Tuesday, April 9, 2013

Ele Não Era Sinatra


Peter Pantoliano, meu amigo querido, telefona do carro.
Ele está escutando um programa no rádio em que os ouvintes ligam dizendo o nome de alguma personalidade que eles gostariam de ter sido numa vida passada.
Em alguns casos, dependendo da idade do ouvinte, a ele é facultado o direito de trocar de identidade com alguém ainda vivo, ou um defunto relativamente fresco.
Incentivado pelo amigo, sintonizo a rádio e uma mulher de voz cansada relata sua vontade de ser Ava Gardner. Uma outra quer ser Marylyn Monroe.
“As louras se divertem muito mais”, diz repetindo o manjado bordão.
 Devem ter sido contemporâneas dos mitos, intuo.
Falam de uma época de ouro numa Hollywood mais escrupulosa e ingênua do que esta de hoje. Mas esta Hollywood de agora também tem seus simpatizantes.
Um rapaz queria ser Brad Pitt, outro se insinua Tom Cruise. Este, enumera Penélope Cruz, Nicole Kidman e outras beldades que passaram pela por sua suposta cama.
Um homem de voz grave fala em Miles Davis, mas prefere ser John Coltrane. Ele é amante de jazz.
Redescubro no programa o quanto o norte-americano é patriota. Uns três John Kennedys ligaram para a emissora E pelo menos cinco Abraham Lincolns.
Um sujeito queria ser Bill Clinton e não demorou a aparecer uma Hillary, mulher carismática e forte. Para a felicidade desta, nenhuma Monica Lewinsky deu o ar de sua graça.
George Bush também não deu as caras. Ainda bem.
Entre os esportistas, vieram quatro Michael Jordans, dois Lebron James e nenhum Derek Jeter. O basquete continua em alta.
Um menino que se auto-intitula “O Super Hacker” não telefonou, mas mandou um e-mail. Acha que seria um excelente Bill Gates. Ou um esforçado Steve Jobs.
Outro ouvinte, com a voz embargada de quem está para lá de Marrakesh, diz que é um clone perfeito de Ozzie Osbourne. Mas seria mais feliz e mais bonito se fosse o Robert Plant, do Led Zepelim.
Com bossa e gingado na voz, essa mulher presumivelmente negra, fala das benesses de viver sob a pele de ébano de Oprah Winfrey.
“Poderosa, poderosa, poderosa e poderosa. E podre de rica”, disse, soltando em seguida uma sonora gargalhada.
“Eu seria a dona desta rádio. E você estaria desempregado”, ameaçou.
Um maluco liga dizendo que é a reencarnação Jesus Cristo.
Ele liga logo depois deBono Vox, do U2. E este pediu paz na terra aos homens de boa vontade.
No meio disto tudo reconheço uma voz que me é familiar.
É Peter Pantoliano, meu amigo querido, que quer ser Frank Sinatra. E ele explica o porquê.
“Talentoso, rico, famoso, influente, bonito, popular entre o mulherio e ítalo-americano, como eu”.
Ganhou um elogio do apresentador, que tocou Strangers in The Night, logo a seguir.
Durante alguns segundos, fiquei feliz por ter Frank Sinatra como "amigo" do peito.
Animado, quase entrei na brincadeira. Mas parei na ameaça de que nem todo mundo entenderia minha escolha.
Estamos vivendo uma era em que Tupak Shakur ainda é herói, quase um mártir. E que Paris Hilton é ícone. E Kim Kardashian possui uma legião de fãs.
Após a minha participação, certamente ficaria aquele silêncio constrangedor. Esse era o meu medo.
“Cidadão do mundo, gênio, maestro, poeta da canção, PHD em trinado de passarinho, bacharel em samambaias, doutor em chope e feijoada, brasileiríssimo, o seu coração”.
Como uma espinha de peixe engasgada na garganta dos ouvintes, aquele meu Tom Jobim sucumbiria.
Fiquei na minha. Troquei de estação.
À noite, encontrei-me com Peter Pantoliano para o chope sagrado de cada dia, no mesmo lugar de sempre, na Ferry Street.
Tão logo entrei no bar, observei que nem ele tinha os olhos azuis de Frank Sinatra e nem eu os cabelos compridos e bem cuidados de Tom Jobim.
Ficamos conversando durante umas três horas, bebemos um rio de destilados e em nenhum momento sequer, o programa de rádio daquela tarde foi tema de nossa prosa.
Rimos, bebemos, gracejamos, celebramos nossa amizade do jeito que sempre foi.
Três horas depois, saí dali assoviando Garota de Ipanema.
E aquela canção não era minha.
Nem a letra era de Vinícius de Moraes.


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21 comments:

Tania regina Contreiras said...


Ah, maravilhosa, maravilhosa, deliciosa crônica! rs Gostei muito, Beto! Ai, e eu, que nunca quis ser ninguém, acho que desde sempre quis saber mesmo quem eu era...rs Hoje seria uma dama antiga, mas com todos os diretos conquistados pelas mulheres até hoje. Podia ser qualquer uma, não precisava ser famosa. Nossa, a boniteza do passado me encanta. A feiúra não.

Beijos,

Dois Rios said...

Roberto, em tempos de celebridades instantâneas e sub-celebridades, talvez houvesse sim, um silêncio ao ouvirem o nome do Tom, mas não por constrangimento, creio eu, mas sim para ouvirem o canto de uma sabiá que vive na memória de todos que, como você, prezam pelo bom gosto.

Beijos,
Inês

Sônia Brandão said...

Tua crônica, tão gostosa de ler, me despertou uma vontade grande de ouvir as músicas do Tom.
Acho que vou mexer nos meus preciosos vinis e matar essa vontade. Não gosto do som do CD, prefiro o vinil. E passei esse gosto para o meu filho; ele tem um "Empório Cultural", e o que mais tem ali são os discos de vinil.

Grande abraço.

Índigo said...

Lo más cercano es lo más bello. Lo más grande, lo más pequeño.

Un abrazo grande, Roberto.

mary.yamin said...

Ueba Beto.. adorei...

Leve como uma pluma..

Cada um projeta seu ídolo!

belíssima crônica

beijo

byTONHO said...



Pensaste na Helô Pinheiro?


Olha que coisa mais feia
Mais sem graça
Era menina
Que foi...e deixou
Um amargo balanço nas águas do mar...♪

Não!
Não era a Helô,
no máximo um "pinheirinho na tal" da ELÔ!

Grande Roberto!

:o)

:.tossan© said...

Genial! Abraço

Adri Aleixo said...

Sabe que o anonimato com o gracejar e o encantamento do passado me encantam?

Eu sempre fui tão saudosista... Amanhã viajo com a turma do meu sogro pra fazer seresta, vou lembrar de você.

Sabe, quando você cita Paris Hilton e Kim Kardashian, eu penso: Meu Deus! Esses são os ícones desse tempo.

Beijo grande, meu amigo!

eurico portugal said...

robertílimo,
que crónica esta! estas projeções do que seríamos se acabam sempre por pressupor que há no que somos algo que não deveria ser ou que deveria ser diferente - inevitabilidade, por certo.
será que, mesmo os ícones de pé de barro que elegemos amiúde, não quereriam, eles mesmos, ter isto ou aquilo de fulano, sicrano e beltrano? a ideia da plenitude é tão humana quanto a da sua própria mortalidade, talvez por se fundar nela mesma e num conceito de transitoriedade que fecha mais depressa do que julgamos justo ou necessário para nos cumprirmos. o grande problema é que os projetos de completude variam de pessoa para pessoa e, dentro de cada uma, de acordo com o movimento das circunstâncias que as envolvem. hoje, por exemplo, mais do que desejar o que espreita fora de mim, procuro entender o que respira ali, nessas galerias ora luminosas, ora sombrias, que umas vezes agitam, outras apaziguam. entender, aceitar (sem resignação) pluralmente é o desafio. até porque "nada te pertence; tudo é de tudo o que passa". na passagem, deixemos que algo fique, algo que combine de facto com aquilo que somos e sabemos ser.

um abraço para ti e outro para o amigo inspirador desta grande grande crónica - peter sinatra :)

p.s. espreita: http://olhares.sapo.pt/jorpimenta

Primeira Pessoa said...

você, que nunca quis ser ninguém, saiu-se uma estupenda Tania regina contreiras.
ah, taninha, tô pra lhe perguntar: voce tem algum parente (não vale este aqui) chamado Roberto, que ja viveu nos estados unidos?
saiba que tenho um amigo baiano chamado Roberto Contreiras, chefe de cozinha, que retornou a Salvador depois de fazer uma história aqui nos eua.

beijão do
r.

Primeira Pessoa said...

minha querida inês,
em tempos de big brother, que entre muitas outras coisas essenciais serve para escolher qual será a proxima "perseguida" a ser exposta numa revista masculina.

temos que engolir em seco, afinal, como diria o filósofo kleber bambam, "faiz pairte".

beijão do
r.

Primeira Pessoa said...

Sonia,
eu tinha um coleção de vinil de mpb muito bacana, que afundou junto com o meu primeiro casamento.
mais uma "vítima"do fogo mui amigo...rs... casualidade da "guerra"... até hoje dói...

além do som mais aberto e menos pasteurizado, tinha os encartes.
eu sabia, sempre - e, perdoe aqui a imodéstia -, TUDO inerente àquele disco.
era simplesmente tarado por encarte de disco...

e isto o cd nos roubou.

beijão,

r.

Primeira Pessoa said...

será, indigo?
por um instante eu quis ser camarón de la isla.

crês?

beijão,

Roberto.

Primeira Pessoa said...

ah, mary,yamim...
eu tenho um panteão...
grande otelo, adoniran, Drummond, portinari...
ja quis ser até Ronnie von, o homem mais bonito do brasil...rs

quis ser todos eles.

beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

tchê tonho,
meu querido, de tudo isto e um pouco mais, guardo uma única certeza:

o tempo passa para todo mundo.

até pra helô...
ou seria elô???


Hello! (rs)

beijão do seu amigo mineiro, o

r.

Primeira Pessoa said...

abraço retribuído tossan.
volte sempre.
essa casa é sua.

abração do
Roberto.

Primeira Pessoa said...

saiba, Adriana, tenho vários (v-á-r-i-o-s) ossos seresteiros em meu corpo.


tenho tantos.

viajo junto com você.

beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

euriquíssimo,
o nosso peter sinatra está indo para cuba nos próximos dias e queria me levar junto.
mas desta vez não deu.
estou guardando-me para agosto.
guardando-me para braga.
guardando-me para o porto e lisboa.

leio atentamente o que escreveu sobre o "nada que nos pertence" e vou concordando. afinal, como diria o poeta salgado maranhão, "nem o que é nosso nos pertence".

exceto, claro, os amores de todas as espécies, os amigos, os laços sanguínios, o sol, a lua, o céu e o mar.

estes, ninguém nos tira.

abraço de manhã de sábado. um sábado cheio de compromissos, quando eu queria, de verdade, me deitar nos braços da senhora preguiça e ressonar até incomodar a vizinhança.

abraço esse que é desse seu amigo lá das terras altas de minas, aquele rio roberto da nossa maggie.

Luciana Marinho said...

beleza de crônica, roberto, de humor tão fluido a me lembrar de nosso tempo tão esvaziado de Heróis.

beijão!

Primeira Pessoa said...

Luciana,
fico muito feliz quando cê vem aqui.
Muito mesmo.

Beijão,
R.

Índigo said...

Claro que te creo, Roberto... Camarón era grande, muy grande, en todo y, a la vez, pequeño. Abrazo.