Monday, July 28, 2014

Curiango


João-sem-braço
, gritam os moleques na rua.
Ele baixa a cabeça – envergonhado  -, come a poeira do chão com os olhos, aquelas duas ilhotas de jabuticaba cercadas de sangue pisado por todos os lados.
Falta-lhe o braço esquerdo. Sobra-lhe arrependimento.
O homem prossegue desequilibrado em sua rota, ziguezagueante, o corpo pendendo para os lados, metade gravidade, metade alumbramento. É assim todos os dias.
E o nome dele nem é João.

A certidão atesta que Antônio José Dos Santos nasceu num dia de Santo Antônio, em Galiléia, quase na divisa do Espírito Santo.
Daria a saber que  sua família foi subindo à margem direita do Rio Doce, até fincar estaca em Valadares.
O pai morreu novo, afogado, durante uma pescaria, neste mesmo rio. 
Dizem que ele estava bêbado, e que a cachaça corre nas veias da família há várias gerações.
Desde então, Maria Quitéria foi virando aquele  caquinho de mulher, viúva jovem ainda, com a má-sorte amalgamada num barraco de terra batida na encosta do morro, e com um filho para criar.
Trabalhava  em casas de pessoas pouco menos miseráveis do que ela. 
Sabia fazer biscoitos e cozinhar trivialidades.
Lavava, passava, consolava as patroas.
Todas as noites chorava a ausência de seu homem e a única diversão que conhecia era ir à igreja aos domingos, onde passava horas a fio confessando pecados que não eram seus.

Antônio cresceu fazendo bicos.
Escola, ele não teve.
Namorada, não conseguiu.

Ele não havia nascido para o amor. 

Era tão feio, que passou a ser chamado de Curiango, uma ave de plumagem pardo-amarelada finamente pintada de preto e com manchas pretas maiores, rêmiges pretas com fita branca.

Curiango capinava um quintal aqui, fazia um serviço de servente de pedreiro ali, caiava muros, ajudava nos carretos em troca de qualquer coisa.
Chegou a fichar na Cerâmica: um salário-mínimo , meio expediente no sábado  e o domingo de folga pra rebater as dores no corpo, porque o serviço era pesado.
Muito pesado.
Durante 12 horas por dia ele  moldava telhas do tipo cumbuca e tijolos lajota, que os caminhões levavam e o deixavam pensando que estava ajudando a construir uma cidade. Um país.

No sábado, quando saía da Cerâmica - a pele negra ainda esbranquiçada do pó de argila -, ele encostava o umbigo no balcão da venda do albino Zé Roque e pedia uma branquinha, e um pedaço de chouriço de porco.
E pedia outra dose, e mais outra e outra mais.

Após a décima pinga, Curiango começava a conversar com um amigo imaginário, que ele próprio dizia ser o diabo.
Seus olhos ficavam esbugalhados, o semblante se encarguilhava e ele balbuciava frases incompreensíveis, gesticulando, explicando, fazendo-se se entender e entendendo, maneando a cabeça positiva ou negativamente, conforme a prosa se desenrolava entre os dois.
Os clientes da casa se acostumaram à cena. Havia até quem -  por educação - cumprimentasse os dois.
Foi no balcão daquele vendeirim, que Curiango escutou a estória de um homem que sobreviveu a um atropelamento e nunca mais precisou trabalhar.
    
“A indenização da Vale do Rio Doce foi maior que o prêmio da loteria mineira”, teria sussurrado o diabo.
    
O diabo, aquela má-influência, aquela péssima companhia.
    
Desde que começaram a andar juntos, Curiango não quis mais trabalhar. Só queria saber de beber com o amigo. E, como não tinha mais salário e o diabo anda sempre duro, esmolava por cachaça:
   
-          Ô, me paga uma pinga aí ? – pedia a qualquer um que entrasse no estabelecimento.
Todos os dias, com ou sem dinheiro, chegava na venda logo pela manhã e começava a beber e a falar sozinho.
    
Sozinho, não: com o “companheiro”.


    
Naquele sábado, porém, Curiango chegou desacompanhado.
    
Havia feito a capina de um quintal da Rua Ametista e ganhado o do vício.
   
-   Bota uma branquinha aí, Zé Roque!
    
E mais uma. E mais outra. E outras tantas mais.
   
Olhou para as mãos calejadas e franziu a testa. Duas bolhas haviam arrebentado pelo peso da enxada. E ele foi ficando incomodado.
   
A todo instante, olhava para a porta, mas o amigo não chegava.
Devia ser umas duas horas da tarde, um calor infernal, o sol a pino, quando ele pediu a saideira.
Vazou pela porta, a camisa branca e suja completamente desbotoada, sumiu na curva da rua em direção ao caminho do trem.

Respirou fundo, fez um nome do pai e deitou-se paralelamente à linha férrea, abrindo os braços como um Jesus Cristo embriagado e negro, o braço esquerdo trespassando um dos trilhos até a altura do sovaco.
       A locomotiva foi se aproximando em altíssima velocidade, crescendo aos olhos, o maquinista perplexo, gritando desesperado, puxando os freios e apitando na esperança de que Curiango saísse daquele transe e se levantasse.
Tudo em vão.
Do outro lado dos trilhos, o amigo imaginário sorria. 
Diabolicamente, como é de seu feitio.


* Ilustração, "O Escravo - Personagem de Paraty", de Luciano Osório

6 comments:

na vinha do verso said...

putz, Beto
das muitas escravidões, a pior é a que nos impomos

bela crônica sobre nossa autofobia

abração

Primeira Pessoa said...

o chicote pela nossa mão.
entendo perfeitamente, Marquinho.

Beijão,

R.

cirandeira said...

Quantas estórias semelhantes acontecem todos os dias...
Não conhecia esse cronista, muito bom.
Obrigada pela partilha, Roberto.

Um ótimo final de semana!!!

Primeira Pessoa said...

fico feliz que tenha gostado, cirandeira. retomei o blog e a escrita.
foi um processo que durou mais do que deveria, mas achei o fio da meada.

nada nesta vida é garantido.
só o fim dela.

beijão,

r.

Janice Adja said...

Faz um grande tempo que passei por aqui. Que bom!!!
Beijos!!

Primeira Pessoa said...

Fez bem de ter voltado, Janice.
trouxe felicidade com você.

grande beijo,

r.