Saturday, May 11, 2013

Essas mães interioranas


Eu quis escrever um poema homenageando minha mãe.
E não só a minha. A intenção era homenagear todas as mães.
Mas o poema acabou não saindo, como não tem saído nenhum outro verso da fábrica inativa, que tem sido esse baleado coração.
Dona Marocas, dona Ercília, dona Dozinha, dona Filhinha, dona Lola, dona Esmeralda, dona Niquinha e dona Rute, a minha, eram, todas, maravilhosas. Lembro-me claramente daquelas senhoras em meus primeiros anos em São Raimundo.
Dona Cilinha cantava no coral da igreja.
Dona Marocas - mãe das moças mais bonitas - era sábia, dava conselhos, e não carregava tristeza no olhar.
Dona Ercília ajudava os pobres.
Dona Dozinha estava sempre de mau humor. Seu marido virou garimpeiro e foi viver no Pará.
Dona Lola freqüentava uma igreja crente.
Dona Niquinha cuidava do jardim.
Dona Vilma plantava hortaliças.
Dona Esmeralda chorava às escondidas.
Dona Filhinha mentia para si própria.
Dona Socorro fazia biscoitos.
Dona Ireni aprendeu a cortar cabelo.
Dona Isaura estudava à noite. De dia vendia laranjas no ponto final do ônibus.
Dona Maria era a melhor amiga de dona Conceição. Que era esposa de Expedito, que era maquinista de trem.
Dona Laura, de tão elegante, parecia mulher da capital. Quando andava pelas ruas deixava um cheiro de alfazema no ar. Estava sempre assim, refrescada, pronta para o calor do inferno nas tardes de Governador Valadares.
Dona Ana era calada.
Dona Nilza calava-se.
Dona Angélica alfabetizava meninos.
Dona Joana criava cabritos. Seu único filho morreu atropelado por um caminhão Scania Vabis.
Dona Rita organizava a novena.
Dona Juraci cresceu senhora de terras, teve gado, era filha de doutor. Envelheceu pobre e feliz, concubinada com um vaqueiro, ex-empregado de seu pai.
Dona Jandira teve filho prefeito, outro vagabundo e um outro meio artista.
Dona Lourdes era viúva. Não teve a mesma sorte de dona Adelaide, que se casou pela segunda vez.
Dona Cássia foi abandonada pelo esposo. Ela, que na juventude quis ser cantora e atriz, teve um filho que fugiu de casa e uma filha meretriz. Mudou-se para São Paulo e dela ninguém nunca mais ouviu.
Dona Selma lavava roupas para fora. Assim como dona Auxiliadora e dona Idalina.
Dona Norma conversava com o vento, aprisionava passarinhos e fazia tricô na varanda da casa até escurecer.
Dona Teresa dançava catira.
Dona Ivonete sabia bordar. Suas filhas eram costureiras. Seu marido, alfaiate.
Dona Rute lidava com um garoto meio louco, que queria sobreviver das palavras que bebia do Rio.
Maravilhosas, aquelas mulheres.
Lindas, marcantes, cada uma do seu jeito. Como esquecê-las?
Com o avançar da idade elas acabaram virando outra coisa.
Se na infância são nossas heroínas, com o passar dos anos viraram santas. E, como tal, merecem que todo filho lhe construa um altar enfeitado com as flores do amor eterno e recheado de oferendas da mais profunda gratidão.
Santificadas, sejam, essas nossas mães.
Santifiquemos.
Santificai!



17 comments:

Bell said...

Parabéns para todas as grandes mães =)

Tania regina Contreiras said...


Hoje, exatamente, soube que a mãe da minha irmãzinha de alma Claudinha está internada em estado grave. Oro por ela, orando por toda as mães. Leio sua crônica pensando para além da beleza de suas palavras, que o coração pulsa em todas as suas escritas. Leio sua crônica pensando em nós, pessoas do interior, das infâncias simples e ricas em cenário e sentimentos. Acho que isso nos irmana muito, Beto: memórias que, mais do que lembranças, falam da nossa índole, dos nossos valores, do amor pelo ser humano, na sua essência. Linda sua crônica.

Beijos,

Assis Freitas said...

mãe é mãe: santificadas em todos os nomes



abração

Andrea de Godoy Neto said...

linda demais, beto. Tantas mães, tantas histórias, tantas memórias...

santifiquemos sim, e abracemos, e aproveitemos suas companhias enquanto estão por aqui.

beijão

marlene edir severino said...

Compreendo, Roberto. Também ainda não consegui escrever poema para Dona Alayde. De pouco estudo e imensa sabedoria: cuidava de todos, da casa, cozia uma galinha caipira ensopada como ninguém e seu pão de casa era especial. Cosia a roupa de todos e até pra fora, quando a situação apertou. Ainda plantava flores pra enfeitar a fachada da casa, já que a horta era do Maneca...

Acho que as palavras que rascunho ficam sempre aquém e soam pobres pra tudo que ela me significa.

Ainda penso que continua por perto, mas já mudou pro andar superior.
Delicada e tocante tua crônica.
Doce viagem por aqui.

Abração!

Parole said...

Linda homenagem, querido.Parabéns a sua mamãe pelo filho que escreve coisas lindas.

Beijo.

Primeira Pessoa said...

parole,
não liguei pra minha mãe até agora, acredita???


e ela bem que o merece....
ela merece...
beijão do


r.

Parole said...

Ainda dá tempo...

Beijinho.

Primeira Pessoa said...

bell, parabéns até para quem não é mãe.


beijão do

r.

Primeira Pessoa said...

que a mãe de claudinha fique bem, taninha.
e que fiquemos bem, também, sista


beijos,
r.

Adri Aleixo said...

Que delícia caminhar por essa vereda de mitos... Minha infância é carregada por essas mulheres. Como disse o Bandeira "quarenta anos de agora não valem os quatro daquela época." Algo mais ou menos assim...

Sua mãe é fofinha, linda demais. Beijo nela. Obrigada pela homenagem!!!

dade amorim said...

Muito gostoso de ler esse texto, Primeira Pessoa!
Beijo pra sua mãe e pra você, pelo trabalho!

Eleonora Marino Duarte said...

certifico-me de santificar a minha no tom de sua oração...

muito bonito, Roberto, no molde do que são as lembranças e os mitos das mães longínquas e eternas.
emocionou.


beijo.

Dois Rios said...

santificada seja a tua mãe, menino roberto, q nos deu a ti, poeta-escritor para, dentre tantas escritos belos, ainda falar bonito das "donas" de são raimundo.

beijo,

Dois Rios said...

Ops, nos deu a ti, não! Te deu a nós, rs.

eurico portugal said...

há palavras que nos morrem antes mesmo de serem atiradas para fora do coração, palavras-poema, palavras que não sabemos esconder, palavras-respiração sobre o eclipse frágil de um nome, um só nome: o nosso do eterno colo das mães.

abracílimo!

Índigo said...

Madre es esencia... madre, mano tendida aunque esa mano se agote de tanto tenderse... y, aunque a veces, una crea que ya no podrá tenderla nunca más. Ser madre es esencia pero agota. Yo que soy madre porque quise serlo y que sé lo que es ser madre que tiende sus manos hacia afuera, he de decir, como madre, que las madres no somos eternas y nos agotamos y agostamos de tanto dar. Es una dura labor la de dar y recibir poco a cambio... y, aunque nos hayan educado como mujeres y como madres, para dar y volver a dar, la generosidad tiene un límite y también se agota. ¡No siempre es fácil ser madre y dar! Esa es mi sensación y mi vivencia. Es dura la tarea de ser madre, y más aún cuando los hijos son adolescentes.

Un abrazo, Roberto.