Wednesday, July 26, 2017

Memórias do Abcedário


(Para a Juliana Loyola)


Fui alfabetizado por uma velhinha que, diziam as más línguas, teria sido prostituta na juventude.
Baixinha, magra - daquelas bem ossudas - e de bigode, não consigo imaginar que tenha sido profissional do sexo.
Não teria sido das moças mais atraentes, a nossa dona Rita. Para piorar, tinha as pernas muito finas e peludas.
Como sei disto? Ora, ela me colocava para rezar, ajoelhado, diante da imagem de uma santa cujo nome me foge à lembrança. E eu via seus cambitos, quando ela se aproximava para anunciar o fim do castigo.
Não creio que seu método didático tenha funcionado comigo, pois até hoje tenho dificuldade de me lembrar quanto é sete vezes seis, o calcanhar de Aquiles nas arguições de tabuada.
Por mérito dela e medo meu (de rezar ajoelhado de novo e de novo e de novo), eu entrei no grupo escolar sabendo ler e escrever.
A primeira professora "oficial" chamava-se Dionete e me dei bem com ela. Terminei o ano com honras e só não gostava da hora da merenda, no recreio. 
A fila quilométrica de caneca plástica na mão para encarar uma gororoba - que chamavam de "triguilho" - não deixava tempo para brincar com a meninada.
Nas festas do Manoel Byrro eu fazia dupla com Maurício Zói de Gato, porque ele tinha os olhos azuis.
Nós cantávamos Era Um Garoto Que Como Eu Amava os Beatles e os Rolling Stones, do grupo Os Incríveis.
Começava ali uma carreira promissora na música.
Nosso palco era uma mesa de fundo bambo, suspeitíssimo e, na hora do refrão, imitávamos uma metralhadora com as mãos, apontando um para o outro e gritando ra-ta-ta-ta-ta-ta.
Ao final da performance, caíamos para trás, como que atingidos por balas vietnamitas. Choviam aplausos, mas como nosso repertório se resumia a uma única música, a platéia enjoou e terminou ali aquela promissora carreira musical.
Adultos, Maurício entraria para a polícia militar e eu viria lavar pratos nos Estados Unidos.
Cantar, para ambos, hoje, acho que nem no banheiro.
Quando completei oito anos minha família foi de mala e cuia para Barra do Cuieté, um lugarejo quase na divisa com o Espírito Santo e para onde meu pai havia sido transferido.
Vivemos lá durante um ano e meio e foi um período muito feliz de minha vida. Nadava na foz do Rio Caratinga com o Rio Doce, tomava banho de cachoeira, pescava e caçava passarinho.
E foi lá, no Grupo Escolar Maria Ortiz, que iniciei a 'trajetória nas letras'.
Todos os anos acontecia uma concorrida gincana em que os alunos tinham que executar tarefas que dariam os pontos para a sua equipe. Os vencedores iam em cima de um caminhão de leite a Conselheiro Pena  tomar sorvete e passear na pracinha.
Na tarefa de redação, cujo tema era "Meu brinquedo favorito", conquistei o ponto para a equipe azul ao enumerar os gols que faria (e não fiz) com a bola de futebol que minha tia Terezinha ainda haveria de me dar.
E aquele sorvete sentado num banquinha da Praça da Matriz em Conselheiro foi meu Jabuti, meu Nobel de literatura, meu Oceanos, meu Camões.
Era de creme, o prêmio.
E até hoje eu consigo sentir o seu gosto doce.


.

Tuesday, July 18, 2017

Eu tinha muito de caminhoneiro em mim

 O ouvinte compra uma ficha telefônica e liga para a rádio. Na sequência, inicia um diálogo com o apresentador, que indaga algumas coisas a seu respeito. De onde ele é, com o que trabalha, perguntas recorrentes. Para fechar a conversa, o ouvinte pede uma canção e a dedica a alguém. 
Com a ajuda do apresentador - que emposta a voz e capricha nos floreios - ele chega ao ouvido e coração do homenageado:
"Alô, Dona Maria, sua filha Carmen dedica-lhe ‘Tranquei A Vida’, de Ronnie Von." 
As empregadas domésticas eram grandes apreciadoras desses programas. Os motoristas de praça e caminhão, também. O rádio de pilha era um grande companheiro, remédio eficaz no combate à solidão.
Rapazes apaixonados também telefonavam, e cada canção era uma espécie de rosa tremulando na mão.
"Para a Josiana, com votos de amor eterno do seu admirador secreto, 'Os Seus Botões', do rei Roberto Carlos."
"Para o José Carlos, da Drogaria Pague Menos, com o carinho da sua noiva Priscila, que oferece 'Lábios de Mel', na voz de Ângela Maria."
Às vezes dava até em casamento. Também atenuava mágoas e encerrava brigas entre casais. 
Quando isso?
Segunda metade do século passado, início dos anos 1970.
Eu era menino e tinha muito de caminhoneiro em mim. Cresci escutando rádio. Todas as noites levava o Philco portátil para a cama e esperava o programa Noturno, da Rádio Jornal do Brasil. Às 23h em ponto começava o deleite.
Dormia escutando Milton, Elis, Alceu, Belchior e Caymmi, o pai. 
E tinha Gonzaguinha e Gonzagão, Nara Leão, Edu Lobo, melodias de um terceiro Luiz e tantas baladas, sambas, bossas e chorinhos, que ficavam fazendo cosquinha em minhas orelhas até o sono chegar.
Não cheguei a pegar a fase de ouro do rádio, que reinou absoluto antes da chegada da televisão.
Não escutei Ary Barroso, que, além de comentarista esportivo e apresentador, era um talentoso compositor, autor de clássicos como “Aquarela do Brasil”, “No Tabuleiro da Baiana” e “Na Baixa do Sapateiro”. Com o primeiro concorreu ao Oscar de melhor canção-tema de filme. Era o rei do samba-exaltação.
Não convivi com Marlene e Emilinha, as rainhas de uma era que hoje parece inverossímil como os dinossauros.
Cheguei depois das novelas radiofônicas, que, como as partidas de futebol, ofereciam uma poderosa parceria em que a imaginação do ouvinte dava cores ao cenário onde as tramas ganhavam vida.
Imaginar um campo de batalha ou um Maracanã lotado em dia de Fla x Flu incendiava o imaginário do espectador, algo que acontecia naturalmente. Por mais que cada um enxergasse do jeito que quisesse, algo ali os irmanava, tornando-os iguais.
Os narradores inventavam bordões e verbetes, eram profetas de um tempo que parecia melhor. Cada partida de futebol era um espetáculo, um recital, como quis nos fazer crer Fiori Gigliotti, que começava as narrações decretando que se 'abrissem as cortinas' do velho Pacaembu.
Entre as lembranças ainda reverbera a Rádio Relógio, que passava o dia inteiro dando a hora certa. 
Sediada no Rio de Janeiro, ela ainda opera no dial AM, na frequência 580 kHz, mas rompeu há muito com as suas tradições. Conhecida por tocar ao fundo das suas transmissões a hora certa vinda do Observatório Nacional, hoje ela é mais uma ferramenta de divulgação da igreja do bispo RR Soares, o quarto pastor mais rico do país, segundo a revista econômica Forbes.
Não dá para falar de rádio no Brasil sem abordar aspectos nostálgicos.
Às seis da tarde, em ponto, era a hora do Ângelus.  
De dentro das casas vazava o som de um coral relembrando aos católicos, mediante meditação e orações, o momento da Anunciação - feita pelo anjo Gabriel à Virgem Maria - da concepção de Jesus Cristo, que diziam estar livre do pecado original. As ruas ganhavam um ar solene.
E tinha a famigerada “A Voz do Brasil”, que os empoderados militares tornaram obrigatória em todas as emissoras. Dessa época de tortura e ufanismo ficaram canções como “Você Também É Responsável” e “Eu te Amo, Meu Brasil”, dos irmãos cearenses Dom e Ravel, queridinhos dos generais.
Sem falar nos programas policiais, ainda hoje em voga, que relatavam o cotidiano das delegacias. Os boletins faziam escorrer sangue dos alto-falantes, saciando uma necessidade estranha da raça humana. 
Os noticiários, às vezes com fatos requentados de todas as partes do globo, eram temas de animadas conversas entre os homens e as mulheres daquele Brasil. Era comum alguém comentar um assunto e o interlocutor responder que "viu no rádio".
E tinha visto mesmo.

Thursday, July 6, 2017

Pequena sonata de impuro maldizer


onde havia uma
frase no muro
surgiu esse amargo de lima,
vestígios de serenata
e um buraco de bala.

no lugar do peito florindo
ficou essa trincheira,
um buquê de folhas secas,
odor de leite derramado
e o endereço errado
no carimbo dos correios.

ao invés
de um poema,
um desagravo.

No lugar 
onde bateu um dia
um coração
ela hasteou
uma bandeira pirata.

Monday, June 26, 2017

Antúrios



Quando o telefone silenciou
olhei em volta,
olhei para dentro
e vi o tamanho do caos.


Contabilizei
uma Hiroshima, duas Nagazakis
um  Columbine e três tsunamis
que chegaram varrendo tudo.


Duas fukushimas e um Chernobyl desabrocharam
no vaso de anturios;
nasceram trifoliums repens
entre os azulejos
e uvas com gosto amargo de lima
se espalharam pelos quartos.


Desde então, ficou este
coração radiotivo e burocrático
com cercas eletrificadas muito altas
e um hálito de tango brotando do chão.

Ontem, nasceram rosas de arame farpado,
 lírios de césio e mercúrio,
acácias que não disseram nada
e a visão de um sorriso de Marlene Dietrich.

Quando o telefone silenciou,
olhei em volta
olhei para dentro
e somente o seu perfume
persistiu.



(29 de julho de 2016)

Sunday, April 30, 2017

Pequeno mapa do medo



(Para Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes)


A ansiedade é a véspera do medo.
E o medo é um homem-bomba que vive dentro de nós.
Quando não domesticado, o medo pode se transformar em uma grave doença, péssima companhia que nos influencia e transtorna, e que nos leva a viver um lugar árido e frio, uma espécie de cidade pavimentada pela tristeza.
Sou defensor da tese de que em doses homeopáticas o medo pode até  jogar a nosso favor.
Ele pode demarcar limites benéficos e nos dar uma sensação – nem sempre verdadeira - de segurança.
Na infância eu tive um amiguinho que tinha medo de borboletas. Foi o primeiro caso de motefobia de que tive notícia.
A borboleta que enfeitava a primavera e que pousou em flores o aterrorizava. Vista por seus olhos microscópicos ela era um monstro horrendo e que só ele via.
Ele percebeu, ali, que de perto ninguém é perfeito. Ninguém é tão bonito. Ninguém.
Naqueles mesmos dias passariam por mim a mula-sem-cabeça e o lobisomem. E eu sobrevivi.
E eu ainda temia o caboclinho d’água, uma lenda do rio que corria pela minha infância.
Por isto nunca pescava sozinho.
Veio daí essa tendência gregária - já adulto-, esse hábito de só andar em bando.
A vida tem tantos outros medos, constataria, à medida que molhava os pés em suas águas.
Mais medos do que certezas, concluiria.
Medo da cuca, que vem pegar.
Medo de andar de avião.
Medo de andar.
Medo de lugares fechados.
Medo de o elevador despencar.
Medo de dirigir um automóvel.
Medo de entrar na multidão.
Medo do escuro, da chuva, do relâmpago e do trovão.
Medo da violência urbana, de parar no sinal de trânsito e ver aproximar aquele motoqueiro com um garupa.
Medo de seguir em frente.
Medo do pivete, do sequestrador-relâmpago e das polícias.
Medo das milícias.
Estereotipamos, já perceberam? É o medo nos manipulando.
Temos medo de qualquer um. Às vezes temos medo de nós próprios.
Medo. Muito medo.
Medo de cair para a segunda divisão.
Medo de cair e não levantar.
Medo da mão pesada de Deus.
O tal temor a Ele, anunciado nas escrituras.
Medo de morrer e ir para o inferno.
Da chapa quente do inferno, do chifrudo de olhos vermelhos e seu tridente pontiagudo.
Estereotipamos.
Medo do fracasso.
Medo de broxar.
Medo de arriscar, mesmo sabendo que quem não arrisca, não petisca.
Medo da libertação.
Medo da autonomia.
Ablutofobia, Acrofobia, Belonefobia, Bienofobia, Claustrofobia, Lalofobia, Lactofobia, Motefobia, Nasofobia, Queimofobia, Tafefobia e Xenofobia.
Tudo é medo, medo, medo, como cantou o cearense Belchior, em Pequeno Mapa do Tempo.
E existem muitos outros, comprova a ciência.
O pior de todos, no entanto, é o medo de ser feliz.
Posso garantir e passar recibo, meus amigos, que não existe medo pior.



.
* Pequeno Mapa do Medo é o nome de meu próximo livro e será dedicado à memória de Belchior e a José e Ana, dois amigos de Minas Gerais.

Monday, April 17, 2017

Porque eu também sou mãe


Eu entendo a sua dor porque também sou mãe. 
Assim como você, eu sou aquela que esperou com ansiedade a chegada deste filho que encheu a casa de felicidade quando nasceu.
Se ele foi o primeiro, se foi o único, pouco importa.
Para uma mãe todos os filhos são únicos, todos são o primeiro, todos são iguais no amor que ela sente desde o momento em que nasce.
Uma mãe começa a amar o filho antes mesmo de sua chegada, naquilo que o guarda dentro da barriga e por ele espera.
E eu o guardei e desejei que nada lhe faltasse, que nada (nunca!) lhe doesse, que nada lhe afligisse desde que respirou fora de mim pela primeira vez.
E eu o amamentei até que ele não precisasse mais do meu leite.
Estive com ele nas noites de febre, trocava suas fraldas, saciava fome e sede e o acompanhei enquanto ele crescia.
Caía a noite e eu ficava olhando para aquele menino bonito, a face inocente descansando de nadas, e desejando que ele tivesse um sono tranquilo, cheio de sonhos leves.
Eu implorava para que ventos ligeiros levassem para longe dali os eventuais pesadelos.
Vi quando ele deu os primeiros passos e quando perdeu o primeiro dentinho.
Ainda guardo na memória cada pedacinho dele, a imagem no porta-retratos, o sorriso ingênuo, o olhar de ave, o cabelinho de nuvem.
Eu estive sempre com o meu menino.  (E gostaria de ter estado mais, mesmo depois que ele cresceu.)
Eu quis para ele futuros brilhantes, tão maiores e melhores que o meu.
Quis que ele salvasse vidas como um médico, que educasse o mundo como um professor, que fosse piloto de avião, artista ou atleta profissional.
Que ele fosse o que escolhesse ser. Acima de tudo, que ele fosse feliz.
Portanto, eu sou aquela que não sabe onde errou e que preferia que tudo fosse de outra maneira.
Eu sou a mãe daquele menino que se tornou rapaz e se perdeu de mim.
Aquele menino que foi adotado pelo crime e que hoje chama a violência de senhora.
E é por isto que entendo a sua dor de mãe, que teve a trajetória do seu filho interrompida pelo meu.
Sou a mãe do pivete que lhe assalta fumado de crack e que coloca a sua história de cidadão a um clique de revólver, a sua vida por um triz.
Sou a mãe do homem-bomba que entra num mercado e leva dezenas de inocentes com ele, sabe lá Alá para onde.
Sou a mãe do sequestrador que lhe priva dos seus, daquele que pede resgate e que talvez nem devolva o que não lhe pertence, o que nunca lhe pertenceu.
Eu sou a mãe de Mark Chapman, aquele jovem que matou John Lennon e roubou do mundo a luminosidade de novas canções.
Apareço como genitora na certidão de nascimento de Charles Manson.
Osama Bin Laden me chama de mãe.
Meu DNA está em Hitler, em Franco, em Gaddafi e Sadam Hussein.
Está nos policiais dos grupos de extermínio da Baixada Fluminense e nos estropiados do Talibã.
Está nas artérias de George Bush, nos cabelos de Manuel Noriega e na arcada dentária de outro tirano qualquer.
Meu filho é aquele que entra no cinema vestido de Batman e abre fogo contra inocentes, filhos de outras mulheres como você.
Eu sou a mãe de todos estes meninos enlouquecidos que se armam até os dentes e promovem carnificinas nos Colombines e Realengos desta vida.
Portanto, pode chorar nos meus ombros que eu entendo a sua dor, minha senhora. Entendo, porque também sou mãe.
E porque toda vez que um filho meu mata o seu, eu morro um pouquinho junto com os dois.


* Foto de Osama Bin Laden na infância.