Wednesday, November 14, 2012

Vinícius, eterno presente













Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
(Vinícius de Moraes)

8 comments:

Tania regina Contreiras said...

Um dos poemas de Vinicius que mais gosto, Beto.Profundo, profundo. Já chorei com ele...rs...quando sabia chorar.

Beijos,

Primeira Pessoa said...

Pelos motivos certos, chorar é bálsamo, taninha.

de vez em quando, dou de umedecer lenços.

beijão,

r.

Dois Rios said...

Vinícius conseguia a proeza de botar encanamento na dor. Só desse jeito, do jeito dele, a dor ficava bonita.

Beijo,
I.

Primeira Pessoa said...

ô, inês,
uma pessoa do meu círculo de amizades conheceu bem vinícius e me garantiu que o poeta maravilhos era um bebum inconveniente e "bobicento".

eu nem quis ouvir.
não quis quebrar o mito.

beijão,
r.

Dois Rios said...

O Vinícius era "bobicento" na intimidade de um lar/bar. Já o Poetinha, era genial! É o segundo que nos interessa. O resto é conversa de bastidores que jamais respingou nos seus versos.

Bjs.

Primeira Pessoa said...

então, o véio vina agia como meu pai, inês: faz o que eu faço. não o que eu faço.

o poeta romério rômulo vive na casa de scliar, em ouro preto. trata-se de uma casa cheia de fantasmas e abrigo de vinícius quando ele compôs alguns de seus mais consagrados afro-sambas.

beijão do
r.

Índigo said...

¿Y qué decir después de esto? Tal vez solo: ¡ven, ausencia!

Primeira Pessoa said...

giga sim, mulher de la mancha.
diga sim a poesia!

abraço afetuoso do
r.