Monday, October 24, 2011

... no que me despeço de BH




















"Amava em ti a graça das conciliações; eras frugal e fantasista, burocrata e boêmia; tua igreja metodista, pequenininha, enfrentava sem prosápia a lauta matriz de São José; o caminho era um só, escolhia-se a porta que agradasse. E a Praça da Liberdade, com seu Itacolomi de cimento para matar saudades de ouro-pretanos, era metade do Governo, metade dos namorados, em conspiração com as rosas.

Belo Horizonte subitamente trágica na matança dos guardas-civis e no crime do Parque; cidade de mulheres que viravam homem, de homens que viravam mulher; de fenômenos que vinham pelo telégrafo divertir a malícia do carioca, tecidos pela malícia maior do mineiro.

O melhor ponto para completar-te será o terraço de um desses edifícios da Avenida Afonso Pena? A Praça do Cruzeiro, o alto da Serra do Curral? Prefiro o arco modesto do viaduto, miradouro da memória, de cujo cimo tentei às vezes restaurar o romantismo, para consumo próprio e desprazer da polícia.

Costumava haver desencontro entre nossa juventude e nossa cidade. Culpamos as ruas pelo que nos acontece interiormente. Clamei contra ti, Belo Horizonte, em instantes de fúria triste. Destruí tuas placas, queimei tuas casas, teus bondes; ao despertar dessa angústia, vi que o amor escolhe caminhos difíceis para chegar a seu destino. Davas-me lições de paz, que eu interpretava como picadas de tédio."



Carlos Drummond de Andrade
Canção sem metro , a bolsa & a vida


A Música Que Toca Sem Parar:
Paulinho Pedra Azul, Belo caso de Amor.

9 comments:

Tania regina Contreiras said...

Ah, que casamento que deu certinho, o Drummond e O Paulinho...Ficou uma belezura, Beto! A música vou ouvir mais uma vez e mais uma vez e mais uma vez, porque essa declaração de amor tá valendo para todos os casos de amor com as nossas cidades do coraçã!
Beijos, e que bom está aqui nesse cantinho tão, tão aconchegante!

Assis Freitas said...

essa estranha sensação de quanto mais me tiras, mais impeto me dás. drummond gira entre os mundos e descortina sutis passagens


abraço

Daniela Delias said...

Bonito demais. Essa cidade deve morrer de saudades tuas! Um beijão carinhoso,
Dani

Andrea de Godoy Neto said...

...porque amores de verdade nunca se vão...

que lindo, roberto! Drummond, a canção e esse amor sem fim que traça teus passos, ainda que distantes, sempre no rumo da terra que te viu crescer.

há coisas que não precisam ser explicadas, porque simplesmente são. É destas que eu prefiro tocar a essência, são elas que fazem o mundo girar.

que o teu retorno seja em breve!
um beijo pra ti

MIRZE said...

EITA ROBERTO!

Passei dias belíssimos em BH. Conheci tudo que podia. Só não esse "curral" aí.

E amo aquela cidade como amo Ouro preto.

Tenho certeza que a cidade te acolhe bem porque é a tua cidade,

Beijos, mano!

Mirze

Primeira Pessoa said...

mirze,
belo horizonte é uma cidade que me acolheu. e olha que, crecendo, eu a achava distante demais.

belorizonte é um lugar que posso chamar meu.

beijão,

roberto.

Primeira Pessoa said...

poius é, andrea, após dias belíssimos em BH, já me encontro em New Jersey, lugar que também chamo "meu".

eu, que sou de tantos lugares, já nem sei mais de onde sou.

abração do

roberto.

Primeira Pessoa said...

daniela,
espero que sua passagem por bh tenha correspondiso às suas expectativas... e que a cidade lhe tenha feito justiça, e que você tenha sido tratada bem, como é do seu merecimento.

os mineiros costumam receber com carinho os seus visitantes e, a maior parte destas pessoas, costuma voltar.

espero, sinceramente, que você seja uma dessas pessoas.

beijo grande do

roberto.

Primeira Pessoa said...

taninha,
paulinho e eu falávamos dessa musica, ainda na semana passada. eu tentava convencê-lo, sem sucesso, a regravá-la num disco futuro.

beijo grande, taninha.