Sunday, November 5, 2017

Pequeno rascunho sobre as lonjuras


(Para José e Ana, tecelões de lonjuras) 



Os estrangeiros dizem que a saudade é um termo exclusivamente brasileiro. Eu não concebo que um finlandês não a sinta. Que um indiano não sofra dessas lonjuras. 
Talvez seja apenas uma questão semântica, mas não consigo olhar para uma pessoa, independente do seu lugar de origem, sem imaginar que dentro dela exista uma saudade. 
Saudade de pessoas e lugares. 
De um tempo bom em suas vidas. 
De um dia especial ou de um marco pessoal nas suas respectivas histórias.
O norte-americano fala apenas que 'sente falta', mas não seria essa falta, essa bolha dentro da carcaça peitoral, a saudade da qual nós, lusófonos, tanto sentimos e falamos?
Embora não haja nenhum estudo científico que comprove, este profundo estado de melancolia que às vezes nos acomete é parte do DNA humano. 
Por mais que alguns ainda não tenham encontrado a sua definição e que lhes falte a palavra exata, ela nasce no indivíduo e é guardada no coração, como aquele som que mora na barriga das caixinhas de música .
Ela pode ser um jardim, mas pode ser também um abismo.
E dorme abraçada ao amor.
É poesia e canção.
Mas pode ser autoflagelo.
Nostalgia e privação.
Ela é distância geográfica e física.
E é mote para muita inspiração.
Pode ser uma ocorrência em um tempo que passou e não voltará. Um amor correspondido, a pré-orfandade ou a pré-viuvez.
Pode ser um arrepio, um déjà vu.
Que fique bem claro: tempo e saudade são filhos do mesmo pai, mas não são irmãos.
A saudade é irmã da impossibilidade.
É prima da aflição.
Ela pode acontecer em decorrência de um amor de adolescência ou de uma paixão de verão.
Pode ser fantasma recorrente de alguém que passou e fez tocar um frevo dentro do peito, mas que se dissolveu na paisagem ou evaporou.
Pode fazer tocar um tango de pequenas ruínas ou grandes tragédias.
E decretar no minifúndio dos afetos um perene estado de desesperança. 
Dizem que a saudade e a solidão caminham de mãos dadas, mas posso garantir que podemos nos sentir sozinhos no meio de uma multidão. 
Não que a solidão não seja chão propício para essas vertigens. Isso é que não.
Ela pode ser uma dor fina, como a raiz exposta de um dente, incomodando, trucidando devagarinho. Em alguns momentos pode se tornar insuportável e pedir um uísque ou outro analgésico.
A saudade é alguém que passou, mas que continua "aqui".
Alguém que o destino prometeu, mas não veio, e que mesmo sem ter vindo não se foi completamente.
Ela pode ser um lugar que ficou no passado e que hoje, por mais que revisitado, já não é a mesma coisa.
Mudam os lugares, mudam as pessoas. E o reencontro nem sempre é feliz.
Saudade, que é nome de cemitério e de flor.
É rima em poema e prêmio de consolação.
Restou a saudade, dizem os tristes.
Pobres tristes...
Sentimos saudades até de nós próprios, ou não sentiríamos um aperto quando recordamos dos dias em que tudo podíamos e nada nos parecia impossível.
Há quem sinta saudade da vida de solteiro.
Da infância e adolescência, sem as preocupações que afligem os adultos.
Saudade de visitar um amigo, um almoço em família ou de passar férias num determinado lugar.
Confesso que sinto saudade.
Saudade de muitas coisas e de algumas pessoas.
Saudade, principalmente, do que ainda não vivi. 
Saudade de Casablanca e Havana, lugares que não fui. 
Saudade de caminhar de mãos dadas pelas ruas de Praga e de Granada, terra de García Lorca.
Saudade de tomar um café numa esplanada de Roma ou de colher um girassol na beira de uma estrada da Toscana, como me prometeu o destino.
Eu não consigo - e nem quero - esconder que ando sentido uma vertiginosa saudade do futuro. 

2 comments:

Luiz Nelson Pita Ribeiro said...

Como me identifico com seu texto, Roberto! Conheci Casablanca e tenho saudade.É um sentimento que reanima nossas alegrias. Você então...globe-trotter literal e literário somou tantas alegrias, com seus livros a tiracolo,acalentados no colo, tem saudades do que realizou e tem a saudade que semeou no coração dos amigos colhidos nas suas andanças. Tenha saudades a acalentar, com seus próximos trabalhos.

flor de lótus said...

Simplesmente maravilhoso!