Saturday, August 17, 2013

O autógrafo

 
 

(Para Olinto Campos Vieira e em memória de Roberto Batata)


Esta estória começa no estádio José Mamud Abbas, o Mamudão, em Governador Valadares.
Aconteceu no dia 30 de março de 1975 e o Esporte Clube Democrata está recebendo o poderoso Cruzeiro Esporte Clube, time  da capital.

1º Parte:

Eu tinha 13 anos e meu ídolo era o cruzeirense Roberto Batata, ponta-direita que todos apontavam como grande revelação e com futuro garantido na seleção brasileira.
Esguio, bonito, usava cabelo black power, assim como seus colegas Joãozinho e Eduardo Amorim.
Joãozinho era a coqueluche do time, ponta-esquerda destemido e driblador, chamado pelo cronista esportivo Roberto Drummond de "o bailarino da Toca".
O versátil Eduardo, por sua vez, jogava nas duas pontas e também no meio de campo. Foi o criador do drible  "Rabo de Vaca".
O jogo terminaria de dois a zero para o Cruzeiro, com dois gols do centroavante Palhinha.
Mal o juiz apitou o final da partida, corri para a porta dos vestiários na esperança de recolher meu primeiro autógrafo de um atleta profissional.
Eu queria a assinatura de Roberto Batata para mostrar aos amigos da escola.
Demorou uma eternidade, mas vi quando abriram a porta e os atletas foram saindo, um por um, assediados por uma pequena multidão.
Espremido no meio de pessoas maiores, eu me iluminei, quando aquele rapaz vestido com roupa de moço da capital veio caminhando na minha direção.
Trêmulo, postei-me bem na sua frente, como um zagueiro que tentasse pará-lo, oferecendo-lhe papel e caneta:
    - Batata, por favor, me dá seu autógrafo.
O jogador baixou a cabeça, pegou a caneta, escreveu o nome e entrou no ônibus do clube.
    Eu dobrei o papel, guardei e fui para casa, feliz.
    No dia seguinte, contei aos colegas de escola o encontro com o ídolo, falei do jogo, do placar e do autógrafo.
    Tirei o papel do bolso, abri e mostrei a eles, que caíram na gargalhada.

    Naquele pedaço de papel branco estava escrito, em azul: 
    Joãozinho.

2º Parte:

Vinte anos anos depois, homem feito, jornalista estabelecido e já morando nos EUA, estou em uma mesa de restaurante jantando com algumas celebridades.
Os músicos Sá & Guarabyra e Celso Adolfo estavam lá. Assim como os já ex-jogadores Reinaldo e Joãozinho. 
    Aquele Joãozinho da primeira parte desta estória.
    No meio da conversa, lá pela quinta garrafa de vinho, contei a todos o episódio ocorrido duas décadas antes.
    Ligeiramente constrangido, Joãozinho disse não se lembrar da estória, mas que era muito comum os três atletas serem confundidos fora dos gramados, naquele tempo. 
     E completou:
     - Se dei o autógrafo, foi para não decepcionar o menino.
   
    Rimos muito, bebemos, comemos, sairíamos do restaurante às 4 da manhã.
     Um pouco antes da debandada geral, ele veio da outra ponta da mesa até onde eu  estava.
     Acocorou-se ao meu lado, pegou um guardanapo e uma caneta e disse, com os olhos marejados:
      - Antes de irmos embora daqui você poderia me dar um autógrafo?
    E eu dei.
    Foi o primeiro autógrafo que dei na vida.
    Primeiro e único.
 
 
 
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14 comments:

Paulo Jorge Dumaresq said...

Maravilha, Bob.
Que timaço era o Cruzeiro nos anos 70.
Quase perfeito.
Parabéns pela crônica.
Para variar, excelente.
Abraçaço.

Tania regina Contreiras said...


Que crônica mais bonita, mais terna, e as tuas histórias reais são tão mágicas que só posso te achar abençoado. Além das mágicas histórias reais, esse lirismo, esse chamado a que olhemos a vida com poesia, sempre!

Ah, último autógrafo não, que você dará muitos ainda por conta de Meninos de São Raimundo. Não cobro o meu por me sentir já tão presenteada com uma crônica a mim dedicada.

Beijos, Beto!

bispo filho said...

Ótima crônica, mano. Repleta de reminiscências que, na dobra do tempo, se torna reveladora nos caminhos que se cruzam. E salve o Batata, o Joãozinho e o escrete azulado dos 70! Abraços.

Ira Buscacio said...

vai preparando o pulso, a paciência e o coração, pois com os Meninos de São Raimundo nasceram para os autógrafos. quero o meu!!!
é isso, Beto, celebridades dão autógrafos, mas tem uma raça de gente, dessas bonitas de tão do bem que são, que da msm vontade de pedir um autógrafo e um tanto de amizade.

bj grande

Sônia Brandão said...

Uma crônica gostosa pra me despertar neste domingo sonolento.
E vá se preparando para os numerosos autógrafos que dará daqui pra frente.

Beijos, bom final de domingo e uma ótima semana.


Verso Aberto said...

do autógrafo

a dedicação
a história
a lembrança

falam por ele

Ingrid said...

ótima crônica..
uma boa semana!

Sílc said...

Linda crônica Roberto. Saudável 'troca de figurinhas' Sabes que foi o 'Batata ídolo que te deu o autografo' E idem o amigo Joãozinho... Com certeza o Garrincha também fez o mesmo... Rsrsrs Quero teu autografo no Meninos de São Raimundo. Pode ser?
Com carinho imenso,
Sílvia

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) said...

Também quero um autógrafo, não do Bailarino ou do Rei, mas do meu amigo Roberto Lima, uai. E cê num terá como escapar: vem ni mim outubro.
Comovente, a crônica: gol de letras...

Abração do tamãe do Mamudão,
Darrama.

jorge pimenta said...

é esse mesmo, o maior escultor de ídolos: o tempo.

uma crónica que dribla a nostalgia e faz golo na saudade, robertílimo.

abraço!

p.s. por aqui, as estórias em tons de encarnado esbarram num início de campeonato com os mesmos tons desbotados do que há dois meses terminou.

Adri Aleixo said...

Uia, vou querer um autógrafo seu no próximo encontro. Já tem data o lançamento aqui em BH?

Tomara Deus tenha muita música bacana também tipo essas que você citou na crônica, pois a nossa música é abençoada.

Ótimo texto, querido meu. Bjos!

Assis Freitas said...

as histórias se inscrevem também nos enganos e é aí que explode a força do acontecer,

linhas tortas
pernas tortas
umas entortadas



abraço

Dolce said...

Vi consiglio di leggere la mia lezione di scrittura creativa "COMO ESCREVER POESIA ERÓTICA".
Saluti,
Architteto Dolce Filiberto di Savoya, PhD

OLINTO VIEIRA said...

Belo momento, prosa que é poesia e mais do que isso, vivida, chorada e autografada, assinada embaixo! E eu tive a honra de ter dado um click na sua inspiração. Grato, amigo!

Olinto