Monday, November 7, 2011

Três Poemas de Daniel Faria














As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões

As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.

É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas

Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos

As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.



Daniel Faria
de Homens Que São Como Lugares Mal Situados (1998)



Caminho sem pés e sem sonhos

Caminho sem pés e sem sonhos
só com a respiração e a cadência
da muda passagem dos sopros
caminho como um remo que se afunda.

os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes
para que a elevação e a profundidade se conjuguem.
avanço sem jugo e ando longe

de caminhar sobre as águas do céu.



Daniel Faria
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)



Deve ser o último tempo


Deve ser o último tempo
A chuva definitiva sobre o último animal nos pastos
O cadáver onde a aranha decide o círculo.
Deve ser o último degrau na escada de Jacob
E último sonho nele
Deve ser-lhe a última dor no quadril.
Deve ser o mendigo à minha porta
E a casa posta à venda.
Devo ser o chão que me recebe
E a árvore que me planta.
Em silêncio e devagar no escuro
Deve ser a véspera.Devo ser o sal
Voltado para trás.
Ou a pergunta na hora de partir.



Daniel Faria
de Explicação das Árvores e de Outros Animais
1998


A Música Que Toca Sem Parar:
na interpretação Trovante, a belíssima Peter's.

Encontro uma ilha
Será maravilha ou tem
O que ninguém deu
Durante a viagem
P´ro outro lado

É mais outra ilha
Será que é mais outro porto
Em que se bebeu
E se esqueceu
Um outro fado


Há quem espere por nós assim
Mesmo ao meio da rota do fim
Há quem tenha os braços abertos
Para nos aquecer
E acenar no fim

Há quem tema por nós assim
Quando os barcos partem por fim
Há quem tenha os braços fechados
Com beijo jurado
Eu voltarei pra ti

Nunca é miragem
Sabemos que o cais é certo
É a estrela polar
Em sol aberto
A castigar

Ficamos mais perto
Sentimos mais dentro a força
Do que nós somos
E do que queremos
Reconquistar


Dança de nuvens
O vento é meu companheiro
P´ra me embalar
No meu repouso
De aventureiro

15 comments:

Rossana Masiero said...

É mesmo.
Mulheres são como pomares...
Que lindo os poemas desse moço!

A música também.

Generoso amigo.
bj

Luciana Marinho said...

tão, tão belos.
estou como alguns versos desses poemas. como gosto do daniel faria... lendo-o, sinto-me lida.


beijão, roberto!

Andrea de Godoy Neto said...

Daniel Faria é um poeta de uma densidade impressionante, nunca canso de me surpreender com isso quando o leio.

e a música...bom, a música é de arrepiar, mas já tenho pra mim que esse arrepio veio contigo lá das terras do porto, e tu passou a compartilhá-lo com quem te acompanha.
beijão, beto!

Gabriel Revlon said...

muito bom, ainda não o conhecia.

LauraAlberto said...

se eu pudesse mandava parar o tempo
e deixava de caminhar sozinha, se bem que caminho com os meus amigos a meu lado

abraço da desnaturada (tens razão)
LauraRaquel

LauraAlberto said...

Ah, a pedra de BH está na minha sala e a de NJ está no meu escritório em cima de papeis que sarrabisco!!
Lembro-me sempre de ti!
LauraRaquel

Primeira Pessoa said...

raquel,
ando às voltas com uma croniqueta relatando o que trago na bagagem, depois desta passagem pelo Porto.

foi tudo muito especial e quero crer que o futuro nos presenteará com novos encontros.

beijão do

roberto.

Primeira Pessoa said...

gabriel,
esse daniel faria é imenso.

grande abraço do

roberto.

Primeira Pessoa said...

andrea,
benditas sejam as pessoas que se arrepiam diante de um poema bonito.
estas pessoas fazem a poesia valer a pena que quem a pariu.

abração do

roberto.

Primeira Pessoa said...

é como disse o genial mário quintana, luciana: o bom poema é aquele que nos lê.

daniel faria pariu montes destes.

beijo grande do

roberto.

Primeira Pessoa said...

as mulheres e seus frutos, rossana...

o poema frutifica.

abração do

roberto.

Jorge Pimenta said...

Querido amigo Roberto Lima para todos os que lhe adivinham o nome, Robertílimo para os que o sabem de cor.
Embarquei, agora, na viagem do teu olhar que repartes comigo e com a Laura. Como tu, também eu senti o Porto, quando contigo, como uma outra cidade, distante daquela que tantas vezes calcorreei desatento, distante, talvez mesmo indiferente, por me mover uma qualquer bagatela que morasse do lado de fora da pele. Mais, muito mais do que isso. Desta vez, as pedras, as paredes os olhares, as luzes, o rio, os pratos, os copos, as gargalhadas... iluminaram as noites, porque foram isso mesmo e tudo o mais que quisemos que fossem.
O Porto é, hoje, muito mais do que uma cidade. É a nossa cidade. É o lugar que sabe ser todos os lugares e todas as pessoas que nelas moram e que nelas caibam. Aprendeu a ser os instantes inquebráveis da amizade, o cristal fino dos que se querem, o abraço que cumpre todas as distâncias e todos os oceanos.
O Porto é, hoje, a nossa cidade. Quero eu tanto voltar a ser-nos num qualquer Porto deste globo a que chamamos saudade...

Um abraço e até sempre, querido amigo!

P.S. Este é já um primeiro resultado de "Dos Líquidos" ou "Ilíquidos?" :)

Primeira Pessoa said...

jorgíssimo,
ganhei de minha passagem pelo porto - entre tantas outras coisas - o desejo de escrever uma crônica.
e esta crônica será postada aqui mesmo (e na tertúlia pão de queijo) amanhã.

sim, o porto é nosso. nos assenhoramos desta cidade (embora fique a sensação de que foi o porto que nos ganhou, para sempre).

ilíquidos, não líquidos... o vinho era "molhado" e era bom.
como a poesia de daniel faria.

e a sua amizade.

beijão do

roberto.

MIRZE said...

Bravo, Roberto!

A escolha certeira me acertou inteira!


Beijão mano!

Mirze

Índigo said...

Daniel Faria es una maravilla, sí. Y, retomo tu contestación a Luciana, efectivamente, el mejor poema es el que nos lee o el que leído en otro idioma nos llega tanto que nos vemos impelidos a traducirlo. Así me pasó con el primer poema que hoy traes a tu blog que traduje, con más o menos acierto, en su momento en esta entrada en el mío: http://indigohorizonte.blogspot.com.es/2012/01/las-mujeres-aspiran-la-casa-para-dentro.html

Inmenso, Faria, sí. Me encanta. Un abrazo grande, Roberto.