Tuesday, November 29, 2016

Uma tentativa de ler um poema que virou letra de canção

video


EXTRAVIO

Algumas coisas nasceram
Para não ter fim
Laranjas pela metade
Histórias que não foram contadas
O não que abraçou o sim

A flor que brotou
E não floresceu
O amor que amou
Mas adoeceu
O caminho sem chegada
A carta extraviada
O tal não dentro do sim

Tem a sina de uma bala perdida
Cambaleia em direção ao alvo
Como a faca rasgando a água
Como o fogo mastigando a carta
Como o vento que penteia as palmas
Como a pedra que nasceu do pó
Como o tempo que engole os dias
Como o corpo, despido de alma,
Que foi beijar a terra
Longe, bem longe
de mim.

(Melodia de Roberto Mendes vestindo as palavras de Roberto Lima)


Friday, November 25, 2016

Da ironia da vida


é preciso haver a tristeza 
para saber o que é felicidade
barulho para apreciar o silêncio
e ausência para valorizar a presença.

(Maria Paula Alvin)

PS: naquilo que penso em meus velhos. E não só. Naquilo que penso.

Thursday, November 24, 2016

Elegia 1938



(Carlos Drummond de Andrade)

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações no encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas de dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

.

Wednesday, November 23, 2016

A medida Exata





De nós dois ficou esta estória 
Mal contada e sem final feliz
O buraco bem no meio do peito
E pouca linha para cerzir a cicatriz

Ficou um grafite no muro
Este buquê de folhas secas
Um baú de pedras murchas
E um bolero nariz com nariz

O que fazer da minha tristeza,
Como beber de um gole só
A medida exata de tanta solidão?


* (Nova parceria com Lula Barbosa)

Friday, November 18, 2016

Sete Saias


[O primeiro poema]

Nazarena
O seu receio contido
Dentro das sete saias
Não cabe
Na tristeza infinita
Do olhar que vislumbra
A mágoa
Toda vez que o seu homem
Atende o chamado do mar
E vai...

São sete desejos, sete sinas
Sete  redes, sete medos
Sete fomes, sete peixes
Sete lençóis de cambraia
Sete cores do arco-iris
Sete olhares no Atlântico
Sete luas, sete lutas
Sete naufrágios
Sete náufragos

São sete cruzes na praia
E sete são as cicatrizes
Que nunca irão fechar
São sete mortes,
Sete homens
Sete punhais de Netuno
São sete mulheres
de negro.
E negras
São as sete saias.

Nazaré, Portugal, 
13 de julho de 2016

* musicado por Dalmir Lott

Thursday, November 17, 2016

A metade da sede


(O Segundo Poema)



O copo está 
metade cheio 
e metade vazio


Enquanto uma metade agoniza na faixa de gaza
A outra transcende em Xangri-Lá

Uma metade é festa e alegria
E a outra é luto e tristeza

Uma metade é calmaria
a outra é ventania e tormenta

Há uma metade que condena 
E há outra que anistia

Uma delas está cheia de vida
E a outra agoniza, moribunda

Metade que é pura esperança
Metade que é leite derramado

Metade que é a magia do encontro
E a outra a lonjura do adeus

Metade que é líquida, 
Metade que é ar

Nosso copo está
Metade vazio,
Metade cheio

Com qual metade
Saciará a sua sede?


Coimbra, 14 de Julho de 2016

Wednesday, November 16, 2016

Das coisas que esqueci sobre mim



A poeta baiana Tânia Contreiras lançou-me o desafio para que entrasse em uma espécia de corrente iniciada nas redes sociais e enumerasse 30 coisas a meu respeito.
Eu jamais diria não a ela, que é uma pessoa muito presente em minha vida, amiga ímpar, a quem eu não diria não mesmo se estivesse me pedindo um rim.
Portanto, aí vão as 30 coisas das quais, às vezes, eu mesmo me esqueço:

1) Tenho que beber pelo menos três uísques antes de entrar em um avião.
2) Quando menino fui atropelado por um jipe e salvo de um afogamento por um ladrão. Que eu me lembre, em três outras oportunidades a morte passou de raspão.
3) Adoro pão com linguiça e rapa de arroz.
4) Gosto de cozinhar. Muitas vezes, cozinho para não pirar.
5) Adoro futebol. Cruzeirense de ir ao estádio. De "ver" o jogo pelo rádio.
6) Fui "vencedor" de um único concurso literário em minha vida.
    Foi uma 'tarefa' no grupo Escolar Maria Ortiz, em Barra do Cuieté-MG; a redação "Meu Brinquedo favorito" venceu "o ponto" para a equipe Azul, do terceiro ano primário.
7) Quando cheguei aos Estados Unidos trabalhei de pasteleiro (fazia Pastéis de Belém em uma padaria portuguesa).
   Fui também lava-pratos, ajudante de cozinheiro, garçom, funcionário de empresa-de transportes e servente de pedreiro. Aliás, o pior servente de pedreiro que a construção civil de New Jersey já conheceu.
08) Comecei a escrever coisas visitando um pistoleiro de aluguel condenado a 380 anos de prisão, em um presídio de Juiz de Fora. Eu tinha 18 anos.
09) Meu pai não queria que eu vivesse de escrevinhações. Fez de tudo para que eu fosse militar, como ele. Na contra-mão mão de sua vontade, minha mãe presenteou-me com uma Olivetti portátil, que ela pagou em 12 suadas prestações na falecida Mesbla.
10) Sofro quando tenho que usar terno e gravata.
11) Não gostaria de ficar careca.
12) Fui pai pela primeira vez aos 16 anos de idade.
13) Tenho três filhas.
14) Casei-me ao meio dia, em Curitiba, o sol estava a pino e tive câimbras durante o sermão do padre. Era outubro e um bando de borboletas pousou nas pessoas à saída da igreja.
15) Toda vez que alguém me chama de “jovem”, fico constrangido e respondo: 'Ex-jovem'.
     Fico achando que esta pessoa está tentando me vender um par de quixutes.
16) Adoro Portugal. Pudesse, iria várias vezes por ano a Portugal.
     Tenho vários ossos lusitanos em meu corpo.
17) Eu me sinto mais mineiro do que qualquer outra coisa.
     Muito mais do que brasileiro ou norte-americano, eu sou mi-nei-ro. De Minas Gerais.
18) Se tivesse que fazer uma tatuagem, tatuaria o triangulinho vermelho da bandeira de Minas Gerais no bíceps.
19) Cheguei aos Estados Unidos aos 21. Tenho 53. Vivi toda a vida adulta no estado de Nova Jersey.
20) Quando comecei a escrever queria ser uma espécie de Augusto dos Anjos menos pessimista. Depois queria ser Drummond e depois, Roberto Drummond.
21) O livro Hilda Furacão, de Roberto Drummond, é dedicado a mim. Também a mim, que fique claro. O que me honra da cabeça aos pés.
22) Tive uma produtora de shows de MPB em sociedade com dois grandes amigos nos EUA. Fizemos coisas que julgo importantes por aqui.
23) Sofro quando entro em um lugar e está tocando axé, sertanejo, pagode ou "fanque". Este é um dos motivos porque vou pouco aos restaurantes brasileiros de Newark.
24) Parei de fumar no dia 1º de dezembro de 2011, após escalar - de carro - um poste da South Street. Carro e cara se arrebentaram.
   Parei como forma de agradecimento pela oportunidade de continuar entre os vivos. Eu era fumante desde 1980.
25) Eu não gosto de ir a festas de crianças, nem de ir à Disney com minhas filhas.
   Não fui. Não vou. Não irei.
   É por estas e outras que ainda morarei no inferno.
26) Não gosto de praia. Nem de carnaval.
27) Acho as obras de Niemeyer uma bobagem. A forma não segue a função.
28) Tenho preguiça mental de falar inglês. Minha tecla SAP está quase sempre desligada.
29) Recentemente tive muita vontade de voltar pra Minas Gerais e ir morar numa casa de montanha e ser feliz para sempre.
    Esta vontade está passando. Vai passar.
30) Tenho os melhores amigos que o afeto pode comprar.

Monday, November 14, 2016

Alçapão



Estivemos
Os dois dentro
Do mesmo
Momento

Ruminando
Mágoas
Mastigando
O tempo

E
Bem debaixo
Dos pés
- Naquilo
Que um dia
Chamamos 
 chão -

Escancarando
A ferida,
Abriu-se 
A boca faminta
De um alçapão

Monday, November 7, 2016

Profecia


Nada será como antes

Depois do seu cheiro
Na minha pele
Dos nossos rostos colados
E do bolero bailado
De pés no chão

Não será igual
À sede da água 
Bebida de sua boca
Na varanda da manhã

Não será escura a gruta
Na garganta das veredas
Não haverá feridas abertas
E não serão mais vermelhos
Aqueles flamboyants

O cumprimento dos três pedidos
Na fonte dos seus desejos
Ficaram amaranhados
Nas linhas do nosso destino
E estas estão riscadas
na palma da minha mão


* Nova parceria musical com Lula Barbosa