Thursday, March 23, 2017

PAPOULAS DE KANDAHAR - Roteiro de lançamento


Roteiro de lançamento do livro
Espero vê-lo nesta minha caminhada 
de divulgação do livro.
Clique na foto para ver a lista de cidades 
que nos receberão durante 2017.
Compartilhe em suas redes sociais, caso possa.

Monday, March 20, 2017

A caixa lilás (II)


(Segunda parte)

Ela perambula pela memória do bisavô mascate, um homem de gestos doces e que lhe emprestou os lamentos árabes com que demarcaria o terreno, riscaria o chão. 
Seu coração foi futuro do pretérito imperfeito, mas ela não percebeu. 
Desvendou o mistério de transformar o inverno da vida em verão. Até que, um dia, decidiu que o inverno continuaria sendo inverno, apagando o sol com a ponta dos dedos, como quem apaga uma vela de sete dias.
E aí decidiu pintar a caixa de segredos. Escolheu a cor lilás, que é a cor com que forram o fundo dos caixões onde os humanos guardam os seus mortos. 
E dentro desta caixa foi colocando todos aqueles pedacinhos seus.
Guardou o irmão que escreve poemas e a mãe que tece cachecóis.
Colocou-os, em um cantinho, junto com o pai de alma cigana e coração burocrático.
Pôs junto deles o livro com o nome da indiazinha a quem daria vida, fazendo sorrir Darcy Ribeiro.
Na sequência, foi colocando, pouco a pouco, sentimentos e coisas que, distraída, recolheria pelo chão:
Um pingente de coração com a flecha de um símbolo do zodíaco.
A fotografia de um pedaço de pedra onde o mar virou sertão.
Abraços em praças públicas e beijos nos quartos da casa de João.
Amontoou gozos, frenesis de música e poesia, delírios arrancados com fórceps.
Guardou contos de Eça, romances de Mia Couto e poemas perfumados de Drummond.
Empilhou tangos cansados, um trevo de quatro folhas e um pequeno mapa do medo. 
Emendou pedaços de cantos do mundo com o sorriso de Mick Jaeger.
Incendiou flamboyants.
Acondicionou remédios que talvez curassem males menores, mas que se recusou a tomar. 
Pegou um escapulário incapaz de um milagre, livros que jamais vai ler e canções que não irá escutar.
Roupas que nunca serviram, cuidados que rejeita e rejeitará, flores que não dão enfeite e duas papoulas de Kandahar.
Não achou os diamantes de mentirinha e a miniatura de uma Mercedes Benz. 
Vez por outra, abre a caixa e fica olhando os objetos espalhados entre os pontos de interrogação que inventou.
Deste rosário de inutilidades recende o perfume masculino que insiste em não evaporar.
Sempre que ela tem que mexer nesta caixa sente um arrepio de medo. Muito medo.
Medo, principalmente, de ter trocado os pés pelas mãos.
Ela sabe que dentro deste baú adormecem finais felizes em Casablanca, sabonetes embrulhados em papel de seda, a abolição dos mal-entendidos deste mundo e dois passos de um bolero inacabado.
E ela começa a dançar sozinha pela sala do apartamento de décimo terceiro andar.
Ela dança. Ela dança...
Dá dois passinhos para lá.
E mais dois passinhos para cá.





Friday, March 17, 2017

A caixa lilás



(I Parte)

Ela começou a construir a caixa de segredos ainda menina.
Enfiada em um vestido de gesso, passava dias a fio vendo as nuvens lamberem o Ibituruna, no que atravessavam a janela da esquerda para a direita, como se fossem ovelhas desnorteadas.
Não imaginou que durasse tanto, tanta dor.
Não pensou que durasse nada, ela própria.
Fez alguns pactos. Criou asas. Arrefeceu.
Ornamentou o baú onde guardaria suas calmas e turbilhões com dois sóis sustenidos, um aboio chorado às duas horas da tarde e penas da asa de uma graúna,
Cultivou Hiroshimas e Xangri-las de bolso, naquilo que crescia.
                                                                (Não abriria mão delas)


Fez tsunamis em copos d'água,  bebeu tornados com alka seltzer e despenteou os cabelos com vendavais.

Pelo tecido da pele, por cada poro do corpo, deixou entrar Dolores, Cartola e Jobim.
Mas não foi fácil.
Adormecia na Faixa de Gaza e acordava em Pasárgada, onde era a nobreza de um castelo sem rei.
Era a marquesa de Tordesilhas, Lisboa e Pombal.
Nas noites de insônia atravessava descalça os braseiros das fogueiras de São João que ia criando. Sangravam-lhe os pés e caminhar pela vida sempre lhe trouxe dor.
Para não ter que tocar o chão, aprenderia a voar através da dança.
É por isto que, todas as vezes que doem-lhe a alma e os pés, ela coloca o vestido branco e começa a girar.
Ela voa.
Gira num tablado flamenco, em Málaga.
Flutua numa valsa, em Versailles.
Rodopia numa rua de Havana diante dos olhos de um homem sem rosto, charuto apagado em uma das mãos, o copo de rum pela metade, na outra.
Na cintura dela repousa a mão de um jovem negro.
Nos olhos dele, ciúme e contemplação.
Trata-se de uma imagem recorrente, uma espécie de alucinação.
Ela a tudo vê, mas se fecha em copas, e bebe o silêncio em goles miúdos.
Degusta o silêncio, esse veneno que vai matando aos pouquinhos, como se fosse vinho feito a partir de uma uva colhida numa parreira de Chernobyl.


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Monday, March 13, 2017

Cenas de aeroporto


(Para José e Ana, que odeiam despedidas, mas vivem se despedindo)

Eu gosto dos aeroportos, mas tenho pavor de voar. 
Fico muito religioso quando tenho que entrar em um avião. Rezo, peço proteção e, para garantir, tomo um comprimidinho com uma dose de uísque para relaxar. 
Quase nunca funciona, principalmente nas nove horas e meia que separam Nova York de São Paulo, mas dá aquela zonzeirinha boa.
Eu dizia que gosto dos aeroportos. Gosto muito.
Se eu estou partindo, esforço-me para chegar mais cedo e beber um chope enquanto fico observando as pessoas, tentando adivinhar-lhes a parada final. 
Aquela moça bonita está indo para Havana cumprir o seu destino. Um amor espera por ela no aeroporto José Martí.
O homem magro vai para Amsterdã. Vai a negócios.
Já aquela família - casal e três filhos pré-adolescentes - está indo à Disney pedir a bênção ao camundongo Mickey.
A voz vinda do alto-falante anuncia chegadas e partidas que jamais serão minhas, mas é música para todos os ouvidos: 
Bruxelas, Roma, Tóquio, Montevidéu, Londres e Moscou são poemas recitados de uma forma tão bonita, que alegra o espírito e acende a vontade de, um dia, conhecer todos aqueles lugares.
Indo ou vindo, eu gosto dos abraços de aeroporto. 
Dos sorrisos na chegada. 
E da emoção nas despedidas, as mãos acenando até breves.
Sei que, às vezes, são acenos de adeus, definitivos, vidas que se desencontram para sempre.
Aprecio o barulho das rodinhas das malas deslizando pelo saguão. Elas já estão em viagem.
Na chegada ao destino, é sempre deliciosa a sensação de esticar as pernas e colocar os pés em terra firme. Sinto um alívio muito grande, como se tivesse acabado de escapar de uma tragédia.
Antes da partida, encheu-me os olhos a visão das equipes de tripulação, as suaves aeromoças com o cabelo amarrado, perfumadas, maquiadas, com as suas bagagens de mão. 
E os comandantes, com os quepes debaixo do braço, as túnicas impecáveis, aquele ar de que possuem superpoderes. 
Penso sempre no que vai dentro da cabeça daqueles filhos de Ícaro.
Serão homens de carne e osso, como eu?
Terão bebido como eu?
Tomam antidepressivos?
Brigaram com as esposas e namoradas?
Gozam de perfeita saúde para o desempenho da função?
Estarão em paz?
Afinal, a vida de centenas de mortais estará em suas mãos enquanto durar esta viagem, que pode ter como destino final o inferno ou o paraíso. 


Thursday, March 2, 2017

Achados e perdidos


Preciso encontrar meu passaporte brasileiro, que se exilou de mim.
Desde que cheguei de Portugal, em novembro do ano passado, que não sei do seu paradeiro.
Estará no bolso do paletó que me acompanhou na viagem?
Será que caiu no chão e foi encontrado pela mulher da limpeza, e colocado num escaninho do departamento de achados e perdidos de algum lugar?
Terá sido esquecido num café de aeroporto e hoje traz a cara de um terrorista, um traficante de drogas, ou outro contraventor no lugar onde um dia existiu uma foto minha?
Eu gosto da minha fotografia naquele documento.
Estou dez anos mais moço e meu rosto ainda não era esse mapa pluvial do estado de Minas Gerais.
Estou dez anos mais novo e o mundo era um lugar bem mais jovem, ali.
Há dez anos ainda ‘não havia para mim Donald Trump, ou a sua mais completa tradução’.
Não havia Neymar nem Michel Teló, e meu time ainda não havia flertado com a Segunda Divisão.
Há dez anos eu ainda chorava as dores de outros onze de setembro.
Desde então, aumentou o buraco na camada de ozônio, subiu o preço da gasolina, árabes e judeus continuam na mesma e mesmo eu, continuo por aqui, na mesmíssima.
Só que mais gasto.
E seu eu precisar ir para o Brasil? – pergunto aos meus botões.
E se explodir uma guerra, e eu tiver que fugir como um cão, com o rabo entre as pernas? – pergunto a minha covardia.
Preciso encontrar a coragem para não fugir, é verdade.
Mas antes disto, preciso encontrar o meu passaporte.
E preciso de muito mais.
Preciso encontrar a coletânea de Carlos Drummond de
Andrade, e ler em voz alta o Poema das Sete Faces.

(…) Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração (…)

Preciso encontrar minhas sete faces e, se preciso for, dá-las a tapa, pois ainda há tempo.
Ainda há tempo de mudar de opinião.
De mudar de ares, de roupa e de vida.
Há tempo de virar o jogo.
De ganhar o jogo.
De criar novas regras e de reinventá-lo, o jogo.
Tempo de rabiscar montanhas e dar novas formas às nuvens.
E de pagar o preço.
Pois ainda há tempo de cuidar da saúde e retomar as caminhadas matinais.
Preciso encontrar, ainda, o amor próprio, a inteligência de querer ser longevo, de querer viver mais e melhor.
Inteligência, pois sim.
E encontrar os meus óculos, perdidos num lugar interior.
Mas não os óculos, esses que me permitem enxergar o mundo com meus dois graus de astigmatismo no olho esquerdo, e um ponto cinco de miopia no direito.
Preciso encontrar aquele par de óculos especiais que permitem enxergar-me neles, peneirando, na leveza dos aros, o sol da cegueira que me desilumina tristemente os dias.
Este par de óculos que me permite ver joio e joia, menino bonito de mim.



Saturday, February 25, 2017

Antropônimos esdrúxulos




Li em algum lugar que os nomes mais populares de 2015 foram Alice, Sophia e Julia para as meninas e Miguel, Artur e Davi para os garotos, repetindo o mesmo resultado do ano anterior, mudando apenas a ordem das preferências.



Nome próprio ou antropônimo é o nome dado à pessoa ao nascer.  O nome é considerado o elemento mais antigo de identificação do homem.
No Direito, o nome atribuído à pessoa física é chamado de nome civil e tem a função de identificar e individualizar a pessoa durante toda a sua existência e até depois dela. Ter um nome civil é um Direito garantido por lei.
A menos que algo muito impactante aconteça na vida da pessoa – uma operação de mudança de sexo, por exemplo – o nome é uma das poucas coisas que o indivíduo vai carregar para sempre. Os pais deveriam pensar muito antes de nomear seus filhos.
No Brasil os nomes próprios são muito imaginativos. Muitos pais brasileiros fazem uma geleia geral na escolha deste substantivo tão essencial. E o resultado quase nunca é bom.
Os genitores gostam de homenagear alguém, toda vez que nasce uma criança na casa. Em geral, escolhem alguma celebridade, um cantor, uma atriz, o que quase sempre dá um rolo danado.
Os mocinhos da novela das 8 abundarão no ano que vem, podem apostar. Já vivemos a era dos “ciganinhos” Igor de Explode Coração e das odaliscas Jade, de O Clone, e os novos folhetins globais já devem estar rendendo muitas homenagens por todo o país. Novos Chicos, eu asseguro, ainda virão.
Os jogadores de futebol também se reproduzem em cativeiro.  Entre tantos, tem o Kempes da Chapecoense, o Breitner do Figueirense, que não me deixam mentir.
E tem os Maikes, Mikes e Maicons, que fazem parte de um corrente mais americanizada da coisa. Eles são tantos, que daria uma crônica só deles.
Conheci um sujeito chamado Waldisney. O pai era vidrado nos gibis de Walt Disney. E teve também o Uesneive, uma singela homenagem à marinha americana, a potente Us Navy. E tem ainda as sandices absolutas. Como no caso de Chevrolet da Silva Ford, que achei na internet. O seu pai deve ter sido um mecânico.
Existem os casos das combinações, ajuntamento dos nomes do pai e da mãe e que costumam redundar em algo curioso.
Minha amiga Claudinete logo me salta à memoria. Claudio e Janete se misturaram também no nome da filha. Tem aos milhares.
Existe também aquele caso dos malucos-beleza, que dão aos seus rebentos os nomes mais esdrúxulos de que se tem notícia. Os cantores Pepeu Gomes e Baby Consuelo, hoje Baby do Brasil, por exemplo, foram cruéis com suas crias.
Riroca era um nome carinhoso que o guitarrista chamava Baby.  Zabelê é o nome de um pássaro da Bahia. Nãnashara é uma mistura de shara (que quer dizer som) com nana, que era como a Riroca chamava a irmã;  Pedro Baby foi uma homenagem que fizeram a si próprios e teve ainda o menino  Kryshna Baby, que Pepeu diz ter sido um tributo a Deus.
Riroca, que hoje é pastora evangélica, mudou legalmente o seu nome. Ela agora é Sarah Shiva.
As homenagens aos santos também são muito comuns. Curiosamente, um dos santos mais populares dos dias de hoje, São Judas Tadeu – o das causas impossíveis – quase ficou de fora. Mas é frequentemente confundido com Judas Iscariotes, que traiu Jesus. Aliás, conheço muitos Jesuses.
Na década de 1960 e 1970 eram muito comuns os nomes compostos. Marta Cristina, Regina Maria, Paulo Sérgio, José Luiz, Luiz Carlos, Maria Aparecida e por aí afora.
La em casa éramos todos Carlos. Meu pai queria demonstrar gratidão a uma pessoa que o acolheu quando ele trocou a roça pela cidade, em 1958.
Carlos Antonio - que já morreu - e Antonio Carlos são irmãos deste Carlos Roberto que vos fala.
Até pouco tempo eu não gostava do nome que me deram. Achava que o primeiro nome é que conta e que eu não poderia ser Carlos, como o primogênito e o caçula da casa.
Para nos distinguir, eu virei o Roberto, irmão de Toninho.
Carlos Antonio era Carlos Antonio mesmo.
Na infância, eu odiava quando minha mãe me chamava pelo nome completo. Nestes casos, só Jesus na causa.
Quando ela chegava no portão da casa e gritava ‘Carloooos Robeeeerto’, eu sabia que era bronca.
Aqui nos Estados Unidos é costume nos chamarem pelo primeiro e último nome, o que pra mim é sempre complicado.
Quando recebo a correspondência do leão do imposto de renda, por exemplo, é um calafrio. O homem da imigração também me chama de Carlos Lima, quando retorno ao país.
Quando dito por inteiro, meu nome soa como o de um cantor de bolero, destes que ganham a vida cantando em churrascarias.

“E agora, respeitável público, com vocês… Caaaaarrloooooos Robeeeeeerto!!!”.

Com o passar do tempo tenho me pacificado e aprendendo a aceitar as coisas que fogem ao meu controle. Eu já não me torturo com a escolha do nome que me deram e até consigo encontrar alguma beleza nele.
Aceitar dói menos, certo?
Hoje eu sei que Carlos Roberto não foi uma brincadeira de mau gosto dos meus pais. Dito da maneira correta, no tom certo, é quase um poema.


Tuesday, February 21, 2017

Três poemicos sem a menor importância


(I)
Desorizonte

Em Belo Horizonte
Enterrei minha avó
E seu filho, meu pai

Em Belo Horizonte
Enterrei o sonho
De transformar
O inverno da vida
Em feliz verão

Belo Horizonte 
É o cemitério
Onde estão enterrados
Passados e futuros
Meus.


(II)
Desmágica

No que acendo a luz,
apago o silêncio
do quarto.


(III)

Desastre

Vasculham a alma, os dois,
Tentando achar a caixa-preta 
daquele grande amor.