Sunday, November 18, 2012

Um poemaço de Herberto Helder


Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar,
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas,
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes
ele - imagem inacessível e casta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.

Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.
Ah! em cada mulher existe uma morte silenciosa;
e enquanto o dorso imagina, sob nossos dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
- Ó cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.

E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte.

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.

- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.

Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada beleza.

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.

Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida - e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe
a força maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.

Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobre
as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira - para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.

Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.

Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.

Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.

Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.

Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

Se te apreendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros do crepúsculo
- aspiram longamente a nossa vida.

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho, no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.

Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.

(Herberto Helder)

20 comments:

eurico portugal said...

herberto helder, a par de al berto... o maior.

"Uma mulher com quem beber e morrer." tudo o resto é apenas apeadeiros na vertigem da viagem.

abraço, robertílimo, num registo agora mais voltado para o que se faz do lado de fora e que vejo quase como serviço público :)

Tania regina Contreiras said...

Grandes poetas, grandes poemas, grande Roberto... Seleção de primeira tens feito. E não perco uma linha, ainda que relendo os que amo, porque reler é sempre ler pela primeira vez. Os poemas continuam dizendo para além de si.
Beijos,

Assis Freitas said...

se eu escrevesse um poema desses, penduraria as chuteiras para sempre, nem Maradona me faria voltar


abração broda

Primeira Pessoa said...

zé de assis,
cê escreve e diz coisas belas.
maradona?
sei não.
pelé!

beijão
r.

Primeira Pessoa said...

taninha,
é bom ter com quem compartilhar. acho que trata-se de um dever "cívico" passar adiante absolutamte tudo o de bom que vida e viventes tem pra nos oferecer.
você é uma mensageira do bem-haver, do bem querer.
beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

euriquíssimo,
tenho imenso gosto em compartilhar pérolas alheias, mas se for preciso dizer a verdade, a mais absoluta verdade, confessarei que parte desta iniciativa acontece para que o blog não fique desativado.
ultimamente não consigo escrever absolutamente nada.
digo mais:
ultimamente não tenho conseguido escrever sequer o meu próprio nome.

abração,

r.

Lídia Borges said...


Herberto Helder!...

Um mundo inacabado, uma massa de forma diversa que o leitor terá de moldar entre respirações e interpretações múltiplas.
Uma estética a tocar o surreal.

Beijo

Primeira Pessoa said...

Lidia,
Herberto é um dos maiores escritores de l;ingua portuguesa em todos os tempos.
Mago das palavras, habilidoso treliçador de sentimentos, como poucos.
Bom ler você por aqui, Lidia.

Abraçào do
R.

cirandeira said...

Maravilha!, Roberto.
Uma verdadeira Ode à mulher feita por um poeta dessa grandeza, é realmente algo maravilhoso. O que
conheço de sua obra restringe-se a prosa, mas depois de ler esse poema-ode-elegia (?)
sinto-me na "obrigação" de conhecer
melhor sua obra poética.
Acho super importante compartilhar
com os amigos o que conhecemos. Obrigada por isso!

um beijão

dade amorim said...

Ele é fera, sem dúvida. Assis tem razão, eu também penduraria a chuteira, se escrevesse um poema desses.

Quanto à tua pergunta, já ouvi muitas conchas, e adoro fazer isso.
Obrigada por tua presenaça,
abração.

Primeira Pessoa said...

dade,
acho que eu "me" penduraria, tivesse escrevido um poema assim.
quanto à presença no blog, peço que me desculpe pela ausência.

estou, devagarinho, rencontrando caminhos.

beijão do
roberto.

Primeira Pessoa said...

cirandeira,
sempre é tempo.
confesso que há pouco tempo eu não sabia que a poesia portuguesa havia se renovado com força tamanha, e que fernando pessoa já descansa em paz.
e, sim, compartilhar, sempre.
como quem compartilha, na fome, um pedaço de pão.

beijão do
r.

Verso Aberto said...



renasci com este poema

abs mano

Primeira Pessoa said...

você já é eterno, marquinho pizano.

saudades de você, mano.

Dois Rios said...

Comecei a esbarrar em Herberto Helder quando ao criar o Dois Rios, entrei com mais determinação no universo da poesia. Não sou expert em poetas e/ou poemas, ainda que acredite que não seja necessário ir além. Sentir, basta! Sinto, então.

Belíssimo poema! Senti!

Beijo,

Primeira Pessoa said...

Inês,
ao contrário de muita gente pensa, acho que arte é muito mais para leigos, do que para eruditos.
arte não é, a meu ver, para ficar sendo rotulada e definida e morar dentro de teses acadêmicas.
arte, pra mim, em qualquer das suas manifestações, é "matéria" feita de nuvem, éter e vento, e é para ser sentida.
e tão somente.

beijão do
r.

Índigo said...

Hermoso. Intenso. Para leer y releer en este día gris que pespuntea con algunos hilos de sol.

Y tú, tú ya escribirás y algo más que tu nombre.

Besos de esta mujer de la mancha que un buen día se fue a nacer a Santiago... de Compostela.

Anonymous said...

Maravilha !

Que frescor de poesia!

O máximo... dá vontade de ser homem !

Amei!

Mariseven Zanon said...

Sem fôlego aqui. Não conhecia o poema. Sem comentários, ou comentários demais!!!

Primeira Pessoa said...

Mariseven,
herberto é das melhores coisas de nossa literatura.
ele é plularíssimo.

tô de acordo.
abração do
r.