Saturday, November 10, 2012



Frágil coração de poeta

Coração de poeta é um objeto frágil, peça de cristaleira que, se cair, pode quebrar.
O meu deu um grande susto na semana que passou.
Estava deitado, encafifado com um mote qualquer, pintando na tela branca do teto mais um impossível Renoir.
Foi quando senti aquela pontadazinha no peito.
Ignorei, pensei que fosse prisão de ventre.
Não era.
Fui ficando assustado.
Diante daquela súbita ameaça, dei um salto da cama e fiz a coisa mais sensata que qualquer homem faria num momento desses: gritei por mamãe.
E ela veio.
Dona Rute, de visita, correu pra me socorrer.
Fez massagem, compressa de toalha molhada, rezou para São Judas Tadeu, mas o suadouro não parava.
O jeito foi rumar para o hospital mais próximo, antes que fosse tarde demais.
No hospital, demorou a cair a ficha.
Veio a bateria de exames de coração e a coleta de sangue suficiente para escrever um poema num muro qualquer.
O eletrocardiograma indicava que estava tudo bem, mas o exame de sangue não deixava dúvidas: eu havia enfartado.
Enfarte é uma palavra tabu. Como a broxada, o exame de próstata e a “freada de bicicleta”. Homem evita tocar nesses assuntos.
No escuro do quarto de hospital depois que todos se foram, chorei miúdo. Afinal, quem tem coração, costuma chorar numa situação dessas.
Pensei nas pessoas que dependiam de meu trabalho para ter sobre suas mesas um pedaço de pão, nos que verdadeiramente me queriam bem e nos que não mereciam participar daquele pensamento dolorido na solidão de meu corner.
Custou a amanhecer.
Sabino Torre, um médico italiano de aproximadamente 50 anos, bigode à Barão do Rio Branco, considerado uma das maiores autoridades em cardiologia em New Jersey, cuidou do caso.
Antes de entrarmos na sala de procedimento cirúrgico - enquanto uma enfermeira filipina muita bonita depilava a minha virilha -, Sabino chegou ao meu ouvido e cantou a bola:
    - "Deixa comigo, meu chapa. Você não poderia estar em melhores mãos. Vai ser uma viagem suave”.
Mais um calafrio.
    - "Viagem?"
Felizmente, o cateterismo mostrou que não havia bloqueamento das artérias.
Eu não havia, verdadeiramente, enfartado.
Tratou-se de um vírus que se espalhara por várias partes do corpo e tentou, num momento de suprema audácia, se alojar no lugar sagrado onde só deveriam entrar as musas, os familiares, os bons amigos e as letras do alfabeto usadas na composição de poemas e canções.
O músculo da emoção, diante da ameaça de invasão, expele uma enzima que só é dectada através de exame sanguíneo. Trata-se da mesmíssima enzima que anuncia o enfarte.
Após uma semana sob observação e transformando minha ala do hospital numa Marquês de Sapucaí, fui liberado.
As enfermeiras, acostumadas a lidar com velhinhos já 'descendo a serra', abandonaram por alguns dias a sisudez e o pragmatismo pelos quais elas são conhecidas, e entraram no samba do mineiro doido.
Foi quase uma festa.
Fazia muito que as moças do Saint Barnabas não cuidavam de um paciente tão pirado.
Uma delas chegou a sugerir que eu estaria na ala errada.
A de psiquiatria ficava no outro extremo do grande complexo hospitalar de Livingston.
Se não deixei saudades, terei deixado alívio. Vou enviar flores e chocolates qualquer dia destes. Junto com meu pedido de desculpas, obviamente.
Conversando sobre o assunto com Kledir Ramil, recebi algumas recomendações, que deverei seguir à risca.
Para quem não sabe, além de inspirado cronista e cantor, ele é também dublê de proctologista e consultor de informática para leigos de todos os credos.
Usando seu método infalível irei cortar radicalmente o consumo de bebidas alcóolicas, sexo, rapé e alimentos gordurosos, como o torresmo de armazém e o pé-de-porco de botequim.
Passada essa fase de abstenção, entrarei na fase da prática de hábitos saudáveis. Caminhada na esteira, um litro de chimarrão por dia e vegetarianismo.
Vegetarianismo vem a ser um tipo de alimentação praticado por antigos povos afeminados, como os espartanos e os pelotenses, que sabidamente desenvolve a resistência das coronárias e a sensibilidade artística. Com sorte, serei parceiro de Kleiton & Kledir numa penca de canções.
Irei cortar os açúcares, as massas e, em caso supremo, os pulsos.
Se tudo isso não adiantar, instalarei um antivirus no coração.
Segundo Kledir, se dá certo no computador, deve dar certo na gente também. Pode ser um Norton, um McAfee, ou de uma outra marca qualquer.
Embora eu preferisse, caso já existissem no mercado, os da marca Drummond, Rimbaud ou Baudelaire.
Esses, sim, os antivírus mais adequados para coração de poeta.

23 comments:

Tania regina Contreiras said...

Uma das tuas crônicas que mais amo. Pela sensibilidade enorme, pela verdade tratada com bom humor, pela revelação desse coração enorme...

Beijos, Beto.

Mariani Lima said...

Esses momentos rendem reflexões e mudanças ímpares na nossa vida. Vemos com mais clareza o pó no cantinho da sala. Estimo melhoras e que possa fazer melhor uso da máquina em questão. Um abraço.Fica com Deus.

Verso Aberto said...

passado o susto
- que também tivemos -
putz Beto, que coisa

que este vírus ative inimagináveis correntes nas coronárias

e desobstrua
e redistribua
novas alegrias e
sempre mais poesias

(alguns cortes, vá lá, tudo bem
mas capação não heim rsrsr)

abs mano

Dois Rios said...

Roberto, meu querido,

Primeiramente o meu protesto por não teres atendido o meu pedido para não publicar o bobo comentário acima, rs.

Segundamente, admito que levei um baita susto com o início dessa prosa. Como é possível perder um amigo-poeta ainda por conhece-lo? No mínimo seria uma puta injustiça do acaso! Pois bem, no decorrer da tua maravilhosa crônica, a coisa foi se aclarando e o susto transformou-se num delicioso alívio.

A propósito, como escreves bem, Roberto! Dá gosto ler, vontade de reler e muita pena de chegar ao fim.

Quanto ao antivírus, sou mais a favor de que te autoinstales, rs.

Beijo,
I.

Kellen Bittencourt said...

Olá amigo, que susto hein, que bom que está bem e não foi nada mais sério, agora é cuidar-se! Abraçoss

Primeira Pessoa said...

kellen,
a crônica e o susto são relativamente antigos.
a preocupação, no entanto, persiste.

abração do

roberto.

Primeira Pessoa said...

inês,
esta auto-instalação é um negucim complicado. mudar de hábitos, depois de véio, é bem difícil.
parei de fumar, to manerando na birita, mas a tal da caminhada diária é que é o caroço da questão.

não se ensina novoc truques a um cachorro novo, mas to tentando.

beijão do
r.

Primeira Pessoa said...

marquinho,
a capação pode ter rolado, sim, e eu nem percebi...rs

depois cê tem que me contar direitinho sobre o seu susto. no outro dia me lembrei da gente lá em são raimundo, aquele calorão, pleno domingo, barrancando rango na casa de bispo filho. lembrei tanto que, de noitão, sonhei um tantão.
acortei achando que tinha 19 anos de idade.
não tinha.
não tenho...rs

beijão, marquinho.

Primeira Pessoa said...

mariani,
mal passou o susto, voltei a pisar na bola.
acredita que, ao publicar novamente a crônica me deu um chacoalhão.

é vero.

abração,
r.

Primeira Pessoa said...

taninha, maninha...
quando cê gosta, eu gosto tão mais de tudo.
fico muito feliz quando alguma coisa minha agrada você.

e sei que cê sabe que sim.

beijão,
r.

cirandeira said...

Eita poeta bom de prosa, e eu inda nem conhecia essa crônica, nem sabia desse susto passado que quase te pegou de jeito, hein?(e a mim também!) Mas de frágil não tens nada, que esse teu coração transbordante de poesia ainda há de nos deleitar por muitos anos!!!

um beijo, poeta!

Mariangela Alvarez said...

Ops que susto! meninão..

Já iria te receitar um anti viral! Uma bomba com 19 comprimidos diários, mas achou a cura per se..
Drummond , Rimbaud e Baudelaire!
Força aí... não desista da caminhada.!
Beijão

Primeira Pessoa said...

mariângela,
se esse hipocondríaco aqui fosse pagar todas as consultas "de grátis" que cê já me deu, teria que vender um rim.

é bão demais ter amigo médico e dono de botequim. rs


beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

cirandeira,
tomara que sim.
que eu ainda viva o bastante pra dar tempo de realizar um tanto de sonhos.

já perdi tanta coisa nessa vida, mas a capacidade de sonhar não me abandonou.

te ver por aqui me alegra.
sempre me alegra.

beijão,
r.

dade amorim said...

Ainda bem que foi mais um susto do que um infarto. Melhoras rápidas e sempre, sempre esse texto divertido e gostoso de ler.

Abraço grande.

Batom e poesias said...

Primeiro eu me assustei, depois chorei um tiquinho (pois meu coração é molenga), e mais depois ainda eu gargalhei com gosto.
Você é um lindo!

Bjcas
Rossana

Dois Rios said...

Roberto, admito que não dou pulinhos de alegria quando "tenho" que caminhar, mas incorporei isso à minha vida como um hábito semelhante ao de tomar banho, coisa também, que ninguém faz com
esfuziante alegria mas que, além de necessário, faz com que nos sintamos bem melhor, depois. Tenta caminhar ouvindo música. É bem menos sacrificante.
---
Em tempo: Escrevi "autoinstalação" sem hífen, conforme o novo Acordo Ortográfico. Ainda que pareça, não foi derrapada, rs.

Beijo.
I.

Primeira Pessoa said...

inês,
banho, eu tomo.
juro que tomo.
ainda hoje falei com um grande amigo, sobre essa estória de caminhar. ele era meu parceiro de caminhadas. retomou o habito, recentemente, euu, não.
de uma semana pra cá, ando com medo de não cinquentar.

beijo grande do

r.

Primeira Pessoa said...

rossana,
pelo motivo certo, eu choro até trojevejar. rs
quem não chora, não ama.
ja escutou a marchinha?

abração do

r.

Primeira Pessoa said...

dade,
foi um sustaço.
mas passou.
tem bastante tempo, este episódio.
vez em quando, se estou abusando demais, tenho um amigo que me relembra - dedo em riste - o episódio.
este mesmo amigo, aliás, que me disse que eu morreria aos 51, por ser nome de cachaça.

não eu, o número.
de uns dias pra cá, nem tenho bebido.

beijão,
r.

Tatiana said...

Bah, eu passo uns diazinhos sem caminhar pelos blogues e por pouco nao perco teu maravilhoso texto quase post mortem.. Acho o maximo esse humor negro que na verdade é uma puta capacidade de sorrir e de ser feliz. Ufa que nao bateste as botas, vivente! Eu ja nao sei mais viver sem te ler e isso é uma responsabilidade q eu gostaria que fosse suficiente para tu começares logo essa caminhada, e o chimas, e tudo mais q te reomendou a gauchada - que essa gente sabe das coisas tchê!
Te cuida, sô.

Primeira Pessoa said...

o texto é antiguim, tati.
como eu, um homem também antiguim.
quanto aos conselhos gaudérios, não deu muito certo.
os caras queriam que eu parasse de comer pão com linguiça, de beber uma cachacinha e de cheirar rapé.

sartei.

beijão,
r.

Fernando Campanella said...

Opa, que susto, hein, Beto. E, veja só, essa crônica, além de muito bem escrita, como sempre, tem uma importância enorme, como se de um renascimento, um retorno. Muito bom, ótimo, ter você aqui de volta, teu talento, teu espírito, tua emoção. Abração.