Tuesday, June 19, 2018

O vil perdão



Eu perdoo você

e suas pequenas mentiras,
suas grandes mentiras
e até aquelas
que ainda não contou.


Perdoo
as promessas de campanha,
as promissórias afetivas
seus ‘eujuros’ e 'euteamos'

jamais ditos

Perdoo a nudez fingida,

os seios oferecidos

as felizes geometrias

os trejeitos de Marilyn

e os gozos de festim.


Perdoo as nuvens vazias de chuvas
seus minuanos, tsunamis
perdoo os raros dias de sol
e a ausência de verões
  

Perdoo os seus boleros
e rumbas, suas dores
indolores
e o aço frio dos  punhais.


Perdoo as bandarilhas
ardidas, urdidas
enfiadas
em minhas costas
e esta sangria imposta
tantos uis
tantos ais.


Eu perdoo você como
quem perdoa Judas,


mas perdoo, principalmente,

os seus pra sempre
e o jamais.





Thursday, June 14, 2018

A caixa lilás (II)




Para José e Ana, meus musos

Ela perambula pela memória do bisavô mascate, um homem de gestos doces e que lhe emprestou os lamentos árabes com que demarcaria o terreno, riscaria o chão. 
Seu coração foi futuro do pretérito imperfeito, mas ela não percebeu. 
Desvendou o mistério de transformar o inverno da vida em verão. Até que, um dia, decidiu que o inverno continuaria sendo inverno, apagando o sol com a ponta dos dedos, como quem apaga uma vela de sete dias.
E aí decidiu pintar a caixa de segredos.
Escolheu a cor lilás, que é a cor com que forram o fundo dos caixões onde os humanos guardam os seus mortos. 
E dentro desta caixa foi colocando todos aqueles pedacinhos seus.
Guardou o irmão que escreve poemas e a mãe que tece cachecóis.
Colocou-os, em um cantinho, junto com o pai de alma cigana e coração burocrático.
Pôs junto deles o livro com o nome da indiazinha a quem daria vida, fazendo sorrir Darcy Ribeiro.
Na sequência, foi colocando, pouco a pouco, sentimentos e coisas que, distraída, recolheria pelo chão:
Um pingente de coração com a flecha de um símbolo do zodíaco.
A fotografia de um pedaço de pedra onde o mar virou sertão.
Abraços em praças públicas e beijos nos quartos da casa de João.
Amontoou gozos, frenesis de música e poesia, delírios arrancados com fórceps.
Guardou contos de Eça, romances de Mia Couto e poemas perfumados de Drummond.
Empilhou tangos cansados, um trevo de quatro folhas e um pequeno mapa do medo. 
Emendou pedaços de cantos do mundo com o sorriso de Mick Jaeger.
Incendiou flamboyants.
Acondicionou remédios que talvez curassem males menores, mas que se recusou a tomar. 
Pegou um escapulário incapaz de um milagre, livros que jamais vai ler e canções que não irá escutar.
Roupas que nunca serviram, cuidados que rejeita e rejeitará, flores que não dão enfeite e duas papoulas de Kandahar.
Não achou os diamantes de mentirinha e a miniatura de uma Mercedes Benz. 
Vez por outra, abre a caixa e fica olhando os objetos espalhados entre os pontos de interrogação que inventou.
Deste rosário de inutilidades recende o perfume masculino que insiste em não evaporar.
Sempre que ela tem que mexer nesta caixa sente um arrepio de medo. Muito medo.
Medo, principalmente, de ter trocado os pés pelas mãos.
Ela sabe que dentro deste baú adormecem finais felizes em Casablanca, sabonetes embrulhados em papel de seda, a abolição dos mal-entendidos deste mundo e dois passos de um bolero inacabado.
E ela começa a dançar sozinha pela sala do apartamento de décimo terceiro andar.
Ela dança. Ela dança...
Dá dois passinhos para lá.
E mais dois passinhos para cá.

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Friday, June 8, 2018

Quase um pedido de desculpas a Anthony Bourdain


Para a psicanálise o sonho é um espaço para realizar desejos inconscientes reprimidos. Na visão dos esotéricos, os sonhos podem significar experiências fora do estado de consciência e antecipar acontecimentos na vida da pessoa que sonhou.
A oniromancia, previsão do futuro pela interpretação dos sonhos, tem grande credibilidade nas religiões judaico-cristãs. Não sofro nenhuma influência religiosa, mas acontece algo comigo que me deixa bastante transtornado.
Sonho muito. 
Sou um sonhador, não apenas no sentido poético do verbo, mas também no viés prático. 
Durmo pouco, sonho muito. 
Poucas são as manhãs em que não acordo com algum resquício "quimérico" da noite mal passada. Não raro, a leveza de bons presságios é atropelada por algum pesadelo que deixa marcas terríveis. Já acordei chorando muitas vezes no meio da noite. 
É tão ruim. 
Dá uma sensação de abandono e dor. 
É como ser despertado dentro de uma bolha em que se respira sozinho, se morre só.

No decorrer da vida eu tive alguns sonhos recorrentes que foram desaparecendo com o tempo, mas existe um, em particular, que me atormenta e é sempre aterrador. 
Mesmo pouco afeito a esoterismos, fui procurar o significado em um dicionário de sonhos e a descoberta fez o mais absoluto sentido.
Sempre que sou 'visitado' por uma boca perdendo dentes é sinal de morte em meu entorno. 
Aconteceu na passagem de um amigo de infância, de parentes e pessoas próximas. 
Na noite passada a boca desdentada retornou e eu tive a certeza de que receberia uma notícia ruim antes do café da manhã. 
E foi assim que, mal abri os olhos, recebi telefonema de minha filha Isabella, que havia acabado de chegar à escola.
- Papai, liga no noticiário da TV. Anthony Bourdain cometeu suicídio na França.

Não sou amigo de Bourdain. 
Sequer o vi pessoalmente, mas havia entre nós uma estranha proximidade. Proximidade essa que era estendida a milhões de pessoas em todo o mundo, obviamente. 
Nas duas últimas décadas, ele foi presença cotidiana em minha sala, protagonista de uma das únicas coisas que aprecio ver na tv, o programa Partes Desconhecidas.
E não vem de hoje a admiração.
Tomei conhecimento de sua existência no ano 2000, quando ganhei de presente o best seller Kitchen Confidential. No livro, ele esmiuçou a realidade dos bastidores das cozinhas dos restaurantes nova iorquinos. Um choque de realidade.

Na transição para a telinha, apresentando agora um programa em que viajava pelo mundo experimentando a culinária local, Bourdain inovou trazendo um contexto muito diferente do que se vê na saturada televisão dos dias de hoje. 
Autor dos textos, deixava-me encantado com a prosa espontânea e cheia de nuances, que só os grandes escritores conseguem tecer.
Durante essas quase duas décadas, eu o vi experimentando esquisitices como conserva de ovo de pato fecundado, sushi de carne de cobra e pirarucu, achando sempre um jeito, por exemplo, de jogar luz sobre as feridas da relação EUA-Vietnam, criticar ditadores em suas próprias casas ou achando beleza de lugares esquecidos como Ghana e Etiópia.
Filmou a travessia de indocumentados na fronteira com o México e era um grande defensor da causa dos imigrantes nos EUA.
Foi assim, destemido, que o vi em Beirute, após as gravações serem interrompidas por violentos ataques aéreos israelenses. 
Bourdain dividiu conosco a beleza dos cartões postais dos lugares que visitou, sentando-se com pessoas comuns, dignitários, poetas malditos, refugiados e ícones do cinema e do rock and roll. E era sempre como se o telespectador tivesse um lugar à mesa.
Várias foram as vezes em que ele esteve no Brasil, país que adorava confessadamente. 
Retratou Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro, a Amazônia e a minha Belo Horizonte. 
E foi em BH que aconteceu um episódio deplorável, em que uma pessoa brandindo um revólver invadiu o restaurante em que filmavam o segmento. 
Clientes, funcionários e equipe de filmagem se atiraram ao chão buscando abrigo. Foi um caos, retratado por ele com o peculiar senso de humor. Em nenhum momento criticou a cidade e seus cidadãos.
Como mineiro, fiquei envergonhadíssimo, e cheguei a comentar que gostaria de pedir desculpas em nome do meu povo, caso tivesse, um dia, a oportunidade de lhe apertar a mão. 
Não rolou.
Infelizmente, o restaurante da vida fechou as portas para ele.
Bourdain pediu a conta. 
Pagou e subiu, deixando-nos tentando digerir o abismo de uma perda imensurável.


Wednesday, May 9, 2018

Mães interioranas




Eu quis escrever um poema homenageando a minha mãe. E não só a minha. A intenção era homenagear todas as mães. Mas o poema acabou não saindo, como não tem saído nenhum outro verso da fábrica inativa que tem sido esse baleado coração.
Dona Marocas, dona Ercília, dona Dózinha, dona Filhinha, dona Lola, dona Esmeralda, dona Niquinha e dona Rute, a minha, eram, todas, maravilhosas. Lembro-me claramente daquelas senhoras em meus primeiros anos em São Raimundo.
Dona Cilinha cantava no coro da igreja.
Dona Marocas – mãe das moças mais bonitas – era sábia, dava conselhos, e não carregava tristezas no olhar.
Dona Ercília ajudava os pobres.
Dona Dozinha estava sempre de mau humor. Seu marido virou garimpeiro e foi viver no Pará.
Dona Lola freqüentava uma igreja crente.
Dona Niquinha cuidava do jardim.
Dona Vilma plantava hortaliças.
Dona Esmeralda chorava às escondidas.
Dona Filhinha mentia compulsivamente.
Dona Socorro fazia biscoitos
Dona Ireni aprendeu a cortar cabelo.
Dona Isaura estudava à noite. De dia vendia laranjas no ponto final do ônibus.
Dona Maria era a melhor amiga de dona Conceição.
Que era esposa de Expedito, que era maquinista de trem.
Dona Laura, de tão elegante, parecia mulher da capital. Quando andava pelas ruas deixava um cheiro de alfazema pelo ar. Estava sempre assim, refrescada, pronta para o calor infernal das tardes de Governador Valadares.
Dona Ana era calada.
Dona Angélica alfabetizava meninos.
Dona Joana criava cabritos. Seu único filho morreu atropelado por um caminhão Scânia Vabis.
Dona Rita organizava a novena.
Dona Juraci cresceu senhora de terras, teve gado, era filha de doutor. Envelheceu pobre e feliz, concubinada com um vaqueiro, ex-empregado de seu pai.
Dona Jandira teve filho prefeito, outro vagabundo e um terceiro meio artista.
Dona Lourdes era viúva. Não teve a mesma sorte de dona Adelaide, que se casou pela segunda vez.
Dona Cássia foi abandonada pelo esposo. Ela, que na juventude quis ser cantora e atriz, teve um filho que fugiu de casa e uma filha meretriz. Mudou-se para São Paulo e dela ninguém mais ouviu falar.
Dona Selma lavava roupas para fora. Assim como dona Auxiliadora e dona Idalina.
Dona Norma conversava com o vento, aprisionava passarinhos e fazia tricô na varanda da casa até escurecer.
Dona Teresa dançava catira.
Dona Ivonete sabia bordar. Suas filhas eram costureiras. Seu marido, alfaiate.
Dona Rute lidava com um garoto meio louco, que queria sobreviver das palavras que bebia do Rio.
Maravilhosas, aquelas mulheres. Lindas, marcantes, cada uma do seu jeito. Como esquecê-las?
Com o avançar da idade elas acabaram virando outra coisa. Se na infância eram nossas heroínas, com o passar dos anos se transformam em santas. E, como tal, merecem que todo filho lhe construa um altar enfeitado com as flores do amor mais puro, recheado de oferendas de profunda gratidão.
Santificadas sejam as nossas mães.
Santifiquemos. 
Santificai!

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Thursday, April 26, 2018

A humanidade cabe numa caixa de papelão


Deve ter passado muito frio, o recém-nascido. 
Deve ter sentido falta da água morna do aquário da barriga de sua mãe. 
Consigo imaginá-lo naquela posição em que ficam os bebês antes de nascer, dormindo de conchinha, inocente, sem imaginar que lá fora existem países em guerra e homens vendendo a alma ao diabo. 
Dormiu, sonhando com anjos tocando harpa e lírios derramando ouro.
Dormiu como se escutasse um minueto e seus olhinhos fechados enxergassem Jesus.
Naquela rua, naquele momento, passaram táxis vazios e ônibus à procura de uma plataforma na estação rodoviária.
Passaram transeuntes apressados buscando trabalho ou descanso.
Circularam junkies sob o efeito de álcool e drogas, transeuntes amedrontados olhando aflitos para a frente como se fugissem da escuridão da noite e seus ardis. 
Por ali passou o medo em passos de ganso. 
Passou a desesperança com a sirene ligada.
Passou uma nação em transe, delirante, ensandecida sob o efeito da ganância e da falência de caráter daqueles que a conduzem.
Transitou um Brasil dormente por ali.
Um Brasil doente, canibal de si mesmo, soprando um samba de Adoniram numa flauta feita a partir de um fêmur.
Passaram ambulâncias carregando doentes e automóveis importados levando novos ricos e playboys desajustados.
Passou uma mulher pedindo esmola, levando ao colo uma menina que não teve a sina de ir parar em outra caixa de papelão.
Passaram por ali a fome, a miséria e a injusta distribuição.
Passou a violência aniquiladora, escancarada no olhar das pessoas.
Passaram 518 anos de uma história cheia de nódoas e metas não atingidas.
Passou um país que não se cumpriu.
O bebê dessa crônica não conhecerá as letras do alfabeto ou um poema de Cora Coralina. 
Não aprenderá a falar ou caminhar. 
Não sentirá a falta de um abraço de mãe ou escutará um conselho de avó.
Não verá os os flamboyants sangrando no coração das primaveras, nem distinguirá o roxo dos ipês do vermelho das rosas no canteiro das praças. 
Não nadará em um riacho, nem sentirá o orvalho da grama molhada sob os pés.
Não testemunhará a mudança das luas ou das estações, nem jogará futebol com outras crianças. 
Mas também não se entristecerá com a classe política brasileira, que aniquila fria e impunemente o futuro de gerações inteiras.
Ele não ouvirá falar de negociatas escusas e nem terá o coração quebrado por algum amor de juventude.
Foi abandonado em um ponto de ônibus, como alguns encaminham indesejadas ninhadas de gatos na esperança de que alguém passe e se encha de compaixão, e dê para essa tragédia urbana um final feliz.  
Ah, menino de Brasília, a visão de seu corpinho tremendo de frio dentro de uma caixa de papelão deveria aguçar o sentimento de culpa e fracasso de toda a humanidade, mas estamos preocupados demais com o vencimento de nossas promissórias e com a escolha do próximo colégio de nossos filhos.
Falhamos!
Você sucumbiu desamparado, desnutrido e sozinho, conhecendo em suas primeiras e derradeiras horas o quanto é bruto o mundo em que habitam os humanos.
E é bem provável que apareça alguém dizendo que 'foi melhor assim'.

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Tuesday, April 17, 2018

Caixa de suspiros


Acordei no meio da noite com vontade de escrever. A inspiração veio, finalmente, após mais de duas décadas de transpiração.Estou fora de casa e as condições não são as de costume. São três horas da manhã em Portugal e o poema pede urgência. O computador portátil está sem bateria e procuro por uma folha de papel – ou qualquer coisa que lembre uma e que me permita registrar o que o coração dita numa pressa sufocante.
Consigo uma caneta e contento-me com a tampa de uma caixa de suspiros, comprados em uma padaria durante a tarde.
Mesmo aliviado pelo nascimento do poema, encontrei imensas dificuldades para dormir.
Do barulho do mar lambendo as areias da Nazaré, o vento esculpindo as falésias, a lembrança das mulheres dos pescadores com as suas sete saias causando assombramentos, tudo me manteve aceso, apesar do corpo prescrito e em petição de miséria.
Quando acordei, refeito, o sol já ia alto, e os turistas haviam engolido as ruas. Fui até a cozinha e dei com a caixa de suspiros rabiscada com garatujos que mais pareciam hieróglifos, objetos de arquelogia inútil.
Eu nunca tive a letra bonita, embora tenha preenchido inúmeros cadernos de caligrafia e tenha tido uma professora que se esforçou bastante para domar a minha mão.
E ‘aquilo’ ali, na tampa da caixa de guloseimas, é inaceitável para um homem que foi alfabetizado e ganha o pão com as notícias que colhe desde o século passado.
Vi, envergonhado, os versos do improvável poema serpenteando do topo até o abismo que se anunciou na parte inferior da caixa branca ainda com cheiro de confeitaria.
Alinhamento zero.
Letras disformes.
Um A que mais se parecia um E.
E um E que parecia outra letra, que não consegui distinguir.
E isto me transportou a um tempo em que as pessoas tinham o costume de escrever. De manuscrever.
Escreviam umas às outras. Escreviam para apaziguar os corações em cadernos de poesia e em diários que exorcizavam as suas almas.
Escreviam ainda para preencher as fichas nas repartições públicas, desenhavam bilhetes com amenidades e mandavam cartas em papéis perfumados, rabiscados com corações de nanquim.
O indivíduo era elogiado pela sua letra e há quem diga que a grafia de punho tem muito a dizer sobre a personalidade do seu dono. Infelizmente, caligrafias bem desenhadas como a de Machado de Assis, trêmulas como a dos apaixonados ou redondinhas como a das das normalistas já não existem mais.
Os computadores e as mensagens eletrônicas roubaram do ser humano um dos seus maiores charmes e reiventaram a função do carteiro, que hoje recebe o seu salário para entregar contas de luz e televisão a cabo, e não mais o afeto envelopado, carimbado e selado com caras de personalidades mortas e maravilhas da flora e fauna do Brasil.
Com a extinção da caligrafia, extinguiram-se também as dedicatórias, outra maravilha relegada pelo homem. Quem, sobrevivente daqueles tempos, nunca recebeu um livro ou disco com uma dedicatória do presenteador?
Recebi muitas, generosas, bordadas na contracapa e nos encartes dos long-plays e nas primeiras páginas dos livros que chegavam nos aniversários e natais.
A tecnologia que tomou conta do mundo extinguiu os discos e, hoje, compra-se música nos I-tunes das gravadoras e das lojas virtuais. Ela, a tecnologia, quer agora acabar com os livros, oferecendo-nos a impessoalidade dos e-books. E isto tira do leitor aquele sentimento de posse, que ele tem ao adquirir uma obra imprssa ou ser presenteado com uma delas. Sem falar do cheiro de um livro novo, que faz cosquinha no nariz e atiça a alma.
Perfume de livro novo só não é melhor que o da pessoa amada.
Tenho pensado muito sobre o assunto e, desde o poema escrito na tampa da caixa de suspiros em Portugal, preveni-me comprando um bloquinho de notas, que está sempre à mão. Se a inspiração voltar a me visitar, prometo lotar o minifúndio de papel com testamentos lavrados de punho próprio, poemas derramados, lembretes, cartas de afeto e o mais absurdo bem querer.


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PS: Caixa de Suspiros é o nome do meu próximo livro (lançamento previsto para o segundo semestre), marcando um retorno à poesia e dedicado a José e Ana, meus musos.

Wednesday, January 24, 2018

Lua-de-mel


Leandro chega esbaforido à casa de Mônica. Vai à geladeira – noivo com sete anos de casa já tem este tipo de liberdade -, pega uma cerveja e dirige-se à amada:

– Mônica, já sei onde passaremos a nossa lua-de-mel.
Mônica corre ao seu encontro, feliz. Há mais de seis meses batem cabeça e não chegam à conclusão alguma.
– Será no Caribe? Você vai reconsiderar Santo Domingo, amor?

Leandro sorve dois goles da bebida, folheia uma revista que está sobre a mesa da cozinha e responde, meio disperso:

– Não, não vai ser Santo Domingo. Nem Cancún, como seu pai havia sugerido.
A moça não se zanga com a negativa e sai dizendo nomes de cidades espalhadas pelo mundo.
Leandro está firme. Caminha até a sala, ajeita-se na poltrona e liga a TV. Mônica não sossega:
– Mas você não vai me dizer? Poxa, é a “nossa”- dá ênfase ao “nossa” – lua-de-mel…
Leandro troca de canal, vira-se para ela e vai eliminando, cidade a cidade, as sugestões apresentadas.
– Lua de mel no Egito? Nem que a vaca tussa. Ali, pertinho da guerra… Sem chance de ver as pirâmides.
Dá outro gole no suco de cevada e continua.
– Amsterdã está fora de cogitação. Seria maravilhoso se estivéssemos na primavera européia, com todas aquelas tulipas colorindo as ruas; Em Barcelona, nem se o Messi ligar para cá convidando… A Espanha está fora da lista, ainda mais que o Neymar debandou… E, no Caribe, é farofa-geral. Me inclui fora dessa…
Mônica tira a última carta da manga do casaco:
– E Paris? Bem que poderíamos ir a Paris. O Neymar foi pra lá.
– De maneira alguma, irrita-se ele. Você já esteve em Paris com seu ex-namorado, lembra?
Visivelmente na defensiva, Mônica senta-se ao seu lado, ensaia um carinho nos cabelos ligeiramente raleados dele, e faz um dengo.
– Ta bom, amor. Esqueça Paris. Onde você sugere, então?

O rapaz se levanta, olha fixamente para os olhos dela e, com a firmeza e o entusiasmo de alguém que acaba de inventar a roda, anuncia:

– Vamos para Nova York, a Big Apple!
Mônica também se levanta. Está visivelmente agitada. Vira-se para o noivo e nem consegue dizer mais nada, além de um pasmo “Nova Yoooork?!”
Leandro parece possuído.
– Eu sei que você argumentará que em Nova York está tão frio quanto Amsterdã, e que após o 11 de Setembro Nova York é tão suscetível a um ataque terrorista quanto Barcelona ou Madri. Mas eu te darei pelo menos cem bons motivos para passarmos lua de mel em Nova York.
Toma mais um gole, todo compenetrado, e abre a voz:

-Imagine que estamos passeando nas românticas charretes que atravessam o Central Park e cruzam as ruas enfumaçadas pelo calor que vem debaixo do metrô… Imagine os museus fantásticos… As maravilhas arquitetônicas, entre elas o Empire State, as pontes, os túneis… Imagina a grande variedade de espetáculos, os musicais da Broadway, os eventos esportivos do Madson Square Garden… As compras nas lojas deslumbrantes da quinta avenida… A diversidade cultural do Chinatown, do Little Italy, com seus restaurantes aconchegantes… A loucura democrática do Village, com seus bares alucinantes, redutos em que punks e yuppies que se misturam…


Mônica puxa o noivo pelo braço e o interrompe:

– E eu te darei um único e definitivo motivo para não passarmos nossa lua de mel em Nova York.
– E que motivo é este?
– Moramos no Bronx, meu amor. No Bronx!!!
   Vira-lhe as costas e vai para o quarto com uma cara zangada.