Monday, May 13, 2019

Mente fraca


O tempo vai passando, a chama da vida definhando e quase não percebemos as mudanças na nossa habilidade de executar as coisas.
A digestão de comida e informações fica lenta. Bem mais lenta.
Eu, que antes era capaz de dar prejuízo em uma churrascaria rodízio, agora passo um tempo enorme tentando dissolver um bife.
A tolerância ao álcool é outro tópico sensível.
Passei mais de 40 anos sem conhecer a ressaca. Hoje somos íntimos.
Quatro latinhas de Pilsner me fazem acordar no dia seguinte com um Saara na boca, além do indefectível gosto de cabo de guarda-chuva, que até então desconhecia. 
E a caixola vira um abacate maduro, com o caroço balançando lá dentro.
O que mudou?
Mudou tudo.
Foram mais de cinco décadas abusando da boa vontade da genética.
Começou a cair-me os cabelos de onde deveria haver cabelo, e a nascer cabelo onde não deveria haver cabelo. 
No outro dia, achei um fio enorme dentro de uma das orelhas. 
A cabeça está virando uma pista de aeroporto e as sobrancelhas encolheram, dando ao rosto um aspecto estranho.
Acabamos nos tornando uma caricatura do que fomos um dia e ela, a caricatura, capricha em realçar as imperfeições.
Crescem as orelhas e o nariz, o último, ganhando o formato de uma coxinha de padaria.
O tempo é cruel com Narciso.
Envelhecer é rápido e dolorido.
Doem músculos, articulações e a autoestima.
Coisas que eu fazia com facilidade tornaram-se verdadeiros sacrifícios.
Amarrar os sapatos, por exemplo, há muito tem sido um esforço hercúleo. 
Aconselhado por um amigo, adotei a técnica de colocar o pé sobre a cadeira antes de me curvar para dar o nó. De uns tempos para cá comecei a calçar tênis, daqueles que dispensam o uso de cadarços.
Redução de peso e prática de exercícios físicos foram recomendados pelo médico que me vê cada vez mais. Mas tenho gastado o tempo disponível cuidando da horta que planto todas as vezes que a primavera dá o ar de sua graça por aqui.
Quando termino de fazer uma capina entre os canteiros de hortaliças ou de revirar a terra com a enxada presenteada por meu saudoso pai, costumo recorrer a analgésicos e conhaques de procedência duvidosa.
Não resolvem, mas aliviam.
O que mais tem preocupado, no entanto, é a perda gradativa da memória.
Nunca sei onde larguei as chaves, esqueço celular e óculos em restaurantes e, não raro, deixo de comparecer a algum compromisso diluído dentro da memória enfraquecida.
As ocorrências se dão principalmente na parte da manhã, período do dia em que eu mais gosto de escrever.
Às vezes, quero construir uma frase, mas algumas palavras somem misteriosamente dentro de uma espécie de buraco negro que se abriu dentro de mim. 
Por autocomiseração, achei uma saída poética, mudando o horário das escrevinhações para o meio da tarde.
Desde então eu defendo a tese de que, como acontece com as pessoas, algumas palavras demoram mais tempo que as outras para acordar.
E assim vou levando, um descarrilamento de cada vez.

Monday, April 1, 2019

Fujona


Não tive um único bichinho de estimação na infância. Pedi, mas papai dizia que havia tantos vira latas na nossa rua, que eu não precisaria de um. Com tantos amigos para jogar futebol e nadar no rio, um cãozinho nem fez falta.
Adulto, aqui nos EUA, tive um gato que lutava karatê. 
Acho que é isso. Não entendo muito de artes marciais. 
Cookie dava uns saltos acrobáticos, do nada, chutando o ar e caindo de pé, como se nada tivesse acontecido. saindo de cena com um ar arrogante, indiferente aos olhos de quem o visse. O felino tinha parte com Bruce Lee.
Volta e meia, ele perdia-se dentro do sofá-cama da sala. 
Como ele ia parar lá é um dos mistérios que não consegui desvendar. 
Sem saber sair do labirinto de molas em que havia se metido, miava a noite inteira, atrapalhando a minha frágil capacidade de dormir. Acabei me livrando dele, passando o problema para a frente.
Nunca mais ouvi falar do Cookie.
Quando me casei, concordei que a casa tivesse um mascote. Foi assim que Jade, uma sharpei da cor de chocolate aterrissou.
Jade fez de tudo para me ganhar.
Conseguiu. 
Logo eu, que não era e não sou 'cachorreiro'.
Dócil, ela passava a maior parte do tempo aos meus pés. 
Lambia minhas mãos, deitava-se com o corpo apoiado às pernas, fazia muita festa quando eu chegava em casa. Escrevi muitos textos com a parceria dela.
Quando morreu, de velhice, ela já tinha a companhia de Nina, outra sharpei.
Nina foi uma menina problemática, como contarei mais para o fim.
Naquela altura do campeonato eu já tinha três filhas e a casa parecia um zoológico:
Coelhos, peixes, calopsitas moraram ou ainda moram lá.
Há cerca de quatro anos ganhei do Peter Pantoliano uma cacatua branca, com um topete como o do Supla, da mesma espécie de Fred, fiel companheiro do ator Robert Blake, protagonista do extinto seriado Baretta.
Cockatoo (cacatua em inglês) não ganhou um nome. É como se fosse um cachorro chamado cachorro. Confesso que eu e ela nunca nos demos bem.
Ela é metódica, acorda invariavelmente às 6:30 da manhã e emite uns insuportáveis grunhidos de pterodáctilo que atormentam principalmente as manhãs de ressaca. 
Nos primeiros tempos, Cockatoo fugia constantemente da gaiola e destruía janelas e móveis com o apetite de um exército de cupins.
Jamais descobri como ela conseguia abrir a gaiola. 
Quis batiza-la de McGyver, sem sucesso. Tive que providenciar um cadeado.
No ano passado, sua última fuga, destruiu o estofamento de uma cadeira novinha em folha. Fiquei possesso.
Reuní todo mundo e anunciei:

- Deu para mim. É ele, ou eu.

Clarice, a caçula, deu uma risadinha e decretou:

- Pai, não se esqueça de telefonar de vez em quando.

Recolhi-me à minha insignificância.
Não bastasse Cockatoo, Isabella foi visitar um abrigo de cães abandonados pelos donos e se apaixonou por Hazel, uma viralatas com rabo de barbicacho e sobrancelhas de José Saramago, que estava no corredor da morte. 
Não aparecesse alguma alma caridosa para adotá-la, receberia uma injeção letal em três dias.
Resisti o quanto pude, mas recebi a promessa de melhores notas na escola, remoção do lixo, ajuda na louça do jantar.
Só a parte da melhora das notas foi cumprida.
A Hazel, que caiu nas graças de todos, parece ter sangue de tatu. Ela transformou o gramado do quintal e a horta que cuido com tanto esmero, numa fotografia da lua. 
Não ouso dizer ela ou eu. 
Pode ser que Clarice já não faça questão do telefonema.

Voltando a falar da Nina, é o típico caso  de cachorro fujão. Minha casa é a única da rua inteira que tem cercas de madeira ao seu redor. Mesmo assim, a danada fugia, aproveitando os descuidos da porta aberta durante a entrada das compras. 

O bairro inteiro conheceu a sua reputação e a solidária vizinhança fez muitos mutirões de caça e captura, nem sempre com sucesso.
Numa ocasião, ficou sumida durante dez dias e foi encontrada cheia de carrapatos pela 'carrocinha' da polícia de Livingston na fronteira com Roseland.
Mas Nina envelheceu, aquietou-se. 
Há dois anos, teve câncer numa pata traseira e sofreu uma amputação.
Na saída do hospital veterinário, deu-me uma grande lição de humildade e apreciação pela nova oportunidade. 
Ao contrário de nós, humanos, não demonstrou tristeza pela aparência decrépita; adaptou-se como pode à nova realidade e continuou povoando a nossa vida, sempre deitada à porta do quintal, imponente, guardando-nos com ares de quem contemplasse as tardes.
Na semana passada começou a ter dificuldades respiratórias. O raio X do hospital não detectou nenhuma anomalia, foi medicada, mas ela definhou.
Nessa manhã, voltou ao hospital para exames de ressonância magnética, pois os médicos-veterinários suspeitavam de um tumor que poderia ter causado inchaço no fígado, dificultando o movimento de abrir e fechar dos pulmões.
Cinco minutos após ter sido deixada sob os cuidados da enfermeira, o meu telefone tocou.
Ela não quis morrer diante dos olhos dos donos, o que diminuiu o impacto da dor que ficou.
Hoje, quando eu retornar do trabalho, sei que não serei saudado por seu latido barítono, o rabo incessante, balançando como um leque em dia de calor.
Nina, a cachorra fujona, fugiu pela última vez.

Thursday, March 21, 2019

Pequeno rascunho sobre as lonjuras



Os estrangeiros e a maioria dos brasileiros creem que "saudade" seja um termo exclusivo da língua portuguesa. Eu não concebo que um finlandês não sinta saudade. Que um indiano não sofra dessas lonjuras.
Talvez seja apenas uma questão semântica, mas não consigo olhar para uma pessoa, independentemente do seu lugar de origem, sem imaginar que dentro dela more uma saudade.
Saudade de pessoas e lugares.
De um tempo bom em suas vidas.
De um dia especial ou de um marco pessoal nas suas respectivas histórias.
O norte-americano fala apenas que 'sente falta', mas não seria essa falta, essa bolha de afeto dentro da carcaça peitoral, a saudade da qual nós, lusófonos, tanto sentimos e falamos?
Esse profundo estado de melancolia que às vezes nos acomete é parte do DNA humano, embora não haja nenhum estudo científico que comprove isso.
Sentimos saudade até de nós próprios, ou não sentiríamos um aperto quando recordamos dos idos em que tudo podíamos e nada nos parecia impossível.
Há quem sinta saudade da vida de solteiro.
Da infância e adolescência, sem as preocupações que afligem os adultos.
Saudade de visitar um amigo, de um almoço em família ou de passar férias num determinado lugar.
Confesso que sinto saudade.
Saudade de muitas coisas e de algumas pessoas.
Saudade, principalmente, do que ainda não vivi.
Saudade de Casablanca e Havana, lugares a que não fui.
Saudade de caminhar de mãos dadas pelas ruas de Praga e de Granada, terra de García Lorca.
Saudade de tomar um café numa esplanada de Roma ou de colher um girassol na beira de uma estrada da Toscana, como me prometeu o destino.
Eu não consigo - nem quero - esconder que ando sentido uma vertiginosa saudade do futuro.

Thursday, March 14, 2019

Porque eu também sou mãe



Eu entendo a sua dor porque também sou mãe. 
Assim como você, eu sou aquela que esperou com ansiedade a chegada deste filho que encheu a casa de felicidade quando nasceu.
Se ele foi o primeiro, se foi o único, pouco importa.
Para uma mãe todos os filhos são únicos, como o primeiro, iguais no amor que ela sente desde o momento em que nasce.
Uma mãe começa a amar o filho antes mesmo de sua chegada, naquilo que o guarda dentro da barriga e por ele espera.
E eu o guardei e desejei que nada lhe faltasse, que nada (nunca!) lhe doesse, que nada lhe afligisse desde que respirou fora de mim pela primeira vez.
E eu o amamentei até que ele não precisasse mais do meu leite.
Estive com ele nas noites de febre, trocava suas fraldas, saciava fome e sede e o acompanhei enquanto ele crescia.
Caía a noite e eu ficava olhando para aquele menino bonito, a face inocente descansando de nadas, e desejando que ele tivesse um sono tranquilo, cheio de sonhos leves.
Eu implorava para que ventos ligeiros levassem para longe dali os eventuais pesadelos.
Vi quando ele deu os primeiros passos e quando perdeu o primeiro dentinho.
Ainda guardo na memória cada pedacinho dele, a imagem no porta-retratos, o sorriso ingênuo, o olhar de ave, o cabelinho de nuvem.
Eu estive sempre com o meu menino.  (E gostaria de ter estado mais, mesmo depois que ele cresceu.)
Eu quis para ele futuros brilhantes, tão maiores e melhores que o meu.
Quis que ele salvasse vidas como um médico, que educasse o mundo como um professor, que fosse piloto de avião, artista ou atleta profissional.
Que ele fosse o que escolhesse ser. Acima de tudo, que ele fosse feliz.
Portanto, eu sou aquela que não sabe onde errou e que preferia que tudo fosse de outra maneira.
Eu sou a mãe daquele menino que se tornou rapaz e se perdeu de mim.
Aquele menino que foi adotado pelo crime e que hoje chama a violência de senhora.
E é por isto que entendo a sua dor de mãe, que teve a trajetória do seu filho interrompida pelo meu.
Sou a mãe do pivete que lhe assalta fumado de crack e que coloca a sua história de cidadão a um clique de revólver, a sua vida por um triz.
Sou a mãe do homem-bomba que entra num mercado e leva dezenas de inocentes com ele, sabe lá Alá para onde.
Sou a mãe do sequestrador que lhe priva dos seus, daquele que pede resgate e que talvez nem devolva o que não lhe pertence, o que nunca lhe pertenceu.
Eu sou a mãe de Mark Chapman, aquele jovem que matou John Lennon e roubou do mundo a luminosidade de novas canções.
Apareço como genitora na certidão de nascimento de Charles Manson.
Osama Bin Laden me chama de mãe.
Meu DNA está em Hitler, em Franco, em Gaddafi e Sadam.
Está nos policiais dos grupos de extermínio da Baixada Fluminense e nos estropiados do Talibã.
Está nas artérias de Donald Trump, nos cabelos de Manuel Noriega e na arcada dentária de outro tirano qualquer.
Meu filho é aquele que entra no cinema vestido de Batman e abre fogo contra inocentes, filhos de outras mulheres como você.
Eu sou a mãe de todos estes meninos enlouquecidos que se armam até os dentes e promovem carnificinas nos Colombines, Suzanos e Realengos desta vida.
Portanto, pode chorar nos meus ombros que eu entendo a sua dor, minha senhora. Entendo-a, porque também sou mãe.
E porque toda vez que um filho meu mata o seu, eu morro um pouquinho junto com os dois.


Tuesday, March 12, 2019

Dona Socorro e o estojo de lápis de cor


Chegamos a São Raimundo em 1967. Nasci em Pedra Corrida - 44 quilômetros acima -, mas fomos 'arrastados' pelo Rio Doce, vivendo em diversos povoados ribeirinhos antes de ancorarmos definitivamente em Governador Valadares. 
Todos os anos, o soldado Antonio Lima era transferido e não tínhamos tempo de criar raiz em nenhum lugar. Não era fácil para nenhum de nós. 
Eu tinha cinco anos e vivera em cinco cidades diferentes, antes de aportarmos no lugar que se tornaria a minha referência. 
Nossa casa fazia divisa com o campo do Esporte Clube Ibituruna, lugar que viria a ter grande importância na minha infância. Ali eu joguei bola, fiz amigos, fraturei ossos e tive grandes alegrias.
O bairro São Raimundo ficava espremido entre a favela do Morro da Orêia - hoje Morro do Paraíso - e o mesmo Rio Doce que me viu nascer. 
Era um lugar de casebres simples, com suas ruas de terra batida e nomes de pedras preciosas e semi preciosas.
Estabelecemo-nos, inicialmente, na rua Turmalina. Ao fim de dois anos, papai ergueria um barraco na Rua Topázio, palco de grandes aventuras com novos amigos, pés empoeirados, camisas remendadas, árvores que falavam vários idiomas, rolinhas da cor de terracota e tizis saltitantes.
No quintal havia laranjeiras, limoeiros, dois pés de manga  e uma horta com pés de couve que chegavam ao céu.
Quando um PM chega a um novo lugar, trata de conhecer as pessoas mais influentes. Líderes comunitários, professores, padres, pastores, comerciantes e políticos estão no alto da lista de contatos importantes para um policial recém-chegado.
Foi assim que papai foi apresentado a Gabriel e Maria do Socorro, proprietários do Bar Chave de Ouro, que ficava localizado no ponto final do ônibus.
O Chave de Ouro era também uma sorveteria que produzia o melhor picolé de coalhada do planeta. 
Dona Socorro fazia deliciosos salgadinhos, Gabriel os vendia. 
Nas prateleiras, reluziam garrafas de jurubeba Leão do Norte, catuaba, conhaques Presidente e Dreher, cachaças sem rótulo e groselha.
Uma mesa de sinuca e outra de totó (pebolim) faziam a alegria de quem gostava de um passa-tempo, enquanto bebericava seus venenos.
Gentis, Gabriel e Maria do Socorro convidaram os Lima para um café da tarde, na casa que ficava adjacente ao comércio da família.
Chegamos, fui apresentado ao filho Wellington, que se tornaria um amigo para a vida inteira. 
Enquanto os adultos se deliciavam com um queimadinho com bolo de fubá, saí pelo quintal  com o garoto, dois anos mais velho que eu.
Foi amor à primeira vista. Afinal, a amizade nada mais é que uma das mais puras formas de amar algu'em.
Wellington e eu saímos correndo por aquele minifúndio, chutando uma bola de plástico que caiu perto de uns destroços de construção.
Chamei-o para ver o que acabara de descobrir debaixo de umas tábuas empilhadas sobre uns tijolos. 
Tratava-se de um ninho de adoráveis criaturas, que capturamos para que se tornassem nossos bichinhos de estimação.
Naqueles dias, por onde eu ia, costumava levar um estojo de madeira do tamanho de uma merendeira, daqueles grandes. Nele, onde deveria estar acondicionado um sortimento de lápis de cor, eu ia colocando pedrinhas redondas que ia encontrando, flores que murchavam durante a noite e 'rebanhos' de melão de São Caetano.
Pegamos os bichinhos, colocamos dentro do estojo para que fossem nossos futuros 'boizinhos' e corremos para o interior da casa com o intuito de os mostrar aos nossos pais.
Cheguei esbaforido à mesa, abri a caixinha e os bichos saíram ziguezagueando entre pratos, talheres e xícaras.
Dona Socorro deu um salto, mamãe não conseguiu segurar um gritinho, misto de nojo e medo. 
Papai fez cara severa. 
Seu Gabriel  soltou uma gargalhada.
Ratos não servem para animais de estimação e transmitem a peste bubônica, eu aprenderia ali.
Lavaram nossas mãos com sabão de coco, passaram uma quantidade industrial de álcool e ganhamos um sermão. 
Os bichinhos, não sei que destino levaram. É provável que não tenham sobrevivido à fúria de Seu Antonio.
Estudaria com o Wellington do primeiro ano primário à oitava série ginasial. Seguimos amigos pela vida e hoje mantemos contato, trocando senvergonhices pelo whatzapp. E vivemos adiando um reencontro, que espero não tardar.
Na semana passada, Penha, irmã de Wellington, postou no Facebook uma foto de Dona Socorro segurando um exemplar de Meninos de São Raimundo, livro que escrevi em parceria com o poeta Bispo Filho.
Emocionei-me muitíssimo.
O tempo passou para todos nós, os cabelos dela ganharam o branco do algodão, mas Dona Socorro conservou os olhos mansos do dia que a vi pela primeira vez.
Essa crônica é um tributo a ela e seu marido Gabriel, que já não se encontra entre nós.
Espero poder abraçá-la em minha próxima ida a São Raimundo. Espero, também, que este abraço não tarde. 
E sei que o episódio do estojo de lápis de cor estará na pauta de nossa prosa saudosa.

Thursday, February 21, 2019

Uma coisa meio Barry White


 Gustavo Veiga estava no Rio de Janeiro gravando o seu próximo CD (Dois Universos) e eu aqui, em New Jersey, penando com mais uma crise de bronquite. Havia acabado de chegar ao escritório, a alma empoeirada por um apartamento em construção e precisando urgentemente de um café para acordar.
Tocou o telefone e a voz do amigo saudou do outro lado da linha:
- Parceiro, estamos terminando de gravar Nossa História e o Jaime quer falar com você.
O Jaime - a quem ele se referia - é Jaime Alem, maestro da Maria Bethânia e de quem sou grande admirador. Ele está produzindo o trabalho e Nossa História é a primeira parceria (letra minha com melodia de Gustavo) a chegar a um CD.

- Roberto, tudo bem? Estamos precisando de um verso para o Gustavo ler no finalzinho da canção. Uma coisa meio Barry White, entende?
Não entendi.
E sabia que não sairia nada como ele queria.
Pedi meia horinha de prazo e, 5 minutos depois, enviaria por Whatzapp as palavras que seriam recitadas ao final da canção que fala de "chuva com peso de chumbo e beijos de final de novela."
Saiu isso aqui:

"Apesar dos desencontros
E das janelas fechadas
Dos dissabores do tempo
E das rotas desviadas
Refaço o mapa das nuvens
Mudo o sentido das chuvas
E escrevo
o seu nome no silêncio."

Nem Barry, nem White.
Dois dias depois recebi o aúdio da gravação. Arrepiei-me por inteiro.
A saber:

Jaime Alem é um competentíssimo arranjador.
E o parceiro Gustavo Veiga deixou um pedaço do meu coração amalgamado em seu disco.
Estou muito feliz.

* Foto: Jaime Alem e Gustavo Veiga.

Tuesday, February 5, 2019

Isabela voou


Será que ela tinha uma boneca Hello Kitty?
Assistiria Bob Esponja na televisão?
Gostaria de A Bela e a Fera e da Pequena Sereia?
Qual a sua fábula favorita?
Será que seu cabelo ficava mais bonito com laço de fita?
Usava trancinhas? Tererês?
Gostaria de sorvete de morango?
Comia brócolis?
Do que gostava de brincar?
Amarelinha, videogame, bonecas de pano – às quais tratava como pequenas filhas e lhes dava amor e cuidados -, ou esconde-esconde?
Pedra, papel e tesoura?
O que gostava de cantar Isabella?
Ciranda-Cirandinha? Twinkle twinkle little star?
Nos seus sonhos, feitos de nuvens e inocência, ela conversava com os bichos?
Falaria com anjos?
Teria amiguinhos imaginários, daqueles que só as crianças vêem e que os adultos dizem ser o anjo da guarda?
Nos seus pesadelos, feitos de monstros de outras dimensões e bruxas malvadas, quem era o herói que a salvava?
O Pai? 
O amiguinho imaginário? 
Ou despencaria de um precipício até beijar o chão?
Será que Isabella acordava chorando no meio da noite?
Será que sorria?
Quando nasceu o primeiro dentinho?
Gostaria de cães e gatos? Teria um? 
Gostaria de livros, de desenhar? 
Qual a flor favorita de Isabella Nardoni?
Cravo, lírio ou jasmim?
O que desenhava ela em seu caderno de escola?
Amiguinhos? 
Bichos? 
Criaturas como as dos cartoons?
Qual era a sua cor predileta?
Azul? Rosa? Cobalto? Carvão?
Qual o tamanho de seus sapatos? 
Já teria pintado as unhas?
Será que algum dia mergulhou no mar? 
Teria gostado do carinho das águas deslizando pela pele?
Gostaria de brisa, vento e verão?
Seria fogo ou terra, essa menina tão linda?
Qual o seu signo no horóscopo chinês?
O que lhe reservaria o futuro?
Na adolescência iria ter acne ou sardas, quando exposta ao sol?
O que lhe estaria reservado nas cartas da cigana e nas linhas da palma da mão?
Quando se apaixonaria pela primeira vez?
Teria em seu futuro um grande amor?
Que profissão abraçaria a adulta Isabella Nardoni?
Médica-veterinária? 
Trabalharia num banco? 
Venderia passagens aéreas para ilhas paradisíacas e pacotes para a Disney? 
Seria dona de casa?
Se casaria? 
Teria filhos?
Ninguém sabe. Ninguém saberá.
Isabella Nardoni voou.
Foi atirada do 6º andar do edifício onde viviam o pai, a madrasta e dois irmãos.
Saiu pela janela e voou. Virou anjo.
Como aqueles com os quais agora se mistura.