Sunday, April 30, 2017

Pequeno mapa do medo



(Para Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes)


A ansiedade é a véspera do medo.
E o medo é um homem-bomba que vive dentro de nós.
Quando não domesticado, o medo pode se transformar em uma grave doença, péssima companhia que nos influencia e transtorna, e que nos leva a viver um lugar árido e frio, uma espécie de cidade pavimentada pela tristeza.
Sou defensor da tese de que em doses homeopáticas o medo pode até  jogar a nosso favor.
Ele pode demarcar limites benéficos e nos dar uma sensação – nem sempre verdadeira - de segurança.
Na infância eu tive um amiguinho que tinha medo de borboletas. Foi o primeiro caso de motefobia de que tive notícia.
A borboleta que enfeitava a primavera e que pousou em flores o aterrorizava. Vista por seus olhos microscópicos ela era um monstro horrendo e que só ele via.
Ele percebeu, ali, que de perto ninguém é perfeito. Ninguém é tão bonito. Ninguém.
Naqueles mesmos dias passariam por mim a mula-sem-cabeça e o lobisomem. E eu sobrevivi.
E eu ainda temia o caboclinho d’água, uma lenda do rio que corria pela minha infância.
Por isto nunca pescava sozinho.
Veio daí essa tendência gregária - já adulto-, esse hábito de só andar em bando.
A vida tem tantos outros medos, constataria, à medida que molhava os pés em suas águas.
Mais medos do que certezas, concluiria.
Medo da cuca, que vem pegar.
Medo de andar de avião.
Medo de andar.
Medo de lugares fechados.
Medo de o elevador despencar.
Medo de dirigir um automóvel.
Medo de entrar na multidão.
Medo do escuro, da chuva, do relâmpago e do trovão.
Medo da violência urbana, de parar no sinal de trânsito e ver aproximar aquele motoqueiro com um garupa.
Medo de seguir em frente.
Medo do pivete, do sequestrador-relâmpago e das polícias.
Medo das milícias.
Estereotipamos, já perceberam? É o medo nos manipulando.
Temos medo de qualquer um. Às vezes temos medo de nós próprios.
Medo. Muito medo.
Medo de cair para a segunda divisão.
Medo de cair e não levantar.
Medo da mão pesada de Deus.
O tal temor a Ele, anunciado nas escrituras.
Medo de morrer e ir para o inferno.
Da chapa quente do inferno, do chifrudo de olhos vermelhos e seu tridente pontiagudo.
Estereotipamos.
Medo do fracasso.
Medo de broxar.
Medo de arriscar, mesmo sabendo que quem não arrisca, não petisca.
Medo da libertação.
Medo da autonomia.
Ablutofobia, Acrofobia, Belonefobia, Bienofobia, Claustrofobia, Lalofobia, Lactofobia, Motefobia, Nasofobia, Queimofobia, Tafefobia e Xenofobia.
Tudo é medo, medo, medo, como cantou o cearense Belchior, em Pequeno Mapa do Tempo.
E existem muitos outros, comprova a ciência.
O pior de todos, no entanto, é o medo de ser feliz.
Posso garantir e passar recibo, meus amigos, que não existe medo pior.



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* Pequeno Mapa do Medo é o nome de meu próximo livro e será dedicado à memória de Belchior e a José e Ana, dois amigos de Minas Gerais.

6 comments:

Anonymous said...

Bonito texto. Bonita referência. Apavorante perda. Tenho medo da música sem ele. Márcio Ares.

Luiz Nelson Pita Ribeiro said...

Brilhante texto. Fácil identificar várias situações como nossas também.

valéria tarelho said...

Texto impecável, o "rapaz latino-americano" fará falta no cenário.

"Vai, e se der medo, vai com medo mesmo" . Sei lá quem disse, mas é isso aí 😊
E sim, ser feliz é um pesadelo.

Tania regina Contreiras said...

Sem palavras. Engasgada. Belchior sempre será um grande ídolo pra mim. Uma crônica tua a Belchior: não poderia terminar o dia sem ela! <3

flaviane ferreira leao said...

Tenho medo de te ler, quando me preciso forte,
Medo de sua pena que alquebra,emociona, desmonta...
Eu num dia ousei sentir, admito...
É preciso "... ter medo de ser feliz..."





Anonymous said...

É isso mesmo. Depressão mata. Procure ajuda não deixe o medo interromper sua cminhada.