Tuesday, November 13, 2018


o nome deles
bordado dentro
do arco de ouro
na falange
do anelar


são dois
os dedos
enfiados
na argola
que sustenta,
em vão,
o pino frágil da granada
pronta para explodir
na mão.

Friday, November 2, 2018

A mão invisível





O sol acendeu a cidade por volta das 6h45min.
A algazarra dos pássaros fundiu-se ao barulho dos motores dos automóveis, que deslizam na rodovia adjacente ao hospital onde ele convalesce há mais de um mês.
Lá fora acontece o ritual de homens e mulheres em busca do sustento.
Do lado de dentro, a morte passeia de uniforme branco pelos corredores cúmplices.
As paredes não falam.
A enfermeira entra no quarto, tira a pressão arterial: está alterada.
Ela observa no monitor o coração do paciente, que bate fora do compasso.
Faz anotações na prancheta e resmunga que ele tem que esperar pela chegada do doutor.
E sai.

Ele olha pela vidraça do janelão enquadrado em linha paralela ao sentido vetorial do leito.
Respira fundo, tentando capturar um bocado do ar que lhe foge, mas já não vê a copa amarelada das árvores ou as nuvens apressadas flanando em direção ao que em breve será chuva.
Ele olha na nesga azul do outubro que se revela entre copas e nuvens, e vê a moça vestindo a camiseta com a estampa dos Rolling Stones, esperando por ele ao final da desgastada escadaria de cimento da Praça do Papa.

Anjo tardio.
Anjo avesso.
Anjo torto.

É noite em Belo Horizonte, e o sorriso dela ilumina o parque em penumbra.
Ele desce as escadas, desajeitado como um pinguim que se equilibra em uma superfície de gelo, antecipando o abraço.
O mais esperado abraço.
Quanto mais ele chega perto do que sabe ser seu, mais escasseia o ar.

"Eu sou dela", balbucia.
"Será que ela me escuta?"

Murcham, aos poucos, os pulmões.
Uma nova passada pelos degraus que levam ao infinito e intensifica-se o batimento do músculo da emoção, maratonista que dá o derradeiro ‘sprint’ em direção à linha de chegada.
A cada centímetro percorrido, mais a dormência vai tomando conta da matéria, numa espécie de incêndio frio, deflagrado na planta dos pés, e vai subindo, lentamente, alastrando-se pelo corpo que se fecha.
Antes que o abraço se consuma, tudo se apaga, como a vela que solta uma fumaça cinzenta, diluída na visão do paraíso que se turva.
Pouco restou.
Quase nada, além daquela caixa de sapatos contendo miudezas que ele acumulou nas viagens por cidades diferentes, como se fossem um tesouro que só ela saberia avaliar.
Pedras miúdas de uma rua de La Coruña e Madrid; uma estrela-do-mar que habitou o Caribe; uma flor desidratada, de uma primavera em Roma.
Algumas sementes secas de romã, rescaldo de um réveillon em Machu Picchu.
Suvenires de lojas de conveniências dos aeroportos, ímãs de geladeira, uma canequinha esmaltada.
Um frasco de perfume feminino, evaporado, neutro...
Uma cópia do poema Fulana, manuscrito por Drummond.
E o que sobejou da fé, puída pelas traças do tempo, traduzida num rosário de mágoas e desentendimentos, como atesta a fita do Senhor do Bonfim, arrebentada, sem que os pedidos fossem atendidos.
Ficou um pequeno alguidar de incompletudes.
Como aquele entardecer em Havana, em que o homem negro dançava rumba com as mãos agarradas à cintura da moça turista que sorria, feliz.
Ficou ainda a certeza de que não acontecerão boleros, nem valsas.
Não se fundirão os corpos molhados de suor e desejo.
Não se cumprirá a prometida profecia, nem a visão do voo branco das garças da Lagoa da Pampulha, em pleno mês de maio.
Mansamente, em câmera lenta, uma mão invisível desliga tudo.
O que era 'on', agora está em 'off'.
O monitor cardíaco mostra uma linha reta, inequivocamente reta.
Pisca uma luz vermelha no aparelho, fazendo um bipe intermitente, soando o alarme que a enfermeira, ao final do corredor, não percebe, mergulhada que está no café que fumega do copo descartável.

Monday, October 29, 2018

Conflitos sonoros



Tenho sofrido muito com o gosto musical de minha filha caçula, a Clarice.

Mal chega da escola, ela liga o aparelho de som no volume mais alto e sai por essas plataformas digitais que desconheço, garimpando coisas que ferem e ofendem a complacência de um pai.

O som de Clarice arde em meus tímpanos. Qualquer dia desses sangrarei.

As letras são manifestos violentos, chulos e, não raro, aviltam a figura da mulher. Eu sou de um tempo em que a mulher era a musa da canção.

Sim, eu sou um homem antigo. O espelho e a carteira de identidade não mentem.

Mas tento ser moderninho, paciente, tolerante, para evitar os conflitos que tive com meu pai, naquilo que eu crescia, já que ele não gostava do que eu escutava, e vice-versa.

Ele reclamava dos meus Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano Veloso - obrigatórios - e dizia que Fagner cantava dentro de um banheiro, fazendo necessidades.

Eu, por minha vez, tinha profunda dificuldade de escutar, por tabela, os romantismos de Altemar Dutra, o vozeirão de Nélson Gonçalves e aquele que eu considerava o pior de todos, Agnaldo Timóteo.

Quando papai chegava do trabalho e ligava a vitrola, eu saía para a rua em busca de silêncio. Não vêm de hoje os conflitos de gerações.

Confesso que tenho saudades de manusear um LP, ritual que nenhuma de minhas filhas teve a oportunidade de experimentar. Eu passava horas a fio destrinchando os encartes, lendo as letras, descobrindo quem tocava o quê. Com o tempo, viriam as fitas cassetes e os CDs, que também foram ficando obsoletos e já estão em via de extinção.

Desapareceram as lojas de discos, e a canção de agora desembarca nos computadores e telefones celulares com a nitidez de um quasar. Há pouco tempo, eu fui apresentado ao Spotfy, que toca músicas intermitentemente, 24 horas por dia. O artista favorito ficou a um clique. Ainda ontem passei duas horas escutando Sinatra, enquanto digitava um texto para o jornal.

Mas eu falava do gosto musical de Clarice, algo que não consigo compreender.

Ela gosta de Hip hop, R&B (seja lá isso o que for), Rap e congêneres, saídos do cotidiano dos jovens negros e latinos do país em que ela nasceu, um universo completamente diferente do subúrbio engomadinho em que ela sempre viveu.

Daí fico questionando, tentando traçar um paralelo da trajetória da música através dos tempos. 
Será que Jayzee é o Ray Charles desta geração?
E o desparafusado Kanye West um novo Stevie Wonder?

A música negra norte-americana, que cresci escutando no interior do Brasil, tinha swing e alma. Trazia composições melodiosas, eximiamente tocadas por músicos de verdade, e não isto que os profissionais invisíveis de agora fazem, amalgamados no interior de um computador, enquanto professam a novíssima canção.

No domingo passado, eu estava visitando o túmulo de meu pai em um cemitério de Belo Horizonte. Alan Costa, amigo querido, passou por lá para entregar um abraço. Mal ele abriu a porta do carro, o locutor do rádio anunciou que aquela era a hora da saudade. Ato contínuo, uma voz conhecida entrou em meus ouvidos.

Ali, na via que dava acesso ao jazigo de número 679, uma das canções de que papai mais gostou encheu o ar. No verso final da canção, Agnaldo Timóteo abriu o peito, expondo a ferida aberta do meu coração:


"Ai, que vontade de gritar
Seu nome bem alto no infinito
Dizer que o meu amor é grande
Bem maior do que meu próprio grito
Mas só falo bem baixinho
E não conto pra ninguém
Pra ninguém saber seu nome
Eu grito só meu bem".


Em algum lugar, pertinho dali, é bem provável que Seu Antônio Lima tenha sorrido, enquanto o filho saudoso caía no choro, balbuciando junto com o cantor que tanto detestou na adolescência o doloroso final.

E eu gritei, bem baixinho, as cinco palavras finais da canção. 

Monday, October 8, 2018

Estatuto do Homem

 
ESTATUTO DO HOMEM 
   (Ato Institucional Permanente) 
  
                                          A Carlos Heitor Cony 
  
    Artigo I 
  
   Fica decretado que agora vale a verdade. 
   agora vale a vida, 
   e de mãos dadas, 
   marcharemos todos pela vida verdadeira. 
  
  
   Artigo II
   Fica decretado que todos os dias da semana, 
   inclusive as terças-feiras mais cinzentas, 
   têm direito a converter-se em manhãs de domingo. 
  
  
   Artigo III 
  
   Fica decretado que, a partir deste instante, 
   haverá girassóis em todas as janelas, 
   que os girassóis terão direito 
   a abrir-se dentro da sombra; 
   e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, 
   abertas para o verde onde cresce a esperança. 
  
  
   Artigo IV 
  
   Fica decretado que o homem 
   não precisará nunca mais 
   duvidar do homem. 
   Que o homem confiará no homem 
   como a palmeira confia no vento, 
   como o vento confia no ar, 
   como o ar confia no campo azul do céu.

  
           Parágrafo único: 
  
           O homem, confiará no homem 
           como um menino confia em outro menino. 
  
  
   Artigo V 
  
   Fica decretado que os homens 
   estão livres do jugo da mentira. 
   Nunca mais será preciso usar 
   a couraça do silêncio 
   nem a armadura de palavras. 
   O homem se sentará à mesa 
   com seu olhar limpo 
   porque a verdade passará a ser servida 
   antes da sobremesa. 
  
  
   Artigo VI 
  
   Fica estabelecida, durante dez séculos, 
   a prática sonhada pelo profeta Isaías, 
   e o lobo e o cordeiro pastarão juntos 
   e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora. 
  
  
   Artigo VII

   Por decreto irrevogável fica estabelecido 
   o reinado permanente da justiça e da claridade, 
   e a alegria será uma bandeira generosa 
   para sempre desfraldada na alma do povo. 
  
  
   Artigo VIII 
  
   Fica decretado que a maior dor 
   sempre foi e será sempre 
   não poder dar-se amor a quem se ama 
   e saber que é a água 
   que dá à planta o milagre da flor. 
  
  
   Artigo IX

   Fica permitido que o pão de cada dia 
   tenha no homem o sinal de seu suor. 
   Mas que sobretudo tenha 
   sempre o quente sabor da ternura. 
  
  
   Artigo X

   Fica permitido a qualquer pessoa, 
   qualquer hora da vida, 
   o uso do traje branco. 
  
  
   Artigo XI 
  
   Fica decretado, por definição, 
   que o homem é um animal que ama 
   e que por isso é belo, 
   muito mais belo que a estrela da manhã. 
  
  
   Artigo XII 
  
   Decreta-se que nada será obrigado 
   nem proibido, 
   tudo será permitido, 
   inclusive brincar com os rinocerontes 
   e caminhar pelas tardes 
   com uma imensa begônia na lapela.

  
           Parágrafo único: 
  
           Só uma coisa fica proibida: 
           amar sem amor. 
  
  
   Artigo XIII 
  
   Fica decretado que o dinheiro 
   não poderá nunca mais comprar 
   o sol das manhãs vindouras. 
   Expulso do grande baú do medo, 
   o dinheiro se transformará em uma espada fraternal 
   para defender o direito de cantar 
   e a festa do dia que chegou. 
  
  
   Artigo Final. 
  
   Fica proibido o uso da palavra liberdade, 
   a qual será suprimida dos dicionários 
   e do pântano enganoso das bocas. 
   A partir deste instante 
   a liberdade será algo vivo e transparente 
   como um fogo ou um rio, 
   e a sua morada será sempre 
   o coração do homem.


(Thiago de Mello)

Monday, September 24, 2018

Carne de lata


(Para o José Eustáquio Ferreira, o Tacão)

São Raimundo é um bairro distante do centro de Governador Valadares. No início dos anos 1970, ainda conservava algumas características das fazendas, que foram dando lugar aos loteamentos que tomaram conta de tudo. Não era mais um latifúndio, mas os moradores mantiveram alguns costumes rurais, como o da criação de galinhas, porcos e cabritos em seus quintais. 
Dona Joana, que morava no fim da rua em que vivi, tinha cerca de 50 caprinos, que ela levava em chibarrada para pastar na vegetação que se formava à beira da estrada que nos ligava à Vila dos Montes. Escutávamos os cincerros e berros dos animais em seu tropel rua abaixo, tangidos por aboios tristes. Havia um oboé na voz de Dona Joana dos Cabritos.
O ritual de criação dos capados - suínos castrados para efeito de engorda - durava o ano inteiro e se encerrava no dia da grande recompensa: o sacrifício do animal, seguido da sua coção. 
Era tudo feito em algumas horas, em mutirão, e o delicioso resultado do trabalho era armazenado em sua própria gordura, dentro de latas de vinte litros. A antológica 'carne de lata' ficava ainda mais saborosa após alguns dias mergulhada em sua banha.
Guardo na memória cada detalhe daqueles dias festivos. 
Tudo começava ainda às escuras, a boca da noite mordendo a saia do dia.
O aroma do café - coado em saco de flanela - tomava conta da casa e se misturava ao cheiro do pão de queijo e da broinha de fubá, que saíam fumegando do forno como se fossem pepitas e tijololinhos dourados. 
O precioso líquido negro era transplantado para um bule esmaltado e servido em canecas feitas do mesmo material, algumas já descascadas e amassadas pelo tempo. Para adoçar, rapadura do engenho de um sítio da redondeza.
Os vizinhos que ajudaram na engorda do marrão - cedendo restos de comida e pontas de hortaliças não aproveitadas nas refeições cotidianas - iam chegando aos poucos. Cada um deles ganharia uma gratificação, pedaços de carne ainda morninha e a oportunidade de participar do ritual.
Iam aportando mansamente, conversando baixo para não acordar as crianças dormindo nos quartos.  
Primeiro, ouvia-se a amolação das facas numa pedra lisa, o vai-e-vem frenético das mãos afiando o aço, até achar o fio.
Um pouco depois, o guinchar do animal ferido em seu derradeiro discurso. 
Na sequência, o farfalhar do arrastamento das folhas secas de bananeira e cana, que seriam usadas para crestar, sapecar a pele, eliminando os pelos que resistiram à raspagem da faca  
Sangue fora do corpo arde e é preciso ter estômago forte. Eu só saía do quarto após o fato consumado.
Uma vizinha pilava a pimenta do reino, enquanto outras picavam cebola, alho e cheiro verde. Num outro lugar, os homens iam desmanchando o animal sobre uma bancada improvisada na varanda.
As entranhas eram levadas a um tanque de cimento, os intestinos minuciosamente revirados e higienizados com suco de limão e bicarbonato de sódio, produzindo as tripas que seriam recheadas de carne picada e sangue temperado. É assim que se fazia linguiças e chouriços, como nunca mais se viu.
Os pedaços eram cortados, temperados e armazenados obedecendo uma ordem pré-estabelecida. 
Carne com osso tem a data de validade mais curta e é fritada no óleo da banha, pois rança mais cedo. As sem osso, no óleo do toucinho, que vem do torresmo da barriga.
A gordura cortada em pedacinhos ia se liquefazendo nas trempes de um velho fogão de lenha. Uma vez fria, cristalizava, formando a banha que dispensaria a refrigeração industrial. 
Lá pelas 11 horas, minhã mãe ia para a cozinha fazer um arroz de suã, que alimentaria os trabalhadores do mutirão enqunto labutavam. 
Papai servia uma cachacinha da roça. 
E o dia ia escorrendo, o cheiro da carne frigindo lentamente, o amor da amizade celebrado em volta de um animal recém-sacrificado.
Eu voltaria a São Raimundo depois de muitos anos, ovelha desgarrada que me tornei, e senti uma enorme diferença em tudo o que vi. As ruas parecem ter encolhido, a arquitetura mudou e mesmo as pessoas já não são aquelas que povoaram a minha infância.
Parei com o carro em frente ao número 149 da Rua Topázio, e o barraco humilde - que me abrigou durante mais de 20 anos -, ainda estava lá, intacto, com suas paredes amarelas, o trio de oitizeiros que meu pai plantou - agora adultos -, frondosos, produzindo três grandes sombras.
Lá no fundo do lote, o velho coqueiro espetava a lona do céu.  Por detrás dele, o Pico do Ibituruna, incólume, como da última vez que o vi, em 1984, no dia que eu fui embora.
Fiquei cerca de meia hora dentro do carro, os olhos fixos naquela morada, e um turbilhão de lembranças fez brotar algumas lágrimas de saudade do menino que eu fui ali. 
Dentro da casa, alguém começava a fazer o almoço e o cheiro de alho dourando para o arroz chegou rapidamente à rua. 
Durante alguns breves instantes, foi como se minha mãe estivesse lá dentro, rodeada de amigos, fritando o porco que meu pai cevou. 

Monday, September 10, 2018

Cachecóis


A pele que habito
É cheia de becos escuros;
O coração em que moro
Tem duas janelas fechadas
E um labirinto de culpas

A veia que jorra
Sangue e gasolina 
Esguicha frustrações
Compradas em feira
Desilusões 'veraneiras'
Levadas em banho-maria 
Pecados lavados com cuspe
Desejos molhados de urina
Uma profusão de embustes 
E virtudes de perfumaria 


O espelho agora reflete 
O mapa das ruas na pele
Deserto de tantas miragens
A fonte da qual nada brota
Um cemitério de árvores
e crianças sem voz;
O medo que aniquila
Os poros entupidos
A cabeça dormente
De solidão e morfina
A febre em que ardo
A implacável insônia
O breu estranho das noites
E sua indecente companhia


A fome agora é de nada
E tem a velocidade
De um velho relógio parado
No cadafalso dos dias
A lágrima de água benta 
É ouro que reluz, intruso,
No colar de bijuteria.


Tenho a sede 
dos que sabem nada 
A fortuna dos que nada tem
A hora dos que mais tardam
Danço boleros sozinho,  
Rodopio desajeitado
O corpo disforme que gira
O rosto colado a ninguém 


Coleciono ausências de viço
Profusão de vícios, hábitos ruins
Às vezes sinto que prescrevi;


A alma que visto hoje
Não é um traje de festa
Ficou um silêncio tóxico
Restou a bandeira pirata
E a habilidade inata
De tecer cachecóis de lata
Com a linha invisível da dor.

Wednesday, August 29, 2018

Às vezes morremos







(Para o poeta Sérgio Xarepe, em Portugal)


Às vezes morremos pisoteados por multidões ensandecidas no sanatório das ruas de uma cidade em chamas.
Apagamo-nos, emudecidos, amordaçados por votos de silêncio, que são uma espécie de homilia lavrada de punho próprio.
É amarga a hóstia da culpa.
Somos asfixiados pelo laço da corda dos dogmas que adotamos, temos os joelhos dobrados, enquanto gangorreamos sobre um banquinho de fibra de vidro. 
Tombamos ao som de buzinas, motores de aeronaves que fazem rasantes sobre nossas cabeças cansadas, no limite do enlouquecer.
Findamos com os pulmões negros e enfumaçados.
Caímos de cirrose e sífilis, o fígado em frangalhos, os rins deteriorados e o pâncreas em petição de miséria.
 Carecemos de uma espinha dorsal de titânio e de uma pele mais grossa para resistir.
Às vezes, vamos murchando aos poucos, em conta-gotas, a desilusão diluindo no cadafalso dos dias.
Noutras, nos espatifamos rapidamente na curva de uma estrada perigosa ou desabamos no caos desenfreado de um leilão de misérias.
Finamo-nos dormindo, enfartados, sonhando com praias paradisíacas ou viagens num trem fantasma.

Às vezes nos matamos. 
Suicidamos sem overdose, sem acionar o gatilho ou acender o rastilho.
Somos assassinos silenciosos de nós próprios.
Covardes, sem o grilhão do remorso, somos uma legião de fracassados andando em círculos, sem jamais sair do lugar.
Rastejamos.
Homens-répteis.
Tornamo-nos criaturas insones de olheiras profundas, tristes caricaturas daquilo que nunca conseguiremos ser.
Temos na mão o passaporte para o fracasso, o salvo-conduto da dor.  
Órfãos de nós próprios, somos mortos-vivos perambulando no labirinto das horas.

Morremos de esquecimento. De covardia. De soberba ou arrogância.
Asfixiamo-nos de ganância, ignorância e pela ausência de virtudes.

Falimos.
Falhamos.

Somos interrompidos.
Desconectados.
Morremos.
Às vezes morremos.
Uns pelos outros.
Um para o outro.
Às vezes morremos os dois.
Morreremos sempre.
Nesse filme low budget fadado ao fracasso de bilheteria - que é a vida – não haverá final feliz.
Não, não haverá:
Nenhum de nós dois sorrirá no fim.