Monday, September 10, 2018

Cachecóis


A pele que habito
É cheia de becos escuros;
O coração em que moro
Tem duas janelas fechadas
E um labirinto de culpas

A veia que jorra
Sangue e gasolina 
Esguicha frustrações
Compradas em feira
Desilusões 'veraneiras'
Levadas em banho-maria 
Pecados lavados com cuspe
Desejos molhados de urina
Uma profusão de embustes 
E virtudes de perfumaria 


O espelho agora reflete 
O mapa das ruas na pele
Deserto de tantas miragens
A fonte da qual nada brota
Um cemitério de árvores
e crianças sem voz;
O medo que aniquila
Os poros entupidos
A cabeça dormente
De solidão e morfina
A febre em que ardo
A implacável insônia
O breu estranho das noites
E sua indecente companhia


A fome agora é de nada
E tem a velocidade
De um velho relógio parado
No cadafalso dos dias
A lágrima de água benta 
É ouro que reluz, intruso,
No colar de bijuteria.


Tenho a sede 
dos que sabem nada 
A fortuna dos que nada tem
A hora dos que mais tardam
Danço boleros sozinho,  
Rodopio desajeitado
O corpo disforme que gira
O rosto colado a ninguém 


Coleciono ausências de viço
Profusão de vícios, hábitos ruins
Às vezes sinto que prescrevi;


A alma que visto hoje
Não é um traje de festa
Ficou um silêncio tóxico
Restou a bandeira pirata
E a habilidade inata
De tecer cachecóis de lata
Com a linha invisível da dor.

6 comments:

Luiza De Marillac Bessa Luna Michel said...

Ola Escritor Roberto Lima: Feito banho de Cascatas. Deusa Pele, se Anestesia da Profusão Das Letras Douradas. Meus parabéns. Adorei conhecer seu blog. Voltarei mais vezes. Bj. Luíza De Marillac Bessa Luna Michel

Joakim Antonio said...

Seguimos cheios de remendos em pedaços maiores. Belo!

Tatiana said...

Balanço depois de um sinistro? 😊 Seja o que for é bonito. Dolorido e bonito, Roberto.

Primeira Pessoa said...

Tatiana, quando tempo!
Durante um sinistro, quero crer. A terra ainda treme sob os meus pés.

Primeira Pessoa said...

Verdade, Jack Anthony... remendados, como uma velha colcha de tecido ruim.

Abs,

R.

Primeira Pessoa said...

Seja bem vinda a este minifúndio, Luiza. Apareça sempre que quiser.
Abração do

Roberto.