Monday, August 12, 2013

Um rio sem fim


Onde eu nasci passa um rio.
O Rio Doce, que nasce na serra da Mantiqueira e desagua no Atlântico, em Linhares, no Espírito Santo.
Este rio que ainda corre em minhas veias e foi meu companheiro desde sempre.
Nasci às suas margens, numa casinha modesta, em Pedra Corrida, interior do interior de Minas Gerais. Mas fiquei pouco tempo.
Alguns meses após o nascimento, acompanharia o seu curso, correnteza abaixo, mudando-me com a família para Governador Valadares.
No bairro São Raimundo aprendi a nadar em suas águas, pescava lambaris e piaus, conversava com as pedras. Foi assim por toda a infância e adolescência.
O tempo passou, tornei-me adulto e passei a ter um pesadelo recorrente.
Quase todas as noites eu sonhava com o corpo submerso e tinha a sensação afobada de afogamento, via barrancos, vegetação ribeirinha, o céu engolindo as águas, peixes, tudo.
Era um pesadelo que tinha placidez e pressa, fazendo-me acordar suado, amedrontado, sem entender o porque de o mesmo sonho se repetir com tanta frequência.
Há cerca de dez anos, no entanto, minha mãe contou uma história que mudaria as minhas noites.
Estávamos jantando em Belo Horizonte e ela falou da gravidez que me traria ao mundo.
Contou-me da chegada à Pedra Corrida de minha avó Ana Emília, parteira de excelente reputação.
Naquele tempo eram raros os hospitais e que praticamente todas as crianças interioranas nasciam em casa.

Num domingo de novembro, a família foi para uma prainha que se formava sempre que o rio definhava.
Farofa, frango, refrigerante, cerveja e amigos.
Um luxo.
As pessoas chamavam seus amigos e iam caminhando rio adentro, as águas pela cintura, ancorando nas pequenas ilhotas arenosas que se materializavam, e ali passavam dias inteiros.
Uns pescavam com anzol, crianças nadavam e jogavam futebol, mulheres tricoteavam a vida alheia.
E minha mãe foi com meu pai e um grupo de amigos, passar aquele dia de grande calor.
Tudo ia muito bem até que ela começou a sentir as contrações.
Temendo que a criança nascesse ali, no meio do rio, dona Rute tentou voltar para casa, na margem esquerda, apavorada e com muitas dores.  Foi um sufoco.
Felizmente, aquela apressada travessia não passaria de um susto.
Eu nasceria alguns dias depois, no meio de uma madrugada de terça-feira, iluminado pela luz de uma lamparina, o cordão umbilical enrolado no pescoço.
Minha avó sempre contava que foi um parto complicado, um dos mais difíceis que fez.

Desde que minha mãe contou esta história da corrida até a margem, nunca mais voltei a sonhar com o afobamento daquelas águas.
Foi como se eu entendesse, finalmente, aquele mistério tão íntimo.
E tinha que ser ela a contar para eu desvendar, de uma vez por todas, o mistério.
Quando completei 40 anos de idade pedi a meu pai que fosse comigo, pela primeira vez, a Pedra Corrida. Afinal, eu jamais havia voltado lá.
Saímos de BH bem de manhãzinha e chegamos ao destino por volta da hora do almoço, uma viagem de 300 quilômetros pela rodovia 381.
Descemos a rua principal do vilarejo, um lugar precário e esquecido pelo progresso, e fomos imediatamente para a rua à margem do rio, onde eu nascera em 1962.
Seu Antônio parou o carro e ficou um pouco em dúvida, pois as casinhas eram muito parecidas umas com as outras. Até que se decidiu por uma delas.

- “Foi aqui que você nasceu, meu filho”, disse ele.

Emocionei-me, chorei, tirei fotografias na frente daquele casebre e me encantei com um galho de mini-rosas, que pendia para fora do muro por um fresta.
Foi quando apareceu um homem que nos observava à distância.
Ele chegou, cumprimentou meu pai, disse tê-lo reconhecido e que ele não “dimudô” muito, do início dos anos 60 até então.
Em seguida, disse-nos que aquela não era a casa em que moráramos.
Informou que ela já não existia, pois foi levada por uma enchente em 1979, apontando para um terreno baldio, um pouco mais à frente.
Fui até lá e vi, entre os escombros, o que ainda havia de vida naquele pedaço de terra.
Procurei vestígios meus no meio da rala vegetação que brotava onde um dia existiu uma casa, e nada encontrei.
No lugar em que nasci pastava agora, incólume, um simpático burrinho.
E eu, que sou de tantos lugares, continuei sendo de lugar nenhum.


.

24 comments:

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) said...

Tenho vontade de ir até Pedra Corrida, cê acredita?

Um abração, meu irmão!

Linda crônica, como tantas outras suas!

Bell R Santos said...

Queria fazer um comentário a altura do seu texto !Me encantei com a linguagem clara gostosa de ler. Emocionei, com sua emoção no decorrer do texto. Parabéns mestre pela linda
cronica ! E parabéns pela arte de escrever (Sendo hoje dia 12 -08 o dia da arte ) Beijo no coração , MENINO DE SÃO RAIMUNDO

Verso Aberto said...


o coração
suas asas
a palavra
seu chão

não há lugar melhor para voar

abs Beto

Márcio Ares said...

Lembrou eu menino. Na verdade, fui quase desnacido, porque o rio não me sufocou, mas eu, por alguma razão que até hoje não sei, roubei o fôlego da minha mãe. Ela, que embora forte, era pobre e mãe de mais cinco moleques. De qualquer modo, respirar por este mundo afora, como que procurando lugar, é o que também faço eu, meu amigo, meio que querendo entender. Bonito escrito o seu. Podia quase ter sido meu. Márcio Ares.

jorge pimenta said...

há água assim mesmo a correr-nos nas veias, translúcida e com o sabor da vida.

uma crónica feita de água doce misturada com o sal que tempera a memória - admirável, robertílimo!

um abraço com setembros a espreitar-me pelas retinas!

Lu Dantas said...

Bons tempos, boas lembranças e a certeza de que somos de todos os lugares, nômades de nós mesmos.

Gostei daqui e voltarei.

Mariangela Alvarez said...

Menino...cmo vc conhece me transportar aos lugares mais distantes desse Brasil, como na pquena cidade em que nasci que conta com 9800hab... e os rios , que passavam atrás das casas, que chamamos aqui os paulistas de "Ranchos"...Tudo igual.. Não é a À toa , que muitos imigrantes italianos, espanhóis e arábes foram primeiro à Minas , depois atravessaram a fronteira ... pertinho..
Lembrou me a Cachoeirha do Maribondo, lá perto..

Sensacional ocê...

Da regionalização se faz a Universalidade!

Beijo querido amigo

MAry

bispo filho said...

Ser de tantos lugares é a versão do cosmopolita que você é. Alguém que abraçou o destino com a coragem de velejar mundo afora. Tal como o nosso rio Doce, você continua seguindo deixando vestígios e construindo novas paisagens. Afinal, esta é também a mágica das "pedras corridas": correr mundo afora se enriquecendo de existir, como nos ensinou Dylan. Abraço, do mano Bispo.

Lázara papandrea said...

Ah as lembranças! quando assim bem contadas dão aperto na gente! abraços

Mariangela Alvarez said...

Meus pais me levavam aí ...
Tinha 2 anos... beijo

http://youtu.be/YKHEdAxJH-Q

Magnolia said...

Olha que coisa mais linda...

cirandeira said...

Nascido assim, à beira de um rio, tinhas mesmo que ser conhecedor de muitas águas e encantado pela Iara, a rainha das sereias! De tanto ouvir o seu canto te tornaste
um encantador que nos fascina com tuas crônicas maravilhosas.
Belíssima crônica, Roberto!!!

beijoss

Tania regina Contreiras said...


As crônicas me fascinavam na época de colégio. Não todas. Essas cheias de alma, como as tuas. Eu lia e relia. Até hoje leio e releio, como se quisesse entrar na história que não vivi.

Beijão,

Adriana Riess Karnal said...

voce é definitivamente um homem sem fronteiras. mas um quintal é sempre um quintal em qualquer lugar do mundo.

Adri Aleixo said...

Uma deliciosa leitura; ainda mais depois de conhecer um pouquinho seus queridos pais, que me receberam tão bem...

É mesmo verdade que os sonhos têm explicação, que bom que você teve a sua e que ela desaguou num rio de felicidade.

Beijo carinhoso!

Ira Buscacio said...

Vc e seu dom de emocionar a gente. Amo isso!

bj, Beto

Índigo said...

Es una crónica suave, de agua, de reencuentro, y de movimiento. Cuando se ha vivido en tantos sitios, ya no se es de ningún sitio y, sin embargo, uno es un poquito de cada uno de ellos. Así son las cosas para las personas como tú: de aquí y de allí. Abrazo grande, grande. Pronto nos vemos, en Santiago.

dade amorim said...

Muito bom esse texto, Roberto. Gostei de verdade, é emocionante.

Abração.

Bandys said...

To voltaNdo devargarzinho...

Aqui sempre coisas boas.

beijos

Batom e poesias said...

Estamos sempre em busca do nosso começo, né?
Como se fosse importante. Já fiz isso de procurar a casa da minha infância...

Como sempre, uma crônica linda.
bjs

Rossana

Sônia Brandão said...

Dentro de ti mora um rio.

bj

Luciana Marinho said...

a vida contada em sua simplicidade é tão grandiosa e comovente... é "galho de mini-rosas". lindo, roberto!! beijinho.

Emilia Vaz said...

Emocionante!

Tatiana said...

Que bonito, Roberto, procurar o teu começo. Que bom que as águas te levaram longe também na inspiração!
Beijo