa do Mundo e eu não vou estar presente.
Não vou por opção. Muito mais do que isto, não vou por convicção.
A janela da sala de Dona Núbia já não existe mais.
Onde um dia existiu uma casa, existe hoje uma loja de material de construção.

Tuesday, April 15, 2014

O primeiro Shopping Center


(Para Juliana Vinagre)

José Roque sofria de vitiligo e as manchas brancas já tinham consumidos as mãos morenas, espalhando-se pelos cotovelos e pela parte de inferior do pescoço, o que dava-lhe um aspecto de gato malhado, destes de rua.
Andava sempre arrumadinho, sapatos lustrados, cabelo penteado de lado e engomado com loção Trim.
Ele não era, definitivamente, um Zé qualquer.
A Venda do Zé Roque ocupava toda a parte da frente da construção, uma casa larga pintada de amarelo, com telhas cumbucas esparramadas como num acento circunflexo. Na parte de trás vivia uma viúva e seus filhos já graúdos, todos imprestáveis.
Duas portas de madeira, grossas, davam acesso para quem vinha da rua.
Ao lado de uma destas portas tinha um galinheiro onde ele, aos fins de semana, expunha garnizés e galinhas caipiras.
Na parede tinha um cartaz de propaganda dos cigarros Hollywood e a frase “Ao Sucesso”. E uma bexiga de salame do tamanho de um extintor de incêndio.
O balcão de quase cinco metros de largura tinha uma vitrine e guardava tesouros: marta-rochas, pães de sal, tatu, jacaré, sovado e doce, além de tarecos, bolos-estrela e de fubá, biscoitos de polvilho e quebra-quebra, e brevidades.
Para os que bebiam uma branquinha, havia sempre um torresmo, um chouriço de sangue, uma carne de panela ou um pedaço de dobradinha, que eram para ‘tirar o gosto’. Atrás da porta do lado direito era o ofertório, onde era despejada a parte “do santo”.
Em cima do balcão ficava uma balança Filizzola e pesos de diferentes tamanhos. E folhas de um papel pardo, que o Zé usava para embrulhar as compras.
Na prateleira atrás do balcão ficavam garrafas de conhaque de alcatrão de São João da Barra, Jurubeba Leão do Norte, cachaça das marcas Praianinha e Tatuzinho, cera Parquetina para lustrar o assoalho, água sanitária Globo e álcool.
Em cima do balcão – em forma de trapézio – havia um varal onde ele dependurava linguiças defumadas.
Nos sacos de estopa – ou algodão – colocados em um dos cantos da venda, eram expostos os grãos da casa, produção de agricultores ribeirinhos: milho, feijão, arroz, canjiquinha, fubá e açúcar.
Zé Roque tinha também fumo de rolo, palha de milho para cigarro e canivete com cabo de osso ou de chifre de boi.
Num gavetão do lado esquerdo do balcão ele estocava pedras de naftalina para combater traças, latas de creolina para desinfetar ferida de animais e tabletes de anilina, que as lavadeiras usavam para clarear as roupas.
Na venda havia ainda latinhas de pomada minâncora (uma maravilha no combate da velha sudorese, o conhecido “cecê”), polvilho antisséptico Granado (muito bom para combater chulé), talcos de três qualidades, sabonetes Lux e Gessy.
Para curar as dores do mundo ele tinha comprimidos de Cibalena, Neovalgina, Melhoral, Sonrizal, pílulas De Lussen e Regulador Xavier.
Zé Roque oferecia Neocid para exterminar piolhos e espirais e Detefon para espantar pernilongos. E, claro, bombinhas flit, artesanais, feitas de lata, como os carrinhos – brinquedos dos meninos – e seus pneus recortados de velhas sandálias havaianas.
De lata e artesanais também eram as lamparinas, os lampiões e os cortadores de feijão.
Para as donas de casa ele tinha vassoura de piaçava e espanador de penas.
Para outros fins ele tinha esteiras feitas de tabuá e varas de pescar, de bambu e ubá.
Tinha anzol, chumbada e linha de pescar e de costurar. E chumbinho para as espingardas de ar-comprimido, usados no caçar.
Num canto, à esquerda da venda, Zé Roque mantinha uma espécie de montra, onde ele expunha tomates, cenouras, laranjas, bananas, legumes quase sempre murchos e mosquitinhos.
E duas bacias de água sempre clarinha onde nadavam molhos de coentros, salsinhas, cebolinha, alface e couve.
Quem tinha dinheiro, comprava. Quem não tinha, comprava também.
Zé Roque anotava tudo na sagrada caderneta, um caderno de capa dura em que a despesa era anotada com honestidade, tintim por tintim.
E ninguém precisava assinar nada, pois desconfiança e desonestidade ainda não havia nascido.
Antes dos cartões de crédito existiu a caderneta.
E o fio do bigode, garantia de pagamento de todo homem de bem.
A venda do Zé Roque viria a ser o primeiro shopping Center de minha vida.
O primeiro. O definitivo.
 
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Tuesday, March 4, 2014

Carnaval, o túmulo do samba



A letra da antiga cantiga diz que quem não gosta de samba não é bom sujeito.

E que é ruim da cabeça ou doente do pé.

Eu gosto de samba, mas não sei sambar.

Sim, tenho um pé bichado, herança dos tempos em que achava que sabia jogar futebol, mas não sambo porque não sambo.

E isto não deveria fazer de mim um mau sujeito.

Gosto de samba de roda, canção e de breque.

Gosto de samba com cheiro e sabor de samba.

E me dá coceira o pagode industrial que tentaram empurrar goela baixo. Na minha modesta opinião, ele é uma degeneração.

Constato que samba e carnaval se deformaram com o passar dos tempos.

Onde foi parar o Rei Momo? O que foi feito das colombinas e dos pierrôs apaixonados?

E os bailes de salão, movidos a marchinhas, serpentinas e confetes?

Esse atrofiamento do carnaval de agora me deixa sem graça.

E o bom e velho samba foi banalizado e já não passa de um pretexto - e não de uma razão - para a maior celebração nacional .

O samba já não veste fantasia. Ele usa um disfarce.

Chamem-me de purista, de antiquado ou do que quiserem.

Rotulem-me como saudosista. Mandem-me para um museu.

Coloquem-me numa camisa de força.

Despachem-me para Guantanamo Bay ou exilem-me em Cabul.

Mas não me calarei.

Teimo em associar samba e carnaval, embora tenha cada vez mais a certeza de que hoje são coisas bastante distintas, e que já não caminham de mãos dadas.

São como aquele casal que continua vivendo debaixo do mesmo teto, ainda casado, mas que não se ama mais.

Uma vez por ano, carnaval e samba saem juntos à rua, cordiais, mas sem afeto.

Um casamento de aparências e de aparências somente.

Com o passar dos tempos, empresários espertos transformaram o carnaval num grande negócio e não existiria nada de errado nisto, se o conceito original não tivesse sido distorcido, adulterado, em detrimento do lucro.

Seria justo que aqueles que fazem a festa – o povo - recebessem um pedaço do bolo. Mas isto não acontece.

Os camarotes patrocinados por grande empresas são uma espécie de vitrine da vaidade por onde circulam apenas os bem nascidos, os bonitos, os famosos, os vips.

É para sair bem na tv. E rende um dinheirão.

Uma vez por ano o morro desce à avenida, mas cada pessoa ali é usada como figurante de uma superprodução nos moldes de Hollywood.

Uma produção que travestiu o que deveria ser uma celebração de nossa cultura de raiz.

Tomem o carnaval baiano, por exemplo.

A Bahia possui um dos sambas mais interessantes do Brasil.

O samba de roda baiano tem uma característica própria e é completamente diferente do samba do resto do país.

Mas ele, o samba de roda, não é convidado para o carnaval baiano.

Ali, predomina o axé, um dos piores tipos de poluição sonora já inventado pelo homem.

Ala das baianas, em Salvador, é aquele lugar em que as vendedoras de acarajé se perfilam na margem das ruas para vender quitutes aos turistas.

Carnaval baiano virou sinônimo de axé, abadá e dancinhas sexistas que já estarão esquecidas e substituídas por outras igualmente descartáveis no ano que vem.

A meu ver, o carnaval da Bahia “oficial” deveria ter outro nome e ser apenas mais um axé-folia, como tantos outros  que acontecem fora do estado nas micaretas que se reproduziram feito praga ao longo dos anos.

Melhor seria se mudasse tudo isto de nome e legitimassem a farsa.

Pode ser que, assim, Noel, Dorival, Cartola, Lamartine e seus iguais, descansassem, finalmente, em paz.

Saturday, January 25, 2014

Super-Homem


O filósofo alemão Friedrich Nietzsche explica os passos através dos quais o Homem pode tornar um 'Super-Homem' em Assim Falou Zaratustra.
Mais adiante na história os estudantes norte-americanos Jerry Siegel e Joe Shuster criaram o Superman, personagem das revistas de quadrinhos, que posteriormente ganharia as telas na pele de Christopher Reeve.
Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, eu sei.
O Superman de Christopher Reeve acabou se tornando um dos maiores fenômenos do cinema em todos os tempos.
A suposta origem dos poderes do Superman é o Sol amarelo da Terra.
Em Krypton o astro é vermelho, e essa diferença de freqüência eletromagnética entre ambos os astros faria com que, de alguma forma, as células do corpo de Kal-El fossem "carregadas" como verdadeiras baterias vivas.
Descobri isto na Internet, a mãe de todos os burros.
O homem de aço voava, atravessava estruturas, conseguia evitar o tombamento de um edifício, desentortava uma ponte de ferro, prendia bandidos com bravura e charme.
Seu corpo era impenetrável às balas e à inveja.
Quando não estava salvando a humanidade de inescrupulosos bandidos, era um esforçado repórter do jornal Planeta Diário.
Ironia do destino, o ator que deu a vida ao super-herói no cinema teve um fim trágico.
Amante da equitação, caiu de um cavalo num momento de lazer, ficando paralisado numa cadeira de rodas.
Seus últimos dias foram marcados pelo sofrimento.
Minha idéia de super-homem, no entanto, é diferente.
Em sua certidão de nascimento não consta Krypton, mas Mutum, um vilarejo remoto no Leste de Minas.
Meu super-homem trabalhou na roça até ser grande o suficiente para tentar a sorte na cidade grande.
Não se sentou num banco de escola, porque desde menino, ao invés de um lápis, empunhou uma enxada.
Ele plantou café, feijão, milho, hortaliças, cuidou da criação e amansou cavalos.
Ele, que calçou um par de sapatos pela primeira-vez aos 17 anos.
Ele, que na cidade grande, trabalhou em troca de comida e pelo direito de dormir num cubículo no fundo de um quintal.
Sua gratidão pela acolhida foi tamanha, que todos os seus filhos tiveram o nome do homem que o abrigou em sua chegada à civilização.
Conseguiu se alistar na polícia militar de Minas Gerais enxergando ali uma possibilidade única de sobrevir e criar a família.
Seu uniforme, de cor cáqui e sem nenhuma divisa nos braços, em nada se assemelhou à malha azul e vermelha dos grande herói dos quadrinhos e das telas.
Ele, que não possuía capa que lhe permitisse vôos mais altos e tinha passos miúdos, mas firmes.
Caminhou miúdo, chegou longe.
Ele, que casou e teve filhos, todos eles Carlos.
Ele, o meu pai.
A sua figura indestrutível tem sido pra mim, desde a mais tenra infância, um referencial e uma fortaleza.
Graças a ele, andei e ando de cabeça levantada pelas ruas de onde quer que meus pés pisem.
Sua honestidade era (e é!) um dos super-poderes.
A firmeza, a lealdade e a persistência eram (e são!) outros.
Hoje, meu super-homem vive momentos difíceis.
Aos 74 anos, ele trava agora uma das mais difíceis batalhas de sua vida.
Nenhum deles se chama Lex Luthor, Bizarro, Mongul, Metallo, Darkseid, Brainiac ou o Ultra-Humonóide, que foi o primeiro adversário do herói dos quadrinhos e das telas.
Seo Antônio, ou melhor, Seo Totoca, tem diante de si o desafio de nocautear um derrame cerebral que tem lhe deixado impossibilitado de caminhar e duplicou-lhe a visão.
E eu, como no tempo em que devorava com voracidade as aventuras de meu herói das revistas em quadrinhos, quero chegar ao final desta história com a sensação de que meu mito maior venceu seu inimigo.
Meu super-herói, meu superpai, tem em mim muito mais que um admirador, ele tem em mim um crente.
Meu coração e minhas preces estão com ele lá no Brasil, aqui, e em todo o lugar.
O bem vencerá.
Tenho fé.


* Crônica escrita em 2004. Superman venceu mais uma vez.

Wednesday, January 8, 2014

O dia em que Nelson Ned me salvou




Quando comecei a luta no jornal Brazilian Voice não tínhamos uma equipe de trabalho e houve um período em que eu fazia tudo sozinho.
Era, literalmente, jornalista e jornaleiro. E era outras coisas mais.
Aprendi alguma coisa de informática - no susto! - e maximizava isto com voluntarismo e vontade de vencer.
Fazia os textos, diagramava, criava eventuais anúncios e mesmo com minhas mais gritantes limitações, conseguia fechar em tempo as edições.

Quando a gráfica entregava o jornal, eu dava uma folheada rápida e saía com o furgão cheio, aquele cheiro de tinta fresca entrando pelos poros.
Distribuía inicialmente em New Jersey.

Atravessava o Rio Hudson e fazia Nova York, começando pela ilha de Manhattan e depois o bairro do Queens, onde ficava concentrada a comunidade brasileira.
E seguia dali para o norte, com paradas em cidades de Connecticut e Massachusetts.
Só voltava para casa dois dias depois, exausto, mas pronto para a próxima edição.

De vez em quando, aparecia alguém disposto a entregar o jornal comigo. Íamos rindo, relembrando família e Brasil. E o tempo passava mais rápido.
Samuel Cervidanes, um amigo ipatinguense, ofereceu-se para me acompanhar numa destas viagens.
Cumprimos a primeira etapa do trajeto e, quando saíamos de Queens para pegar a ponte em direção à rota que nos levaria a Connecticut, envolvi-me em um acidente.

Um táxi atravessou o sinal vermelho e mesmo eu me esforçando para não colidir, acabei acertando-o de lado, em um ângulo esquisito.
Ele nem parou.
Devia estar com alguma irregularidade na documentação. Fugiu. E ainda levou meu para-choque dianteiro enganchado à sua lateral.
No nosso carro ninguém se machucou, mas o capô começou a fumegar. Decidimos seguir adiante, até encontrar o primeiro posto de gasolina, onde tentaríamos solucionar o problema.

Quando entramos no Bronx - na época um dos lugares mais perigosos do país, com altíssima taxa de criminalidade -, o carro tossia, ameaçando parar a qualquer momento. Populado pelos  deserdados deste país, o bairro era um gueto em que as gangues de negros e hispânicos travavam uma luta furiosa por território. Intimidava, claro. Samuel e eu não éramos, necessariamente, dois 'tough guys'.

- "Demos sorte", disse Samuel apontando para a placa da Shell.

Parei o carro. Reconheci imediatamente que eram hispânicos. Provavelmente porto-riquenhos.
Desci, tentei puxar conversa, mas as pessoas passavam por mim como se eu fosse um poste.
À porta fechada da oficina mecânica havia um banquinho onde um homem alto e forte estava sentado com um rádio entre as pernas.
E ele escutava, impassível, o locutor anunciar músicas românticas como se nada mais existisse neste mundo.
Pedi para utilizar o banheiro e ele não respondeu.
Espichei o portunhol um pouquinho mais e expliquei meu infortúnio, mas ele sequer olhou para mim.
Absorto, olhava fixamente para algum ponto nas imediações como se vigiasse o lugar.
E eu ali, ao seu lado, tenso, pois começava a escurecer e correríamos risco de morte, caso inventássemos de passar a noite dentro do carro.
Naquele tempo não existia telefone celular e não havia um único orelhão nas imediações, como já verificara Samuel.
Foi aí que saiu uma voz familiar de dentro do radio do homem.
Era Roberto Carlos, cantando em espanhol.
Sorri e tentei puxar assunto, outra vez:
- Este é o Rei, falei com forçado orgulho.
O homem sacudiu a cabeça e respondeu em espanhol:
- Nem príncipe. O grande rei da canção se chama Nelson Ned.

Senti ali uma abertura e comecei a entoar, desajeitadamente:
   "O que é que você vai fazer domingo à tarde
    Pois eu quero convidar você pra sair comigo,
    Passear por aí numa rua qualquer da cidade,
    Vou dizer pra você tanta coisa que a ninguém eu digo”

O homem sorriu, provavelmente encantado por uma canção que conhecia, escutada pela primeira vez num idioma que não era o seu, pois Nelson Ned era um grande sucesso cantando em espanhol para toda a América Latina.

Era a senha para quebrar o gelo.
Expliquei que o "pequeno gigante” era meu conterrâneo e o homem se iluminou por inteiro, mostrando pela primeira vez os dentes amarelados.

 - Conterrâneo, eu disse. "De Ubá, Minas Gerais".

Ele deve ter entendido que o cantor era meu amigo ou parente, pois abriu imediatamente a porta da oficina, indicando outra porta, onde ficava o banheiro.
Mal entrei, tomei um susto.
O local não era mais uma oficina mecânica, apesar de muitas ferramentas em escaninhos bem organizados, um elevador hidráulico e um cheiro de combustível misturado com maconha.
Tratava-se de um casino clandestino, com máquinas de caça-níquel, mesas de carteado e homens mal encarados bebendo cerveja e fumando cannabis.
Quando saí do banheiro, o novo 'amigo' me apresentou a uma outra pessoa, que intuí ser o chefe daquela operação.
Perguntaram quanto eu tinha no bolso.

   - "Pouco mais de 50 dólares", respondi.

O homem sorriu e disse que eu não iria precisar do dinheiro.
Na sequência, remendou o radiador com solda e disse:
   
- Chegando a Nova Jersey, mande trocar a peça por uma nova. Vai aguentar até você chegar lá.
Quando entregou a chave, sorriu novamente, negando-se a receber aquela ninharia que eu insistia em lhe entregar:

    - Esta é por Nelson Ned.

Retomamos a estrada e fui pensando, entre aliviado e emocionado, nas ironias desta vida.
Um homem, que no Brasil era tratado como anão de circo, fora dele, era reverenciado como um rei.
Um rei amado e generoso, capaz de salvar um conterrâneo do perigo e reconduzi-lo com segurança ao caminho de casa.
Tornei-me um súdito, desde então.
E o meu rei é imenso.