Friday, December 2, 2016

Da desinvenção do sono


Eu não durmo há quase uma semana.
É como se o sono tivesse desertado de mim e ido baixar em outra freguesia.
Ah, o sono, esta raridade, objeto do desejo sempre  tão elusivo  para mim.
Das muitas coisas da vida que não se encontra  para vender em supermercado, este é um artigo de luxo que  eu compraria em grande quantidade. Talvez assim eu  ficasse em dia com ele.
Ou ele comigo, já nem sei.
Nunca fui bom de cama, confesso.
Já fiz sonoterapia, tratamento à base de chás e até simpatia.
Nada funcionou.
Sempre dormi mal e pobremente, como atestam estas olheiras escuras e os  olhos  eternamente encarnados, o  que já me rendeu  alcunhas como  Zorro e Guaxinim.
O pior de todos foi “Colírio de Groselha”, que guardei a sete chaves até esta confissão.
Sei quase tudo de insônia e muito pouco da arte de dormir.
Uma noite de insônia é um banho lodoso nas águas de um pântano, posso garantir.
É uma rima de Augusto e uma rosa de Drácula.
Um filme de Hitchcock e uma carta da Receita Federal.
É a reeleição de Maluf e a perpetuação de Sarney.
É um lugar escuro e frio  como o porão de um calabouço e a chibatada raivosa do carrasco de um navio  negreiro.
É uma ameaça de um  tsunami, o buraco de uma bala perdida e a mordida de um pitbull.
Nas noites de insônia os pesadelos descem como assombrações.
Os medos são coroados quando o sono e a coragem se escondem para namorar num lugar fora do corpo.
E a ausência deles é ferida aberta recebendo um punhado de sal.
É um desprezo de pai, uma mágoa de mãe.
Uma noite de insônia é  - inteiramente - feita de brutal punição.
De sufocante  angústia, de inquietude e pandemônio íntimo.
É um beijo do demônio,  uma carícia de satanás.
É afogamento nas águas escuras do caos e é aquele saveiro-fantasma, que não encontrou o cais.
É o padecer de sede no meio do mar.
E é o perecer de fome, em qualquer lugar.
É recordar da caloi - aquela caloi -, que nunca chegou no natal.
É ser derrotado - outra vez - com a repetição da lembrança do gol adversário, ilegítimo, na decisão do campeonato.
Aquele gol que o juiz safado deu.
E é se lembrar que ela foi embora e que não voltará mais.
Nunca mais.
E é lembrar dela e pensar que você vai morrer de saudade e inanição.
E é morrer de verdade e não desejar  reencarnação.
Nas noites de insônia, parece que Deus sai para tirar um cochilo e o demônio reina, onipresente, inaugurando este estranhíssimo carnaval feito de dores e outras alegorias.

Tuesday, November 29, 2016

Uma tentativa de ler um poema que virou letra de canção

video


EXTRAVIO

Algumas coisas nasceram
Para não ter fim
Laranjas pela metade
Histórias que não foram contadas
O não que abraçou o sim

A flor que brotou
E não floresceu
O amor que amou
Mas adoeceu
O caminho sem chegada
A carta extraviada
O tal não dentro do sim

Tem a sina de uma bala perdida
Cambaleia em direção ao alvo
Como a faca rasgando a água
Como o fogo mastigando a carta
Como o vento que penteia as palmas
Como a pedra que nasceu do pó
Como o tempo que engole os dias
Como o corpo, despido de alma,
Que foi beijar a terra
Longe, bem longe
de mim.

(Melodia de Roberto Mendes vestindo as palavras de Roberto Lima)


Monday, November 28, 2016

Lapidadores de cascalhos



Recém formado em engenharia, Mark Thackeray não conseguiu trabalho em sua área de especialização e acabou tendo que se arranjar como professor em uma escola do leste de Londres.
A instituição era uma espécie de último reduto para jovens problemáticos, fios desencapados, refugos de outras escolas, e para onde iam os encrenqueiros e desajustados do sistema de ensino municipal. Era uma espécie de Febem, um castigo para os que não "cabiam", os que não achavam lugar. Não era uma segunda oportunidade para nenhum deles. Não era sequer uma última chance para ninguém.
Machucados, deslocados, os jovens alunos de Mark Thackaeray não facilitaram a vida do mestre, que acabaria ganhando a confiança de todos com sua paciência, dedicação e caráter. Acabou sendo uma influência positiva na vida de todos eles, dando a entender que aqueles dias estavam indicando um novo caminho.
Resgatara-se ali a dignidade e o porvir.
Estou falando do personagem vivido por Sidney Poitier em Ao Mestre Com Carinho, ambientado (e lançado) em 1967, mas que poderia ser refeito hoje. O tema segue sendo muito atual. E será sempre.
Enquanto houver vida na Terra, haverá conflito de gerações, jovens que não 'cabem', criaturas inquietas tentando achar o seu lugar. A intervenção de um adulto de alma generosa, no entanto, pode servir de guia e referência, transformando cascalhos em gemas preciosas, moldando vidas, redirecionando trajetórias e carreiras de cidadãos.
Tive bons e maus professores, naquilo que crescia. Vivesse em Londres, eu certamente acabaria na escola de Sidney Poitier.
Foi fora da escola, no entanto, que eu encontraria uma pessoa que acabaria me influenciando e iluminando para o resto dos meus dias.
Sueli de Regino era casada com Wagner e me tornei amigo de ambos. Eu tinha 19 anos e caminhava intuitivamente, sem quase nada que desse sustento a qualquer saber. Era curioso e receptivo, mas não tinha para onde ir.
Eles moravam em uma casa na Ilha dos Araújos, em Governador Valadares. Era uma construcão ampla, com quintal de fundo para o Rio Doce e uma biblioteca que era um sonho. As paredes dos cômodos eram cobertas por quadros que ela pintava. Suely pintava com as mãos de Deus. E cozinhava obras de arte.
Alimentava-nos com comidas macrobióticas e aulas informais impagáveis, que iam da mitologia grega ao movimento modernista de 1922. Havia naquela casa uma efervescência, uma luz, que não consigo explicar.
Viviam uma vida diferente, muito diferente daquela que se vivia na GV provinciana daqueles dias. Ele era filho da terra, mas morara muito tempo fora. Ela era do Rio de Janeiro, tinha aquele sotaque chiado, cheio de esses e xizes.
Até suas roupas pareciam de um outro planeta.
Abriram o coração e portas para alguns jovens desajustados como eu.  Abriram a biblioteca. E a discoteca.
E abriram as janelas de um novo mundo. Um mundo que me arrebatou e transformou.
Naquela casa fui apresentado a Oswald e Zeus; a Aldous Huxley e Lampião.
Emprestou-me O Estrangeiro, de Camus, com a promessa de pronta devolução. E assim foi feito
Como o foi com O Navio Negreiro - de Castro Alves - e Assim Falou Zaratustra, de Nietzsche.
Conheci a música barroca naquela casa. Foi lá que Violeta Parra cantou ao meu ouvido pela primeira vez.
Na mesa da cozinha aprendi a comer taioba, vagem, jiló e almeirão. Era ali que se 'fazia sala'. Afinal, ficava na sala a radiola e aquela Babel de Long Plays.
Poucas pessoas me incentivaram tanto a escrever quanto Sueli de Regino. Ela via raiz onde só existia uma lasca de semente. E pouco mais.
Em outubro último eu a reencontraria.
Fui a Goiânia para uma noite de divulgação de meu livro em parceria com Bispo Filho, outro frequentador da casa da Ilha dos Araújos.
Tínhamos tanto para falar e apenas alguns minutos em nossas mãos.
 Sueli casou-se novamente. Seu atual marido é um indivíduo de gestos mansos e olhar de passarinho. Um homem fascinante que, entre outras façanhas, construiu um avião na garagem de casa. Fiquei muito feliz em conhecê-lo.
 Ah, se Sueli soubesse que quase tropecei na saudade quando a vi.
Passaram-se mais de trinta anos, mas o sorriso inconfundível permaneceu pristino, irretocado, e transportou-me a um tempo e lugar que pareciam esquecidos dentro de mim.
Foi difícil conter as lágrimas quando ela me acolheu em seu abraço.
Um abraço que eu conheço tão bem e que me é tão familiar.
Um abraço que já me transformara uma vez.
Por alguns mornos segundos eu me senti remoçado e sem medo do futuro.
E a vontade foi pedir asilo e permanecer dentro daquele abraço.
Morar ali dentro, como se ele fosse aquela casa onde ainda hoje procuro um disco extraviado de Geraldo Vandré.

Friday, November 25, 2016

Extravio


Algumas coisas nasceram
Para não ter fim
Laranjas pela metade
Histórias que não foram contadas
O não que abraçou o sim

A flor que brotou
E não floresceu
O amor que amou
Mas adoeceu
O caminho sem chegada
A carta extraviada
O tal não dentro do sim

Tem a sina de uma bala perdida
Cambaleia em direção ao alvo
Como a faca rasgando a água
Como o fogo mastigando a carta
Como o vento que penteia as palmas
Como a pedra que nasceu do pó
Como o tempo que engole os dias
Como o corpo, despido de alma,
Que foi beijar a terra
Longe, bem longe
de mim.

* A notícia de que meu ídolo Roberto Mendes está musicando estra letra minha, escrita hoje, é uma espécie de redenção para um dia que tinha tudo para me empurrar para o abismo.
Deus existe.

.

Da ironia da vida


é preciso haver a tristeza 
para saber o que é felicidade
barulho para apreciar o silêncio
e ausência para valorizar a presença.

(Maria Paula Alvin)

PS: naquilo que penso em meus velhos. E não só. Naquilo que penso.

Thursday, November 24, 2016

Elegia 1938



(Carlos Drummond de Andrade)

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações no encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas de dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

.

Wednesday, November 23, 2016

A medida Exata





De nós dois ficou esta estória 
Mal contada e sem final feliz
O buraco bem no meio do peito
E pouca linha para cerzir a cicatriz

Ficou um grafite no muro
Este buquê de folhas secas
Um baú de pedras murchas
E um bolero nariz com nariz

O que fazer da minha tristeza,
Como beber de um gole só
A medida exata de tanta solidão?


* (Nova parceria com Lula Barbosa)