Thursday, August 18, 2016

Aquele verbo


No princípio era o verbo…
Depois é que vieram os substantivos, os adjetivos e a gramática inteira.
O verbo sonhar é uma das invenções prediletas de Deus, que criou preciosidades como o amar e o perdoar, o consolar e o querer, entre tantos outros lances legais.
Discordo quando alguém diz que Deus criou todas as coisas. E, aqui eu pulo fora do combinado.
Não deve ter sido criatura dele a ganância e a inveja.
E é bem provável que tenham sido engenhosidade do diabo a política, as doenças, os cartolas do futebol, o horário eleitoral gratuito e os engarrafamentos no trânsito.
Mas, voltemos aos verbos.
Deus estava inspirado e de bom humor quando deu às suas criaturas a capacidade de projetar e operar grandes milagres sem a intervenção direta de sua mão.
Sonhar não é apenas deitar e dormir e ter experiências fora do corpo.
Sem a capacidade de sonhar e envisionar o que está do outro lado do muro o homem é apenas uma represa de carne e dúvidas.
A ausência do sonhar tira do homem a sua curiosidade, sua capacidade de improvisar e ser criativo.
Nada contra, mas o sujeito que trabalha na cabine de coletagem do pedágio da rodovia, não deve ser um sujeito que sonha. Sonhasse, não aceitaria a solidão daquele cubículo, as mãos impregnadas das imundícies do vil  metal.
George W. Bush não deve ter tido um único sonho decente em sua vida. Teve aflições.
Tito, Franco e Salazar desfiaram pesadelos.
Sonhadores são altruistas e benevolentes e não se importam de partilhar a generosidade como o mundo. E sonham até quando estão acordados. De suas mentes férteis brotam as cores do arco-iris e o vento que eleva os papagaios de papel.
Sem sonho não haveria a penicilina e Thomas Edson jamais teria iluminado as nossas vidas.
Sem sonho não haveria Pablo Picasso e sua Guernica. Não haveria os bigodes de Salvador Dali.
Não haveria Van Gogh e seus girassóis hipnóticos.
Não haveria Aleijadinho e seus profetas.
Frida Kahlo não seria Frida Kahlo e Drummond bateria ponto na redação de um jornal de província.
O sonho é o que repousa na barriga da lâmpada de Aladin.
Ele é o futuro cintilando dentro da bola de cristal.
É o barulho do mar no interior dos búzios chacoalhando nas mãos da cigana.
Os Beatles seriam apenas quatro jovens conformados não fosse pelo sonho.
E Hendrix, Janis e Bilie Holiday teriam emudecido.
Ludwig van Beethoven seria apenas um moço surdo. Usain Bolt  rastejaria.
O homem, sem a capacidade de sonhar se contentaria com a mediocridade e a humanidade se transformaria em  lagartos ou qualquer outra criatura rasteira.
Ele não teria ido à lua. Não teria aprendido a voar como os pássaros e a viajar mergulhado nas entranhas de um submarino.
Sem a capacidade de sonhar Maradona não driblaria o vento e seria apenas mais um funcionário público a serviço da bola.
Pelé não socaria o ar mais de mil vezes.
E Garrincha se prostraria abraçado a Joões.
Destituído da capacidade de sonhar o homem seria um robô e a felicidade seria uma flor sem perfume. Budha, Gandhi e Chico Xavier seriam soldados.
Portanto, sonhem mesmo quando perambularem pelas ruas.
Sonhem durante a insônia.
Sonhem dentro e fora do sono.
Sonhem, pois, de todos os seus verbos, sonhar é o que coloca mais sorrisos nos lábios de Deus.
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Friday, August 12, 2016

Antropônimos esdrúxulos



(Ilustração: foto do quadro Operários, de Tarsila do Amaral)



Li em algum lugar que os nomes mais populares de 2015 foram Alice, Sophia e Julia para as meninas e Miguel, Artur e Davi para os garotos, repetindo o mesmo resultado do ano anterior, mudando apenas a ordem das preferências.
Nome próprio ou antropônimo é o nome dado à pessoa ao nascer.  O nome é considerado o elemento mais antigo de identificação do homem. No Direito, o nome atribuído à pessoa física é chamado de nome civil e tem a função de identificar e individualizar a pessoa durante toda a sua existência e até depois dela. Ter um nome civil é um Direito garantido por lei.
A menos que algo muito impactante aconteça na vida da pessoa – uma operação de mudança de sexo, por exemplo – o nome é uma das poucas coisas que o indivíduo vai carregar para sempre. Os pais deveriam pensar muito antes de nomear seus filhos.
No Brasil os nomes próprios são muito imaginativos. Muitos pais brasileiros fazem uma geléia geral na escolha deste substantivo tão essencial. E o resultado quase nunca é bom.
Os genitores gostam de homenagear alguém, toda vez que nasce uma criança na casa. Em geral, escolhem alguma celebridade, um cantor, uma atriz, o que quase sempre dá um rolo danado.
Os mocinhos da novela das 8 abundarão no ano que vem, podem apostar. Já vivemos a era dos “ciganinhos” Igor de Explode Coração e das odaliscas Jade, de O Clone, e os novos folhetins globais já devem estar rendendo muitas homenagens por todo o país. Novos Chicos, eu asseguro, ainda virão.
Os jogadores de futebol também se reproduzem em cativeiro.  Entre tantos, tem o Kempes da Chapecoense, o Breitner do Figueirense, que não me deixam mentir.
E tem os Maikes, Mikes e Maicons, que fazem parte de um corrente mais americanizada da coisa. São tantos, que daria uma crônica só deles.
Conheci um sujeito chamado Waldisney. O pai era vidrado nos gibis de Walt Disney. E teve também o Uesneive, uma singela homenagem à marinha americana, a Us Navy. E tem ainda as sandices absolutas. Como no caso de Chevrolet da Silva Ford, que achei na internet. Seu pai deve ter sido um mecânico.
Existem os casos das combinações, ajuntamento dos nomes do pai e da mãe e que costumam redundar em algo curioso.
Minha amiga Claudinete logo me salta à memoria. Claudio e Janete se misturaram também no nome da filha. Tem aos milhares.
Existe também aquele caso dos malucos-beleza, que dão aos seus rebentos os nomes mais esdrúxulos de que se tem notícia. Os cantores Pepeu Gomes e Baby Consuelo, hoje Baby do Brasil, por exemplo, foram cruéis com suas crias.
Riroca era um nome carinhoso que o guitarrista chamava Baby.  Zabelê é o nome de um pássaro da Bahia. Nãnashara é uma mistura de shara (que quer dizer som) com nana, que era como a Riroca chamava a irmã;  Pedro Baby foi uma homenagem que fizeram a si próprios e teve ainda o menino  Kryshna Baby, que Pepeu diz ter sido um tributo a Deus.
Riroca, que hoje é pastora evangélica, mudou legalmente o seu nome. Ela agora é Sarah Shiva.
As homenagens aos santos também são muito comuns. Curiosamente, um dos santos mais populares dos dias de hoje, São Judas Tadeu – o das causas impossíveis – ficou de fora. É frequentemente confundido com Judas Iscariotes, que traiu Jesus. Aliás, conheço muitos Jesus.
Na década de 1960 e 1970 eram muito comuns os nomes compostos. Marta Cristina, Regina Maria, Paulo Sérgio, José Luiz, Luiz Carlos, Maria Aparecida e por aí afora.
La em casa éramos todos Carlos, os três filhos de seu Antonio e Dona Rute. Meu pai queria demonstrar gratidão a uma pessoa que o acolheu quando ele trocou a roça pela cidade, em 1958.
Carlos Antonio, que já morreu, e Antonio Carlos são irmãos deste Carlos Roberto que vos fala.
Eu não gostava do meu nome, confesso. Achava que o primeiro nome é que conta e que eu não poderia ser Carlos, como o primogênito e o caçula da casa. Para nos distinguir, eu virei o Roberto, irmão de Toninho. Carlos Antonio era Carlos Antonio mesmo.
Na infância, eu odiava quando minha mãe me chamava pelo nome completo, pois eu certamente sofreria algum castigo.
Quando ela chegava no portão da casa e gritava ‘Carloooos Robeeeerto’, eu sabia que era bronca.
Aqui nos Estados Unidos é costume nos chamarem pelo primeiro e último nome, o que pra mim é sempre complicado. Quando recebo a correspondência do leão do imposto de renda, por exemplo, é um calafrio. O homem da imigração também me chama de Carlos Lima, quando entro novamente no país.
Quando dito por inteiro, meu nome soa como o de um cantor de bolero, destes que ganham a vida cantando em churrascarias.
“E agora, respeitável público, com vocês… Caaaaarrloooooos Robeeeeeerto!!!”.
Com o passar do tempo tenho me pacificado e aprendendo a aceitar as coisas que fogem ao meu controle. Já não me torturo com a escolha do meu nome e até consigo encontrar alguma beleza nisto .
Aceitar doi menos, certo?
Hoje eu sei que Carlos Roberto não foi uma brincadeira de mau gosto dos meus pais. Dito da maneira correta, no tom certo, é quase um poema.

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Saturday, July 30, 2016

Algodão



Imagino que, quando o coração para de bater, faz um silêncio absurdo.
O carro na rua excede o limite de velocidade permitido, mas parece rodar em câmera lenta. Sua buzina nervosa emudeceu. O farfalhar das árvores já não produz vento. E o semáforo da esquina não muda mais de cor. Tanto faz.
Dentro do quarto, dentro da solidão do cobertor onde há pouco ele colocou a mão ao peito, como se acariciasse uma saudade, mas era dor física, a desordem continua absolutamente em seu devido lugar.
Uma arpoada, de início aguda e fina, fisgada de dor de dente do ciso e cólica renal passou por ali. Dor de alguma traição do passado, dor de um amor mal resolvido, tudo dor.
O homem morre sozinho. Não importa quantas pessoas estiverem à sua volta, ele morre só e é devolvido ao seu gênese, à solidão mergulhada na água amniótica da barriga de sua mãe.
O homem, que poucas horas antes de apertar o interruptor e apagar a luz pela última vez pensava em promissórias vencidas e na defesa vulnerável do seu time de futebol. Agora ele se sente nu. A cabeça esvaziou, como se o dedo indicador, num último gesto, tivesse apertado a tecla Delete do computador.
Ele já não tem bolsos onde cauberam seu mirrado salário, filhos vivendo suas próprias vidas, ex-esposa ruminando mágoas, velhos e novos rancores, cheiro de èter e clorofórmio de algum carnaval da juventude.
Não restou um único provérbio do seu pai.
Ele já não precisa carregar as oportunidades perdidas, as horas passadas no absurdo do trânsito ou a música ruim no rádio do carro e da qual ele sempre se queixava, mas não reunia forças para mudar de estação.
O fracasso ficou do mesmo tamanho do sucesso que tanto o ludibriou.
Havia muito que a inércia se instaurara, como um exército de traças devorando lentamente o seu passado.
Já não importa mais a rinite, a lombalgia, o medo de altura ou os comentários afetuosos na linha do tempo do seu perfil no Facebook.
Não ficou o beijo da filha.
Nem o vermelho  da gravata, presente do último natal.
Não restou nada.
Nada a não ser estes dois chumaços de algodão colocados pelo legista nos buracos do nariz.

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Monday, July 4, 2016

As Muitas Vidas de Guttemberg Guarabyra



O Guarabyra telefonou de São Paulo contando a novidade: estava começando a fazer um trabalho de regressão com um proeminente psicanalista brasileiro.
- Regressão, Guarabyra?
- É isto mesmo, meu camarada. Regressão!
- Sou contra a regressão. Sou progressista - dissimulei -, tentando fugir de um eminente “papo cabeça” que se anunciava.
Mas meu amigo estava entusiasmado demais para passar para o próximo tópico.
Queria, porque queria, descobrir quem fôra em vidas passadas, em que cenários teria respirado, e que parceiros tiveram a felicidade (e as dores de cabeça) de antecederem ao cidadão carioca que atende pelo sobrenome Sá.
Guarabyra iria para sua segunda sessão naquela tarde e me falou de sua conversa com o psicanalista, um freudiano ortodoxo, com consultório no elegante bairro do Morumbi.
Na primeira sessão aprendera que Freud afirmara que, os conflitos emocionais têm sempre origem na infância, e através de suas técnicas psicanalíticas, costumava fazer com que seus clientes lembrassem conflitos da tenra idade, o que já era uma prática de regressão de memória, mas com outro nome.
Contou-me ainda que um outro psicanalista, W. Reich, pregara que os conflitos emocionais instalam-se no corpo físico criando couraças energéticas, e que as nossas células possuem um código de memória desses conflitos. Baseado nessa teoria, propunha uma terapia corporal com o intuito de retornar o corpo ao seu estado original de saúde (voltando o corpo no tempo).
Era muita informação para um único telefonema.
Dois dias depois liguei para Guarabyra, que dizia-se meio barro, meio tijolo com relação à experiência:
- Ainda não regredi nada. Mas é apenas minha terceira sessão.
- E como funciona? -, quis saber.
- É assim: chego lá, deito-me, o analista coloca uma musiquinha New Age e ficamos batendo papo. Um longo papo.
E mais não disse.
Após esse telefonema não ouvi mais dele, e só me restou ficar imaginando as descobertas que ele deveria estar fazendo durante essa total ausência de notícias. De tão intrigado, cheguei a sonhar com Guarabyra. Sonhos loucos.
Logo na primeira noite, ele tinha sido um arauto do rei Salomão.
Telefonei pra São Paulo no dia seguinte para lhe contar, mas ele estava realizando alguns shows pelo nordeste brasileiro. E aquilo não me saía da cabeça, precisava lhe relatar com urgência.
Nos dias que se seguiram, minha viagem foi tomando outros rumos. Antes de dormir, abria uma garrafa de vinho, colocava uma “musiquinha New Age”, e sonhava, meio dormindo, meio acordado, com meu amigo em situações e tempos diferentes. Até que adormecia, verdadeiramente, e a ‘visão’ se consumava num outro tempo.
Divertia-me loucamente ao caricaturá-lo em alguma dessas situações:
- Imagina quando eu lhe contar que nos idos de 1500, ele era grumete afetadíssimo na Esquadra de Pedro Álvares Cabral ...
Na noite seguinte ele já era uma requisitada prostituta dando duro no cais do porto de San Francisco, lá pelo século dezesseis. Ou um menestrel, cantando na porta de um castelo, que tinha como rei um sujeito chamado João. E Guarabyra foi índio.
Índio australiano, como o vi. Um aborígene, correndo atrás de cangurus e tirando o couro de gigantescos crocodilos na Oceania.
Vi Guarabyra no Velho Oeste, como lugar tenente de Billy The Kid. E na caatinga, menino ainda, amigo de infância de Virgulino Ferreira, que viria a ser conhecido depois de adulto como Lampião.
Guarabyra foi, também, confederado e escravo negro, trocado por dois cavalos e uma caixa de bourbon numa feira livre, em Boston.
Numa outra visão, ele reapareceu em Paris, tomando porres homéricos na companhia de Baudelaire e Rimbaud. Já era um poeta.
Ainda na França, em épocas diferentes, foi cortesã, alfaiate e fracassado fabricante de vinho na região de Bordeaux. Nessa última atividade, faliu ao beber, sozinho, uma de suas melhores safras.
Quanto mais eu viajava nas mil e umas existências de Gutemberg Guarabyra, menos eu tinha notícias dele.
Estava louco para lhe informar de minha “invasão de privacidade”.
Num dia ele estava enfurnado no estúdio preparando o novo disco, no outro estava perdido no ‘pó da estrada’, levando seu canto pelo interior do Brasil.
Até que, cerca de 15 dias após a minha derradeira visão guarabiresca (um beduíno que perdeu seu camelo no meio a uma tempestade de areia em pleno Saara), o telefone tocou, e uma voz conhecida me saudou do outro lado:
- Tá me procurando, meu camarada?
- Estou. Não recebeu meus recados?
- Recebi, sim, mas tenho chegado tarde em casa. Você tem o péssimo hábito de dormir antes de meia-noite. Além do mais estive muito ocupado com shows e gravações do novo disco, e as minhas sessões de regressão no Morumbi.
Era a pedra de toque de que eu precisava para lhe contar tudo o que descobrira a seu respeito:
- E como está indo sua regressão? - perguntei.
- Tenho regredido bastante - disse com ares misteriosos, antes de soltar uma deliciosa gargalhada.
- Jura? Conta! Até onde “regrediu”?
- Até agora?
- É! Até agora.
- Ah, Roberto... Sei lá... Mais ou menos uns três, quatro mil reais...

Thursday, June 9, 2016

Dona Glória


Não vi que ela chegara de surpresa, momentos antes de eu emitir aquele sonoro palavrão. Coisa corriqueira, uma dessas bobagens de trabalho, em que a pressão do “dead line” acaba levando a melhor sobre o bom senso e a razão.
O telefone tocava insistentemente e ninguém atendia. E eu, que dava os retoques finais num texto qualquer, fui perdendo gradativamente a concentração. Audivelmente irritado, gritei de minha sala:
– Atende essa porra aí….
Segundos depois, quando saio da sala para buscar um café, a cara quase caiu no chão.
Dona Glória estava lá, quietinha, sentada numa posição característica de “vó” (as pernas cruzadas, uma mão sobre o joelho e a outra mpostada em cima), com cara de quem estava fazendo de conta que não havia testemunhado tamanha grosseria.
Bem feito, terão pensado meus colegas de trabalho.
Bem feito!
Fiquei desconcertado. Extremamente desconcertado.
Mas fui lá e fizemos as apresentações formais.
Dei-lhe um abraço, ganhei outro. Bem mais fundo. Um abraço maior.
No abraço de avó Glória veio o abraço de todas as avós do mundo e uma esperança de que meu dia iria mudar. Que minha vida iria mudar.
E eu, aquele sujeito estressado que acabara de cometer uma enorme grosseria, senti-me perdoado ao ser abraçado por ela.
Senti na hora que não iria para o paredão.
Que não iria para o pelourinho.
E não haveria cadeira elétrica, prestação de serviço comunitário ou outro degredo qualquer.
O destempero havia sido compreendido, embora tudo ali tivesse sido devidamente registrado na caderneta de más-ações para o dia do Juízo.
Não cheguei a pedir desculpas, creio eu. Bad boy.
O nosso abraço, que durou alguns segundos e pareceu eternizar-se como uma destas coisas boas da vida, transpôs-me a um lugar bonito, muito distante dali.
No abraço de vó Glória veio uma sopa de legumes em um dia de gripe e febre. E uma bandeja de quindins, brigadeiros e biscoitos de polvilho.
Veio um embrulho colorido com o meu nome escrito, sob uma árvore de natal.
Veio um dia ensolarado.
Veio o som de um radio ao longe, na hora do Angelus, tocando a Ave-Maria.
Veio a lembrança de um bichinho de estimação que bem poderia ser um coelho branquinho, de olhos encarnados, um gato rajado ou um cãozinho vira-latas, daqueles que nos seguem o tempo inteiro e se deitam ao pé da cama.
Veio a algazarra de crianças na hora do recreio e o canto de uma cigarra.
Veio um carrinho de rolimã desembestado - descendo a rua -, um embornal de bolinhas de gude, um pião e um ioiô.
Veio um pé de fruta, carregado de pitangas vermelhas, cajus amarelos, laranjas douradas; carambolas. Jambos. Graviolas. Pequis. Mangas e cajás.
No abraço dela veio um ‘corguinho’ cheio de lambaris e carás, mandis, traíras, cascudos e piaus.
Veio uma árvore apinhada de passarinhos, canários-do-reino, tizius, sanhaços e bentevis.
Veio o telhado de uma igreja coalhado de andorinhas. E um solo de curió.
No abraço de vó Glória veio a primeira comunhão e a roupa nova, a camisa de tergal ainda com cheiro de loja, a calça-curta, o sapato “colegial” e a meia branca até o meio da canela.
Veio também o primeiro dia na escola. E um sorriso orgulhoso no dia da entrega do diploma do primário.
No abraço de vó Glória veio também a esperança de que eu viesse a ser, no momento certo, e apesar de todas as carências e deficiências, um adulto bom.
Um homem que soubesse pedir desculpas. Que soubesse pedir perdão.
E é o que tento fazer até aqui.
É a minha intenção, apesar de todo o atraso, nesta crônica-pedido-de-desculpas.
Mau menino, eu sei. Muito mau.
Vó Glória aí, desculpa. Foi mal.

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Tuesday, April 26, 2016

Uma ararinha azul para Lula Ribeiro



Eu quero que você saiba, Lula querido, que um cardume de golfinhos foi visto fazendo malabarismos na Baía da Guanabara. Eles foram aplaudidos por turistas e pelos atletas que treinavam nas águas limpas e transparentes deste mar, que é o terreiro da sua casa, aí em São Sebastião do Rio de Janeiro.
Sim, águas cristalinas.
O governo brasileiro, em um esforço muito elogiado pela imprensa internacional, saneou as águas cariocas a tempo da Rio 2016.
Falando ainda sobre o mar da cidade que você ama, há quase dois meses não se registra um único arrastão em suas praias. As autoridades atribuem a drástica redução da criminalidade ao número recorde de novos postos de trabalho em todo o país.
Segundo o artista plástico Zé Andrade, homem que faz esculturas com as mãos de Deus, tamanha calmaria se registra também nas ruas de Santa Tereza e em todos os bairros da periferia. Zé Andrade que, ontem, tomou café em uma padaria com o poeta Ferreira Gullar e falou de você.
Comentaram a reviravaolta do clássico jogado contra o Vasco no último domingo.
O resultado foi revertido no tapetão, porque o clube de Eurico Miranda teria subornado o trio de arbitragem. A final com o Botafogo do Tuca Zamagna será no próximo domingo e o seu filho Marcelo Salim comprou um par de ingressos para vocês dois. O vidente Robério de Ogum prevê uma grande carreata rubro-negra por toda a Orla, com direito a trio elétrico e desfile de mulatas das quatro maiores escolas de samba da cidade.
A presidente Dilma, que ganhou um voto de confiança do povo brasileiro, tomou algumas decisões importantes esta semana e, por causa disto, o dólar caiu e está um por um.
Dilma decretou, entre muitas outras coisas, a extinção das duplas sertanejas, o fim do funk e do Big Brother.
Decretou também o fim das torcidas organizadas e do horário eleitoral gratuito. A partir de agora, as corporações estão proibidas de fazer doações para as campanhas eleitorais, o que irá diminuir bastante a corrupção.
Lembra do Eduardo Cunha, aquele fanfarrão?
Está preso. Ele, os mensaleiros e os participantes do petrolão.  Outro que caiu foi o Renan.
Jair Bolsonaro foi afastado por falta de decoro parlamentar e está proibido de concorrer a qualquer cargo eletivo. Outros parlamentares perderam seus mandatos por corrupção e estão banidos da política. Não podem ser sequer síndicos de prédio.
Teremos uma safra recorde de grãos e foram inauguradas oitenta novas escolas só no Rio de Janeiro. A cerveja agora custa, por decreto vindo de Brasília, apenas um real. E só pode ser servida geladinha.
Ontem a Juliana Paes mandou um beijo pra você no programa da Fátima Bernardes. Disse que você simboliza o charme do homem carioca e piscou aquele olhinho oblíquo de Capitu dela, fazendo uma covinha naquilo que sorriu para a câmera.
Eu quero que você saiba que o Paulinho Saturnino topou se juntar a nós. Ele, o Marcantonio Costa, que virá de João Pessoa, e o Assis Freitas, que já saiu de Feira de Santana na carona de um caminhão scania vabis.
Outros que marcarão presença na roda de samba comandada por Hamilton de Holanda e Paulinho da Viola são Dario Banas, que enfrentará o medo de avião pegando uma ponte aérea e o cantor Belchior, que resolveu sair da reclusão para lhe dar boas vindas. Ou, melhor, boa volta.
Liria Porto escreveu um raro soneto em sua homenagem. Alan Costa rabiscou um haikai. O Olinto Vieira não fez porra nenhuma, mas prometeu levar duas garrafas de cachaça de Salinas.
Eu quero que você saiba, Lula querido, que uma raríssima ararinha azul pousou no fio de luz na frente da sua casa e ainda agora está por lá, esperando você voltar do hospital.
Ela, eu, e todos os seus amigos reais ou imaginários, estes que a gente faz no Facebook e tem certeza que conhece há pelo menos trocentas reencarnações.

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Tuesday, April 5, 2016

O absurdo das febres


Erasmo Carlos escreveu em uma canção que é uma mentira absurda a disseminação da informação de que a mulher é o sexo frágil.
Concordo com ele e nem me estenderei demasiadamente nesse tema.
Aterei-me ao fato de que as mulheres são mais resistentes à dor, que os homens.
Já imaginaram se homem parisse um filho?
Não consigo sequer imaginar. Pânico.
Eu, que nesse dia plúmbeo e cruel de terça-feira, sinto-me extremamente fragilizado por uma gripezinha de nada.
Eu, que passei o final de semana no estaleiro, de moleton e pantufas, bebendo chazinho, tomando caldinhos quentes e desejando voltar pra dentro da barriga de minha mãe.
A gripe é uma das coisas mais desmoralizantes que existe.
Retorno à infância, sempre que gripo.
Quanto maior é a gripe, maior é a viagem no tempo. Maior é o inferno portátil, esse inexplicável purgatório de bolso.
Abandono-me ao recolhimento de um edredon de espinhos, construo uma espécie de casulo, quase um cocoon e fico ali, recolhido, encolhido, delirando de febre, desejando que minha genitora apareça pela porta, trazendo um prato de canja de galinha bem quentinho, ou um chá de flor-de-laranjeira fumegando na xícara.
Escrevo essas mal-traçadas e consigo sentir o perfume do chá, quase queimando a língua, o palato da lembrança.
A febre me queima a face e penetra a pele, impiedosamente.
É sempre assim. Deliro.
Vejo monstros saídos dos lugares mais fundos da minha alma.
Saem dinossauros, dragões, aquela professora primária que tinha uma palmatória implacável, e que aparecia sempre que eu aprontava alguma traquinagem ou desaprendia as lições de tabuada.
Nesses momentos de febre e reminiscências, recolho-me a dias de chuvas intermináveis em que eu ficava na soleira da porta soltando barquinho de papel nas águas da enxurrada.
Dias em que o barulho dos passos das pessoas no assoalho de madeira dos demais cômodos da casa, entravam em meus ouvidos como sinfonias fantasmas.
Dias de arrepios, calafrios, suadouro, pijamas de flanela, cedros escurecidos, mangueiras indecifráveis, caminhos incompletos, a desenvolver o imaginário num traçado incomum.
Dias que se prolongam em longas quarentenas de imagens desenhadas em um oásis amanhecido, num erguer de asas, a face rubra a brasa, o coração em desalinho...
Dias em que tento encontrar no anjo perdido de minha infância, os sorrisos largos, o olhar inocente e iluminado de menino, com a ingênua vontade de entrar na floresta de João sem medo, e não andar espantado por meramente existir, adulto.
E pintar com as minhas cores o momento fugaz de uma experiência nova, fazer-me dono da luneta mágica, construir meu próprio castelo, tocar com as mãos o pote mágico de ouro no final do arco-íris, como quem acaricia um poema.
Mas a febre continua profunda, dominante, esmagadora.
As lágrimas desse abandono correm soltas em algum lugar de mim – homem feito -, num incômodo que me consome a alma, como os áridos campos que clamam pela chuva providencial.
Cai o pano escuro da noite. Descortina-se o sol.
Nesse novo dia de janelas abertas sobre a minha vontade, levanto-me com as cores que uso nas noites claras de quando estou bem e uma canção, uma imagem, saúda-me com as cores inconfundíveis da Primavera.
Sim, é primavera na América do Norte.
É Primavera, de novo, no meu coração.
Raios de sol. Um pequeno milagre.
Renasço das cinzas e do absurdo das febres.
Açucenas bonitas brotam da palma da minha mão.