Wednesday, January 24, 2018

Lua-de-mel


Leandro chega esbaforido à casa de Mônica. Vai à geladeira – noivo com sete anos de casa já tem este tipo de liberdade -, pega uma cerveja e dirige-se à amada:

– Mônica, já sei onde passaremos a nossa lua-de-mel.
Mônica corre ao seu encontro, feliz. Há mais de seis meses batem cabeça e não chegam à conclusão alguma.
– Será no Caribe? Você vai reconsiderar Santo Domingo, amor?

Leandro sorve dois goles da bebida, folheia uma revista que está sobre a mesa da cozinha e responde, meio disperso:

– Não, não vai ser Santo Domingo. Nem Cancún, como seu pai havia sugerido.
A moça não se zanga com a negativa e sai dizendo nomes de cidades espalhadas pelo mundo.
Leandro está firme. Caminha até a sala, ajeita-se na poltrona e liga a TV. Mônica não sossega:
– Mas você não vai me dizer? Poxa, é a “nossa”- dá ênfase ao “nossa” – lua-de-mel…
Leandro troca de canal, vira-se para ela e vai eliminando, cidade a cidade, as sugestões apresentadas.
– Lua de mel no Egito? Nem que a vaca tussa. Ali, pertinho da guerra… Sem chance de ver as pirâmides.
Dá outro gole no suco de cevada e continua.
– Amsterdã está fora de cogitação. Seria maravilhoso se estivéssemos na primavera européia, com todas aquelas tulipas colorindo as ruas; Em Barcelona, nem se o Messi ligar para cá convidando… A Espanha está fora da lista, ainda mais que o Neymar debandou… E, no Caribe, é farofa-geral. Me inclui fora dessa…
Mônica tira a última carta da manga do casaco:
– E Paris? Bem que poderíamos ir a Paris. O Neymar foi pra lá.
– De maneira alguma, irrita-se ele. Você já esteve em Paris com seu ex-namorado, lembra?
Visivelmente na defensiva, Mônica senta-se ao seu lado, ensaia um carinho nos cabelos ligeiramente raleados dele, e faz um dengo.
– Ta bom, amor. Esqueça Paris. Onde você sugere, então?

O rapaz se levanta, olha fixamente para os olhos dela e, com a firmeza e o entusiasmo de alguém que acaba de inventar a roda, anuncia:

– Vamos para Nova York, a Big Apple!
Mônica também se levanta. Está visivelmente agitada. Vira-se para o noivo e nem consegue dizer mais nada, além de um pasmo “Nova Yoooork?!”
Leandro parece possuído.
– Eu sei que você argumentará que em Nova York está tão frio quanto Amsterdã, e que após o 11 de Setembro Nova York é tão suscetível a um ataque terrorista quanto Barcelona ou Madri. Mas eu te darei pelo menos cem bons motivos para passarmos lua de mel em Nova York.
Toma mais um gole, todo compenetrado, e abre a voz:

-Imagine que estamos passeando nas românticas charretes que atravessam o Central Park e cruzam as ruas enfumaçadas pelo calor que vem debaixo do metrô… Imagine os museus fantásticos… As maravilhas arquitetônicas, entre elas o Empire State, as pontes, os túneis… Imagina a grande variedade de espetáculos, os musicais da Broadway, os eventos esportivos do Madson Square Garden… As compras nas lojas deslumbrantes da quinta avenida… A diversidade cultural do Chinatown, do Little Italy, com seus restaurantes aconchegantes… A loucura democrática do Village, com seus bares alucinantes, redutos em que punks e yuppies que se misturam…


Mônica puxa o noivo pelo braço e o interrompe:

– E eu te darei um único e definitivo motivo para não passarmos nossa lua de mel em Nova York.
– E que motivo é este?
– Moramos no Bronx, meu amor. No Bronx!!!
   Vira-lhe as costas e vai para o quarto com uma cara zangada.

Wednesday, December 27, 2017

Dois Poemas de Caixa de Suspiros


nagasaki

ficou como Nagasaki
após a grande explosão.

pobre romântico,
restou-lhe um canivete suíço
para reconstruir 
o coração.

***


Metamorfose


Dentro daquela mulher
Constrói-se uma outra
Que pinta de branco 
As asas da garça
Que projeta o voo.


Como se soprasse
A voz do mar
No ouvido das conchas
E fomentasse
A pérola
No coração das ostras,
Ela se ergue
Pedaço a pedaço,
Grão a grão.


Resoluta,
Pulveriza soldados
De chumbo
Nos mapas desenhados
Na toalha de mesa;
Exonera Bispos,
Mastiga dogmas
E derruba todas das torres
Do tabuleiro
De xadrez.


Dentro do seu casulo
De clausura e cetim
Ela tece a borboleta
Que decretará o milagre
Da próxima primavera.

Enfim...


.


Wednesday, December 6, 2017

O mel


Vamos falar do mel das coisas boas. De mais encontros e menos despedidas. Mais delírios e menos porradas. Mais afeto e menos truculência.
Vamos falar do mel das palavras bonitas e benfazejas. E esquecer o fel daquelas que envenenam e coalham o sangue.
Vamos tecer alegrias e dissolver o rancor. A hora é agora. Afinal, mágoas passadas não movem moinhos.
Precisamos jogar no ralo da vida as amarguras e tristezas que, às vezes, nos fazem sentir como se tivéssemos pregado Jesus Cristo à cruz.
Esse calvário não é nosso. Essa conta já foi quitada há mais de 2 mil anos.
Para que viver com um pé no presente e o outro no anteontem?
É sabido que o passado é uma roupa velha que não nos serve mais. Então, para que insistir em vesti-lo, se as traças do tempo puíram seu vestido e as costuras do terno não resistiram ao tempo.
Para que mastigar reminiscências que magoam?
Por que ruminar o vidro moído do ressentimento?
Aprendamos.
Reconheçamos a proximidade do perigo.
Precisamos nos desviar dele, sequer olhá-lo nos olhos, ignorá-lo, simplificando o ofício de viver.
Recomeçar do zero, se preciso.
Toda manhã é um convite ao recomeço. Cada nascer do sol traz consigo a possibilidade de se reescrever a história a partir de uma página em branco.
Estejamos atentos. Aprumemo-nos. 
Acertemos nossos passos. 
Desviar do que ficou para trás faz-se necessário.
Enxotemos o fantasma que insiste em voltar quando dormimos, transformando nossas noites em pesadelos. Aprendamos a assustá-lo.
Expulsemos esse verdugo para longe de nós.
Reinventemos as noites, se preciso. O que seria da raça humana sem a capacidade de sonhar?
Sonhemos dias sem tempestade, de céu claro e sol brilhante.
Dias que começam com a grama orvalhada e se encerram com uma lua cheia.
Dias de sorvete de limão para aliviar o calor, de algazarra de crianças brincando e pipa colorida rabiscando o vento.
Dias de música bonita tocando no rádio e notícias boas. 
De abraços sinceros e do calor das verdadeiras amizades. Dia de visita de irmão. Dia de colo de mãe.
Dias de sessão de cinema, de pipoca, de chope com os amigos e conversa leve no bar.
Dia de sonhar acordado com um amanhã melhor que o hoje. Esse hoje, que já foi bom.
Vamos falar de futuro.
De quintais embandeirados. De flores de laranjeira e serenata entre amigos.
Tempo de bibliotecas acolhedoras, camas confortáveis, lençóis perfumados, macios, e travesseiros de penas de ganso.
Tempo de quintal com pomar, horta e canteiros coloridos. Tempo de açucenas, margaridas e girassóis. Sonhemos…
Sonhemos poemas e canções. 
Sonhemos o companheirismo e a amizade. 
Sonhemos com flamboyants sangrando e mangueiras em flor. 
Sonhemos…
Sonhemos a cumplicidade das coisas boas, a gargalhada solta, o afago gratuito e o olhar sincero. 
Sonhemos…
Sonhemos aquela reparadora viagem a Matchu Pitchu, a Paris, a Havana ou para onde a vontade apontar.
Tomemos coragem para fazer as malas e embarcar no primeiro avião.
Deixemos que o vento nos afague o rosto e nos percamos no azul.
É muito provável que neste se perder resida o se encontrar.

Thursday, November 30, 2017

Blues fúnebres


(W.H. Auden)
.
Que parem os relógios, cale o telefone,
jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás.

Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto — um laço no pescoço —
e os guardas usem finas luvas cor-de-breu.

Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto
viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana.

É hora de apagar estrelas — são molestas —
guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.

.
(Traduzido pelo poeta e escritor Nelson Ascher e um dos poemas de José e Ana, meus musos de Itaúna)

Sunday, November 26, 2017

Das estranhas invenções do homem



(Para o João)


“A maioria dos homens vive vidas de silencioso desespero” 
― Henry Thoreau

As mãos espalmadas escondendo o rosto é o gesto universal dos que sentem vergonha, dos que temem a derrota e não encontram forças para virar o placar adverso antes que se apaguem as luzes.  
É o medo do fracasso, que se aproxima rapidamente como uma matilha faminta diante de um corpo ferido. 
Cruel é o homem, lobo de si, com suas matilhas vorazes, rondando em círculos numa coreografia invísivel, tendo ao centro a indefesa presa, ele próprio.
O homem tem fome de homem.
Ele tem sede do próprio sangue.
O homem, com sua cartilha de metas inatingíveis e suas missões kamikazes.
O criador da ilusão do sucesso, seus truques sujos e atalhos ilícitos.
O inventor do fracasso e do desespero.
O criador da culpa.
O tecelão da corda.
O criador do laço.
Ferreiro que deu forma ao cano dos revólveres.
O mixologista dos coquetéis letais .
Artesão da vergonha e seu gesto universal, esse das mãos espalmadas cobrindo a face.
Como o faz o goleiro, desesperado na hora do gol. 
Do zagueiro que jogou para o fundo das próprias redes a bola branca, fugaz pomba da felicidade.
Do adolescente que não conseguiu caber em um mundo cada vez mais atrofiado e em que a barra de exigências está cada vez mais alta.
Do adulto soterrado por notas promissórias.
Do pai que não consegue colocar o pão sobre a mesa.
Da mãe que não se perdoa pelos falhanços dos filhos e os assume como se fossem seus.
É quando se escuta o barulho ensurdecedor do fracasso.
E que som seria este?
Que estranho barulho teria o desespero causado pela sensação do fracasso?
O de uma fruta que passou do ponto de maturação e se espatifou contra o chão?
O canto esganiçado de uma gralha?
O apito de um cargueiro se afastando no cais?
Ou o rufar de um trovão?
Ele pode ser estridentemente silencioso, mas pode soar como um trem carregado de tesouros minerais, deslizando sobre os trilhos em direção a um porto distante.
Não raro, aparece o paliativo da corda e seu convidativo laço.
Não raro, o fundo do poço, que esconde debaixo dos pés de quem chega a ele, um traiçoeiro alçapão.
Não raro, o cano frio entre os lábios.
O dedo no gatilho.
A coragem extrema, que não é o avesso da covardia.
O clique.
O bang.
A poça gelatinosa.
E o fim.
Não, não deveria ser o fim.
Mas a cortina do espetáculo barato da vida se fecha mesmo assim.

Tuesday, November 14, 2017

Memórias de armazém


(Para Iara Carvalho e Fátima Pereira, filhas de vendeiros, e que contribuíram para esta crônica)

Uma ou duas portas de frente para a rua. Às vezes, um banco de madeira para quem quisesse permanecer. Dentro, algumas montras feitas por marceneiro, balcão com vitrines transparentes, prateleiras, um rádio sempre ligado e a imprescindível balança Filizola. Este era o cenário do universo maravilhoso dos armazéns que ainda hoje habitam o imaginário de quem viveu há não muito tempo no interior do Brasil.
Para a população não era chamado de armazém. Era a venda.
Ah, as vendas de antanho...
Os supermercados e shopping centers nos roubaram tanto de intimidade e poesia... Tanto!
Na 'venda' que habita a minha saudade tinha rapadura, lápis sem ponta e com ponta, e com borracha na ponta. Tinha tabuadas, cadernos da marca tilibra, convencionais ou de caligrafia.
E um baleiro giratório sobre o balcão com balas sortidas e chicletes ping-pong e ploc.
A granel estavam disponíveis do alpiste ao açúcar, farinhas de trigo, mandioca e milho, feijão de várias cores e amendoim com casca.
Tinha também arroz, milho, canjiquinha e canjicão. E farelo para alimentar os porcos.
Pão?
De doce e de sal, ao gosto do freguês, e ficavam expostos na vitrine, junto com umas delícias como a maria-mole, o suspiro, as cocadas e o pé de moleque, esses últimos geralmente preparados pela esposa do proprietário.
A banana era vendida em cachos ou a dúzia: prata, maçã, caturra e ouro. Tudo era embrulhado em papel pardo e bem amarrado com barbante de algodão.
Jabuticaba era vendida ao litro. Laranjas e mexericas a dúzia ou ao cento.
Em alguns meses do ano era possível encontrar pitanga, seriguela, jambo e fruta do conde.
Aquilo pendurado na parede não era um extintor de incêndio, e sim, uma bisnaga de salame, que o atendente ia cortando de acordo com o apetite e orçamento do freguês.
Havia também uma espécie de trapézio pendendo do teto, onde eram dispostas as linguiças semidefumadas de boi, porco e mista.
Para os meninos havia bolas de borracha Pelé e Tostão. A Pelé era de cor escura, enquanto a Tostão era branca, assim como as "dente de leite", que queimavam e deixavam hematomas em quem se atrevesse a ficar na frente.
Para chutá-las era providencial adquirir um conga, um kichute ou um bamba maioral.
Havia caminhões artesanais feitos de lata de óleo de cozinha reciclada e pneus de sandálias havaianas jogadas fora.
Tinha peteca confeccionada com palha de milho e penas de galinha. E cromos para os álbuns de figurinha e 'caixinhas de segredo', que se comprava sem saber o que vinha dentro.
Bonecas de pano e matéria plástica, que viravam os olhos quando colocadas na horizontal, brincando de dormir.
Havia também times inteiros de futebol de botão, piões de madeira e soldadinhos de chumbo sempre prontos para épicas batalhas.
O Rio Doce corria pertinho e havia chumbada, linha de nylon e anzóis de todos os tamanhos. E varas de pescar feitas de bambu e ubá. Além do chumbinho para as espingardas de pressão.
E um sortimento de bolinhas-de-gude - que no interior de Minas chamávamos de biroscas -, que parecia saído da arca de algum tesouro. Eu era muito ruim de birosca.
Na venda era possível comprar manivela feita de ripa de madeira, que era usada para dar linha aos papagaios e pipas. E papel em todas as cores, para a confecção daquelas magníficas aves de seda.
Para as donas de casa tinha anil de clarear a roupa, linhas de diversas espessuras, botões de vários tamanhos, agulhas, alfinetes e dedal.
Impossível não sentir o cheiro forte recendendo de um canto detrás da porta. Era lá que ficava o tambor de querosene, que muitas famílias usavam para alimentar os lampiões e lamparinas, que também eram vendidos ali.
O combustível era disponibilizado em vasilhames reciclados. A clientela humilde podia pedir corozena ou criozena, que dava no mesmo. O balconista não reparava.
Outros itens de odor desagradável eram a naftalina - eficaz no combate às traças - e a creolina, usada para curar 'bicheiras' em animais, desinfetar galinheiros ou eliminar as pulgas.
Havia detefon para as baratas e neocid para os piolhos, duas pragas que driblavam o extermínio.
Como contraponto tinha aqua velva, seiva de alfazema, trim para passar no cabelo, talco, pomada minâncora para o 'cecê' e assaduras, e o ortodoxo polvilho granado, antídoto para o chulé.
Em determinados lugares era comum encontrar fichas de telefone e pedras de isqueiro.
Canivete, palha e fumo de rolo eram comodidades obrigatórias nos armazéns.
Da barriga da geladeira Prosdócimo ou Cônsul saíam a milenar coca-cola, fanta, crush, grapette e mirinda, sempre geladinhas. E a garapa de cana, com sua tradicional cor de água de pé de andarilho.
A turma da birita era clientela pontual.
Aposentados, desocupados e trabalhadores em fim de expediente encostavam seus umbigos no balcão para uma branquinha da roça ou uma brahma chopp com véu de noiva. Como acompanhamento, um naco de chouriço de sangue, linguiça da roça ou um torresmo sequinho, daqueles que ficavam em sacos de estopa. Ali a prosa corria solta, discutiam as injustiças do futebol e os rumos da nação.
Uma das maiores atrações das vendas, no entanto, eram as cadernetas. Numa era pré-cartão de crédito e débito era comum os clientes levarem os produtos e 'pendurarem' a conta para ser quitada depois.
São páginas bonitas e simples de um tempo tão distante, que parece ter ocorrido em outra encarnação. O que não me impede de fechar os olhos e sentir cheiros, sabores, e escutar vozes e canções vindas do rádio do armazém. São pedaços de um período bonito de minha vida, memórias embrulhadas em papel de pão.

Sunday, November 5, 2017

Pequeno rascunho sobre as lonjuras


(Para José e Ana, tecelões de lonjuras) 



Os estrangeiros dizem que a saudade é um termo exclusivamente brasileiro. Eu não concebo que um finlandês não a sinta. Que um indiano não sofra dessas lonjuras. 
Talvez seja apenas uma questão semântica, mas não consigo olhar para uma pessoa, independente do seu lugar de origem, sem imaginar que dentro dela exista uma saudade. 
Saudade de pessoas e lugares. 
De um tempo bom em suas vidas. 
De um dia especial ou de um marco pessoal nas suas respectivas histórias.
O norte-americano fala apenas que 'sente falta', mas não seria essa falta, essa bolha dentro da carcaça peitoral, a saudade da qual nós, lusófonos, tanto sentimos e falamos?
Embora não haja nenhum estudo científico que comprove, este profundo estado de melancolia que às vezes nos acomete é parte do DNA humano. 
Por mais que alguns ainda não tenham encontrado a sua definição e que lhes falte a palavra exata, ela nasce no indivíduo e é guardada no coração, como aquele som que mora na barriga das caixinhas de música .
Ela pode ser um jardim, mas pode ser também um abismo.
E dorme abraçada ao amor.
É poesia e canção.
Mas pode ser autoflagelo.
Nostalgia e privação.
Ela é distância geográfica e física.
E é mote para muita inspiração.
Pode ser uma ocorrência em um tempo que passou e não voltará. Um amor correspondido, a pré-orfandade ou a pré-viuvez.
Pode ser um arrepio, um déjà vu.
Que fique bem claro: tempo e saudade são filhos do mesmo pai, mas não são irmãos.
A saudade é irmã da impossibilidade.
É prima da aflição.
Ela pode acontecer em decorrência de um amor de adolescência ou de uma paixão de verão.
Pode ser fantasma recorrente de alguém que passou e fez tocar um frevo dentro do peito, mas que se dissolveu na paisagem ou evaporou.
Pode fazer tocar um tango de pequenas ruínas ou grandes tragédias.
E decretar no minifúndio dos afetos um perene estado de desesperança. 
Dizem que a saudade e a solidão caminham de mãos dadas, mas posso garantir que podemos nos sentir sozinhos no meio de uma multidão. 
Não que a solidão não seja chão propício para essas vertigens. Isso é que não.
Ela pode ser uma dor fina, como a raiz exposta de um dente, incomodando, trucidando devagarinho. Em alguns momentos pode se tornar insuportável e pedir um uísque ou outro analgésico.
A saudade é alguém que passou, mas que continua "aqui".
Alguém que o destino prometeu, mas não veio, e que mesmo sem ter vindo não se foi completamente.
Ela pode ser um lugar que ficou no passado e que hoje, por mais que revisitado, já não é a mesma coisa.
Mudam os lugares, mudam as pessoas. E o reencontro nem sempre é feliz.
Saudade, que é nome de cemitério e de flor.
É rima em poema e prêmio de consolação.
Restou a saudade, dizem os tristes.
Pobres tristes...
Sentimos saudades até de nós próprios, ou não sentiríamos um aperto quando recordamos dos dias em que tudo podíamos e nada nos parecia impossível.
Há quem sinta saudade da vida de solteiro.
Da infância e adolescência, sem as preocupações que afligem os adultos.
Saudade de visitar um amigo, um almoço em família ou de passar férias num determinado lugar.
Confesso que sinto saudade.
Saudade de muitas coisas e de algumas pessoas.
Saudade, principalmente, do que ainda não vivi. 
Saudade de Casablanca e Havana, lugares que não fui. 
Saudade de caminhar de mãos dadas pelas ruas de Praga e de Granada, terra de García Lorca.
Saudade de tomar um café numa esplanada de Roma ou de colher um girassol na beira de uma estrada da Toscana, como me prometeu o destino.
Eu não consigo - e nem quero - esconder que ando sentido uma vertiginosa saudade do futuro.