Monday, September 4, 2017

Neste 11 de setembro


Como aconteceu no dia 8, no dia 9 e em muitos outros dias que o antecederam, o mundo irá acordar com o sol neste 11 de setembro.
No Tibete, um monge se levantará e fará sua primeira oração da manhã.
Em sua prece, pedirá à divindade que derrame sobre o mundo um manto de luz.
Luz para enxergar na escuridão da intolerância.
Luz para caminhar na retidão dos justos.
Luz para fazer transparecer as almas aflitas deste mundo.
Luz para aqueles que não conhecem outro caminho que não o do ressentimento.
Em Estocolmo, na civilizadíssima Suécia, uma moça loura como uma princesa viking, abrirá a janela para permitir que a brisa fresca de final de verão, entre em seu quarto e se espalhe pelos quatro cantos, trazendo fluidos bons.
Na Espanha, numa casa de pedra da Andaluzia, uma menina cigana cantará um canto místico, um canto gitano da mais pura magia.
Em Varadero, Cuba, uma senhora de setenta anos de idade, confidente dos Orixás, irá a uma cachoeira com uma oferenda de agradecimento.
Tranquila, entenderá a linguagem dos peixes e conversará com as plantas num idioma que só os graduados da umbanda sabem entender.
Numa savana do Quênia um grupo de meninos sairá correndo, peito nu de encontro ao vento, livres e leves, sentindo na pele uma carícia da natureza.
Nos pampas argentinos, um vaqueiro levará o seu gado para pastar num vale verdejante e o minuano soprará ao seu ouvido uma confidência:
- Algo de bom está acontecendo neste instante, aqui no lugar em que habitas.

No limite das duas Coreias, dois camponeses, um de cada lado da História, estarão sentados no espaço imaginário onde, provavelmente, foi desenhada a linha da fronteira e, juntos, dividirão um prato de comida.
Um padeiro francês, na volta de sua derradeira entrega da madrugada, esfacelará os pães que não foram vendidos no dia anterior, e os dividirá com os esquilos famintos da praça.
Numa igreja siciliana, um padre se porá de joelhos evocando a figura perene de Deus e, numa emocionada oração, pleiteará para que o Todo Poderoso derrame sua bondade sobre a humanidade, tocando a cada cidadão, independente de credo ou cor.
Nas ruas de Belfast, na Irlanda, um grupo de católicos e protestantes conversará normalmente, como se todo o ódio e amargura fizesse parte de um passado que deve ser esquecido.
Em Sidney, na Austrália, um aborígine trafegará pelas ruas da cidade sentindo-se parte daquele quadrado de concreto e progresso.
Na Cidade do Cabo, no extremo da África do Sul, negros e brancos estarão fazendo uma passeata pacífica, uma via-sacra de agradecimento pelo progresso obtido na convivência entre ambos nos últimos tempos. E pela promessa de harmonia de tempos que ainda hão de vir.
Juntos, combinarão que a palavra Apartheid será excluída do dicionário. E sairão dançando pela cidade como se fosse carnaval.
Num bairro distante da zona leste de São Paulo, um grupo de meninos jogará futebol durante o recreio escolar.
Uma moça bonita e bem vestida, saída provavelmente da capa de alguma revista de moda, auxiliará uma anciã a atravessar uma movimentada avenida londrina.
Em Santiago do Chile, um motorista mostrará ao turista suíço um grupo de mães numa praça do centro da cidade.
Ao contrário do canto de tristeza pelo desaparecimento de seus filhos durante a ditadura de Pinochet, hoje elas entoam uma marcha folclórica, saudando a chegada da colheita nos campos do país.
Numa mesquita da faixa de Gaza, um rapaz que queria ser homem-bomba muda de ideia e promete plantar um jardim.

Nesse mesmo instante, em Jerusalém, Benjamin Netanyahu receberá uma comitiva árabe para uma reunião que decretará um cessar-fogo definitivo.
E nós, que vivemos nas cercanias de Nova York, olharemos para o céu cristalino de setembro e nele não haverá nenhum sinal de perigo.
Apenas um bando de pombas brancas, sinalizando a existência de um mundo em paz.

Monday, August 28, 2017

Alô Sampa!



Estou muito feliz por ter fechado, hoje, o local de lançamento de Papoulas de Kandahar em São Paulo.

Será no dia 7 de Novembro, na belíssima livraria Blooks (Shopping Frei Caneca — Rua Frei Caneca, nº 569 – 3º Piso).
A noite fará parte do Sempre Um Papo (obrigado Afonso Borges!) na cidade e contará com a participação especialíssima de um amigo querido (surpresa, por enquanto), que certamente irá abrilhantar ainda mais a nossa noite.
Anuncio nos próximos dias detalhes das presenças em Goiânia, Poços de Caldas e FliAraxá.
Estou feliz.
Sei que estarei entre amigos.

Tuesday, August 22, 2017

Banquete animal



Célio Dimas Cordeiro da Silva: esse é o nome impresso na certidão de nascimento.
Nasceu em Governador Valadares e por lá deve estar vivendo.
Para sua mãe ele era Célio Dimas, e parecia sempre prestes a lhe passar um cerimonioso sabão:
- Célio Dimas, quem soltou o canário?
- Isto lá são horas de chegar em casa, Célio Dimas?
- Célio Dimas, você bebeu outra vez?
Para a turma na rua, no entanto, ele era Celim, um dos sujeitos mais divertidos que a vida já produziu.
Ficamos amigos no início dos oitenta, jovens e ingênuos. Nosso encontro era religiosamente dominical e, como tal, era chamado de missa.
- Te vejo na missa, domingo que vem.
- Combinado, o outro respondia.
O padre eu não sei quem era. Mas os santos de nossa devoção eram São Rafael, e São João da Barra, aquele "milagroso".
Eu era um dos viajantes na maionese de um certo Varal de Poesias, que acontecia todos os domingos na Feira Hippie da cidade.
Celim, por sua vez, vendia umas ‘tabuínhas’ em que desenhava a pirógrafo, motivos infantis e nomes de crianças.
Nós gritávamos "Óia o Varal"; ele respondia "Óia a ‘talbinha’".
Na saída, talbinhas (ou seria tabuínhas?) e varais saiam para beber cerveja.
E ficava-se ali no Bar Pedrão, as pernas esticadas na calçada, comendo pipoca com queijo ralado, olhando as moças passarem, as horas definhando na preguiça da tarde.
A medida que o tempo passava, a cerveja minguava nos copos, e apenas a incerteza de melhores dias transbordava das conversações. Muito injusto, o Brasil, pois aquele moço tinha muito talento. 
Era mestre da caricatura e do cartum, e criava personagens que dava pra montar uma Disneylândia só dele.
Ficávamos espantados com a firmeza de seus traços, levando em conta que ele tremia muito, como se sofresse do Mal de Parkinson. Excesso, talvez, de cachaça.
Celim não tinha um único osso maldoso em seu corpo.
Vim para os Estados Unidos e ele ficou por lá assinando uma charge no Diário do Rio Doce, diagramando textos e propagandas numa agência. Aos domingos, continuava vendendo ‘talbinhas’ na feira da Praça Serra Lima.
Anos depois recebi uma carta dele aqui em New Jersey. Estava vivendo na Califórnia, trabalhando com chicanos numa fábrica de fios de cobre.
Mandei uma resposta falando que queria fundar um jornal brasileiro. Dois meses depois ele apareceria por aqui, sócio da empresa, trazendo à tiracolo um esdrúxulo guarda-roupas, uma coleção de óculos de grau comprada num brechó.
Com a turma da República do Babujo vivemos dias e noites gloriosos, numa época em que esbanjávamos saúde e nossos fígados ainda resistiam.
Era o período do Scorpio’s, do grupo Brazilian Energy e dos shows de MPB na cidade. Fomos em todos eles: Gonzaguinha, Gilberto Gil, Alceu Valença, Sá & Guarabyra, Elba Ramalho, Fagner, Beto Guedes, Zé Ramalho... nossos ídolos.
Celim, como sempre, protagonizou estórias engraçadas, várias delas antológicas e nem sempre publicáveis, hoje temas de retóricas animadíssimas, toda vez que dois ou mais pensionistas do Babujo se encontram.
Era hilário vê-lo "traduzindo os diálogos da televisão americana para brasucas recém-chegados.
Ele, que não sabia nadinha de inglês, sentia-se na obrigação de traduzir a língua para os neófitos. E a todos enganava com seu sotaque estranho e palavras que inventava.
Recordo-me de uma noite em que ele não estava conosco no bar onde costumávamos nos encontrar. Havia ficado em casa dormindo.
Duas da manhã resolvemos retornar e, quando entramos na cozinha, o encontramos de pijama, com uma cara sonolenta, debruçado vorazmente sobre um prato contendo uma gororoba.
Sabedores de sua total inabilidade para cozinhar, tratamos de desvendar o que ele comia com uma boca tão boa.
Encontramos a resposta no cesto do lixo: uma lata da Purina.
Celim, que não soube o ler o que estava escrito na lata, tinha esquentado a comida de Rocky, o pastor alemão que meu irmão Toninho criava no quintal.
Para não comprometer o rebolado, Celim - que não perdia o amigo e nem a piada -, continuou jantando.
Ato contínuo, passou o que sobrou daquela noite sentado no parapeito da janela do quarto bebendo cerveja. Entre um gole e outro de budweiser, latia e uivava para a lua.

Friday, August 11, 2017

Assim se estreitam as margens do oceano


Esta é a segunda vez que vou à Europa mostrar um livro meu. A primeira foi em 2013, junto com o poeta Bispo Filho, divulgando “Meninos de São Raimundo”. Nós fomos muito bem recebidos em Portugal, Espanha e Inglaterra. Senti ali que ainda voltaria.
Quatro anos depois, retorno só, levando minhas Papoulas de Kandahar. Vou com o coração batendo miudinho, sabedor de que sentirei tremenda falta do Bispo Filho. Aquela viagem foi uma espécie de ponte, que nos irmanou novamente e levou a velha amizade a um lugar maior.
Começarei a pequena maratona pela Ilha de São Miguel, nos Açores. O livro será apresentado pela professora Leonor Sampaio Silva, no Instituto Cultural de Ponta Delgada, dia 7 de setembro. Trata-se de uma enorme responsabilidade, dada a importância e seriedade do trabalho desenvolvido naquela instituição. 
Na sequência, embarco para a Ilha da Madeira, que tem um dos aeroportos mais complicados do mundo. É público e notório o meu medo de avião e ainda não sei de qual uísque me valerei para chegar até lá. Mas é certo que chegarei.
Na ilha das flores terei uma agenda super agitada, com apresentação do livro em uma confraria de autores e recitadores madeirenses, na noite do dia 8 de setembro. No dia seguinte, 9 de setembro, terei contato mais direto com os madeirenses na livraria FNAC do Funchal.
Retorno à cidade do Porto na segunda-feira para um breve descanso e reminiscências. Rumarei em seguida em direção a Braga, que é uma espécie de segunda casa para mim. Na Bracara Augusta, o livro será apresentado pelos professores Jorge Pimenta e Margarida Figueiredo, amigos queridos e principais artífices de meu retorno ao Velho Continente. Acontecerá na Biblioteca Lúcio Craveiro de Souza, no dia 15 de setembro. 
Pegaremos a estrada bem cedinho, na manhã de sábado, rumo A Orense, na Galícia, onde um emocionado reencontro se anuncia. 
Caberá à escritora Concha Rousia e ao jornalista galego Joel Gomes a apresentação de Papoulas de Kandahar na cidade. A Arca da Noe, um centro cultural em uma taberna de Vilar de Santos nos receberá. Acabará em vinho, carinho, presunto e camarões ao alho esta nova passagem pela Península Ibérica.
Caso possam, compartilhem com os amigos, ajudem-me a divulgar este roteiro. Ficarei feliz em receber um abraço encomendado por qualquer um de vocês.
Admirável velho mundo, aí vou eu.
Grande beijo do 

Roberto

PS: Quero agradecer aos amigos Concha Rousia, Jorge Pimenta, Karla Alcântara, Eleonora Marino Duarte, Margarida Figueiredo e Joel Gomes por terem levantado esta bandeira e estreitado - com a força do amor e da amizade - as margens do Atlântico. 
São para vocês essas minhas papoulas.

Monday, August 7, 2017

O passageiro do silêncio



(Para José e Ana, no pra sempre e no jamais)

Tudo se torna um desassossego. A comida fica ruim, o apetite some. Os ponteiros do relógios são os maiores inimigos. Os dias não tem fim.
O local de trabalho se transforma em um campo de concentração e a casa fica do tamanho do Maracanã. As coisas perdem o sentido e reina a desordem.
Não há lugar no mundo para os que se desacertam, para os que se perdem do caminho por miudezas vãs.
A vida ensinará a dura lição do que é a tristeza.
E apontará o canto sombrio em que abraçará a solidão.
Mesmo que esteja rodeado por uma multidão, você se sentirá só. Miseravelmente só.
O sono evaporará e se mudará para outro código postal. E a cama se tornará imensa e fria, com seus lençóis de arame farpado e travesseiros de espinhos.
Os dèjavus se amontoarão.
O rosto dela se materializará na fumaça do cigarro ou no fundo de um copo de conhaque. Uma onipresença quase de Deus.
Assim como Einstein, que não sabia que a partir de sua teoria seria desenvolvida a bomba atômica, Deus não sabia que, quando inventou o silêncio, ele seria usado para magoar.
O silêncio é nuclear.
E o mundo, 'vasto mundo', vai se comprimindo, as paredes se fechando, tirando-lhe também o ar. Ficará difícil respirar.
O sol não voltará a brilhar amanhã, dirão-lhe os seus botões.
E nem depois de manhã.
Nunca mais, nunca mais, nunca mais, concluirá você.
Como se tornasse um cego, de repente, incapaz de ver a luz, você vegetará perenemente em um túnel sem fim.
É como se o carro tivesse acabado a gasolina no meio do nada.
Faltará combustível para seguir adiante, temerá.
A partir daqui, apenas a inércia, o carro parado no acostamento e a contagem modorrenta dos dias que ainda lhe restam. E nada mais.
É como se você fosse exilado em um país estrangeiro e não dominasse a língua.
E todos à sua volta falassem aramaico.
E tudo trouxesse a lembrança dela.
Como o casal que entra no táxi, a moça bebendo um capucino, o homem conversando com seu uísque no Café, nesta noite que cai sobre a cidade enchendo os bares de trabalhadores morrendo de sede e homens e mulheres no cio.
Os carros trafegam lentamente no engarrafamento e só a lembrança dela lhe fará companhia. Estão todos indo para uma grande festa em homenagem a ela.
Menos você.
Ela estará linda, com aquele vestido que você já despiu tantas vezes vindo de outras festas.
Ela, com o colar de pérolas que você presenteou. E os brincos tão sutis.
"Mudou o cabelo", você dirá.
"Remoçou".
Só você e a sua triste figura permanecerão inalterados.
O avião que cruza o céu está indo para Bruxelas, mas você acha que ele está indo para lá, onde se encontra o domicílio em que os telegramas são devolvidos e as cartas se extraviam.
O avião está indo para Dublin ou Milão.
Para a velha Lisboa.
Ou para Madri.
Mas você acha que ele está indo para Istambul, quando na verdade, o destino é outro. Tão outro.
Este avião está cruzando o céu em direção ao inferno. Está em piloto automático e você, cá de baixo, é seu único passageiro.

Monday, July 31, 2017

O abacateiro


(Ao Fábio Portugal)

Os amigos são os irmãos que escolhemos, diz o bordão. Acho isto fantástico. Costumo dizer que tenho os melhores amigos que o afeto pode comprar.
Meu pai tinha um entendimento muito peculiar das amizades dos filhos. Primeiro, procurava se aproximar, estudando - à partir de seus conhecimentos de policial militar - os hábitos e caráter de cada um. Para andar com os filhos de Seu Antônio tinha que ser boa bisca e não ter ficha na delegacia. 
Justiça seja feita, uma vez aprovado, o amigo seria tratado como se fosse filho legítimo. Era o começo de um caminho que, naturalmente, resultaria em um lugar cativo à mesa, um prato de comida e uma cama com cobertor.
E isto, junto a tantas outras coisas, faz com que eu me lembre de Seu Totoca (para os íntimos) com ternura. 
No decorrer dos anos, ele criou com meus camaradas um laço que já não dependia da minha presença. 
Em uma linguagem e formato diferentes eles tornavam-se amigos, com rituais e momentos só deles. É o caso de Fábio Portugal, por quem papai tinha grande apreço.
Fábio viveu muitos anos nos EUA, mas retornaria à sua Campinas em 2013. 
À partir da volta, todos os anos, quando eu ia visitar meus velhos em Belo Horizonte - sempre no mês de outubro, para coincidir com o aniversário de minha mãe -, ele se juntaria a nós.
Em um dado momento da estadia dele na casa, os dois rumavam para o quintal. 
Era uma coisa absolutamente deles, aquilo de passarem em vistoria por cada planta, cada canteiro, cada árvore daquele minifúndio.

"Não gosto de planta que só dá flor. É como certas pessoas, que só tem vaidade e boniteza e não saciam a fome de ninguém", repetia, como se o dissesse pela primeira vez.


Papai tinha orgulho de seus pés de manga. Mesmo aquele, logo à direita do portão e de onde ele caiu fazendo uma poda, aos 71 anos. 
A queda rendeu-lhe oito parafusos de titânio e um andar meio de banda. Ainda assim, ele cuidava daquela árvore com o mesmo carinho dedicado às demais.
Iam passando pela pitangueira, cheia de estrelas vermelhas e papai lhes enaltecia a doçura.
Elogiava as bananeiras, nanica, prata e ouro. 
Recitava os limoeiros como se fossem sonetos e olhava para o cume da caramboleira, como se procurasse estrelas em plena manhã.
Fruta-do-conde, jambeiro, bergamota, jabuticaba e até a touceira de cana caiana iam recebendo elogios, como se deles lhes dependesse o viço.   
Havia ainda um canteiro para ervas curandeiras e outro para as comestíveis. 
Papai explicava - de novo e de novo - que o boldo do chile era para o fígado e que a camomila acalmava, ajudava a dormir.
Iam até o canteiro de couves e cheiro verde. Ele quebrava uma folha de manjericão e a levava ao nariz do amigo, louvando o perfume.
Explicava que as avencas e bromélias eram coisas de minha mãe e apontava para a bougainvíllea se derramando para o outro lado do muro, queixando-se:

"Presente de grego. Tive que plantar", aludindo ao fato de eu ter aparecido em casa com a muda já sangrando umas flores boninas.

Moto perpétuo, quando chegavam ao abacateiro, já no final do trajeto, Fábio apontava para a copa toda florida e suspirava:

"É uma pena que no mês de outubro, ele só tenha flores, Seu Totoca."

Papai enchia o peito e respondia com ar solene:

"Volte em janeiro, que ele vai estar carregado de abacates e você pode pegar quantos quiser."

Seu Totoca morreria no dia 14 de janeiro deste ano e Fábio foi a Belo Horizonte prestar-lhe a derradeira homenagem.
Voltamos do velório por volta de duas da tarde e ele foi direto para o quintal. Voltaria de lá com os olhos marejados e dois abacates na mão. Visivelmente emocionado, justificou:


"Eu só quis dois."

Mas poderia ter pego quantos quisesse. Era essa a vontade de meu pai.