Tuesday, June 12, 2012

A Prainha do Xuá


Aqui, quando faz frio é de rachar a mamona.
E quando faz calor é de cozinhar os miolos.
Sendo assim, de clichê em clichê, vamos nos queixando da vida.
Memória curta, temos nós, eternos insatisfeitos.
Se faz frio, é porque faz frio.
Se neva, é porque neva.
Se chove, é porque chove.
Se faz calor, é porque faz calor.
Criei-me em Governador Valadares, que julgava ser o lugar mais quente do mundo.
Era um Saara sem beduínos, sem camelos, palmeiras, nem tempestade de areia.
No meu coração, Valadares será para sempre um oásis de brisas benfazejas, belas odaliscas e xeiques de riquezas invisíveis.
Como era bonita e quente, aquela minha Gevê!
Tão quente, que um jornalista de passagem pela cidade escreveu um texto de onde chamou “sucursal do inferno”.
Em Valadares vi um sujeito fritar um ovo no capô de um fusca.
Vi o Rio Doce emagrecer, todo ano, sua cintura afinando e produzindo dezenas de praias ao longo de seu curso. A mais famosa delas era a praia do Xuá, agregada a uma ilhota próxima à ponte São Raimundo.
Era para lá que íamos.
Foi naquela ilhota que, menino ainda, vi um índio.
Aliás, um bugre, que é como os adultos a ele se referiam.
No meu desconhecimento de geografia, imaginava que um bugre era alguém vindo de um país distante, talvez na Cordilheira dos Andes, talvez na fronteira da Indonésia ou no Aconcagua.
Bugrelândia?
Bugrária?
Seria um bugre, o mesmo que um búlgaro?
Criança, ainda, pensei ter desvendado o mistério: o homem seria de Campinas, terra do Guarani, clube de futebol que tem um bugrezinho como mascote.
E o meu bugre ficava acocorado na porta de um palheiro, debulhando milho e bebendo cachaça, que os brancos davam para ele.
Aquele índio era uma espécie de guardião da ilha, e ali ele plantava algumas coisas e criava galinhas.
Não tinha mulher nem filhos.
Não tinha nada, aquele pobre homem de cabelos lisos e desgrenhados.
Era ali que ele dormia sozinho escutando apenas a música das criaturas da noite e o barulho da correnteza bolinando as pedras.
Era ali o seu reino de um homem só.
E sua prisão rodeada de águas.
Quando o calor aumentava na cidade ao ponto de quase explodir os termômetros, o rio ia definhando e formando suas prainhas, o Xuá era o destino de muitos de nós.
Tinha muito de paraíso naquelas areias brancas.
Do fundo de nossas precariedades, aqueles prazeres temporões saciavam uma sede muito maior que a nossa de mar e de amor.
De quebra, ainda nos oferecia uma oportunidade única de socialização.
Farofa geral, meus senhores.
Garrafa de pinga, meio engradado de cerveja em encardidas caixas de isopor, refrigerantes, frango assado e farofa.
Muita farofa.
Confesso que fui useiro e vezeiro. Confesso…
Homens jogavam carteado, mulheres tricoteavam sobre a vida alheia, enquanto as crianças jogavam futebol com uma bola de plástico da marca Pelé. Uma pobreza de não dar dó.
Muitas vezes nos afastávamos dos adultos e saíamos explorando as margens, roubando manga, jambo, jenipapo e ingá dos quintais ribeirinhos.
Não raro, éramos expulsos a tiros de sal.
Uma vez mais, confesso.
Alguns de nós aproveitavam a oportunidade e lançavam a sorte nas pescarias.
Tinha muito piau, lambari, tucunaré, curimatã, bagre e corvina.
Nadávamos, mergulhávamos, pescávamos e passeávamos de pedra em pedra como se não existisse o amanhã.
E, para alguns, não existia mesmo.
Muita gente perdeu a vida se refrescando nas águas traiçoeiras daquele rio.
E se, as mortes ocasionais serviam como alerta para os perigos das águas, elas não eram amedrontadoras o suficiente para nos afastarem de lá.
O medo de morrer afogado terminava antes da missa do sétimo dia.
Tenho imensa saudade das prainhas do Rio Doce.
Tanta saudade que, hoje, vendo o sol e o calor nos transformarem nessas insuportáveis bolas de mau humor, carne e suor, daria qualquer coisa para aportar numa prainha como aquela do Xuá.
Ficaria quietinho, sobre uma pedra lodosa, sentindo as águas do tempo passeando tranqüilas sobre meu corpo, levando meus cansaços, meus pecados, minhas culpas, minhas dores.

35 comments:

Verso Aberto said...

Tem que morar em São Raimundo para, ao encarar Valadares, ver o Rio Doce em primeiro plano. Fonte de brisa.

Minha paisagem era pedra negra, bonita, a fumegante Ibituruna.

No fritar dos ovos rsrs
Valadares torra miolos
só de lembrar

abs mano

Gisa said...

Olha seria um ritual e tanto! Também gostaria.
Um grande bj querido amigo

J Araújo said...

Como seu seguidor não poderia deixar de passar por aqui e não deixar minhas impressões. Uma linda crônica cheia de referencias e saudade da nossa minas...
..Mas é assim mesmo, quando a saudade bate fundo no peito do mineiro autentico ele transforma a saudade em poesia.

Quanto ao bugre da sua crônica moro aqui nessa cidade desde que saí das minas...porém todo ano retorno ao meu sertão cheio de encanto.

Se quiser conhecer um pouco mais convido-o a dar uma passadinha no blog http://serrademinas.blogspot.com

Abraço,

gagau said...

bela recordaçao e com a tua narrativa ficou mais sublime.parabens brodinha bjs no coraçao GAGAU

Márcio Ares said...

A sua poesia é sua prosa, meu caro.

É sempre tão muito sempre que quase nunca enxergo tão claramente o cenário, a saudade, a coisa, a gente.

Bacana demais. Uma vontade invejosa de que o meu escrito um dia seja tanto.

Beijo na alma,velho menino.

Com Deus,

Márcio Ares.

gagau said...

bela recordaçao ficou linda com tua narrativa(este texto maravilhoso)parabens bjs no coraçao GAGAU

Adriana Aleixo said...

Querido,

Esse seu texto é um elixir à minha juventude mineira. Que delícia.

"Uma pobreza de não dar dó". Perfeito e só nós entendemos isso.

Maravilha. Muitos beijos...

Primeira Pessoa said...

é como já escutei por aí, Adriana, podem nos tirar da roça, mas não nos tiram a roça.

só quem vem de lá tem a dimensão dessa relação.

beijo grande do

r.

Primeira Pessoa said...

gagau,
cê tinha até boia... daquelas de borracharia... câmara de ar de um velho fenemê... um luxo!

e eu pegava carona.

beijão, brodinha.

r.

Primeira Pessoa said...

marcio aires,
você é um poeta imenso, só menor que o homem marcio aires...

esse, da alma de menino.


abração do seu leitor e fã, o

r.

Primeira Pessoa said...

j araújo,
frequento o seu blog.
e não é de hoje.

grande abraço do

r.

Primeira Pessoa said...

gisa,
esse o ritual da simplicidade, do bem existir.
aquele povo ali vivia muito bem sem prozac.
aliás, jamais chegariam a saber se prozac é de comer ou de passar no cabelo.

abraço grande do

r.

Primeira Pessoa said...

marquinho,
fica o desafio:
no lançamento do livro(amei o prefácio, ja chorei trocentas vezes), vamos subir o ibituruna para um brinde.


ta valendo???



beijão do

r.

Sílc said...

"Tanta saudade que, hoje, vendo o sol e o calor nos transformarem..."
...Como era bonita e quente, aquela minha Gevê!"
Confesse... continue querido a tricotar! Quanta lindeza, sensibilidade à flor da pele. Consegui sentir o calor gostoso do Sol,o cheiro, o gosto da comida, das brincadeiras. E Mergulhei na água Xuá. que delícia foi a sensação.
E quando diz: "Ficaria quietinho, sobre uma pedra lodosa, sentindo as águas do tempo passeando tranqüilas sobre meu corpo, levando meus cansaços, meus pecados, minhas culpas, minhas dores."
Ah! meu querido, quanta emoção. Como gostaria de tê-lo aqui, vizinho de ladinho, neste minutinho para dividir a água, cansaço, dores, culpas, água, água, enfim, lavar a alma num prosado descontraído sem pressa pra acabar. Obrigada doce amigo!
Com carinho,
Sílvia

Primeira Pessoa said...

fico feliz que tenha gostado da croniqueta, silvia.
juro que, se não tiver me deserdado a memória, o cenário era este mesmo... desse jeitinho.

todas aquelas almas boas. pessoas lindas, generosas, amigas... inesquecíveis.


abração do

roberto.

regina ragazzi said...

Linda sua crônica. Ah, nossas Minas Gerais!!Quantas belas e saudosas lembranças.Quantas histórias para se contar...
Abraços.

Daniela Delias said...

Beto, sempre usei a expressão "está um calor de fritar ovo em capô". E agora sei de um cara que viu um sujeito fritar um ovo no capô de um fusca. Só podia ser tu rs...

Bjo meu

;)

Noslen ed azuos said...

Rio Doce! Xuá...

muito bom meu caro!
ns

Tania regina Contreiras said...

...e ver assim pelos teus olhos é doce e terno, sempre! :-)
Beijos,

Assis Freitas said...

Outro ensaio para contemplação de águas

os meus rios me recortam,
são tantas ilhas que vagam em mim
que me espraio de margem a margem,
a minha memória é só correnteza
e águas, neste árido sertão


abraço

p.s. eu li e jorrou poesia

Primeira Pessoa said...

zé de assis,
cê tira poesia até de onde eu finjo poesia.

beijão, poeta dos mileum.

aliás, mileum era o apelido de um nagão lá da minha terra, faltava-lhe os dois dentes da frente. quando ele ria, lia-se, mileum.

vou esvcrever uma cronica sobre os dois mileum.

posso?


beijão,

r.

Primeira Pessoa said...

taninha,
bom mesmo é te ver por aqui.
tenho sentido sua falta e seu que cê é assim mesmo, vez em quando mergulha em águas que são só suas.

seja bem vinda.

beijão do

r.

Primeira Pessoa said...

dani,
acho que pra todo lugar querem provar a teoria da sua frase...
eu nunca vi mamonas racharem ao frio. nem num sentido, nem noutro (rs)...

você, que é natural de terras que esfriam, fique de olho: se ver um pé de mamona rachar neste inverno, iremos documentar. o que acha? rs

beijo meu, dani, poeta do laranjal, que é hoje quase a dona da agenda da tribo.

r.

Primeira Pessoa said...

grande nelson, almirante de todas as águas!

é bom revê-lo nesse minifúndio de afeição, o PP...

essa casa é sua.

abração do

r.

Primeira Pessoa said...

é verdade, regina...
minas gerais, matriz de tantas saudades.

falo por mim, claro.
embora saiba que esteja dizendo por tantos outros mineiros exilados por diferentes motivos, em diferentes rincões.

abração do

r.

Bípede Falante said...

Infância sem farofa é como um cão que jamais teve pulgas.
Minhas memórias são do sul: vento e geada.
Mas meu pensamento dispensa bússolas.
Meu afeto também.
A um banho de rio, não, ainda que faça muito tempo que eu não tenha a chance.
Você escreve tão bonito, Roberto.
Suas palavras tem um sotaque diferente de tantos. Deve ser porque guardam horizontes.
Beijoss :)
BF

Primeira Pessoa said...

bípede,
como disse aquela canção antiga, dentro de mim passa um rio. e as cidades do chão interior, quase sempre, foram fincadas à beira de um rio.

eu acho o mar uma das coisas mais lindas desta vida. mas ele não tem, para mim, o valor de um rio. eu nunca bebi água do atlântico... montanhês de uma terra sem oceano, tenho um enorme respeito pelo mar.
uma admiração e um jeito de olhar.

mas, como disse ali em riba, dentro de mim passa um rio.

Rio Doce, de sua graça.

beijão,

r.

José Carlos Sant Anna said...

Maravilha de texto, meu caro Roberto.
Porque tão doce nas suas recordações este rio não conhece o fel. Não só, sempre doce, não o diga. Eu sei.
E mais, mantém-se doce no lirismo na sua crônica e nas margens serenas da sua memória.
Qualquer dia, eu lá vou, aos pulos, à cata também de uma rocha lodosa à beira do Rio Doce, para fugir do calor.
Aqui também é de rachar.
Grande abraço,
José Carlos

Eduardo Murta said...

Rio e literatura (das boas) lavam a alma, Roberto.

Abraço forte, meu caro

Pólen Radioativo said...

Eita, Roberto... Tu vais desenhando e a saudade vai chegando até aqui. E eu que nesta ingrata geografia nem de longe pude avistar tuas terras e a prainha, já me sinto banhada por ela, como se nela tivesse mergulhado desde pequenininha.

Adorei. Beijão.

Primeira Pessoa said...

drica,
aquelas águas são tambem suas. e, saiba, na hora que você decidir, minas gerais tem um abraço morno esperando por você.
fiquei muito feliz de te ver retornando ao blog.
cê tem cadeira cativa, também aqui.

beijo grande do

r.

Primeira Pessoa said...

eduardo,
é um luxo receber você aqui nesse quintalzim de afeições.

achegue-se.
a casa é sua.

nessas bandas, cê manda prender e manda soltar.

abração do

r.

Primeira Pessoa said...

josé carlos,
vá mesmo.
o povo de valadares recebe como poucos, você se sentirá em casa.
leve bermuda e camiseta, que o calor é bruto...rs
mas o rio tá logo ali, embrulhado em suas correntezas, suas pedras lodosas, seus bancos de areia...

abraço grande do

roberto.

Índigo said...

Querido Roberto:

Leerte es inundarse de olas de poesía. Tus crónicas fluyen, a veces suaves, como un mar en calma, otras, tempestuosas, como mar bravía. Siempre intensas. Siempre. Traes recuerdos, tristezas, alegrías, con la intensidad del que las ha vivido hasta la médula y, hasta la médula, llegan cuando se leen, atentamente, desde la tranquilidad, de un rincón sin olas, ni playas, ni mar, desde la emoción de quien también recuerda momentos intensos de compartir olas y aguas, y emociones y mares y pecados y alegrías y tristezas. Un beso enorme, Roberto, y gracias por detonar en mí tantas emociones con tu crónica que más que crónica es pura poesía.

Primeira Pessoa said...

é uma figurinha, esse personagem...
eu confesso, luciana, que às vezes também sou tomado de simpatias por ele.

saudades de te receber por aqui.

abração do

r.