Thursday, November 15, 2012

O genial Eugénio


Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mão à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.



Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.



Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.



Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.


(foi mantida a grafia original)


Eugénio de Andrade
(José Fontinhas) é um inspirado poeta português nascido em Póvoa de Atalaia (Fundão), a 19 de Janeiro de 1923. Aos sete anos vai para Lisboa com sua mãe, lá residindo até 1950, exceto nos anos de 1943 a 1946, quando viveu em Coimbra. Em 1947 ingressa nos quadros dos Serviços Médico-Sociais, do Ministério da Saúde, onde desempenhará durante 35 anos a mesma função - a de inspetor administrativo - pois nunca se dispôs a fazer concursos de promoção. A sua transferência para a cidade do Porto, por razões de serviço, deu-se em Dezembro de 1950, e quando houve oportunidade para voltar a Lisboa, motivação já não havia pois sua mãe falecera. Apesar do seu prestígio, face ao reconhecimento internacional de sua obra, o poeta vive extremamente distanciado do que se chama vida social, literária ou mundana, avesso à comunicação social, arredado de encontros, colóquios, congressos, etc., e as suas raras aparições em público devem-se a "essa debilidade do coração, que é a amizade", devendo encarar-se do mesmo modo o fato de ser membro da Academia Mallarmé, de Paris. Cabe aqui referir que nunca concorreu aos prêmios que lhe foram atribuídos, como nunca ninguém o viu usar usar qualquer insígnia das condecorações com que foi agraciado. A poesia que escreve é honra que lhe parece suficiente.

A obra de
Eugénio de Andrade, além de sua poesia, prosa, livros infantis e traduções, é também engrandecida pelas antologias que organizou, em sua maioria sobre a terra portuguesa,caracterizadas por uma total ausência de preconceitos e sectarismos literários. Traduzido em cerca de vinte línguas, a poesia de Eugénio de Andrade tem sido estudada e comentada por, entre outros, Vitorino Nemésio, Gaspar Simões, Oscar Lopes, António José Saraiva, Eduardo Lourenço, Jorge de Sena, Eduardo Prado Coelho, Arnaldo Saraiva, Joaquim Manuel Magalhães, Ángel Crespo, Carlo V. Cattaneo, e suscitado o interesse de vários músicos, entre os quais Fernando Lopes-Graça, Jorge Peixinho e Filipe Pires. O poeta foi o distinguido com a edição do ano 2000 do Prêmio Vida Literária, instituído pela Associação Portuguesa de Escritores (APE).

No dia 10 de julho de 2001, aos 78 anos, foi agraciado com o
Prêmio Camões 2001, considerado o mais importante prêmio da língua portuguesa, pelo conjunto de sua obra. Passa a fazer companhia a outros grandes nomes de nossa literatura, já premiados, como José Saramago e Sophia de Mello Breyner (portugueses), e Autran Dourado, João Cabral de Melo Neto, Rachel de Queiroz, Jorge Amado e Antônio Cândido (brasileiros).

O poeta faleceu na cidade do Porto, em Portugal, no dia 13 de junho de 2005.
 
 
 
 
 

12 comments:

Magnolia said...

Genial mesmo....

Primeira Pessoa said...

Magnólia, li muito Eugénio em seu blog. Aliás, Eugénio e outras feras.

Sônia Brandão said...

Eugénio é um dos meus poetas preferidos.

abs

Primeira Pessoa said...

sonia,
é muito legal isto de o brasil estar descobrindo eugénio, um dos segredos mais bem guardados da poesia na língua portuguesa.

abração,
r.

Tania regina Contreiras said...

Aprendo com ele (o Eugenio) e contigo.

Beijos,

Primeira Pessoa said...

aprendendo a dizer as coisas com os grandes mestres, taninha.
aprendendo a dizer bom dia, boa tarde e boa noite.
aprendendo a dizer - quando a vida não é capaz de dizê-lo por nós - o que só a poesia nos ensina a pronunciar.

beijão,
r.

eurico portugal said...

mas porque também há as palavras que não se gastam, nunca aprendi a dizer "adeus".

um abraço, robertílimo!

p.s. tenho o porto com um amigo e duas camâras fotográficas em roteiro para sexta-feira. francesinha especial consta do programa, ainda que sem arroz. alinhas? :)

Primeira Pessoa said...

euriquíssimo,
ainda ontem falei com o peter (falamos!) sobre o porto e sobre você. comentávamos o fato de que no último novembro, o porto nos beijava as faces. e que foi uma viagem inesquecível.

francesinha?
eu vou aprender a fazer. juro que vou.

e aí, quando você me visitar, farei pra você.

abração do
r.

Lara Amaral said...

Tenho um canal no youtube onde publico poemas que gravo. Tem este lá, que o Sandrio me sugeriu para gravar:

http://www.youtube.com/watch?v=u1ByzN9s4Ks&feature=plcp

Primeira Pessoa said...

larinha,
visitarei você também no youtube.
beijão,
r.

Índigo said...

Una belleza en su absoluta verdad y tristeza.

Y el otoño que se nos adentra.

Primeira Pessoa said...

mulher de la mancha,
eugénio de andrade é maravilhoso.
adoro a poesia dele.

beijão,
r.