Monday, May 6, 2013

O jornalista, a revista masculina, o pastor e o roqueiro


Preciso parar com a mania de levar revistas masculinas para o banheiro.
Até já tentei, como explicarei a seguir, mas juro que não compro estas publicações para ver as moças peladas. Faz tempo que não as adquiro para esse fim.
Compro pra ler as entrevistas e os artigos - que são muito bons - e pelo excelente trabalho editorial que fazem.
Sim, eu sei. Ninguém acredita.
E esse que julgo ser um salutar costume já me fez passar por algumas situações embaraçosas, como esta aqui:
Há não muito tempo eu saía do mais íntimo dos redutos da humanidade, e esbarrei com um conhecido pastor evangélico da cidade.
Na verdade, foi mais que um esbarrão. Foi uma “trombada”.
Ele, um pastor da velha guarda com fama de severo, tinha muita pressa de entrar.
E eu não sabia que era ele do lado de fora.
Já me preparava para sair quando notei que a maçaneta começou a se mexer nervosamente. Quase fiz de conta que não a vi se mexendo, mas quem queria entrar tinha pressa. Muita pressa.
Colaborei.
Acho que foi ali, ao vê-lo suando nas têmporas, que matutei pela primeira vez que, assim como qualquer um de nós, pecadores, os pastores e padres também freqüentam banheiros.
"Até o papa", intuí, num arroubo de inteligência.
Todos nós estamos sujeitos às intempéries intestinais.
No que colidimos à porta, ele e eu, a revista masculina escorregou de debaixo do meu sovaco para cair no chão com as páginas centrais absolutamente escancaradas.
As páginas e as pernas de uma conhecida atriz de televisão, que revelava aos homens comuns desse mundo um tanto bom de sua cobiçada intimidade.
E eu e o pastor ficamos com cara de dois cowboys, cada um com a mão em sua arma, olhando fundo nos olhos um do outro, tentando adivinhar o próximo movimento.
Ele portava uma bíblia.
Eu, uma playboy.
Corremos os olhos pelos seios da atriz naquela fração de segundos, que nos pareceu - quero crer, também a ele -, uma eternidade.
E eu até quis dizer a ele que estava lendo uma entrevista com o navegador Amir Klink, numa tentative de me justificar, mas ele não tinha tempo para me escutar.
Apressado em acertar suas contas com a natureza, só teve tempo de me passar um olhar de descompostura antes de bater a porta atrás de si.
Segundos depois ouvi o barulho característico de alguém que não estava bem dos intestinos.
Quase sorri, cruelmente.
Fui para minha sala, refugiei-me detrás da escrivaninha e fiquei naquele estado de espírito que oscilava entre o envergonhado e o já conformado, esperando a bronca dele.
E ele veio dali a uns 15 minutos, sem trazer o sermão para o qual eu tanto me preparara.
Estrategicamente, ambos 'abrimos mão' do aperto de mão.
Ele veio, falou de um evento em sua igreja e eu achei melhor não tocar no assunto da revista. Estava de ótimo tamanho.
Enquanto ele falava, eu me prometia que, mesmo sendo a título de material de leitura para a duração “do procedimento” ali cabível, eu nunca mais entraria em um banheiro levando uma revista masculina.
E, durante muito tempo mantive a promessa, até que no outro dia alguém apareceu com uma revista destas na redação, e não resisti.
O entrevistado era Marcos Nasi, o polêmico vocalista do grupo Ira.
E nesta entrevista ele falava de sua trajetória na profissão de músico, gabou-se de ter namorado Marisa Monte e Marisa Orth, chamou o sertanejo Luciano de “anão de jardim” e contou “todas” as suas rusgas com a polícia.
Ele só se esqueceu de um episódio ocorrido em Framingham no início dos anos 90. Episódio este, que relembro aqui:
Após um show de sua banda no Ipanema ele ajudava e desconectar o equipamento, quando se aporrinhou com um fã embriagado.
Pela ira do vocalista do Ira, o moço deve ter insistido para que ele cantasse uma música de Zezé de Camargo e Luciano.
Nasi estava possesso. Já chegou socando.
O fã teve abundante sangramento no nariz e nem chegou a reagir. Deve ter sofrido uma fratura.
Nocauteado, apenas chorou, como um menino que não sabia direito o que estava acontecendo.
Alguém chamou a polícia e Marcos Nasi foi algemado e colocado dentro da viatura.
O empresário Carlos Silva, que trazia o Ira ao Ipanema, foi conversar com os policiais, enquanto eu, que nada tinha a ver com o peixe, limpava o nariz do rapaz agredido com um guardanapo de papel e tentava convencê-lo a não prestar queixa.
Na minha ignorância, isto poderia trazer-lhe alguns problemas, haja vista que ele era imigrante ilegal.
A vítima não prestou queixa, Nasi foi lberado imediatamente e pôde voltar ao Brasil no dia seguinte.
Naquela noite eu não dormi.
Perdi o sono, arrependido por ter me envolvido na confusão, por ter interferido.
No fundo do meu coração eu sabia que Marcos Nasi deveria ter sido responsabilizado por sua agressividade. E que não merecia ter ficado impune.
Em sua entrevista à revista masculina tantos anos depois, eu o vejo alardear que tem a ficha policial limpa.
O que talvez seja verdade.
Mas inocente, eu sei que ele não é.


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9 comments:

Tania regina Contreiras said...

Bem, a curiosidade é só uma: por que essas boas entrevistas são lidas exatamente no banheiro? :-)

Tá bom, vou acreditar. Mas a crônica é ótima, independentemente do que você tenha ido fazer no banheiro....rs

Beijos, Beto!

Lara Amaral said...

Há, que ótima crônica, tio! Adorei.
Beijo grande.

Paulo Jorge Dumaresq said...

Coisa boa ler sua crônica, Bob.
Leve e inteligente.
Quanto ao episódio envolvendo o Nasi, na minha opinião, você agiu certo.
A bronca seria grande pro vocalista.
Abraçaço e continue nos deliciando com seus textos.

Lídia Borges said...


Segredos de casa de banho são como os do confessionário. Não devem ser divulgados. ;)

E já agora: eu também não acredito muito nessa desculpa das entrevistas.
:)

Um beijo

cirandeira said...

É impressionante a tua maneira de escrever, Roberto. Chego a visualizar todas as cenas que descreves, como se eu estivesse presente naquele exato momento - rio, e não deixo de perceber o que está nas entrelinhaa: um senso de humor inteligente e crítico!
Sempre gosto de tuas crônicas!!!

um beijo

Mariani Lima said...

Inocência, é coisa rara. Difícil acreditar na inocência de um homem que entra no banheiro com uma playboy e como desconfiar da inocência de um ficha limpa? As aparência enganam!! E o pastor, de tempos para cá diria sem sombra de dúvida que é culpado de não sei quê. Muito bom texto,como sempre!
Abraços...

Eleonora Marino Duarte said...

entre o que dizem e o que fazem, algumas pessoas têm uma distância abissal!

muito bem desencadeada a narrativa, Roberto! envolve, prende a atenção como boa prosa que é.

beijo.

eurico portugal said...

surpresa surpresa é mesmo o pastor não ter dito: Amir Klink? ena, empresta aí que essa eu não vou querer perder.
e a porta fechava-se atrás de si :)

abraço, robertílimo! hoje, ali bem perto da d. helena, decide-se um ano de unhas roídas, taquicardias e suores frios. é logo mais à noite. eu, por aqui, fico à espera do milagre.

abracílimo!

flor de lótus said...

Que óptimo local é o banheiro para por a cultura em dia! E o que importa é cultivar-nos, seja qual for a fonte. Não é verdade? Um obrigada pelos belos textos que me deliciam.