Tuesday, November 14, 2017

Memórias de armazém


(Para Iara Carvalho e Fátima Pereira, filhas de vendeiros, e que contribuíram para esta crônica)

Uma ou duas portas de frente para a rua. Às vezes, um banco de madeira para quem quisesse permanecer. Dentro, algumas montras feitas por marceneiro, balcão com vitrines transparentes, prateleiras, um rádio sempre ligado e a imprescindível balança Filizola. Este era o cenário do universo maravilhoso dos armazéns que ainda hoje habitam o imaginário de quem viveu há não muito tempo no interior do Brasil.
Para a população não era chamado de armazém. Era a venda.
Ah, as vendas de antanho...
Os supermercados e shopping centers nos roubaram tanto de intimidade e poesia... Tanto!
Na 'venda' que habita a minha saudade tinha rapadura, lápis sem ponta e com ponta, e com borracha na ponta. Tinha tabuadas, cadernos da marca tilibra, convencionais ou de caligrafia.
E um baleiro giratório sobre o balcão com balas sortidas e chicletes ping-pong e ploc.
A granel estavam disponíveis do alpiste ao açúcar, farinhas de trigo, mandioca e milho, feijão de várias cores e amendoim com casca.
Tinha também arroz, milho, canjiquinha e canjicão. E farelo para alimentar os porcos.
Pão?
De doce e de sal, ao gosto do freguês, e ficavam expostos na vitrine, junto com umas delícias como a maria-mole, o suspiro, as cocadas e o pé de moleque, esses últimos geralmente preparados pela esposa do proprietário.
A banana era vendida em cachos ou a dúzia: prata, maçã, caturra e ouro. Tudo era embrulhado em papel pardo e bem amarrado com barbante de algodão.
Jabuticaba era vendida ao litro. Laranjas e mexericas a dúzia ou ao cento.
Em alguns meses do ano era possível encontrar pitanga, seriguela, jambo e fruta do conde.
Aquilo pendurado na parede não era um extintor de incêndio, e sim, uma bisnaga de salame, que o atendente ia cortando de acordo com o apetite e orçamento do freguês.
Havia também uma espécie de trapézio pendendo do teto, onde eram dispostas as linguiças semidefumadas de boi, porco e mista.
Para os meninos havia bolas de borracha Pelé e Tostão. A Pelé era de cor escura, enquanto a Tostão era branca, assim como as "dente de leite", que queimavam e deixavam hematomas em quem se atrevesse a ficar na frente.
Para chutá-las era providencial adquirir um conga, um kichute ou um bamba maioral.
Havia caminhões artesanais feitos de lata de óleo de cozinha reciclada e pneus de sandálias havaianas jogadas fora.
Tinha peteca confeccionada com palha de milho e penas de galinha. E cromos para os álbuns de figurinha e 'caixinhas de segredo', que se comprava sem saber o que vinha dentro.
Bonecas de pano e matéria plástica, que viravam os olhos quando colocadas na horizontal, brincando de dormir.
Havia também times inteiros de futebol de botão, piões de madeira e soldadinhos de chumbo sempre prontos para épicas batalhas.
O Rio Doce corria pertinho e havia chumbada, linha de nylon e anzóis de todos os tamanhos. E varas de pescar feitas de bambu e ubá. Além do chumbinho para as espingardas de pressão.
E um sortimento de bolinhas-de-gude - que no interior de Minas chamávamos de biroscas -, que parecia saído da arca de algum tesouro. Eu era muito ruim de birosca.
Na venda era possível comprar manivela feita de ripa de madeira, que era usada para dar linha aos papagaios e pipas. E papel em todas as cores, para a confecção daquelas magníficas aves de seda.
Para as donas de casa tinha anil de clarear a roupa, linhas de diversas espessuras, botões de vários tamanhos, agulhas, alfinetes e dedal.
Impossível não sentir o cheiro forte recendendo de um canto detrás da porta. Era lá que ficava o tambor de querosene, que muitas famílias usavam para alimentar os lampiões e lamparinas, que também eram vendidos ali.
O combustível era disponibilizado em vasilhames reciclados. A clientela humilde podia pedir corozena ou criozena, que dava no mesmo. O balconista não reparava.
Outros itens de odor desagradável eram a naftalina - eficaz no combate às traças - e a creolina, usada para curar 'bicheiras' em animais, desinfetar galinheiros ou eliminar as pulgas.
Havia detefon para as baratas e neocid para os piolhos, duas pragas que driblavam o extermínio.
Como contraponto tinha aqua velva, seiva de alfazema, trim para passar no cabelo, talco, pomada minâncora para o 'cecê' e assaduras, e o ortodoxo polvilho granado, antídoto para o chulé.
Em determinados lugares era comum encontrar fichas de telefone e pedras de isqueiro.
Canivete, palha e fumo de rolo eram comodidades obrigatórias nos armazéns.
Da barriga da geladeira Prosdócimo ou Cônsul saíam a milenar coca-cola, fanta, crush, grapette e mirinda, sempre geladinhas. E a garapa de cana, com sua tradicional cor de água de pé de andarilho.
A turma da birita era clientela pontual.
Aposentados, desocupados e trabalhadores em fim de expediente encostavam seus umbigos no balcão para uma branquinha da roça ou uma brahma chopp com véu de noiva. Como acompanhamento, um naco de chouriço de sangue, linguiça da roça ou um torresmo sequinho, daqueles que ficavam em sacos de estopa. Ali a prosa corria solta, discutiam as injustiças do futebol e os rumos da nação.
Uma das maiores atrações das vendas, no entanto, eram as cadernetas. Numa era pré-cartão de crédito e débito era comum os clientes levarem os produtos e 'pendurarem' a conta para ser quitada depois.
São páginas bonitas e simples de um tempo tão distante, que parece ter ocorrido em outra encarnação. O que não me impede de fechar os olhos e sentir cheiros, sabores, e escutar vozes e canções vindas do rádio do armazém. São pedaços de um período bonito de minha vida, memórias embrulhadas em papel de pão.

Sunday, November 5, 2017

Pequeno rascunho sobre as lonjuras


(Para José e Ana, tecelões de lonjuras) 



Os estrangeiros dizem que a saudade é um termo exclusivamente brasileiro. Eu não concebo que um finlandês não a sinta. Que um indiano não sofra dessas lonjuras. 
Talvez seja apenas uma questão semântica, mas não consigo olhar para uma pessoa, independente do seu lugar de origem, sem imaginar que dentro dela exista uma saudade. 
Saudade de pessoas e lugares. 
De um tempo bom em suas vidas. 
De um dia especial ou de um marco pessoal nas suas respectivas histórias.
O norte-americano fala apenas que 'sente falta', mas não seria essa falta, essa bolha dentro da carcaça peitoral, a saudade da qual nós, lusófonos, tanto sentimos e falamos?
Embora não haja nenhum estudo científico que comprove, este profundo estado de melancolia que às vezes nos acomete é parte do DNA humano. 
Por mais que alguns ainda não tenham encontrado a sua definição e que lhes falte a palavra exata, ela nasce no indivíduo e é guardada no coração, como aquele som que mora na barriga das caixinhas de música .
Ela pode ser um jardim, mas pode ser também um abismo.
E dorme abraçada ao amor.
É poesia e canção.
Mas pode ser autoflagelo.
Nostalgia e privação.
Ela é distância geográfica e física.
E é mote para muita inspiração.
Pode ser uma ocorrência em um tempo que passou e não voltará. Um amor correspondido, a pré-orfandade ou a pré-viuvez.
Pode ser um arrepio, um déjà vu.
Que fique bem claro: tempo e saudade são filhos do mesmo pai, mas não são irmãos.
A saudade é irmã da impossibilidade.
É prima da aflição.
Ela pode acontecer em decorrência de um amor de adolescência ou de uma paixão de verão.
Pode ser fantasma recorrente de alguém que passou e fez tocar um frevo dentro do peito, mas que se dissolveu na paisagem ou evaporou.
Pode fazer tocar um tango de pequenas ruínas ou grandes tragédias.
E decretar no minifúndio dos afetos um perene estado de desesperança. 
Dizem que a saudade e a solidão caminham de mãos dadas, mas posso garantir que podemos nos sentir sozinhos no meio de uma multidão. 
Não que a solidão não seja chão propício para essas vertigens. Isso é que não.
Ela pode ser uma dor fina, como a raiz exposta de um dente, incomodando, trucidando devagarinho. Em alguns momentos pode se tornar insuportável e pedir um uísque ou outro analgésico.
A saudade é alguém que passou, mas que continua "aqui".
Alguém que o destino prometeu, mas não veio, e que mesmo sem ter vindo não se foi completamente.
Ela pode ser um lugar que ficou no passado e que hoje, por mais que revisitado, já não é a mesma coisa.
Mudam os lugares, mudam as pessoas. E o reencontro nem sempre é feliz.
Saudade, que é nome de cemitério e de flor.
É rima em poema e prêmio de consolação.
Restou a saudade, dizem os tristes.
Pobres tristes...
Sentimos saudades até de nós próprios, ou não sentiríamos um aperto quando recordamos dos dias em que tudo podíamos e nada nos parecia impossível.
Há quem sinta saudade da vida de solteiro.
Da infância e adolescência, sem as preocupações que afligem os adultos.
Saudade de visitar um amigo, um almoço em família ou de passar férias num determinado lugar.
Confesso que sinto saudade.
Saudade de muitas coisas e de algumas pessoas.
Saudade, principalmente, do que ainda não vivi. 
Saudade de Casablanca e Havana, lugares que não fui. 
Saudade de caminhar de mãos dadas pelas ruas de Praga e de Granada, terra de García Lorca.
Saudade de tomar um café numa esplanada de Roma ou de colher um girassol na beira de uma estrada da Toscana, como me prometeu o destino.
Eu não consigo - e nem quero - esconder que ando sentido uma vertiginosa saudade do futuro. 

Monday, October 30, 2017

Um amarelo sem charme



No Brasil eles se vestem de amarelo. Um amarelo gema de ovo, que certamente não é o tom mais bonito na paleta de cores. Um dourado diferente daquele das penas dos canários e da camisa da seleção de futebol.
Se a ideia ao escolher o fardamento foi evocar um dos temas da bandeira nacional, poderiam ter elegido outro. 
O azul do céu brasileiro, talvez. 
Ou o verde das nossas matas. 
Mas não foi assim.
Não vemos muitas pessoas vestidas de amarelo pelas ruas. Trata-se de uma cor desprestigiada e que parece ainda não ter entrado na moda. Eu, que sou pouco afeito a modismos, não tenho uma única peça desta cor em meus gaveteiros. E é provável que você, que me lê, também não tenha.
Falemos dos indivíduos vestidos de amarelo.
Se o cão for realmente o melhor amigo do homem, os carteiros ficaram de fora da lista dos profissionais a gozar do benefício do afeto canino. São tão épicos os embates entre eles, que já renderam desastradas escaladas em muros e árvores, pernas de calças rasgadas e correspondências espalhadas pela rua.
Os cães odeiam os carteiros. 
Eu, não.
Eu os admiro. Gosto muito deles.
Muito antes da popularização dos telefones inteligentes e do surgimento da internet, eram eles os mensageiros dos nossos afetos e aflições, profissionais que gozavam da estima geral. 
Naquele tempo em que as pessoas se orgulhavam das caligrafias e treinavam os manuscritos em cadernos apropriados, as missivas eram testamentos do que ia pela cabeça, alma e coração de quem remetia. 
Era tão bom receber uma carta, com seus selos comemorativos homenageando heróis da história, esportistas, criaturas da fauna e da flora caprichosamente desenhados por artistas de grande talento. 
Era ainda mais especial aquela carta que vinha do estrangeiro, com envelope de moldura quadriculada em azul e vermelho, tatuada com as palavras 'par avion' ou  air mail', indicando que chegaram a bordo de  uma aeronave proveniente de uma terra estrangeira.
Não cheguei a ser um filatelista, no sentido bíblico, mas tinha o costume de guardar os selos das cartas que recebia.
Escrevi e recebi muitas. Centenas. Talvez milhares delas.
Era comum as pessoas trocarem cartas num 'virtualismo virtuoso' que tinha muito de intimidade e confiança. 
Como não evocar as célebres correspondências de Clarice Lispector e Manuel Bandeira, ou de Mário de Andrade e Tarsila do Amaral, registradas posteriormente em livros deliciosos de ler?
Onde cresci, o carteiro subia ou descia a rua com o seu alforje cheio de envelopes. Muito raramente, entregava algum pacote maior, algum presente.
Na ausência das campainhas de hoje, eles batiam palmas ao portão, muitas vezes gritando o nome do destinatário, anunciando a chegada de notícias. 
A entrega de uma carta vinha sempre carregada de suspense e emoção. 
Ela poderia trazer notícias boas ou ruins. 
Um sobrinho que nasceu na Bahia, por exemplo. Ou o convite para um casamento ou batizado em Porto Alegre; a formatura do filho de um amigo na distante América do Norte também poderia ocorrer, e por aí afora.  
As cartas de pai e mãe traziam o calor de um afago e sábios conselhos.
A de um amigo trazia a camaradagem, a partilha.
Mas as carta de amor...
Ah, as cartas de amor...
Não tenho dúvida de que elas foram inventadas pelo cupido em dia de grande inspiração.
Elas traziam sentimento e encanto, fotografias, promessa de amanhãs risonhos e recatado tesão. Não raro, carregavam o cheiro da colônia dele ou a marca do batom dela.
Muita gente se conheceu por carta e casou respaldado pelo que leu.
É como se ficasse atraído pelo interior da outra pessoa e não pelo que os olhos, nas condições presentes, veem.
Era como se tivessem tomado conhecimento um do outro 'do umbigo para fora', e não da 'figura' escancarada nas imagens dos vídeos dos computadores.
Os tempos agora são outros, sabemos, e o resultado visual do que pregam nas academias de ginástica se tornou mais importante do que a substância de um ensinamento de Nietzsche, ou um arrepio soprado ao ouvido por Drummond.  
Assim sendo, é natural que os carteiros tenham perdido tanto do encanto. A rapidez e praticidade de um e-mail - ou uma mensagem de voz num destes aplicativos de celular - transformaram as correspondências pessoais em objetos de museu.
Em seus alforjes, nossos homens de amarelo carregam mais peso, pacotes de encomendas compradas pela internet, contas de telefone e cartões de crédito, ou de água e luz. 
Se a cor de seus uniformes permanece intacta, a magia do ofício desbotou e apenas os cães da rua ainda não se aperceberam disto.


Monday, October 23, 2017

Menino passarinho



Vivi com o Ronilton Correa por quase cinco anos, quando cheguei aos Estados Unidos. 
Eu não sou fácil. Nunca fui. Mas o coração tranquilo do "Pitico", sua infinita generosidade e capacidade de relevar, propiciou que jamais tenhamos tido um único desentendimento ao longo daquele tempo (e nem depois). 
Nós nos tornamos irmãos, destes que escolhemos na contramão da 'obrigatoriedade' imposta pela genética.
Lembro-me do dia em que alugamos um porão na Hensler Street, um lugar inesquecível e onde eu viveria alguns dos anos mais bonitos de minha vida.
Apesar de termos residido em bairros vizinhos em Governador Valadaes, não nos conhecíamos de lá. Eu era colega de classe do seu irmão Artur, no Ginásio Duque de Caxias, e conhecia Ari, casado com uma de suas irmãs.
Quando decidimos dividir o aluguel, Pitico vivia em um quarto em cima do restaurante Rio Lima, na Madison Street. Marquei de me encontrar com ele após o expediente, que para nós ocorria sempre por volta da meia noite.
Nenhum dos dois possuia carro e tivemos que levar suas trenheiras (roupas, fitas cassetes, uma caixa de sapatos cheia de cartas da família) e pouco mais em sacolas de lixo pela Ferry Street. Quatro sacolas daquelas pretas, para ser exato.
Após despejarmos seus pertences no nosso covil, demos um pulo ao Path Mark e compramos pão, mortadela e fanta laranja. Comemos a nossa primeira refeição sentados no chão, haja vista que não tínhamos sequer um colchão para dormir.
Mobiliamos o porão com móveis encontrados no lixo e ficou super legal. Transformamos aquele lugar escuro e sem vida em um lar, com pôsteres de nossos ídolos nas paredes e onde se escutava muita música brasileira.
O primeiro investimento foi uma radiola, e nela escutávamos os bolachões que comprávamos na Coisa Nossa, a pioneira das lojas de produtos brasileiros em New Jersey.
Dividíamos as incertezas do futuro e nos tínhamos um ao outro. 
Não era fácil ser brasileiro a serviço de portugueses e espanhóis nos restaurantes daquele tempo. Havia contra o brasileiro muito preconceito, um estigma disseminado sabe lá Deus por quem, e tivemos que trabalhar dobrado para desfazer o  rótulo.
Chorávamos nossas dores de amores de juventude não correspondidos no ombro um do outro e sonhávamos em, um dia, irmos ao junto ao Brasil, tão logo nos legalizássemos.
Planejamos ir a shows de MPB em BH, tomar banhos de mar nas águas de Fortaleza, curtir baladas intermináveis onde houvesse baladas e beber uma brahma gelada, acompanhada de frango assado, daqueles de 'televisão de cachorro', no mercado municipal da Governador Valadares. Infelizmente a vida nos levou para lugares diferentes e não chegamos a realizar o sonho comum aos dois, apesar de sempre gravitarmos em torno de Newark.
Vivemos momentos muito especiais e cada pequena vitória pessoal era comemorada pelo outro como uma final de copa do mundo. Tenho muitas estórias para contar daquele tempo, algumas impublicáveis. Mas tem este episódio que relato a seguir, que demonstra bem o tipo de pessoa que era o Pitico.
Rolava no apartamento um cateado nos dias de folga. Jogávamos apostado uma moeda de 25 centavos por cada partida. Naquele dia, Pitico estava com sorte e eu não conseguia tirar as cartas que necessitava para vencer. Jogamos por cerca de seis horas seguidas e ele já havia me limpado em dez dólares. Inconformado, quis recuperar, propondo a ele um tudo ou nada, casando desafiadoramente uma nota de dez.
Pitico deu uma caçoada e aceitou, antes de me aplicar uma nova surra.
Mau perdedor, pedi que apostássemos os vinte ganhados e ele, com pena, topou.
E foi me vencendo, uma vez após a outra, até já ter acumulado 170 dólares, dos 220 semanais que eu ganhava lavando pratos na cozinha do O'Campino.
Fui dormir bêbado e falido. 
Na manhã seguinte, quando acordei ele já tinha saído para o trabalho. Em cima do meu criado-mudo estava um envelope contendo o dinheiro perdido por mim na jogatina da noite anterior e um bilhete contendo uma única palavra:
    "PATO!"
Há dois anos, Pitico descobriu que estava com câncer e lhe foi dado apenas um ano para viver. Ele não se conformou, fez de conta que não era nada com ele.
Desafiou a medicina, continuou respirando, sonhando com futuros bonitos e ainda viveria o dobro do tempo dado pelos médicos.
E viveu como sempre viveu, com intensidade e paixão. 
Viveu para acompanhar um pouco mais a trajetória dos filhos adolescentes.
Viveu para a caminhar um pouco mais ao lado de Márcia.
Viveu para ver e abraçar a primeira neta e se tornar penta-campeão da Copa do Brasil com o Cruzeiro, um dos seus grandes amores.
Viveu com a nobreza de sempre, sem reclamar das dores atrozes e das cruéis impossibilidades, e nos mostrou que a vida é bela e deve ser apreciada e vivida até o último suspiro, ainda que o inevitável fim tenha data marcada.
Na madrugada passada (22 de outubro), Pitico virou passarinho. Ele, que era leve e sempre soube voar.
Vou sentir demais a sua falta, meu menino.
Até um dia, Pitico.
Você continua vivo em mim e nos seus.


* Foto tirada em 1984, na Wilson Avenue, em Newark. Éramos jovens e acreditávamos na imortalidade. 

Saturday, October 21, 2017

Existirá poesia?


Existirá poesia
Em um discurso do papa
Na fumaça de um Marlboro
Em um grito de socorro
ou num corpo largado na esquina?

Existirá poesia
num verso do apocalipse
na escuridão de um eclipse
no voo do homem morcego
No olhar crispado de medo
Ou no quadro da santa ceia?

Existirá  poesia
Na bula da xilocaína,
No rastro da cocaína
No gosto da fanta uva
No cheiro da camomila?

No sangue do conde drácula
Num gole de coca-cola
No menino que cheira cola
No aviso postado na placa
E no som de uma buzina?

Existirá poesia
na lâmina desta navalha?

No baton do colarinho
e no azul turquesa deste mar?

Existirá poesia
ou será tudo prosa e maresia?

Wednesday, October 18, 2017

Sangue novo na crônica



Jorge Sanglard
Jornalista e pesquisador. Escreve em jornais em Portugal e no Brasil

   A crônica é uma das vertentes literárias cultuadas no Brasil por ter sido terreno por onde pontuaram e/ou pontuam nomes como Machado de Assis, José de Alencar, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, João do Rio, Nelson Rodrigues, Affonso Romano de Sant’Anna, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Humberto de Campos, Ciro dos Anjos, Sérgio Porto, Rachel de Queiroz, Diná Silveira de Queirós, Henrique Pongetti, Alcântara Machado, Marques Rebelo, Lúcio Cardoso, Lygia Fagundes Telles, Mário Prata, Lêdo Ivo, Moacyr Scliar, Millôr Fernandes, Artur da Távola, Ivan Lessa, Martha Medeiros, Antonio Torres, Ignacio de Loyola Brandão, Luis Fernando Veríssimo, Tatiana Belinky, Marcos Rey, Carlos Heitor Cony, Vinicius de Moraes, Rubem Alves, Alcione Araújo, Maria Rita Kehl, José Castello, Frei Beto, Marcelo Rubens Paiva, João Ubaldo Ribeiro, Jose Roberto Torero, Joaquim Ferreira dos Santos, Xico Sá, Fernanda Takai, Fernando Brant, Eduardo Almeida Reis, entre muitos outros escritores e escritoras.
   Estes são apenas alguns exemplos da versatilidade da crônica brasileira ao longo do tempo, perpassando o século XIX, todo o XX e este início de XXI. Afinal, a crônica tem a ver com o termo gregochrónos, ou tempo, e pode ser entendida como uma escrita que lança mão de aspectos do cotidiano, mas não perde a veia literária.
   Mas não é todo dia que surge um novo cronista ou uma nova cronista na literatura. A tarefa não é das mais fáceis e requer talento e criatividade. Trabalhar literariamente com fatos do dia a dia pode até parecer simples, mas não é tão simples assim. E, ao longo do tempo, a imprensa tem sido um canal para que cronistas se expressem e deixem suas impressões sobre quase tudo e sobre todos. Neste início de século XXI, com a ampliação do alcance das mídias sociais, os blogs tomaram conta do território livre da internet e acabaram sendo uma nova forma de comunicação direta entre cronistas e os leitores. Portanto, é de se esperar que gente nova surja no pedaço e passe a não ser mais difícil de ser encontrada e/ou lida.
  Muito do que se tem lido em jornais ou blogs por aí afora sobre os acontecimentos do dia a dia em diversas partes do mundo é fruto da iniciativa de escritores, pensadores, pesquisadores, filósofos, sociólogos, antropólogos, professores e jornalistas. Os cronistas ou as cronistas da atualidade procuram revelar a sua versão a respeito da insatisfação com a realidade violenta e assustadora que ronda o mundo em muitos setores e procuram ainda mostrar a capacidade de inspirar outros e outras a escrever a sua visão dos fatos que sacodem o cotidiano das cidades seja no Brasil seja nos EUA ou ainda na Europa e/ou na Ásia, África ou no Oriente Médio.
 Assim, quando surge uma nova voz e que se lança ao universo da crônica para escrever sobre questões que incomodam e/ou impulsionam as pessoas, é preciso ficar atento, pois o desafio é grande. Principalmente, quando essa nova voz que faz da crônica seu instrumento de expressão é um jornalista mineiro e brasileiro radicado desde 1984 em Newark, nos Estados Unidos, e que junta seus escritos criados ao longo dos últimos três anos num volume intitulado “Papoulas de Kandahar”. Pois é, Roberto Lima lançou um livro de crônicas cutucando a onça com a vara curta e está percorrendo cidades aqui, ali e acolá com a missão de, ao lançar seus escritos abordando a dualidade da vida, debater fatos do cotidiano, que marcaram e/ou marcam a vida brasileira, norte-americana ou de onde for. É sangue novo na crônica e os leitores daqui ou de lá agradecem.
   A fonte de inspiração para o livro é a dualidade da vida expressa pela papoula, uma flor cultivada principalmente na Ásia e no Oriente Médio, e que produz tanto a resina de que é feita a morfina, um medicamento que ajuda a reduzir a dor extrema e a salvar vidas, como também a heroína, uma potente droga que corrói e destrói vidas, principalmente, na sociedade norte-americana, onde uma onda de consumo de heroína está no centro do debate atualmente em grandes cidades. Essa dualidade permeia as crônicas de Roberto Lima e instiga o leitor a procurar entender aspectos do sonho norte-americano e do pesadelo brasileiro, ou do pesadelo norte-americano e do sonho brasileiro. Essa dualidade depende do ponto de vista. Roberto Lima, como muitos brasileiros que embarcaram para os Estados Unidos já foi lava-pratos, ajudante de cozinha, garçom e servente de pedreiro, até fazer do jornalismo seu meio de vida, ao criar e manter na ativa o Brazilian Voice, um jornal em língua portuguesa que circula entre os imigrantes brasileiros da região polarizada por Newark.                                  
   Roberto Lima já publicou anteriormente outros dois livros em parceria com o poeta e professor universitário Bispo Filho, que é um amigo do peito desde a adolescência vivida em Governador Valadares. Trata-se de “Colosso Ciclone”, um volume de poesia, de 1982, e “Meninos de São Raimundo”, reunindo poesia e prosa, de 2013, além de assinar ainda o livro de poesia “Tango Fantasma”, lançado em 1988. Agora, desde abril de 2017, o escritor está em tour de lançamento de “Papoulas de Kandahar”,  pelos Estados Unidos, Brasil, Portugal, Espanha, Açores, Ilha da Madeira e Japão. E o autor ainda promete para 2018 um novo livro de poesias, intitulado “Caixa de Suspiros”, e outro volume de crônicas, “Pequeno Mapa do Medo”. Como se vê, a dualidade é a marca de Roberto Lima.

Thursday, October 12, 2017

Papoulas de Kandahar: crônicas com sabor de poesia


(Por Wilson Pereira)

Há alguns anos, numa noite de alegria e confraternização, na casa do inesquecível e sempre querido amigo Jorge Ferreira, desses cujo selo da amizade fica para sempre grudado em nossa memória e em nosso coração,  eu conversava com o Ziraldo. Falávamos de livros e de poemas que nos tocam o fundo da sensibilidade. Quando citei algo – não me lembro se um livro ou poema – ele me saiu com essa tirada bem própria do seu humor e de sua sinceridade artística: “hoje eu tenho um critério para gostar de um texto: é sentir inveja”. Captei imediatamente o sentido da palavra “inveja” e vesti a carapuça.
Desde então eu me lembro do Ziraldo muitas vezes. Se eu fosse músico, compositor principalmente, gostaria de ter feito “Tocando em frente”, de Renato Teixeira e Almir Sater. Também gostaria de ter feito “O que é o que é”, de Gonzaguinha. E, ainda, de ter feito quase tudo que o Chico Buarque fez como compositor. Aliás, por falar no Chico, ouvi certa vez uma “sacada” singular em termos de inveja: o sujeito dizia: o Gilberto Gil é genial, o Caetano é outro monstro. Queria ser músico como eles. Agora, o Chico…  O Chico, eu queria era ser ele.
Enfim, o que o Ziraldo quis dizer – e disse, porque para bom entendedor uma vírgula é letra – é que: isso é bom demais, isso me preenche, isso me arrebata, me esfola e me acaricia a alma artística.
Pois bem, quando leio uma crônica de Roberto Lima, sinto essa espécie de inveja: como eu gostaria de escrever crônicas assim.
Roberto Lima está lançando seu primeiro livro de crônicas: Papoulas de Kadanhar.  Livro primoroso,  que nos puxa do fundo de nós para a luz solar dos olhos, pela isca das palavras. Não há como não se emocionar com a leitura de “Aretha Franklin e Deus”, em que o autor, com intervalos de ironia como este “Mas nem só de Aretha Franklin vive o ‘Todo Poderoso’. Quando Ele cansa e cochila no serviço, acontecem Tsunamis, Fukushimas, golpes de Estado, negociatas de corrupção e gols contra no futebol”, discorre sobre a divina cantora e ainda faz ilações filosóficas e líricas, da mais pura e elevada poesia, sobre a existência de Deus.
Roberto Lima, coração aberto e disponível, tem o dom de fazer amigos. Muitas de suas crônicas são um tributo à amizade. São relatos, poéticos e bem humorados, de encontros e episódios com amigos, muitos deles  celebridades, como Gonzaguinha, Raul Seixas, Guarabira, entre outros. Alma sensível e melódica, é com os músicos que tem mais proximidade. Mas também, poeta que é, além de cronista, com livros publicados, tem convivência afetiva com escritores. Exemplo é a crônica “Veríssimos”, em que conta sua aventura embevecida de acompanhar o escritor Luís Fernando Veríssimo em Fort Lauderdale (EUA).
Humor, ironia e poesia percorrem os textos de Papoulas de Kadanhar, do início ao fim. Humor, para citar só duas passagens: “ O homem não aprenderia a sorrir com o rabo, nem se tivesse um”. (“Bom mesmo é ser cachorro”, p. 59). Outra: o final da crônica: “ As muitas vidas de  Gutremberg Guarabira” (pp. 30 a 33)
Ironia (e ainda humor), como na primeira das crônicas acima citadas:
“ Pesquisei na internet e descobri que existe tratamento holístico para depressão canina. Devem ter aprendido com o homem o truque da tristeza.” E essa conclusão (ainda da mesma crônica): “Ao contrário do ser humano, o cachorro parece ser uma raça em franca evolução”.
Poesia é o que não falta em Papoulas. Há muitas metáforas e sutilezas semânticas  incrustadas nas narrativas.
E ainda existe, nas crônicas de Roberto, sem nenhum proselitismo ou filiação idiológico-partidária, um compromisso com o bem: com os direitos humanos, com o respeito pelo outro, com a preservação da natureza, com a necessidade de paz,  com a justiça e, sobretudo, com a crença num mundo melhor.  E tudo isso elaborado e afinado com o mais elevado tom literário.
Roberto Lima dignifica essa espécie literária, consagrada por Rubem Braga e, também, por nomes como Carlos Drummond de de Andade, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Otto Lara Resende.
Por fim, penso que Papoulas de kandahar exalam, sobre esses tempos de vergonha política, aromas de bondade e poesia.


*Wilson Pereira é poeta,
cronista, contista, ensaísta e autor de livros para crianças e jovens