Tuesday, August 20, 2019

Carta para a Marina


'Marina, morena, menina, você me pintou.'

E foi a única pessoa a fazê-lo nestes meus 56 anos de vida.
Eu conhecia algumas das suas telas, mas só fomos apresentados na casa de Solange e Tadeu Martins, em BH, quase duas décadas atrás.
Fiquei encantado por um quadro seu que adornava a sala de nossos amigos: três personagens sem olhos, vestidos para uma festa de congado no Vale do Jequitinhonha.
As cores daquelas fitas encheram meu coração. Achei tudo tão bonito. Principalmente a pessoa especial que você revelaria ser.
Saí daquela noite levando o quadro debaixo do braço, presente generoso dos donos da casa com seu consentimento e algum constrangimento meu.
Eu adquiriria mais algumas obras suas.
Seria presenteado com outras, tão generoso que era o seu coração.
Nas paredes da casa de meus pais (e também aqui em New Jersey), você reina soberana, ao lado de Poty Lazzarotto, outro artista que tanto admiro.
Voltaríamos a nos ver muitas vezes, sempre que nos reuníamos para celebrar a amizade, uma das mais belas formas de amor que existem.
Eu ia para o fogão, alguém cantava e tocava violão.
Passávamos horas nessa celebração.
E eu contava nos dedos os dias até que pudesse retornar ao Brasil para nos juntarmos outra vez.
Você fez a pintura da capa de Meninos de São Raimundo, livro que escrevi em parceria com o poeta Bispo Filho, mas foi preterida quando o livro já estava para ser impresso.
Na pintura você retratava, ao fundo, os autores quando criança, agarrados aos pais; e, em primeiro plano, já adultos, escancarados em seus rosários de falhanços e dúvidas.
Tratava-se de uma imagem muito forte e eu não sei explicar o motivo por trás de nossa decisão de não usá-la na capa do livro.
Havia ali alguma dor, alguma fratura exposta...
Uma parte de nós - os autores - não queria revelá-las ao mundo, senão pelas entrelinhas dos textos escolhidos para a publicação.
Diferentemente do que era comum em suas pinturas daquele período - que traziam sempre pessoas sem olhos -, Bispo Filho e eu fomos retratados com absoluta fidelidade.
Talvez estivesse explicitada em nosso olhar a razão da escolha, no minuto derradeiro, quando tudo já parecia líquido e certo.
Tentei adquirir a obra, mas você já havia pintado outra coisa por cima da tela.
Não questionei.
Não houve - de sua parte - nenhuma animosidade.
Nenhum senão.
Entendi que, escondido em seu gesto, a tela trazia algo que ia além do que os olhos viam; segredos e mistérios diluídos nas águas do rio que molhou os pés de nossa infância.
Algum tempo depois, eu receberia de você um presente que adorna a sala da casa de minha mãe. Aquele retrato de cor amarela está pendurado ao lado do rosto de meu pai, outro presente seu.
Papai adorava você.
Minha mãe também.
Você se tornou uma presença constante e obrigatória em nossa casa, todas as vezes que eu ia a Minas Gerais.
Acompanhei diferentes fases de sua arte. Dos personagens sem olhos às meninas e meninos envoltos na leveza de um vento ligeiro. Depois, a fase dos retratos, em que vários amigos seus ficaram imortalizados em delicadeza acrílica.
Recentemente, você começou a pintar pratos e canecas de rara beleza, e eu fiquei de passar por sua casa para adquirir alguns.
Não tivemos tempo, Marina.
A notícia de sua morte passou por cima de mim com a violência de um rolo compressor. Saber que, quando for a BH, já não poderei lhe dar um abraço causa-me enorme confusão.
Vou ter que me contentar com sua lembrança, as cores felizes misturadas em suas obras espalhadas pelas paredes da casa onde já não vive meu pai.
Você, que eu sempre dizia pintar com as mãos de Deus, está agora pertinho do dono delas.
Descanse em paz nos braços d'Ele.

Tuesday, July 16, 2019

Pescoço de peru


As redes sociais foram inundadas por fotos de ‘velhinhos e velhinhas’ nos últimos dias. Um aplicativo que ‘envelhece’ as pessoas virou moda entre anônimos e famosos, que se divertiram com as supostas imagens futuristas.
A minha versão não foi das mais generosas. 
Recusei-me a postá-la, mas o compositor Dalmir Lott fez questão de tornar público aquilo que eu gostaria de manter privado.
Fiquei com a cara daquele quibe de lanchonete de rodoviária que ninguém quis comprar, lá pelas duas da manhã.
Orelhas de abano, nariz de borracha porosa, cabelos escassos, o rosto com a aparência do mapa rodoviário da Califórnia, pés de galinha espalhados por toda a face, é o que se vê. 
As pelancas do pescoço, uma vez espichadas, fariam duas vezes o trajeto Rio-São Paulo.
Minha cara ficou parecida com o cotovelo do Keith Richards, do Rolling Stones.
Eu, que nunca fui nenhum Richard Gere, fui monstrificado.
No entanto, se o aplicativo da internet é cruel, a vida é muito mais. Uma existência não se consuma (e consome) em meia dúzia de cliques.
Sei que ficarei com um aspecto ainda pior, caso consiga superar décadas de abusos e descaso com o presente dado por meus genitores.
Maracujás enrugados dão mais suco, diria meu falecido pai.
Não é bem assim.
Problemas de todas as espécies branqueiam os cabelos, riscam sulcos com o estilete dos dias, dando a mim um aspecto estranho, desenhando uma caricatura do que fui um dia.
Boletos, ex-'conjes' (como discursaria o Moro), filhos, políticos filhos da puta, times de futebol e suas defesas pífias, uísque de procedência duvidosa, drogas legais e ilegais, religião, turbulências de avião, filas em repartições públicas, cidadãos corruptos e corrompidos no meu entorno, buracos nas estradas, medo da violência urbana, insônia, ignorância e fúria dos extremistas, trânsito caótico, as falas da Damares, a ganância dos poderosos e a ausência de Deus em tantos momentos, farão de mim algo muito pior do que essa calopsita  com pescoço de peru, que o Dalmir Lott espalhou pelas redes sociais.


Monday, July 1, 2019

O ardina


Quando cheguei a Newark, meu primeiro emprego foi em uma padaria da Ferry Street. O salário era de 140 dólares por semana, para fazer pastéis de nata, aquela maravilha lusitana que no Brasil é chamada de pastéis de Belém.
Aprendi rapidinho, graças à boa vontade de um madeirense que escreveu as medidas exatas de açúcar, leite e gema de ovos em um pedaço de papel de pão.
Como eu não tinha lugar para morar, dormi algumas noites em cima de sacos de trigo, escondido no porão do estabelecimento. 
Quando fui descoberto, recebi um ultimato do proprietário, que deu três dias para arrumar um pouso, ou perderia o emprego.
No horário do almoço, fui buscar abrigo em uma livraria das Cinco Esquinas, onde eu passava os momentos de "break" folheando livros de Fernando Pessoa e Florbela Espanca. Foi lá que conheci Sebastião Bento, dono de uma rádio que fazia transmissões via cabo telefônico.
Em dias de jogos do campeonato português, uma pequena multidão de patrícios se acotovelava em vários pontos da Ferry, escutando sair dos alto-falantes instalados nas marquises aquilo que chamavam de "relato da bola". 
A boa e velha transmissão radiofônica de uma partida de futebol ganhou para mim uma nova conotação.
Sebastião Bento se apiedou da minha história - contada pela dona da livraria - e me levou ao Campino's, um restaurante de comida ibérica na Jabez Street. Estavam precisando de um lava-pratos.
Não consegui um quarto para dormir, mas arranjei outro emprego. Lá eu ganharia 220 semanais, trabalharia uma média de 13 horas por dia e folgaria às quintas-feiras.
Já no primeiro dia, fiz amizade com Franklin Ferreira, um português que vivera 17 anos no Brasil e tinha até carteirinha de sócio da Portuguesa de Desportos.
Franklyn me tomou pelo braço após o horário de maior movimento e me levou a uma senhora que alugava quartos na Wilson Avenue.
Por 17 dólares semanais eu havia, finalmente, achado um lugar para descansar os ossos e me lavar. Visivelmente prescrito, já fazia uma semana que o aprendiz de lava-pratoS não tomava banho.
O Campino's tinha um salão de festas com capacidade para 600 pessoas e teria, já na minha "estreia", um jantar-show com Roberto Leal, cantor que vivia em São Paulo e ganhava fortunas se apresentando nas comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo.
Nunca vi tanta louça na vida, mas o esforço foi amenizado pelo som abafado que vinha do salão. A voz do cantor que eu tanto detestava quando o ouvia nas rádios brasileiras me arrepiava por inteiro.
Com saudade de casa, derramei algumas lágrimas envergonhadas, principalmente quando escutei a introdução de "Bate o Pé", um de seus maiores sucessos. Admirador de Chico Buarque e Tom Jobim, confesso que me traí.
Nunca vou me esquecer da generosidade do Franklin, nem dos enormes desafios que tive que superar pela promessa de receber um green card. 
Foram quatro anos de muita entrega e preconceito, tendo que ouvir todos os dias que o povo brasileiro é preguiçoso e eu era uma exceção. Tive que trabalhar dobrado para não perder a deferência.
Um dos episódios que mais deixaram marcas aconteceu no dia - bem no início - em que contei que escrevia crônicas para um jornal de minha cidade. Um dos cozinheiros sorriu maliciosamente e disse:
- Então, no Brasil, tu eras um ardina, não?
Baixei a cabeça sem conhecer o significado da palavra inédita, uma das tantas que no Brasil falamos de outra maneira.
Todos riram e começaram a me chamar de Ardina. O nome Roberto, com que fui registrado e batizado por meus pais, havia sido substituído sem o meu consentimento.
Naquela época não havia internet e, consequentemente, o Google. Tive que esperar até o dia da folga para comprar um dicionário, na livraria que continuava sendo refúgio.
Na primeira folheada descobri que ardina é aquele que, no Brasil, chamamos de jornaleiro. Uma tristeza enorme tomou conta de mim. Quando querem, as pessoas conseguem ser muito cruéis.
Em 1988 fundei o Brazilian Voice, o primeiro jornal brasileiro de New Jersey.
Eu escrevia todas as matérias e, após o jornal ser impresso, saía distribuindo pelas comunidades de quatro estados da Costa Leste. Livre da prisão da cozinha, eu era, finalmente, jornalista e jornaleiro. E aquilo me enchia de orgulho.
O jornal se firmou, ganhando importância para os brasileiros e respeito dos próprios portugueses. Tenho absoluta consciência de que minha história de imigrante teve um final feliz.
De vez em quando, esbarro pelas ruas com ex-colegas do Campino's. Alguns já se aposentaram e outros continuam trabalhando em restaurantes, um dos ofícios mais duros que existem. 
Agora me chamam pelo nome, devidamente acrescido do sobrenome: Roberto Lima. 

Mas isso já não faz a menor diferença.

Friday, June 21, 2019

Calipígio


Ele é portador – segundo suas próprias palavras – de 26 doenças, todas elas mortais.

Bebe, fuma, se excede, mas as 26 moléstias só o incomodam quando a esposa aparece com algum tipo de restrição:
– Não posso ser contrariado. Lembre-se: sou um homem valetudinário!
Valetudinário?
Ia consultar o dicionário – outra de suas muitas manias -, mas preferi o atalho, já que ele adora descobrir palavras esdrúxulas nos Aurélios e Houaiss desta vida.
Aprendi que um indivíduo valetudinário é um sujeito de saúde frágil.
– Olha que moça calipígia, disse ele no outro dia, apontando para a voluptuosa morena que atravessava a rua.
Nova consulta e descubro que calipígio é aquele ou aquela que possui belas nádegas.
Todas as manhãs, ele se levanta com seu pijama de aposentado, calça as pantufas e vai ao banheiro. Quem estiver do lado de fora saberá qual dos Argemiros sairá por aquela porta.
Existem dois Argemiros: o sorumbático e o feliz.
Se quer saber o que significa sorumbático, pegunte a ele.
O Argemiro feliz canta trechos de ópera enquanto se barbeia ou lê o jornal do dia, sentado no trono.
Ele, que sabe tudo de ópera, canta árias inteiras e se alimenta de minuetos e réquiens.
O segundo Argemiro parece ter grudado chiclete na cruz de Cristo. Ele fica mudo durante o banho e dele nada se escuta, quando sai de lá.
Nessa versão, os olhos acinzentados o acompanham até a mesa do café.
Diante das frutas – que exige descascadas e cortadas em tamanhos uniformes – , sentencia:
“Estou tão plúmbeo que tenho certeza de que minha alma é macambúzia. Ó maldita paúra. Meu banzo é indizível”.
Qualquer das expressões denota que ele não acordou do lado certo da cama.
Saudade de algo ou alguém ou a simples sensação de frio podem mudar seu estado de espírito por períodos que podem durar até uma semana.
Gosta de bons vinhos, champanhe e malte escocês.
À mesa não possui o mesmo requinte.
Se pudesse, comeria bife com batatas fritas em todas as refeições.
Já o vi trocar uma ida ao melhor restaurante francês por um pão com ovo cozido. E não me pareceu arrependido.
Argemiro é assim, um poço de contradições e manias.
É tão triste vê-lo agonizar às vésperas de uma viagem. 
Pesa a bagagem duzentas vezes. Trezentas, se achar necessário.
Tem paranoia com agentes alfandegários e entra em pânico diante da mera menção de que uma de suas malas pode ser inspecionada no aeroporto.
Não que ele leve nelas algum objeto ou produto proibido, mas a possibilidade de ver espalhadas pela bancada as suas cuecas e meias _que ele enrola e acondiciona artesanalmente_, causa-lhe fobias, profundo mal-estar, uma quase demência.
Toda vez que sai para comprar roupas, leva para a loja ou boutique uma fita métrica e mede, peça por peça, uma por uma, antes de experimentá-las. Ele conhece suas medidas antes, durante e depois das refeições.
Outra mania esquisita é a de colecionar caixinhas. Tem milhares delas. Quadradas, ovais, triangulares, brancas, pretas, multicolores, grandes, pequenas, fundas, rasas…
Argemiro precisaria de um novo cômodo na casa só para guardar  as suas coleções. 
Na falta de ter o que armazenar dentro delas, guarda caixinha dentro de caixinha e passa dias inteiros organizando o acervo.
Usuário de tantos remédios, faz pouco esforço para obedecer aos conselhos médicos.
Já enfartou duas vezes. Sofre de diabetes. Tem pressão alta.
E torce para o Coritiba Football Club.
Informado pelo doutor de que deveria abrir mão de alguns pequenos prazeres, caso quisesse viver mais, retrucou que havia acabado de escolher, naquele instante, a epígrafe que iria mandar bordar na lápide:
– Argemiro parou de fumar!
E é isso mesmo.
Argemiro, nosso incorrigível Argemiro, só vai parar de fumar ou beber (ou de fazer qualquer outra coisa que lhe apeteça ou dê prazer) no dia em que pedir a conta e partir.

Thursday, May 30, 2019

Achados e perdidos


Preciso encontrar o passaporte brasileiro, que se exilou de mim.
Desde que cheguei de Portugal em novembro do ano passado, eu não sei do seu paradeiro.
Estará no bolso do paletó que me acompanhou na viagem?
Será que caiu no chão e foi encontrado pela mulher da limpeza e colocado num escaninho do departamento de achados e perdidos?
Terá sido esquecido no café do aeroporto e hoje traz a cara de um terrorista, um traficante de drogas - ou outro contraventor - no lugar onde um dia existiu uma foto minha?
Eu gosto da minha fotografia naquele documento.
Estou dez anos mais moço e o meu rosto ainda não havia se transformado no mapa rodoviário de Minas Gerais.
Na foto, estou dez anos mais novo e o mundo era um lugar menos radioativo.
Naquela altura “ainda não havia para mim Donald Trump ou a sua mais completa tradução”.
Não havia Neymar nem Jojo Todynho e o meu time não havia flertado com a Segunda Divisão.
Jair Bolsonaro era apenas um deputado pífio, dependurado em um cabide de emprego público, abusando da ignorância do eleitor.
E nada mais.
Há dez anos eu ainda chorava as dores de outros 11 de setembro, tinha pequenos delírios e algumas aflições.
Desde então, aumentaram o diâmetro do buraco na camada de ozônio, inflacionaram a gasolina, árabes e judeus continuaram em discórdia; e eu permaneci à deriva, sem saber para onde ir.

E se eu precisar ir para o Brasil numa emergência? – pergunto aos meus desgastados botões.
E se explodir uma guerra, e eu tiver que fugir como um cão com o rabo entre as pernas?
Preciso encontrar indícios de coragem em mim, eu sei.
Mas, antes, preciso achar o bendito passaporte.
E preciso mais.


É imperativo localizar a velha coletânea de Drummond e ler em voz alta o Poema das Sete Faces.
Desvendar as minhas sete faces e, se preciso for, dá-las a tapa, pois ainda há tempo.
Tempo de mudar algumas opiniões.
De mudar de ares, repaginar a vida.
Tempo de virar o jogo.
De ganhá-lo.

E pagar o preço devido, pois nada vem sem dor.
Abrir mão de alguns prazeres para cuidar da saúde.
Retomar as dolorosas caminhadas matinais.
Redescobrir o desejo de querer ser longevo e viver melhor.

E reencontrar os meus óculos, perdidos num outro lugar e que não são esses - amalgamados às orelhas -, que hoje me permitem enxergar o mundo com dois graus de astigmatismo e miopia.

Aqueles óculos especiais que proporcionarão que eu me enxergue, filtrando na transparência das lentes mais íntimas a cegueira massacrante que turva a claridade dos dias.
E permita a separação de joio e joia e me faça ver, talvez pela última vez, menino bonito de mim.

Monday, May 20, 2019

O carteiro


(Para a minha vizinha Turquinha, que guardava suas cartas numa caixa lilás)

Dizem que o cão é melhor amigo do homem, mas os carteiros discordam.
São tão épicos os embates entre eles, que já renderam desastradas escaladas em muros e árvores, pernas de calças rasgadas, visitas ao Pronto-Socorro e, não raro, correspondências espalhadas pela rua.
Os cães odeiam os carteiros.
Eu não.
Eu os admiro. Gosto muito deles.
Muito antes da popularização dos telefones inteligentes e do surgimento da internet, eram eles os mensageiros dos nossos afetos e aflições, profissionais que gozavam da estima geral.
Naquele tempo em que as pessoas se orgulhavam das caligrafias e treinavam os manuscritos em cadernos apropriados, as missivas eram testamentos do que ia pela cabeça, alma e coração de quem as remetia.
Era muito bom receber uma carta com selos comemorativos homenageando heróis da história, esportistas e criaturas da fauna e da flora, caprichosamente desenhados por artistas de grande talento.
Era ainda mais especial quando aquela carta vinha do estrangeiro, com envelope de moldura quadriculada em azul e vermelho, tatuada com as palavras 'par avion' ou  'air mail', indicando que chegara a bordo de  uma aeronave proveniente de uma terra distante.
Não cheguei a ser um filatelista, no sentido bíblico, mas tinha o costume de guardar os selos das cartas que recebia.
Escrevi e recebi muitas. Centenas. Talvez milhares delas.
Era muito comum as pessoas trocarem cartas, num 'virtualismo' que tinha muito de intimidade e confiança.
Como não evocar as célebres correspondências de Clarice Lispector e Manuel Bandeira, ou de Mário de Andrade e Tarsila do Amaral, registradas posteriormente em livros deliciosos de ler?
Onde cresci, o carteiro subia ou descia a rua com o seu alforje cheio de envelopes. Muito raramente, entregava algum pacote maior, algum presente.
Na ausência das campainhas de hoje, eles batiam palmas no portão, muitas vezes gritando o nome do destinatário, anunciando a chegada de notícias.
A entrega de uma carta vinha sempre carregada de suspense e emoção.
Ela poderia trazer notícias boas ou ruins.
Um sobrinho que nasceu na Bahia, por exemplo. Ou o convite para um casamento ou batizado em Porto Alegre; a formatura do filho de um amigo na distante América do Norte também poderia ocorrer.
Ou a dor da morte ou doença de alguém.
As cartas de pai e mãe traziam o calor de um afago e sábios conselhos.
A de um amigo trazia a camaradagem, a partilha.
Mas as cartas de amor...
Ah, as cartas de amor...
Não tenho dúvida de que elas foram inventadas pelo cupido em dia de divina inspiração.
Elas traziam sentimento e encanto, fotografias, promessa de amanhãs risonhos e recatado tesão. Não raro, carregavam o cheiro da colônia dele ou a marca do batom dela.
Muita gente se conheceu por carta e casou respaldado pelo que leu.
É como se ficasse atraído pelo interior da outra pessoa e não pelo que os olhos, nas condições presentes, veem.
Era como se tivessem tomado conhecimento um do outro 'do umbigo para fora', e não da 'figura' escancarada nas imagens dos vídeos dos computadores de agora.
Os tempos são outros, sabemos, e o resultado visual do que pregam nas academias de ginástica se tornou mais importante do que a substância de um ensinamento de Nietzsche, ou um arrepio balbuciado por Drummond. 
Assim sendo, é natural que os carteiros tenham perdido tanto do seu encanto.
A rapidez e a praticidade de um e-mail - ou uma mensagem de voz num destes aplicativos de celular - transformaram as correspondências pessoais em objetos de museu.
Em seus embornais, nossos homens de amarelo carregam mais peso, pacotes de encomendas compradas pela internet, contas de telefone e de cartões de crédito, ou de água e luz.
Se a cor de seus uniformes permanece intacta após todos estes anos, a magia do ofício desbotou e apenas os cães ainda não se aperceberam disto.

Monday, May 13, 2019

Mente fraca


O tempo vai passando, a chama da vida definhando e quase não percebemos as mudanças na nossa habilidade de executar as coisas.
A digestão de comida e informações fica lenta. Bem mais lenta.
Eu, que antes era capaz de dar prejuízo em uma churrascaria rodízio, agora passo um tempo enorme tentando dissolver um bife.
A tolerância ao álcool é outro tópico sensível.
Passei mais de 40 anos sem conhecer a ressaca. Hoje somos íntimos.
Quatro latinhas de Pilsner me fazem acordar no dia seguinte com um Saara na boca, além do indefectível gosto de cabo de guarda-chuva, que até então desconhecia. 
E a caixola vira um abacate maduro, com o caroço balançando lá dentro.
O que mudou?
Mudou tudo.
Foram mais de cinco décadas abusando da boa vontade da genética.
Começou a cair-me os cabelos de onde deveria haver cabelo, e a nascer cabelo onde não deveria haver cabelo. 
No outro dia, achei um fio enorme dentro de uma das orelhas. 
A cabeça está virando uma pista de aeroporto e as sobrancelhas encolheram, dando ao rosto um aspecto estranho.
Acabamos nos tornando uma caricatura do que fomos um dia e ela, a caricatura, capricha em realçar as imperfeições.
Crescem as orelhas e o nariz, o último, ganhando o formato de uma coxinha de padaria.
O tempo é cruel com Narciso.
Envelhecer é rápido e dolorido.
Doem músculos, articulações e a autoestima.
Coisas que eu fazia com facilidade tornaram-se verdadeiros sacrifícios.
Amarrar os sapatos, por exemplo, há muito tem sido um esforço hercúleo. 
Aconselhado por um amigo, adotei a técnica de colocar o pé sobre a cadeira antes de me curvar para dar o nó. De uns tempos para cá comecei a calçar tênis, daqueles que dispensam o uso de cadarços.
Redução de peso e prática de exercícios físicos foram recomendados pelo médico que me vê cada vez mais. Mas tenho gastado o tempo disponível cuidando da horta que planto todas as vezes que a primavera dá o ar de sua graça por aqui.
Quando termino de fazer uma capina entre os canteiros de hortaliças ou de revirar a terra com a enxada presenteada por meu saudoso pai, costumo recorrer a analgésicos e conhaques de procedência duvidosa.
Não resolvem, mas aliviam.
O que mais tem preocupado, no entanto, é a perda gradativa da memória.
Nunca sei onde larguei as chaves, esqueço celular e óculos em restaurantes e, não raro, deixo de comparecer a algum compromisso diluído dentro da memória enfraquecida.
As ocorrências se dão principalmente na parte da manhã, período do dia em que eu mais gosto de escrever.
Às vezes, quero construir uma frase, mas algumas palavras somem misteriosamente dentro de uma espécie de buraco negro que se abriu dentro de mim. 
Por autocomiseração, achei uma saída poética, mudando o horário das escrevinhações para o meio da tarde.
Desde então eu defendo a tese de que, como acontece com as pessoas, algumas palavras demoram mais tempo que as outras para acordar.
E assim vou levando, um descarrilamento de cada vez.