Thursday, December 27, 2012

Eu entendo, porque também sou mãe



Eu entendo a sua dor porque também sou mãe.
Assim como você, eu sou aquela que esperou com ansiedade a chegada deste filho que encheu a casa de felicidade quando nasceu.
Se ele foi o primeiro, se foi o único, pouco importa.
Para uma mãe todos os filhos são únicos, todos são o primeiro, todos são iguais no amor que ela sente desde o primeiro momento.
Uma mãe começa a amar o filho antes mesmo de sua chegada, no que o guarda dentro da barriga e por ele espera.

E eu o guardei e desejei que nada lhe faltasse, que nada (nunca!) lhe doesse, que nada lhe afligisse desde que respirou fora de mim pela primeira vez.
E eu o amamentei até que ele não precisasse mais.

Estive com ele em suas noites de febre, trocava suas fraldas, saciava fome e sede e o acompanhei enquanto ele crescia.
Caía a noite e eu ficava olhando para aquele menino bonito, a face inocente descansando de nadas, e desejando que ele tivesse um sono tranqüilo, cheio de sonhos leves.
Eu implorava para que ventos ligeiros levassem para longe eventuais pesadelos.

Vi quando ele deu os primeiros passos e quando perdeu o primeiro dentinho.
Ainda guardo na memória cada pedacinho nosso, a imagem no porta-retratos, o sorriso ingênuo, o olhar de ave, o cabelinho de nuvem.
Eu estive sempre com o meu menino.
(E gostaria de ter estado mais, mesmo depois que ele cresceu.)

Eu quis para ele futuros brilhantes, tão maiores e melhores que o meu.
Quis que ele salvasse vidas como um médico, que educasse o mundo como professor, que fosse piloto de avião, artista ou atleta de profissão.
Que ele fosse o que escolhesse ser. Acima de tudo, que ele fosse feliz.
Portanto, eu sou aquela que não sabe onde errou e que preferia que tudo fosse de outra maneira.
Eu sou a mãe daquele menino que se tornou rapaz e se perdeu de mim.

E é por isto que entendo a sua dor de mãe que teve a trajetória do seu filho interrompida pelo meu.
Aquele meu menino que foi adotado pelo crime e que hoje chama a violência de senhora.
Sou a mãe do pivete que lhe assalta fumado de crack e que coloca a sua história de cidadão a um clique de revólver, a sua vida por um triz.

Sou a mãe do homem-bomba que entra num mercado e leva dezenas de inocentes com ele, sabe lá Deus para onde.
Sou a mãe do sequestrador que lhe priva dos seus, daquele que pede resgate e que talvez nem devolva o que não lhe pertence, o que nunca lhe pertenceu...
Eu sou a mãe de Mark Chapman, aquele jovem que matou John Lennon e roubou do mundo a luminosidade de novas canções de paz.
Apareço como genitora na certidão de nascimento de Charles Manson.
Osama Bin Laden me chama de mãe.
Meu DNA está em Hitler, em Franco, em Gaddafi e Sadam Hussein.
Está nos policiais dos grupos de extermínio da Baixada Fluminense e nos estropiados do Talibã.
Está nas artérias de George Bush, nos cabelos de Manuel Noriega e na arcada dentária de um outro tirano qualquer.
Meu filho é aquele que entra no cinema vestido de Batman e abre fogo contra inocentes, filhos de outras mulheres como você.

Eu sou a mãe de todos estes meninos enlouquecidos que se armam até os dentes e promovem carnificinas nos Colombines e Realengos desta vida.
Portanto, pode chorar nos meus ombros que eu entendo a sua dor, minha senhora.
Entendo, porque também sou mãe.
E porque toda vez que um filho meu mata o seu, eu morro um pouquinho junto com os dois.



Monday, December 24, 2012

Deus me Proteja de Mim


(Letra de Chico César; Melodia de Dominguinhos)
 
Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa.
Da bondade da pessoa ruim
Deus me governe e guarde ilumine e zele assim
Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa.
Da bondade da pessoa ruim
Deus me governe e guarde ilumine e zele assim

Caminho se conhece andando
Então vez em quando é bom se perder
Perdido fica perguntando
Vai só procurando
E acha sem saber
Perigo é se encontrar perdido
Deixar sem ter sido
Não olhar, não ver
Bom mesmo é ter sexto sentido
Sair distraído espalhar bem-querer
 
 
Feliz Natal a todos.
Que Deus proteja todos vocês.
 
 

Tuesday, December 18, 2012

Pais e filhos, o sim e o não


 
Será que dizemos a palavra não o suficiente aos nossos filhos?
Será que explicamos às nossas crianças o exato significado deste advérbio tão essencial às nossas vidas?
Porque o não - saibam os senhores e senhoras - é tão importante quanto o sim.
E não é apenas o seu oposto.
Sem o não, o sim não faria sentido.
Sem o não, o sim seria uma espécie de - vá lá ! - amígdala, e conseguiríamos muito bem viver sem ele.
E sem o sim, o não seria um elefante branco.
Eles se complementam.
Muito mais que Batman e Robin, o sim e o não são Quixote e Sancho Pança.
Com a agravante de que os nossos moinhos de vento cotidianos são reais.
Portanto, tenham a certeza: não existe um único sim dentro de um não.
Quem pensa assim é aquele que trucida, que dita, que se impõe contra a vontade do outro, aquele que está completamente enganado, e que mesmo assim se faz prevalecer pela força.

O estuprador acredita que existe um sim dentro do não.
O ditador, também.
E o não é uma daquelas palavras de significado único.

Não corra.
Não mate.
Não morra
.
Não pise na grama.
Não pise no seu semelhante.
Não pise na bola.
E os exemplos não deveriam parar por aqui.
Não importa que me vejam como um homem antiquado, careta, um pai à moda antiga.
Muito mais do que retomar as rédeas da criação de meus filhos, entendo que é preciso restabelecer limites.
Afinal, o limite é o que nos dá segurança.
Ele é aquela área fronteiriça que indica o fim da terra firme e anuncia o abismo que pode ser o fim de tudo.
Eu, que tentei o máximo que pude ser um rebelde sem causa, afirmo - sem sombra de dúvida - que adoraria ser um pai como aquele que foi o meu.
Bastava a sua presença para eu me sentir protegido.
Um conselho seu me fortificava e esclarecia.
Seu bom exemplo foi uma influência benigna, no homem que eu me tornaria.
E é por isto que acho que precisamos voltar a falar de valores que estavam esquecidos no fundo das gavetas da modernidade.
Precisamos ressuscitar verbos que caíram no desuso.
Precisamos ensinar aos nossos filhos a respeitarem os mais velhos.
Precisamos apresentá-los aos livros, dosando em suas vidas a presença dos videogames, da internet e das redes sociais.
Estamos permitindo que figuras do esporte, estrelas da musica e da televisão se tornem as influências maiores na vida de nossos filhos.

Passivos, nós os entupimos de videogames - muitos deles violentos, admitamos – para que eles nos deixem em paz para as nossas coisas do cotidiano.
Fazemos isto para que possamos ler um livro, ver um filme ou assistir uma partida de futebol na televisão.
Nós somos capazes de deixá-los sós pelos cantos da casa, apenas para que não tenhamos que nos ocupar com eles.
Damos dinheiro para que comprem o que bem querem, sem mostrar a eles o real valor das coisas.
Confundimos presentes com presença.
O que me faz perguntar:
Será que estragamos os nossos filhos com facilidades e facilitações?
Será que os mimamos em excesso e os educamos de menos?
Será que os confundimos? E que nos confundimos junto?
Será que os iludimos? E nos iludimos junto?
Será que projetamos neles expectativas tão grandes, tão maiores do que as que fomos capazes de criar e cumprir ao longo de nossas medíocres trajetórias?
São muitas as perguntas. E poucas as respostas.

Dentro de minha consciência desaba uma tempestade de dúvidas, mas cada guarda-chuva que eu abro, traz na ponta um novo ponto de interrogação.

 
** Cronica dedicada aos querubins da escola Sandy Hook, em Newtown-CT, assassinados friamente por um rapaz que poderia ser meu próprio filho.
 
 

Sunday, December 16, 2012

Para os curumins da escola Sandy Hook, em Newtown-CT


Beija-flor me chamou: olha
Lua branca chegou na hora
O Beija-Mar me deu prova:
Uma estrela bem nova
Na luminária da mata
Força que vem e renova


Beija-Flor de amor me leva
Como o vento levou a folha
Minha Mamãe soberana
Minha Floresta de jóia
Tu que dás brilho na sombra
Brilhas também lá na praia


Beija-Flor me mandou embora
Trabalhar e abrir os olhos
Estrela d'Água me molha
Tudo que ama e chora
Some na curva do rio
Tudo é dentro e fora
Minha Floresta de jóia


Tem a água
tem a água
tem aquela imensidão
tem sombra da Floresta
tem a luz do coração
Bem-querer!!!


* Essa canção é o nome de um curumim do povo Kampa e é dedicada também a todos os curumins de todas as raças do mundo

Tuesday, December 11, 2012

Atenção, silêncio!


 
 
Para meu amigo Zé Andrade*, guardião do panteão brasileiro


Eu me iniciei nos mistérios da Sétima Arte no Cine Poeira lá em São Raimundo. Como tantos meninos de minha geração beijei Greta, Marlene, Marylin, Sophia e Raquel Welch, deusas que amei com as mãos.
Nos momentos pós sessão eu saía apaixonado pelas protagonistas e tão encarnado em seus pares românticos que, dependendo do filme, eu me achava complexo e profundo como Marlon Brando, sofisticada como Roger Moore, bravo como John Wayne, duro como Clint Eastwood ou belo como James Dean.
Mal saía do cinema e já era um rebelde sem causa, um poderoso chefão a um passo da eternidade, um herói de capa e espada, Lawrence da Arábia que ia para casa à pé.
Mais entrado na vida flertaria com a novidade baiana Glauber Rocha e as coisas que me encantavam vindas da Europa.
Era fã de Fellini, de Antonioni, Rossellini, Fassbinder e François Truffaut.
Depois descobriria Wim Wenders, Copolla, David Lynch e Allan Parker, que fez Coração Satânico e O Selvagem da Motocicleta, meus dois filmes favoritos de todos os tempos.
No Brasil de meus primeiros anos o cinema nacional se resumia a chanchadas e uma ou outra pérola esparsa.
Até os livros densos de Nelson Rodrigues viravam chanchada naquele Brasil.
Tivemos estórias magníficas que se perderam nas nossas precariedades tecnológicas e na mordaça da censura de um país que não ia pra frente, como tentavam nos fazer crer aqueles senhores que nos enfiavam suas botas militares garganta abaixo.
Felizmente os tempos mudaram – nos mudando junto - e o país vem produzindo um cinema cada vez melhor.
De Central do Brasil para cá, entramos numa dimensão internacional, criando peças relevantes, bem feitas, e que podem fazer frente a trabalhos desenvolvidos em qualquer outra parte do mundo.
Este é o Brasil de A Grande Arte e de Cidade de Deus.
Estamos revelando diretores, atores e atrizes, roteiristas e temos excelentes motes à mão. Não falta o que retratar ao cinema nacional.
E é pensando nisto que resolvi dar uma “mãozinha” aos realizadores da Sétima Arte no Brasil.
Se vocês quiserem uma película de guerra, abundam estórias de glória e dor dos pracinhas brasileiros da FEB.
Poderia ser um filme ambientado na Itália e no Brasil, tendo Thiago Lacerda atormentado pelas ordens superiores de invadir o vilarejo de onde teriam vindo seu pais, agora imigrantes italianos na Mooca, em São Paulo.
O personagem de Thiago ainda teria parentes vivendo na região de Monte Castelo e se apaixonaria por uma camponesa italiana.
Pronto!
Está criado um romance em tempo de guerra, com todas a sua beleza e drama, culminando em deserção e fuga no porão de um navio da marinha mercante argentina.
Já imaginaram?
Se os cinéfilos quiserem um épico, eu lhes dou um épico.
Eu lhes dou Canudos com José de Abreu no papel de Antônio Conselheiro, ostentando a mesma barba de profeta cultivada em Avenida Brasil.
Dou-lhes a agonia de Portinari morrendo consumido por suas tintas.
Dou-lhes as formas de Tarsila e as cores de Caribé.
Dou-lhes as curvas de Niemeyer e os jardins futuristas de Burle Marx.
Dou-lhes o urbano Adoniran e os sertanejos Zé Coco e Patativa do Assaré.
Dou-lhes crimes passionais de famosos, como os de Lindomar Castilho e Guilherme de Pádua.
Dou-lhes roteiros de ação como o do roubo do Banco Central de Fortaleza, ou catástrofes do colarinho branco como o absurdo do mensalão e a história de PC Farias todo banhado de sangue.
Dou-lhes os últimos dias de Getúlio e o impeachment de Collor de Mello.
Dou-lhes Ângela e Leila Diniz, mulheres de lâmina e rosa.
Dou-lhes Elis.
Dou-lhes a boemia de Vinícius e todas as suas musas.
Dou-lhes Heitor Villa Lobos e Geraldo Vandré.
Dou-lhes a alegria de Chacrinha e a inocência de Grande Otelo.
Dou-lhes as tristezas de Garrincha.
E a melancolia de Dolores Duran.
Eu dou-lhes um samba de Cartola. E um solo de Jacob do Bandolim.
E dou-lhes Roberto Carlos e Antonio Carlos Jobim.
Dou-lhes, ainda, a inquietação colorida da Tropicália, o movimento modernista de 22, a Inconfidência Mineira e o Clube da Esquina.
Dou-lhes estórias de amor como as de Lampião e Maria Bonita, Jorge Amado e Zélia Gattai, Tomás Antônio Gonzaga e Marília de Dirceu.
Dou-lhes roteiros subversivos e de final infeliz como os de Carlos Lamarca e Vladimir Herzog.
Dou-lhes a história e as estórias do Pasquim, com as pérolas de Jaguar, Millôr, Ziraldo, Henfil e Redi.
Leminski daria um grande filme. Clarice daria outro.
O Encontro Marcado, de Sabino, poderia ser readaptado para um tempo mais recente.
Grande Sertão Veredas traria Lima Duarte, Jackson Antunes, José Mayer e Rolando Boldrin em papéis relevantes.
Santos Dumont decolaria num 14 Bis e o voo 3054 da TAM seria o nosso Titanic.
Ayrton Senna sucumbiria numa curva, levando um país inteiro a bordo de seu cockpit.
Pelé sonharia, menino em Três Corações, com mais de mil gols.
E os nossos cineastas, com mais de mil ideias na cabeça e uma câmera na mão, sairiam por aí gritando em alto e bom som:
Atenção, silêncio.
Câmera, ação!



* Foto com Paulo Autran em cena do longa-metragem "Terra em Transe" (1967), de Glauber Rocha

** Zé Andrade (a quem dedico esta crônica) é um artista plástico baiano sensacional, criador de uma série imperdível com ícones brasileiros e algumas excessões internacionais.
Quem quiser conhecer melhor o seu trabalho basta acessar www.zeandrade.com

Monday, December 10, 2012

Corremos Dentro dos Corpos



Como o sangue, corremos dentro dos corpos no momento em que abismos os puxam e devoram.
Atravessamos cada ramo das árvores interiores que crescem do peito e se estendem pelos braços, pelas pernas, pelos olhares.
As raízes agarram-se ao coração e nós cobrimos cada dedo fino dessas raízes que se fecham e apertam e esmagam essa pedra de fogo.
Como sangue, somos lágrimas.
Como sangue, existimos dentro dos gestos.
As palavras são, tantas vezes, feitas daquilo que significamos.
E somos o vento, os caminhos do vento sobre os rostos.
O vento dentro da escuridão como o único objecto que pode ser tocado.
Debaixo da pele, envolvemos as memórias, as ideias, a esperança e o desencanto.

José Luís Peixoto,
in 'Antídoto'


.

Tuesday, December 4, 2012

Uma casa sem portas ou janelas

 

Neste momento em que o Brasil mergulha prazerosamente no filme De Pai Para Filho - que conta a história turbulenta da convivência de Luiz Gonzaga e seu filho Gonzaguinha -, passa outro filme em minha cabeça (e em meu coração).
E este outro filme remonta ao ano 1988 e eu estou em minha casa, quase almoçando, quando um amigo que produzia o show de Gonzaguinha em New Jersey telefonou, apavorado:

   - Estou com um pepino na mão. Peguei o Gonzaguinha ontem no aeroporto, mas ele é seco de corte. Já tentei de tudo quanto é jeito entabular uma conversa com ele, mas o cara é uma casa sem portas ou janelas.

Fiquei animado com a possibilidade de conhecer o ídolo, mas bastante receoso.
Afinal, sabia de dezenas de estórias a respeito de um dos meus compositores favoritos da MPB.
E todas elas falavam de um cara interessantíssimo, mas de difícil trato.
Genioso, introvertido, politizado, inteligente e absurdamente “seco” com as pessoas, o que diziam ser resultado de sua difícil relação com o pai, ninguém menos que o Rei do Baião.
Noves fora nada, Gonzaguinha ainda ficava incomodado com o assédio dos fãs.

Para ilustrar o seu ponto, meu amigo contou que no dia anterior estiveram em uma loja da Rua 46 e Gonzaguinha espinafrou o gerente, que pediu para tirar uma foto com ele.
A polaroid seria para colocar na “parede da fama”, que continha fotografias de todas as personalidades brasileiras que passaram por lá.
Gonzaguinha teria permitido a foto, mas apenas depois de desconcertar o gerente com uma cátedra sobre uso de imagem e suas indevidas ramificações.
    - Você vai vender mais eletrônicos com a minha fotografia na sua parede e eu ganho o que? - teria dito o compositor de tantas canções que me marcaram.


Corajoso, eu fui ao encontro.
E eles me esperavam numa mesa ao fundo do Scorpio’s, em Elizabeth.
Fomos apresentados e a empatia foi imediata.
Gonzaguinha havia abdicado do cavanhaque, usava agora um bigodão que se esparramava até o queixo.
No braço, um relógio do tamanho de um despertador e as mangas da camisa arregaçadas, como nas capas de seus discos.
Pedimos uma cerveja, duas, três.
Pedimos tantas, que não me lembro mais quantas. E as dele ele deixava esquentando sobre a mesa, antes de começar a bebê-las, devidamente mornas.
    - Quem bebe cerveja estupidamente gelada – como num comercial de TV que havia no Brasil no final dos setenta – só pode ser estúpido, dizia ele.
Ao que eu, diplomaticamente, respondia:
    - Quente? Só sopa e mulher.
E ele ria de mim.


Falamos de tudo.
Futebol, política, família, mulheres bonitas, culturas diferentes, morro de São Carlos, morro da Orelha (em São Raimundo) e sei lá mais quantos assuntos de tantos outros morros. Tudo, menos música.
Já estávamos naquela prosa havia pelo menos sete horas, quando dei uma vacilada e disse que gostava muito de suas canções, e em especial de uma delas, que quase me fazia chorar.
Levei uma descompostura imediata do astro, que deixou claro que era desnecessário bajulá-lo, e que “aquilo” era um desatino meu.
Tremi.
Eu havia dado vinte litros de leite e um coice no balde.


Vendo a cara de tacho e desapontamento, ele resolveu me dar uma segunda chance, perguntando que canção era aquela que "quase me fazia chorar".
Deu um branco na hora.
Pode ter sido a cerveja. Ou a força do coice.
 
- Eu não me lembro, Gonzaga.
- Vê? E eu achando você um cara legal. Você chega e me ganha, depois estraga tudo dizendo que é meu fã e não sabe sequer o nome da tal música que quase te faz chorar.

Olhei pra ele, cheio de brios, e retruquei:

- Me esqueci do nome da música, mas eu sei cantá-la.
E ele, desafiante:
- Sabe? Então canta ela pra mim.
Tomei um gole de cerveja, pigarreei para limpar a goela e comecei a gaguejar, timidamente:

Hoje eu sei, eu aprendi que a festa e a solidão
Andam juntas, dançam juntas, no mesmo salão
Se acarinham, amam, brincam num só coração
Num só coração
Meu coração/ Meu coração/ Meu coração
Meu grande coração
(...)


Gonzaguinha me tomou a canção, emocionado e continuou a cantá-la, os dois homens de olhos marejados, um momento genuíno acontecendo ali:

Um terreiro embandeirado, foguetes, fogueira,
Lua, lindo céu lavado, delírio, roleira,
Fim de brasa, sombra a cinza, é borra, é prata
Cola, gruda, permanece no chão da sapata
No chão da sapata/ Chão da sapata/ Chão da sapata
Chão da minha sapata
(...)

Quando Gonzaguinha terminou de cantar eu estava completamente à mercê da beleza daquele momento.
E ele também.
O compositor me deu um abraço afetuoso e sussurrou, com a cabeça pousada em meu ombro:
- O nome desta música é Festa e Solidão. Nunca mais se esqueça disto.

E eu nunca mais me esqueci.






Monday, December 3, 2012

Porque hoje eu estaria em Cuba

 
... e não estou.
ao invés disto, eu me vejo atracado a um texto que era para ser uma crônica e virou um conto.
Depois de ter virado conto, o bendito cismou que não cabia ali, e que queria ser outra coisa.
"Os dez segredos de Ernesto Lynch" está se transformando em uma outra criatura que ainda não sei o que é, e isto está me consumindo lentamente, pelas beiradas, como haveria de ser.
Sei que ele pode ser o meu presente de aniversário de cinquenta anos.
Mas pode ser também o meu fim, pequeno tormento que já é.
 
Enquanto isto, um pedaço da minha alma bebe mojitos na Bodeguita del Medio, sonha com os letreiros luminosos de Miami, passeia de mãos dados com uma mulher-fantasma no Malecón e molha os pés turistas nas águas mornas de Varadero.
É muito estranha esta sensação que me consome, porque o título nasceu antes do resto e, antes de ir adiante, preciso descobrir, primeiro, os "dez segredos" de Ernesto.
Em suma: tô fodido.

Não paro de escutar o Buena vista Social Club, e a voz de Compay Segundo fica zanzando dentro de meus tímpanos, soprando as brasas de um caos de bolso.

Chan Chan

De Alto Cedro voy para Macané
Luego a Cueto voy para Mayarí

El cariño que te tengo
Yo no lo puedo negar
Se me sale la babita
Yo no lo puedo evitar

Cuando Juanica y Chan Chan
En el mar cernían arena
Como sacudía el \'jibe\'
A Chan Chan le daba pena

Limpia el camino de pajas
Que yo me quiero sentar
En aquel tronco que veo
Y así no puedo llegar

De Alto Cedro voy para Macané
Luego a Cueto voy para Mayar


.

Saturday, December 1, 2012

Leia o livro, veja o video




Os amantes, em geral,
passam noites inteiras
inquietos e ansiosos
- também eu.
 
Os amantes, em geral,
choram sobre as cartas,
dão telefonemas aflitos
- como eu.
 
Os amantes, em geral,
passam horas figurando
o corpo amado,
curvas, gestos, preferências
- como eu.
 
Os amantes em geral,
são patetas, maus estetas,
fazem versos ruins
e se chamam poetas
- como eu.
 
 
Affonso Romano de Santana
 
 
 
PS: Canção ressuscitada após ler o poema "Os amantes" de Bispo Filho em: http://bispofilho.blogspot.com/

Wednesday, November 28, 2012

e la nave va

























caminhei alguns calvários
tive tristeza alegria
desafios desenganos
porém nada permanente
quando a vida vira a página
quando amanhece de novo
o que deve ser será
vive-se

um olhar
um outro canto
o choro outras palavras
eu deixo a porta sem trava
se um amor quiser partir
outro por certo virá
é a vida seu compasso
a medida do possível

eu sorvo cada momento
eu bebo cada gotinha
eu choro rio padeço
repenso minhas fraquezas
aliso as marcas do tempo
deixo a vida dar os passos
voe ou rasteje
prossigo

sofres eu sofro junto
alegro-me quando te alegras
sou aquela caravela
que em plena calmaria
encontrou um outro rumo

se a bonança acabar
voltarem o vento a chuva
um dia chega o estio
:
haverá amanhãs

 

(líria porto)

 

 


Monday, November 26, 2012

Voar é com os pássaros



Onde eu vivi os primeiros anos chamavam de campo de aviação aquilo que o mundo já chamava de aeroporto.
Para o sãoraimundense todo avião era a jato.
Em São Raimundo - no meio das minhas precariedades - havia a certeza de que eu jamais entraria em um avião.
Primeiro, porque voar era com os pássaros.
Segundo, porque a grana era curta.
Minha mãe gosta de relembrar que eu, filho único, gritava para o céu sempre que os teco-tecos sobrevoam a cidade:
- Ô avião, joga um irmãozinho pra mim.
Antônio Carlos nasceu quando eu tinha seis anos e não veio pela Varig.
Varig, Vasp e Transbrasil: alguém se lembra delas?
Em 1984 apenas três companhias aéreas operavam no eixo Rio/São Paulo-Nova York.
Varig, Aerolineas Argentinas e Panam.
Hoje são muitas, mas a concorrência ao invés de estimular uma melhoria nos serviços de bordo e a qualidade da experiência do voo, teve um efeito inverso.
Mudou tudo.
Fundem-se e fornicam-se – nos fornicando junto - o tempo todo.
Recentemente, a Lan Chile comprou a Tam e o seu jeito Tam de voar.
No céu “doméstico”, a Gol comprou a Webjet.
Gol, no meu tempo, era outra coisa.
Aposto que o cara que fundou a Gol - dono dos ônibus da Itapemirim - nem jogava futebol.
À medida que viajar de avião foi ficando mais acessível ao cidadão comum, foram banalizando a coisa.
Acabaram-se os lanchinhos e a cervejota por conta da casa. Agora, abundam os saquinhos de amendoim e os biscoitinhos de água e sal.
Cobram pela bebida, por todo e qualquer excesso de bagagem e diminuíram o tamanho dos assentos, que é para caber mais gente.
Recordo-me que no primeiro voo encantei-me com o sorriso da aeromoça.
Impressionou-me também a maneira cordial com que me apresentaram o menu do jantar, uma opção honesta de carne, peixe ou pasta.
Hoje, as aeromoças e "aeromoços" mais se parecem funcionários de repartição pública.
Em sua grande maioria antipática, as tripulações introduzem o jantar oferecendo duas opções: vai ou não vai?
E com talheres de plástico, rescaldo do excesso de cuidados pós- atentados de 11 de Setembro.
Nos bons velhos tempos, recebia-se uma charmosa embalagem contendo miniaturas de produtos de higiene de primeiríssima necessidade.
Hoje, o que oferecem é quase nada e ainda existem algumas companhias com o descaramento de cobrar pela utilização de um fone de ouvido previamente usado, e de assepsia duvidosa.
Em uma viagem mais recente recebi da aeromoça uma embalagem contendo um "plug" de ouvido e uma máscara de poliéster.
Deve ser para não ver nada. Não ouvir nada.
Eu, que definitivamente não gosto de voar, já dei pequenos vexames, como o de segurar a mão de um passageiro no momento de uma aterrisagem mais trepidante.
Nunca penso coisa boa, confesso:
Como posso me sentir confortável num objeto mais pesado que o ar e, ainda por cima, inventado por um mineiro?
Mas fico bastante religioso sempre que vou viajar.
Rezo, beijo a medalhinha de São Judas Tadeu e, só para “garantir”, bebo uns três uisquinhos antes.
Recentemente, uma senhora se apiedou de minha agonia durante uma turbulência e me consolou:
- Já está pertinho de São Paulo -, disse ela.
Ao que respondi:
- Não é a distância daqui até São Paulo, o que me trucida. O que me preocupa é a distância daqui até o chão.
Ela não achou graça. E começou a roer as unhas junto comigo.
Tenho notícias de muitas estórias engraçadas envolvendo brasileiros de origem humilde em sua primeira aventura aérea.
Uma delas foi protagonizada por um dos membros de uma Banda de Pífanos de Pernambuco, que vinha a Nova York para uma apresentação no Central Park, num evento produzido por uma destas Ongs modernetes.
Desacostumado a voar e aparentemente alérgico a comida de avião, um dos pifeiros passaria boa parte da viagem no banheiro.
Logo em sua primeira incursão ao toalete ele protagonizou uma cena insólita, duas horas após a decolagem, mal acabaram de servir o jantar.
Fez o que tinha que fazer e, ainda grudado ao vaso sanitário, apertou o botão de descarga de água.
Foi-lhe assustador.
A novidade do barulho e força da sucção, fez com que Severino saísse aos berros pelo corredor da aeronave, as calças pela altura dos joelhos, em visível agonia.
Apavorado e suando frio, avisou à aeromoça, ainda correndo e se recompondo, que “a privada estava avariada e que tinha acabado de lhe roubar um bago".






Tuesday, November 20, 2012

Um pombo sem asas

 
 
No que pensa o goleiro Bruno, neste momento em que ele está sentado na cadeira do fórum de Contagem-MG?
Vejo-o daqui, enfiado em seu uniforme penitenciário vermelho-sangue, e ele se lembra de que também são encarnadas as listras horizontais da camisa do Flamengo, seu último patrão.
Bruno olha para os olhos da juíza e repara na túnica preta do promotor que o acusa.
 
- Onde está Elisa? - pergunta o magistrado.
 
Bruno maneia a cabeça, olha para a janela da rua e vê - no canto mais alto - uma nuvem ligeira e livre, que se desloca para outra direção.
Os olhos de Bruno já não estão ali, e ele pensa nas ruas de casebres tristes de Ribeirão das Neves, cidade em que sua infância se arrastou em casa de parentes.
Pensa na filha que teve com a esposa Dayanne.
E no filho que teve Elisa Samúdio, esta que lhe acusam de ter assassinado e servido como almoço a cães.
Nos olhos de Bruno, menino e menina brincam num canto imaculado e puro de sua memória.
E Bruno pensa numa bola de meia.
Numa bola de plástico.
Pensa nos campinhos de terra batida de Ribeirão das Neves, única rota de libertação possível entre a miséria e a glória.
Bruno pensa no pai que não conheceu.
Pensa na mãe biológica, esta que veria pela primeira vez - já adulto e famoso - num programa de tv, num daqueles quadros do tipo "Arquivo Confidencial", de Fausto Silva.
 
O promotor repete a pergunta, mas Bruno parece escutar outra coisa.
Ele escuta o seu nome gritado pela torcida do Atlético, clube que o revelou.
- Brunoooooooooooo! - Brunoooooooooooo! - Brunoooooooooooo!
Mil milhão de vezes, Brunoooooooooooo!
Grito que vai ficando cada vez mais alto dentro de sua cabeça e que agora sai da boca do bando de loucos corintianos, para quem também jogou.
Mas é na voz dos flamenguistas - onde conheceria céu e inferno - que este seu nome gritado foi ficando ensurdecedor:
- Ô-ô-ô, Bruno, seleção!
- Ô-ô-ô, Bruno, seleção!
 
O advogado de acusação desloca-se na frente de Bruno, mas este já não o vê.
Diante dos olhos de Bruno chovem os confetes e serpentinas dos estádios, espoucam flashs dos fotógrafos dos jornais e ele quase sorri para as câmaras de televisão.
Bruno sente a falsidade dos tapinhas nas costas e se recorda de todos os autógrafos que deu na vida.
Lembra-se das fotos que tirou com os fãs e da frieza dos microfones dos repórteres de rádio e tv.
Lembra do carrão novo.
E do novo carrão novo.
Pensa nos jantares que não pagou nos restaurantes e no sorriso fácil das moças.
Pensa nas moças. Nas coxas das moças. Nas festas com as moças.
E Bruno pensa na liberdade que a sirene da ambulância que passa na rua, anuncia.
E que ele consegue escutar de dentro do fórum de Contagem, onde é é julgado por um crime que jura que não cometeu.
No que pensa Bruno, agora?
Ele pensa no pênalti mal apitado, no centroavante em impedimento e no placar adverso, registrado no letreiro luminoso do Maracanã?
Ou será que ele pensa na liberdade, este chute cara-à-cara, à queima-roupa, em pleno Fla-Flu?
Ela, a liberdade, é esta bola indefensável, chutada com violência bem "na gaveta".
Bruno se espicha todo, mentalmente, tentando interceptá-la.
Ele salta, corpo arqueado, os olhos postos na bola que vai em direção à forquilha.
A liberdade é um pássaro sem asas - pensa Bruno -, no que se espicha todo tentando alcançá-la.
Ela é esta bola que está indo, cruel e indefensável, contra o seu gol.
Ela é esta que vai morrendo agora - mansa e pela última vez - no fundo das redes do cidadão Bruno Fernandes, já não mais um goleiro de futebol.
 
Foto de Wilton Júnior/AE

Sunday, November 18, 2012

Um poemaço de Herberto Helder


Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar,
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas,
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes
ele - imagem inacessível e casta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.

Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.
Ah! em cada mulher existe uma morte silenciosa;
e enquanto o dorso imagina, sob nossos dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
- Ó cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.

E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte.

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.

- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.

Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada beleza.

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.

Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida - e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe
a força maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.

Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobre
as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira - para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.

Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.

Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.

Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.

Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.

Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

Se te apreendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros do crepúsculo
- aspiram longamente a nossa vida.

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho, no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.

Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.

(Herberto Helder)

Friday, November 16, 2012

A obra-irmã de António Ramos Rosa


Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o rneu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração


 

António Ramos Rosa,

in "Viagem Através de uma Nebulosa"

Thursday, November 15, 2012

O genial Eugénio


Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mão à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.



Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.



Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.



Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.


(foi mantida a grafia original)


Eugénio de Andrade
(José Fontinhas) é um inspirado poeta português nascido em Póvoa de Atalaia (Fundão), a 19 de Janeiro de 1923. Aos sete anos vai para Lisboa com sua mãe, lá residindo até 1950, exceto nos anos de 1943 a 1946, quando viveu em Coimbra. Em 1947 ingressa nos quadros dos Serviços Médico-Sociais, do Ministério da Saúde, onde desempenhará durante 35 anos a mesma função - a de inspetor administrativo - pois nunca se dispôs a fazer concursos de promoção. A sua transferência para a cidade do Porto, por razões de serviço, deu-se em Dezembro de 1950, e quando houve oportunidade para voltar a Lisboa, motivação já não havia pois sua mãe falecera. Apesar do seu prestígio, face ao reconhecimento internacional de sua obra, o poeta vive extremamente distanciado do que se chama vida social, literária ou mundana, avesso à comunicação social, arredado de encontros, colóquios, congressos, etc., e as suas raras aparições em público devem-se a "essa debilidade do coração, que é a amizade", devendo encarar-se do mesmo modo o fato de ser membro da Academia Mallarmé, de Paris. Cabe aqui referir que nunca concorreu aos prêmios que lhe foram atribuídos, como nunca ninguém o viu usar usar qualquer insígnia das condecorações com que foi agraciado. A poesia que escreve é honra que lhe parece suficiente.

A obra de
Eugénio de Andrade, além de sua poesia, prosa, livros infantis e traduções, é também engrandecida pelas antologias que organizou, em sua maioria sobre a terra portuguesa,caracterizadas por uma total ausência de preconceitos e sectarismos literários. Traduzido em cerca de vinte línguas, a poesia de Eugénio de Andrade tem sido estudada e comentada por, entre outros, Vitorino Nemésio, Gaspar Simões, Oscar Lopes, António José Saraiva, Eduardo Lourenço, Jorge de Sena, Eduardo Prado Coelho, Arnaldo Saraiva, Joaquim Manuel Magalhães, Ángel Crespo, Carlo V. Cattaneo, e suscitado o interesse de vários músicos, entre os quais Fernando Lopes-Graça, Jorge Peixinho e Filipe Pires. O poeta foi o distinguido com a edição do ano 2000 do Prêmio Vida Literária, instituído pela Associação Portuguesa de Escritores (APE).

No dia 10 de julho de 2001, aos 78 anos, foi agraciado com o
Prêmio Camões 2001, considerado o mais importante prêmio da língua portuguesa, pelo conjunto de sua obra. Passa a fazer companhia a outros grandes nomes de nossa literatura, já premiados, como José Saramago e Sophia de Mello Breyner (portugueses), e Autran Dourado, João Cabral de Melo Neto, Rachel de Queiroz, Jorge Amado e Antônio Cândido (brasileiros).

O poeta faleceu na cidade do Porto, em Portugal, no dia 13 de junho de 2005.
 
 
 
 
 

Wednesday, November 14, 2012

Vinícius, eterno presente













Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
(Vinícius de Moraes)

Tuesday, November 13, 2012

Enquanto isto, em Feira de Santana....


Um grande escritor - pessoa maior ainda - lança seu livro "O Ano que Fidel foi excomungado".
É hoje, em Feira de Santana-BA, e quem estiver na região e não for é "mulher do padre".
Quero propor uma corrente pró-livro  de José de Assis Freitas, o nosso Assis.
Cada amigo compra três exemplares e presenteia três outros amigos da blogosfera.
Que engatam três outros amigos.
Que repassam a outros três.
E assim vai...
E assim, vamos.
O homem que quebrar a corrente, nem Viagra no café da manhã e Cialis no almoço o salvarão.
E é garantido que seu time cairá para a segunda divisão.
Se o quebrador de corrente for mulher, engordará dez quilos em dez dias.
Quem leu, mas fingiu que não leu, acabará se apaixonando platônicamente por um Big-Brother e terá, pelos próximos dez anos, um prefeito do PFL.

Bora participar?
Eu ainda não paguei, mas já comprei os meus três.

Saturday, November 10, 2012



Frágil coração de poeta

Coração de poeta é um objeto frágil, peça de cristaleira que, se cair, pode quebrar.
O meu deu um grande susto na semana que passou.
Estava deitado, encafifado com um mote qualquer, pintando na tela branca do teto mais um impossível Renoir.
Foi quando senti aquela pontadazinha no peito.
Ignorei, pensei que fosse prisão de ventre.
Não era.
Fui ficando assustado.
Diante daquela súbita ameaça, dei um salto da cama e fiz a coisa mais sensata que qualquer homem faria num momento desses: gritei por mamãe.
E ela veio.
Dona Rute, de visita, correu pra me socorrer.
Fez massagem, compressa de toalha molhada, rezou para São Judas Tadeu, mas o suadouro não parava.
O jeito foi rumar para o hospital mais próximo, antes que fosse tarde demais.
No hospital, demorou a cair a ficha.
Veio a bateria de exames de coração e a coleta de sangue suficiente para escrever um poema num muro qualquer.
O eletrocardiograma indicava que estava tudo bem, mas o exame de sangue não deixava dúvidas: eu havia enfartado.
Enfarte é uma palavra tabu. Como a broxada, o exame de próstata e a “freada de bicicleta”. Homem evita tocar nesses assuntos.
No escuro do quarto de hospital depois que todos se foram, chorei miúdo. Afinal, quem tem coração, costuma chorar numa situação dessas.
Pensei nas pessoas que dependiam de meu trabalho para ter sobre suas mesas um pedaço de pão, nos que verdadeiramente me queriam bem e nos que não mereciam participar daquele pensamento dolorido na solidão de meu corner.
Custou a amanhecer.
Sabino Torre, um médico italiano de aproximadamente 50 anos, bigode à Barão do Rio Branco, considerado uma das maiores autoridades em cardiologia em New Jersey, cuidou do caso.
Antes de entrarmos na sala de procedimento cirúrgico - enquanto uma enfermeira filipina muita bonita depilava a minha virilha -, Sabino chegou ao meu ouvido e cantou a bola:
    - "Deixa comigo, meu chapa. Você não poderia estar em melhores mãos. Vai ser uma viagem suave”.
Mais um calafrio.
    - "Viagem?"
Felizmente, o cateterismo mostrou que não havia bloqueamento das artérias.
Eu não havia, verdadeiramente, enfartado.
Tratou-se de um vírus que se espalhara por várias partes do corpo e tentou, num momento de suprema audácia, se alojar no lugar sagrado onde só deveriam entrar as musas, os familiares, os bons amigos e as letras do alfabeto usadas na composição de poemas e canções.
O músculo da emoção, diante da ameaça de invasão, expele uma enzima que só é dectada através de exame sanguíneo. Trata-se da mesmíssima enzima que anuncia o enfarte.
Após uma semana sob observação e transformando minha ala do hospital numa Marquês de Sapucaí, fui liberado.
As enfermeiras, acostumadas a lidar com velhinhos já 'descendo a serra', abandonaram por alguns dias a sisudez e o pragmatismo pelos quais elas são conhecidas, e entraram no samba do mineiro doido.
Foi quase uma festa.
Fazia muito que as moças do Saint Barnabas não cuidavam de um paciente tão pirado.
Uma delas chegou a sugerir que eu estaria na ala errada.
A de psiquiatria ficava no outro extremo do grande complexo hospitalar de Livingston.
Se não deixei saudades, terei deixado alívio. Vou enviar flores e chocolates qualquer dia destes. Junto com meu pedido de desculpas, obviamente.
Conversando sobre o assunto com Kledir Ramil, recebi algumas recomendações, que deverei seguir à risca.
Para quem não sabe, além de inspirado cronista e cantor, ele é também dublê de proctologista e consultor de informática para leigos de todos os credos.
Usando seu método infalível irei cortar radicalmente o consumo de bebidas alcóolicas, sexo, rapé e alimentos gordurosos, como o torresmo de armazém e o pé-de-porco de botequim.
Passada essa fase de abstenção, entrarei na fase da prática de hábitos saudáveis. Caminhada na esteira, um litro de chimarrão por dia e vegetarianismo.
Vegetarianismo vem a ser um tipo de alimentação praticado por antigos povos afeminados, como os espartanos e os pelotenses, que sabidamente desenvolve a resistência das coronárias e a sensibilidade artística. Com sorte, serei parceiro de Kleiton & Kledir numa penca de canções.
Irei cortar os açúcares, as massas e, em caso supremo, os pulsos.
Se tudo isso não adiantar, instalarei um antivirus no coração.
Segundo Kledir, se dá certo no computador, deve dar certo na gente também. Pode ser um Norton, um McAfee, ou de uma outra marca qualquer.
Embora eu preferisse, caso já existissem no mercado, os da marca Drummond, Rimbaud ou Baudelaire.
Esses, sim, os antivírus mais adequados para coração de poeta.