
Descobri esta semana que Abaporu, de Tarsila do Amaral, um dos quadros mais importantes das artes plásticas no Brasil, é "emigrante" na Argentina. E isto doeu demais. O quadro faz parte de uma exposição no Palácio do Planalto e chamou a atenção do visitante Barack Obama, que perguntou à sua colega Dilma Roussef, o que ele representava para o Brasil. Abaporu tem esta força e apelo. Dilma fez as honras da casa e explicou se tratar de um dos maiores expoentes do movimento modernista de 1922. Ela se esqueceu de explicar, no entanto, que o quadro representa muito mais. Abaporu é muito mais que apenas um dos maiores produtos do movimento modernista de 22 e é, talvez, o mais conhecido de todos os quadros já pintados no Brasil. Será que não seria o caso de as autoridades brasileiras "repatriarem" Abaporu? Ter o emblemático quadro de Tarsila enfeitando a parede de um museu de Buenos Aires equivale, pra mim, a ver o Cristo Redentor numa montanha de Pequim ou Istambul. Já imaginaram as Cataratas do Iguaçu num cartão postal italiano? Ou o pantanal matogrossense no Texas? Faria bem para a auto-estima do país, que vive um momento tão bom, tão progressista, e seria uma espécie de resgatamento do futuro. Por mais que a volta de uma obra importante para a simbologia de país possa parecer uma busca do passado e de um tempo que se perdeu na história, no nosso caso pode ser exatamente o oposto disto. Afinal, o "país do futuro" parece estar, finalmente, acertando suas contas com o Destino e colocando os pés no melhor dos presentes. E o momento brasileiro é de exuberância, de resgate do amor-próprio, de grandes descobertas, de progresso e de ocupar um lugar que sempre nos foi prometido, mas jamais cumprido. Este futuro parece ser agora. Sei que parecerá estranho falar a um país com tantas carências, da necessidade do resgate de uma obra de arte, quando temos que resolver tantas outras pendências. Mas sou partidário de que cultura deveria ser prioridade nesta que é a sétima maior economia do planeta. Sei que virão me dizer que é mais urgente o combate ao tráfico de drogas e a pacificação das favelas. E que gerar novos empregos, semear novas escolas e resolver os mais prementes problemas de infra-estrutura, ocupam o lugar mais alto na lista de prioridades. E que é mais importante resgatar nossas meninas levadas para serem escravas sexuais nos bordéis do mundo, do que trazer de volta um quadro bonito. E que, muito antes de repatriar Abaporu, seremos cobrados a trazer de volta aqueles nossos filhos que colocaram o pé na estrada para ganhar o mais suado de todos os dinheiros, num outro país Sim, eu sei. Mas sei , também, que resgatar ícones da brasilidade pode ser possível, e que isto pode ter um efeito muito positivo na vida das pessoas. Vejam a alegria que Ronaldinho Gaúcho deu ao retornar ao Brasil. Seu retorno não agrada apenas a rubro-negros, mas a todo aquele que gosta do esporte bretão. Algumas empresas bancam os 1.2 milhão de reais que ele ganha por mês. E Ronaldinho Gaúcho nem é um Abaporu da bola. Ele, que é, hoje, quase um ex-jogador de futebol, nunca foi um Pelé, um Garrincha... Outro caso também recente e que causou bastante polêmica, foi o do valor a ser gasto no blog da cantora Maria Bethânia: quase um milhão de dólares. Um blog é apenas um blog, por mais que Maria Bethânia seja uma das maiores cantoras nascidas neste país. E Tarsila do Amaral é muito mais que uma das maiores. É a maior. Como uma operaçao desta natureza poderia ser ser feita? Confesso que não sei. A iniciativa privada, que ganha milhares de milhões todos os dias, bem que poderia prestar este serviço ao país. E descontar no imposto de renda. E isto é apenas um palpite de um sujeito que saiu há quase 30 anos do Brasil, mas que sempre teve o coração plantado por aí, como se ele fosse um pé de bananeira, um cajueiro ainda em flor. Nunca deixei de amar o país ou de respeitar aquilo que julgo ser importante para uma pessoa nascida nesta terra. Sou aquele sujeito que, toda vez que vou a São Paulo, tenho o estranho costume de ir ao Masp ver O Plantador de Café, de Portinari. Às vezes, vou só pra ver o quadro, saindo em seguida e me enfiando num táxi, para fincar bandeira no Bar do Léo (Rua da Aurora, número 100, bem no meio dos decadentes puteiros, no centro da cidade, e onde servem melhor chope do Brasil). Chegando lá, passo tardes inteiras tomando uns canecos, as retinas cheias da beleza roubada das tintas de nosso grande pintor e me sentindo o mais brasileiro de todos os brasileiros. Mas, este aí sou eu, e tenho dessas bobagens em mim. Eu sou apenas um palpiteiro nascido no Brasil.
A Música Que toca Sem Parar:
nos violões dos Irmãos Assad, a magia de Heitor Villa-lobos, Choros Nº 1.