Tuesday, November 20, 2012

Um pombo sem asas

 
 
No que pensa o goleiro Bruno, neste momento em que ele está sentado na cadeira do fórum de Contagem-MG?
Vejo-o daqui, enfiado em seu uniforme penitenciário vermelho-sangue, e ele se lembra de que também são encarnadas as listras horizontais da camisa do Flamengo, seu último patrão.
Bruno olha para os olhos da juíza e repara na túnica preta do promotor que o acusa.
 
- Onde está Elisa? - pergunta o magistrado.
 
Bruno maneia a cabeça, olha para a janela da rua e vê - no canto mais alto - uma nuvem ligeira e livre, que se desloca para outra direção.
Os olhos de Bruno já não estão ali, e ele pensa nas ruas de casebres tristes de Ribeirão das Neves, cidade em que sua infância se arrastou em casa de parentes.
Pensa na filha que teve com a esposa Dayanne.
E no filho que teve Elisa Samúdio, esta que lhe acusam de ter assassinado e servido como almoço a cães.
Nos olhos de Bruno, menino e menina brincam num canto imaculado e puro de sua memória.
E Bruno pensa numa bola de meia.
Numa bola de plástico.
Pensa nos campinhos de terra batida de Ribeirão das Neves, única rota de libertação possível entre a miséria e a glória.
Bruno pensa no pai que não conheceu.
Pensa na mãe biológica, esta que veria pela primeira vez - já adulto e famoso - num programa de tv, num daqueles quadros do tipo "Arquivo Confidencial", de Fausto Silva.
 
O promotor repete a pergunta, mas Bruno parece escutar outra coisa.
Ele escuta o seu nome gritado pela torcida do Atlético, clube que o revelou.
- Brunoooooooooooo! - Brunoooooooooooo! - Brunoooooooooooo!
Mil milhão de vezes, Brunoooooooooooo!
Grito que vai ficando cada vez mais alto dentro de sua cabeça e que agora sai da boca do bando de loucos corintianos, para quem também jogou.
Mas é na voz dos flamenguistas - onde conheceria céu e inferno - que este seu nome gritado foi ficando ensurdecedor:
- Ô-ô-ô, Bruno, seleção!
- Ô-ô-ô, Bruno, seleção!
 
O advogado de acusação desloca-se na frente de Bruno, mas este já não o vê.
Diante dos olhos de Bruno chovem os confetes e serpentinas dos estádios, espoucam flashs dos fotógrafos dos jornais e ele quase sorri para as câmaras de televisão.
Bruno sente a falsidade dos tapinhas nas costas e se recorda de todos os autógrafos que deu na vida.
Lembra-se das fotos que tirou com os fãs e da frieza dos microfones dos repórteres de rádio e tv.
Lembra do carrão novo.
E do novo carrão novo.
Pensa nos jantares que não pagou nos restaurantes e no sorriso fácil das moças.
Pensa nas moças. Nas coxas das moças. Nas festas com as moças.
E Bruno pensa na liberdade que a sirene da ambulância que passa na rua, anuncia.
E que ele consegue escutar de dentro do fórum de Contagem, onde é é julgado por um crime que jura que não cometeu.
No que pensa Bruno, agora?
Ele pensa no pênalti mal apitado, no centroavante em impedimento e no placar adverso, registrado no letreiro luminoso do Maracanã?
Ou será que ele pensa na liberdade, este chute cara-à-cara, à queima-roupa, em pleno Fla-Flu?
Ela, a liberdade, é esta bola indefensável, chutada com violência bem "na gaveta".
Bruno se espicha todo, mentalmente, tentando interceptá-la.
Ele salta, corpo arqueado, os olhos postos na bola que vai em direção à forquilha.
A liberdade é um pássaro sem asas - pensa Bruno -, no que se espicha todo tentando alcançá-la.
Ela é esta bola que está indo, cruel e indefensável, contra o seu gol.
Ela é esta que vai morrendo agora - mansa e pela última vez - no fundo das redes do cidadão Bruno Fernandes, já não mais um goleiro de futebol.
 
Foto de Wilton Júnior/AE

40 comments:

Luis Eustáquio Soares said...

aqui estamos, pra dar cartão vermelho á arrogância do dinheiro, a que matou a vítima do endinheirado goleiro.
a
l

Tania regina Contreiras said...

Cronista/poeta que encontrei e logo senti a alma e a veia...Te ler é querer ser-te em tantas coisas. Quando tu nasceu, já era verso e prosa...
Beijos, Beto

Parole said...

Nada disso justifica -talvez- o assassinato, pois pela justiça ele ainda não foi julgado, mas o seu texto além de muito bom é humano.Gostei muito.


Beijinhos e um ótimo dia.

Bandys said...

Ola,
Historia triste...mas infelizmente Bruno já não é mais pai, esposo, amante, filho, neto, muito menos um ídolo. Me atrevo a dizer até que não é mais um homem. Talvez um menino começando sua vida dentro de uma prisão. Falhou em todas. Pena.

Abraços

Primeira Pessoa said...

luis eustáquio,
a vida é o juiz. acho que é ela quem apita o jogo do viver. assim sendo, vida, como todo juiz, ela erra também, valida ilicitudes, comete injustiças e às vezes acerta, também.
bruno cresceu sem a menor estrutura e não teve lastro pra segurar a onda e entender, de fato, a grande oportunidade que teve.

fico feliz com a sua presença em meu blog.

abração do
r.

Primeira Pessoa said...

quando eu nasci, nasceu um bacurizim roxo-violeta (o cordão umbilical enrolado no pescoço), palavras de meu pai.
beijo grande, taninha.
beijo grande.

Primeira Pessoa said...

Parole,
o que você fala é essencial. a sociedade se esquece de que toda pessoa é inocente, até que provado o contrário.
infelizmente, geralmente é o contrário: toda pessoa é culpada, até que prove a inocência. louco, né?
e eu já não falo de bruno. aliás, eu nem falava de bruno.

é uma alegria ler você em meu blog.

abração do,
r.

Primeira Pessoa said...

bandy,
como diria joão guimarães rosa, viver é muito perigoso.
bruno, eliza e macarrão, nasceram deserdados de sorte. e, cada um do seu jeito, não soube virar o jogo.

esta é apenas mais uma, entre milhões de outras tragédias anunciadas.

bem-vinda ao blog.

abração do

r.

Dois Rios said...

Dizer a um cronista que ele escreve bem seria o mesmo que dizer que um peixe nada melhor que os outros, rs. Mas dizer da sensibilidade na escolha e explanação lírica do tema é, dentre os que eu leio, mérito para ti e outra meia dúzia de colegas teus, Roberto.
---
O ex-goleiro Bruno se enganou ao "pensar" que liberdade é pássaro sem dono que, uma vez capturado, passa a "rezar" as leis do seu captor. Sabemos que não é assim. Liberdade é pássaro frágil que requer habilidade e cuidado no seu trato. Havemos de alimentá-lo, aparar as suas asas e deixá-lo voar sem nunca perde-lo de vista. Ele o teve o pássaro nas mãos, deixou escapar e, travestido de semideus, pensou que poderia " de$engavetá-lo" num simples gesto de coçar de bolso. E lá se foram três dos muitos anos sem poder resgatá-lo.

Kellen Bittencourt said...

Olá amigo, fantástico texto, como pode uma vida ser jogada assim para o alto por tão pouco, não acredito na inocência dele, lamento pela falta de inteligência por achar que o poder do sucesso tudo pode sem consequências, que a justiça seja feita de verdade! Abraçossss

dade amorim said...

História mais triste essa, meu Deus.
Mas você narra tão bem que até dói mais.

Abraço, r.

Fernando Campanella said...

Na medida certa, esta crônica, reflexiva, sem julgamentos, uma grande sensibilidade do cronista. Abração, Beto, e sempre fico feliz com tua presença.

Anonymous said...

Beto ,vc foi mais advogado do Bruno e Cia do que o próprio, usando crack, numa esquina qualquer...! Veja a escolha do defensor do mesmo nível da quadrilha!
Indefensável a psicopatia... São ruins mesmo, como seres humanos...!
Tragédias diárias e incompreensíveis..Bastava um DNA ...e uma pensão! Assassinos!

Bípede Falante said...

São muito tristes essas histórias em quem ninguém sabe a exata verdade mesmo que ela pareça óbvia.
São muito tristes as vidas que deixam de se saber.
Mas é muito feliz a escrita que nos sensibiliza.
beijo
BF

Primeira Pessoa said...

inês,
eu já vi muita coisa nessa vida. muita!
cresci vendo violência, ainda que protegido de tudo isto vivendo numa casa cheia de amor, respeito, olhares cuidadosos (mas severos) e os devidos cuidados para não ser chamuscado. esta última parte é instintiva.
esta vida miserável, periférica, eu sei de cor. ela é bem cruel.

beijão do
r.

Primeira Pessoa said...

kellen,
baixou em mim aquele filósofo de botequim: a vida é como a tocha olímpica, tem que ser carregada com orgulho e com os devidos cuidados, pois ela dignifica quem a transporta e lhe tem o devido respeito... quem não sabe respeitar este ritual, acaba se queimando, ou mesmo apagando o seu fogo.
existem muitas tochas apagadas circulando por aí.

abração do
r.

Primeira Pessoa said...

dade,
parece incrível, mas já notou que, mesmo não sendo novidade, a gente ainda fica sempre muito impressionado?
eu fico.

abraço grandão procê, do

r.

Primeira Pessoa said...

campanella,
quem sou eu pra julgar?
falando nisto, sempre recebo carta de convocação das autoridades americanas, convocando-me para fazer parte de corpo de jurados.
eu respondo o formulário com uma única resposta: "NO ENGLISH". rs

tenho muito medo de cometer uma injustiça, seja pra glória, seja pra inferno.

beijão, amigo.
saudades suas.

r.

Primeira Pessoa said...

ô anônimo.... rs
assina o comentário, uai...

não defendi o bruno. nem ofendi.
escrevi do jeito que eu sinto e vejo.

com relação ao ércio quaresma, pitando crack numa esquina de bh, fica aquela sensação frustrante, de desperdício de talento.
ainda outro dia vi um video dele em são joão del rey, trabalhando: estupendo, apesar de meio rede record... rs.

abração do
r.


Primeira Pessoa said...

lelena,
deu uma enorme vontade de escrever, ontem. fazia um tempinho que esta vontade não vinha, apesar de eu ter começado a escrever diversas cronicas e de não terminado nenhuma delas.
fico feliz que tenha lhe agradado.
quanto ao bruno, tenho pena.
muita pena.


sua presença por aqui, faz este blog ficar até simpático.
beijão,
r.

mariangela alvarez said...

Beto, convivo com violência diária, mas mesmo nesse regime,há um resíduo de humanidade na maioria da periferia...
Vou dizer porque não tenho pena:
A menina foi sequestrada, mantida em cárcere privado, espancada por dois dias,levaram o filho do seu colo, enquanto ligavam o som alto numa festinha de arromba... isso é planejamento de crime..! Ademais, ele recusou fazer o teste de DNA, mesmo sob custódia... prova cabal da frieza de sentimento...Infelizmente esse atleta é amoral... não sou juíza de ninguém, mas conheço um pouco de psquiatria forense...rss
Beijo...

Ana (Ballet de Palavras) said...

Roberto,
Um caso que chocou-me e, a Portugal, semelhantemente. Um vida abruptamente interrompida (Eliza) e, uma morte agonizante em vida (Bruno).

Lamentável e, triste.

Se desejar leia o meu texto: http://balletdepalavras.blogspot.pt/2010/07/elisa-samudio.html

Ele, retrata todo o meu sentir.

Um laço de admiração.
Ana



Primeira Pessoa said...

ana,
vou ler o seu texto, sim. e é para já!
estas tragédias sempre nos chocam muito. e chocam mais ainda, neste caso, por se tratar de uma figura pública, de um futebolista famoso.

não tenhamos dúvida de que isto acontece cotidianamente, sem que tenhamos interesse maior pelo seu enredo. afinal, como costumo dizer no jornal, personagens anônimos quase nunca chegam à capa da publicação.

um grande abraço do

r.

Primeira Pessoa said...

sim, mariângela. se for olhar por este ângulo, é pena máxima, eu sei.
eu só não posso é passar por cima do fato de que todos os envolvidos nesta estória são uns fodidos pela vida, desde sempre.
macarrão vendia drogas, bruno so conheceu a mãe depois de famoso (terá existido um pai?) e elisa fazia filmes pornôs.
o pai de elisa é acusado de, entre outras coisas, estupro. e a mãe de elisa, basta olhar pra ela, que se percebe muito.
sim, julgo.
sim, julgamos.

a vida tem sido - e não é de hoje -esse coliseu romano tão fedidinho.

beijão, mariângela.
sôdade d'ocê.

mariangela alvarez said...

Oi Beto muitas sôdades também..!
Aliás, vc sempre de vanguarda ! Tuas crônicas além de sensíveis á nossa realidade, nos proporciona trocas de idéias com o autor... Não é um blog frio ou uma crônica distante (tipo, fod.. se leitor), é,interativa, qualidade rara em muitos escritores...! Parabéns!
But, voltando ao caso execrável e infeliz, tenho pena é da criancinha, que viverá com esses fantasmas ad eternum!Dez encarnações para esquecer o drama!
Beijoka

Tatiana said...

Teu texto é lindo, provocativo, poético e humano. Me emocionou e fiquei assim, sem ter o que dizer. Uma pena que a injustiça venha grudada em algumas vidas... E outra pena o desperdício de oportunidade. Várias penas. Foram todas muito bem lembradas, Roberto. Prabéns pela ótica e pela habilidade lírica.

Primeira Pessoa said...

mariângela,
antes de mais nada: o que é bom pra dor no ciático?
cada médico me fala uma coisa. pra amarrar os sapatos, tá uma dificuldade...
quanto a isto de interagir com a turma que vem aqui, eu não conheço outro jeito. tem outro jeito???

beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

tati,
eu não escrevia nadica, fazia um tempinho. esta semana deu uma coceira, uma motivação.
depois de véio, dei pra isto: de um ano pra cá, só escrevo, "espetado".
quanto ao o texto, em si, pode ser melhorado (e muito). mas não seria o que é e perderia até em contexto.
como eu não entendo de nada do que tô falando, vou ali em riba tomar um gin tônica e fingir que nada disse.

beijão,
r.

ps: e LF veríssimo aí, no moínhos de vento, pertinho de vocês, lutando a luta mais difícil... cê viu???
meu coração bate em porto alegre. bate no moínhos de vento.

Tatiana said...

so, just keep writing this way!

Pois entao, o LFV, to acompanhando boletim por boletim, como nota de filho. Hoje suspenderam a sedação; ele vai sair dessa, vai sim. Se ele morre, eu morro junto. Não há maior.

Primeira Pessoa said...

tati,
no ano passado trouxemos o LF verísismo aos EUA, num projeto chamado "minha pátria, minha língua" e foi muito legal.
acompanho daqui, tintim por tintim a luta dele para seguir entre nós.
é um dos maiores, entre os maiores.

torço muito.

beijão,
r.

Mariani Lima said...

Um digno de pena por não ter tido a clareza de gozar as oportunidades que teve. Uma pena, um desperdício.
Belo texto.
Abraço.

Mariangela Alvarez said...

Oi Beto..
Primeiro.. Diminua os ritmo dos intercâmbios neuromusculares nessa fase...anti inflamatórios, arnica e repouso..
Indico acupuntura.. Excelente, nessa fase também..
terceiro: Faça depois uma TC de coluna, descartar uma hérnia de disco..
Beijo

PS: se precisar te dou o meu n do celular..

Wilkatia said...


Triste mas real.

Sempre me perguntei o que leva um ser humano(?!) a cometer tais tipos de crime.
Em minha busca obtive diversas respostas, mas a que escolhi foi simples, a mais simples...

Aos seres humanos(demasiado humanos!) falta (ou faltou) apenas amor...

Não consigo mais julgar ninguém...

Abraços e prazer por tê-lo em meu blog.

Beijos mil da Wil.

Primeira Pessoa said...

wil,
salvo raríssimas excessões, somos produto do meio.
tragédias como esta se repetem todos os dias, em maior ou menor grau. não fosse bruno um atleta de renome, a imprensa não gastaria muita tinta contando a sua estória.

seja bem vinda.

abração do
r.

Primeira Pessoa said...

mariângela,
tenho passado muito tempo deitado. às vésperas de competar cinquentinha, sou definitivamente um véio de fato e de direito.
deito-me cedo, acordo cedo, também.
o cleber redondo havia me falado de acupuntura; me contou que tem um acupunturista coreano ótimo em forte lee. vou correr atrás.
e vou te informando o progresso.
beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

mariani,
sinto tanto pelos que não reconhecem a oportunidade.
e isto se aplica a pessoas de todas as origens.
a oportunidade é um cavalo que passa encilhado em raras em raras ocasiões.
os perdulários se tornam extremamente infelizes.

abração,
r.

Bípede Falante said...

Também sInto pelos que adiam suas vidas e perdem suas oportunidades. Às vezes, é preciso um pouco de loucura para abraçar a felicidade. Algumas pessoas com o tempo se prendem demais as suas historias e desaprendem a correr riscos e a mudar. Há sempre uma boa razão para permanecer como se está: trabalho, patrimônio, família, filhos etc., não é?
Bjs.

eurico portugal said...

até o pombo mais ágil, esse que em tempos dominou o céu e deslindou os mistérios do voo, um dia perde as asas e o direito a voar.

abraço, querido amigo de tantos lugares meus!

Primeira Pessoa said...

euriquíssimo,
este bruno esteve para ir para o seu benfica, sabia? um pouco antes do crime, ele negociava com o milan para substituir dida.


abração do
r.

Primeira Pessoa said...

é verdade, bipede.
às vezes damos bolo na vida, marcamos o encontro comk o sucesso e não vamos a este encontro... e aí saimos culpando o sistema por nossas conveniências, nossos medos, fraquezas e inconsistências.
sim, isto precisa ser compreendido, é da condição humana.

eu não julgo os que perdem o trem da história, os que não embarcam nas oportunidades.

como o bruno, por exemplo, que tinha tudo pra ser e até foi, por um breve momento.
perdeu-se, é claro.

ficamos todos, agora, chorando-lhe o leite derramado, suas penas.

beijão do
r.