Monday, April 22, 2013

Uma Crônica de Meninos de São Raimundo






 O verdadeiro peso da Terra


(Para Líria Porto)


E se tudo o que disseram tiver sido mentira? E se não
houver, finalmente, vida após a morte? Já imaginaram?
De um instante para o outro a chama da vida se extingue e, como uma vela apagada, deixaremos de iluminar a escuridão à nossa volta.
Assim, de repente, não mais que de repente e, como que reagindo ao movimento do dedo no interruptor, ou no botão onde Deus escreveu, em inglês, a palavra “off ” chegamos ao fim.
Cessa o movimento do corpo, a memória se apaga e a estrada da vida chega ao seu final.
Acabou.
The End.
Fim.
Não há mais acerto de contas, nem purgatório, nem dono do inferno ou senhor do céu.
Não haverá São Pedro, nem Satanás para dar as boas-vindas à porta da próxima parada.
Nem céu, nem inferno, apenas o buraco negro do nada e a matéria se desintegrando, gradualmente, pasto de vermes.
Este é o ponto final. Todo mundo desce aqui.
A partir daqui, só o silêncio, a escuridão, a inércia, nada mais.
Já imaginaram?
Eu, que imaginei e fiz as contas, considero-me no lucro.
Se não houver nada além, já terá valido a pena.
E valeu, porque andei de pés descalços sobre a grama
orvalhada, mergulhei no doce das águas de um rio e no sal das ondas do mar.
Vi o sol nascer e se pôr, conheci o amor, gerei crianças perfeitas, lindas.
Fui abraçado por mornas manhãs, fiz serenatas em noites de lua cheia, recebi o afago do vento e tomei banhos de chuva.
Li livros bons e ruins, conheci pessoas interessantes, gritei “gol”.
Chorei de alegria e de dor. Gargalhei, sorri.
Bebi a poesia de Neruda, Drummond e Lorca. Sonhei mudar o mundo e acordei, pacificado e nu, diante de um imenso deserto.
Não conheci a fome ou equivalente flagelo. Sempre existiu um cobertor para me proteger do frio e um teto como abrigo às tempestades.
Decifrei - menino ainda - o significado da palavra lar.
Fiz amigos, muitos.
E inimigos que não enchem uma mão.
Comi pão com mortadela de padaria, colhi fruta madura no pé, senti o perfume de um jasmineiro em noite de estrelas.
Nunca roubei, matei ou envergonhei quem me trouxe ao mundo.
Fui abençoado por ter vindo de onde e de quem vim.
Ao longo dos anos tentei vencer a inveja e a mesquinhez. Não sei se consegui.
Mas meus pecados podem ser considerados menores, e os medos nunca me assustaram além da conta.
Saí de minha aldeia, corri trecho, visitei mundos - que imaginava longínquos demais - paisagens iradas de páginas impossíveis.
Fui e voltei.
Aprendi a me arrepender dos erros e a pedir perdão, uma das tarefas mais difíceis para o ser humano.
Obra em andamento, eu sei que ainda tenho muito o que melhorar. Mas não perdi a esperança.
Se tudo o que disseram durante toda a vida tiver sido mentira, não terei mais perguntas a fazer.
Nem queixumes.
E me darei por satisfeito se tiver conseguido melhorar o produto final, quando tiver chegado àquela hora de ir daqui para lugar nenhum.
Reduzido a simples matéria, sei que a terra me será leve, muito leve.



Ilustração:
Atlas, de Lee Lawrie and Rene Chambellan; e que pode ser visto no Rockefeller Center , em Nova York.

21 comments:

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) said...

Ô vontade de ter esse Livro nas mãos, meninos...
Crônica supimpa como de costume...

Zélia Guardiano said...

Arrasou, amigo Roberto!
Arrasou porque essa questão é ferida aberta, daquelas que a gente não quer tocar nem com uma pluma...
Lindamente você colocou tudo em pratos limpos: seja como for, valeu!
Abraço bem apertado, querido

Tania regina Contreiras said...

Conheço e adoro essa crônica, Beto. Aliás, seu estilo é su, único e adorável.

Beijos,

Assis Freitas said...

e se tudo não se fosse como se imagina: seria o que será, o que será? mas virá, virá

p.s. filosofia do mestre papa-capim


abração

Mary.yamin said...

lindo demais... adorei!

Bandys said...

Ola Roberto,

Aplaudo de pé.

Beijos

Ana (Ballet de Palavras) said...

Roberto,
Lindíssimas as suas palavras que trajam a sua vivência. Essa é a verdadeira essência de quem não passa pela vida sendo um mero expetador mas um ousado, sensato, e, real protagonista.

Ana

luizr1 said...

Muito boa leitura, que faz um refletir sobre a propria vida. Um forte abraco,

Luiz

Adri Aleixo said...

Ei, Beto! Já li essa maravilha de crônica aqui, mas amei reler nessa manhã fria de quinta-feira.
Li sorrindo...

Ira Buscacio said...

lendo a crônica, automaticamente, fui voltando o filme. inevitável! pai e mãe. o baldinho cheio de tatuís. o mar. dropando as ondas. as matinês no Radar. as freiras do Notre Dame enlouquecidas com as saias enroladas, na cintura, das meninas. namoros no Arpoador. reuniões de viola. amor. filhas. tantas dores. os cabelos brancos. Vida! e se for pra virar nada, certamente, já valeu

viver é melhor que sonhar!

Roberto, a crônica é bonita como a vida. bj grande

byTONHO said...



"E se...
'esse cara' tiver certo?!
pobre do Tonho...
Eu, Antonio Roberto,
um medroso e 'medonho'
até agora boquiaberto,
sonhando, mas tristonho,
por não ter dado certo,
como deu pro Roberto...

Desaparecerei, menino grande,
como aquele que não acontec...eu!"

...

GRANDE crônica,
que lindo pensar assim...

Abraço-tchê, uai!

:o)

eurico portugal said...

porque esse livro que se escreve com as nossas mãos e as de todos os que nele respiram é, afinal, o que passa e sempre permanece - eis a noção exata do tempo.

grande abraço, robertílimo!

Verso Aberto said...


você fez do doce um rio sem margens
e de são raimundo o mundo o mundo

foi como fazer desde
- se assim for -
o mais belo engano humano

abraço mano

Sílc said...

biruta

pra onde vou eu não sei
de onde vim eu nem lembro
aqui estou encaminho-me
persigo as asas do vento

*líria porto
Linda crônica Roberto. Me remeteu lá... anos atrás.
Bjs.
Sílvia

Índigo said...

Con la levedad de haber vivido, haber saboreado la vida. Con la levedad y ese "ligero de equipaje" del que hablaba Machado. Con la alegría de haber vivido. Hermosa crónica porque refleja lo que en cada una de tus crónicas y de tus letras imagino de ti: una persona que pone el corazón en lo que hace y en lo que dice.

Abrazo grande, Roberto.

Caroline Godtbil said...

Como sempre, uma crônica magnífica. Li e reli e me encontrei nela e poderia ate me sentir em paz. Mas comigo não é assim, não.
Gostaria de não sentir medo, de me sentir satisfeita e de bem com a morte, mas não me sinto. Reencontrei o amor da minha vida e queria a eternidade para viver isso...
Beijos.

Primeira Pessoa said...

saiba: sentir medo é "medonho".
e que a sua eternidade seja agora, intensa, bonita e feliz.
sim, uma eternidade feliz.


grato pela visita ao bloguinho, caroline.

abração do

r.

Primeira Pessoa said...

com a leveza de viver sempre, minha querida indigo.

leve e Azul, sempre.

beijão do

r.

Primeira Pessoa said...

silvia,
esta líria porto é uma danada.
adoro essa birutinha.
adoro você, as well.

beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

os mais belos enganos, marquinhos...

alias, se abrir um buteco, um dia, haverá de se chamar "belo engano".

beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

tempo, tempo, tempo, euriquíssimo....
haverá senhor mais bonito?

saudades de ti.

abraço maior do

r.