Thursday, August 16, 2012

Cantiga de Enganar














O mundo não vale o mundo,
meu bem,
Eu plantei um pé-de-sono,
brotaram vinte roseiras.
Se me cortei nelas todas
e se todas se tingiram
de um vago sangue jorrado
ao capricho dos espinhos,
não foi culpa de ninguém.
O mundo,
meu bem,
não vale
a pena, e a face serena
vale a face torturada.
Há muito aprendi a rir,
de quê, de mim? ou de nada?
O mundo, valer não vale.
Tal como sombra no vale,
a vida baixa...e se sobe
algum som desse declive,
não é grito de pastor
convocando seu rebanho.
Não é flauta, não é canto
de amoroso desencanto.
Não é suspiro de grilo,
voz noturna de nascentes,
não é mãe chamando filho,
não é silvo de serpentes
esquecidas de morder
como abstratas ao luar.
Não é choro de criança
para um homem se formar.
Tampouco a respiração
de soldados e enfermos,
de meninos internados
ou de freiras em clausura.
Não são grupos submergidos
nas geleiras do entressono
e que deixem desprender-se,
menos que simples palavra,
menos que folha no outono,
a partícula sonora
que a vida contém, e a morte
contém, o mero registro
de energia concentrada.
Não é nem isto nem nada.
É som que precede a música,
sobrante dos desencontros
e dos encontros fortuitos,
dos malencontros e das
miragens que se condensam
ou que se dissolvem noutras
absurdas figurações.
O mundo não tem sentido.
O mundo e suas canções
de timbre mais comovido
estão calados, e a fala
que de uma para outra sala
ouvimos em certo instante
é silêncio que faz eco
e que volta a ser silêncio
no negrume circundante.
Silêncio: que quer dizer?
Que diz a boca do mundo?
Meu bem, o mundo é fechado,
se não for antes vazio.
O mundo é talvez: e é só.
Talvez nem seja talvez.
O mundo não vale a pena,
mas a pena não existe.
Meu bem, façamos de conta
de sofrer e de ouvidar,
de lembrar e de fruir,
do escolher nossas lembranças
e revertê-las, acaso
se lembrem demais em nós.
Façamos, meu bem, de conta
- mas a conta não existe -
que é tudo como se fosse,
ou que, se fora, não era.
Meu bem, usemos palavras.
Façamos mundos: idéias.
Deixemos o mundo aos outros,
já que o querem gastar.
Meu bem, sejamos fortíssimos
- mas a força não existe -
e na mais pura mentira
do mundo que se desmente,
recortemos nossa imagem,
mais ilusória que tudo,
pois haverá maior falso
que imaginar-se alguém vivo,
como se um sonho pudesse
dar-nos o gosto do sonho?
Mas o sonho não existe.
Meu bem, assim acordados,
assim lúcidos, severos,
ou assim abandonados,
deixando-nos à deriva
levar na palma do tempo
- mas o tempo não existe -,
sejamos como se fôramos
num mundo que fosse: o Mundo.

(Carlos Drummond de Andrade)


.

22 comments:

Verso Aberto said...

e quanto mais estramundos
mais ensonhados ficamos

este Drummond não existe?

abs mano Beto

Primeira Pessoa said...

esse drummond é invenção de carlos, aquele gauche...rs

marquinho, bora pro valadão celebrar 30 anos de amizade, de prata da casa com bispo filho e turma?

beijào,

r.

Tania regina Contreiras said...

Poetíssimo querido esse Drummond. Nunca deixo de dizer que ele e eu nascemos no mesmo dia (o 31 de outubro), embora em anos distantes. Foi o meu "reflexo" poético masculino. Escorpiniano que foi, que era, eu me perguntava sempre pelo outro lado dele, o outro extremo. E fã que já era, tornei-me mais quando perdeu o pudor e mostrou o lado erótico, mas assim, escorpinianamente, sacralizando e sentindo. Até hoje é ele quem me diz as palavras certas na hora certa. E você, moço, não some daqui não. Esse sempre foi o lugar mais íntimo dessa blogosfera que acabou me arrastando. A cozinha com uma mesa enorme, em torno da qual a gente sempre pôde sonhar e acreditar que é possível realizar os sonhos.

Beijos,

Primeira Pessoa said...

taninha,
estou retomando o blog e a escrita. hoje mesmo andei mexendo em um texto, que publicarei nos próximos dias.
o bloguinho ainda respira.

eu saí das redes sociais, primeiramente por não saber usá-las com moderação e, também, porque às vezes perdemos o fio da meada e deixamos de valorizar o que é real na vida da gente.


quanto a drummond, é o poeta da minha vida.
não o sabia escorpiano e, muito menos, do mesmo dia que voce.
bebel, minha filha do meio é escorpiana como você. nasceu no dia 27. e São Judas Tadeu, meu protetor, é celebrado no dia 28.

celebremos outubro, então!

beijo grande do

roberto.

Adri Aleixo said...

Que felicidade tê-lo aqui, Beto. Não vou falar de Drummond, vou falar de você, esse amigo mineiro que literatura trouxe pra mim.
Lendo seus comentários, concordo no que disse sobre as redes sociais: às vezes ela nos afasta da essência, às vezes dou uma sumida.

Beijo, Beto. Quero vê-lo aqui em Minas, em outubro, mês do meu aniversário.

Assis Freitas said...

ave Drummond, evoé broda,


abração

Primeira Pessoa said...

zé de assis,
presidente do Primeira Pessoa... quando cê não vem aqui, fico achando que fiz algo errado.

beijão, broda.

Primeira Pessoa said...

Adri,
não sei se te falei, outubro tem lançamento do livro Meninos de São Raimundo (escrito a 4 mãos com o Bispo Filho) e vai ter uma reunião de amigos na Casa de Zé Pãozim.
Comidinhas, bebidinhas e cantorias. Nos anos anteriores, Paulinho Pedra Azul, Tadeu Franco, Renato Braz, Cacau Brasil, o s violeiros chico lobo e fernando sodré, além de Antonio Porto e Hely rodrigues (14 Bis) fizeram a alegria dos furrupeiros... este ano teremos algumas novidades... normalmente, começa na hora do almoço e termina lá pelas 5 da manhã do outro dia.
e você está convidada, claro.
de casa, que é.

beijão.

r.

Adri Aleixo said...

Beto, Você já havia me falado e é claro, estou dentro. É só me dizer dia, hora e lugar.

Em tempo,
Quando você escreveu "O derradeiro canto do cisne" enviei para todos meus amigos e parentes, pois concordava plenamente com você. Alguns me responderam bravos da vida. Agora estão vendo quem é o maestro.
Beijos. Fica com Deus.

cirandeira said...

É sempre muito bom reler Drummond,
meu poeta preferido! Obrigada por compartilhá-lo, Roberto.
Quanto a blogosfera, também tenho essa sensação estranha de estar fazendo "algo errado" ou em vão, e
aí me dá uma vontade doida de parar
de vez. Então, faço uma pausa, respiro fundo, dou uma banda em outras paragens da vida(e são tantas!), e volto rrsrs
Fiquei feliz com tua preciosa visita!

beijoss

Primeira Pessoa said...

cirandeira,
agora ficou uma dúvida quase cruel:
você vive em pernambuco, terra do mestre vitalino?
sobre as redes sociais, vem a constatação de que ela nos dá muito e nos tira muito, também.
no final, eu me sentia como aquele neófito no cassino, ganhando, no lucro, e que não soube a hora de juntar o que ganhou e ir embora, levando o seu tesouro.


assim, de sangue quente, com a alma à flor da pele, temos pensamentos extremados e dá de ficar filosofando barato.

o ideal é formular pensamentos de cabeça tranquila, sem nenhum tipo de pressão, pois é quando mais aprendemos sobre nós próprios.

eu quero aprender a usar as redes sociais de forma proveitosa e responsável. o que farei, certamente, quando estiver me equilibrando melhor sobre as minhas pernas.
não estou dizendo nunca. não estou dizendo jamais.
jamais e nunca são lugares distantes demais.


beijào do

r.

Primeira Pessoa said...

adriana,
eu me recordo da p[rosa sobre ronaldinho gaúcho, um ser humano, que está sujeito a recaídas. semana passada, por exemplo, ele quase se sabotou.
o mérito dele ter ficado é todo de alexandre kalil, que engoliu o orgulho e o pulso firme, contemporizando.
teria sido horrível para ambos.
ronaldinho não arrumaria outro clube de ponta no brasil e kalil não seria perdoado pela massa, caso o galo não fosse campeão.

ainda é cedo.
fiquemos de olho.

abração do

r.

marlene edir severino said...

Muito bom te ler
em poesia

Abraço, Roberto!

Luciana Marinho said...

roberto, eu postei um comentário para essa tua bela escolha poética... não recebeste?

beijos

Primeira Pessoa said...

não chegou, Lu...
:-(


drummond ficaria feli.

beijinho do

r.

Primeira Pessoa said...

marlene,
fico honrado com a visita ao blog.

venha sempre que quiser. aqui tem sempre um cafezinho e um naco de queijo pros amigos.

beijão do

r.

Batom e poesias said...

"Meu bem, o mundo é fechado,
se não for antes vazio..."

Mas se n'algum lugar desse mundo você está,
então até Drummond pode se enganar...

:D

Feliz com a visita, Roberto.
bjs

Rossana

Caroline Godtbil said...

Então... quem sou eu pra comentar Drumonnd? Mas posso dizer que sua escolha foi perfeita... há momentos bem assim mesmo, em que nada tem consistência, em que nada existe a não ser uma embriaguez às avessas dentro da alma e que nos torna o centro de um universo intangível.
Como vc está, poeta? Já não doe tanto? Carregar uma alma lúcida não é tarefa fácil... vc sabe bem disso, né não?
Beijo.

Primeira Pessoa said...

drummond foi um dos grandes tradutores da alma humana, caroline.
quanto ao reto do contexto, carolina, só dói quando ee respiro....rs

acho que é da condição, né?
deixo-lhe um abraço grande.

bom domingo!

r.

Primeira Pessoa said...

fechado e vazio e bom, "decunforça", é pastel de vento...daqueles de feira...
já experimentou, rossana?

lá na minha terra eles receitam pastel de vento com caldo de cana bem gelado. dizem que é bom pra curar mal olhado, frieira, cobreiro e tristezinhas bestas, como essas que às vezes sentimos.


drummond?
ah, esse nuca deu uma bola fora.

é bom te ver por aqui.


beijão do

r.

Daniela Delias said...

Que bonito esse Drummond!

Bjos!

Primeira Pessoa said...

dani,
pra mim drummond são tantos.
e são todos muito "bãos"...

fico feliz que tenha gostado da recolha.

beijão do

r.