Thursday, October 10, 2013

Carta Não Enviada a Um amigo Distante



Newark, um dia qualquer do outono de 2007


 

Zé de São Raimundo,
hoje tive muita saudade de você.
E tive saudade da gente naquele espaço-tempo, e de tudo aquilo em que acreditávamos.

Saudade da nossa juventude e de você com aquele cabelo djavaneado, besuntado de creme japonês, formigueiro andante pelas ruas de Governador Valadares.
Saudade das minhas camisas floridas - vela aberta ao vento -, fita do Senhor do Bonfim no pulso esquerdo, e a incerteza pulsando naquele coração que flertava com o futuro mais oculto.

Num tempo em que vivíamos na poesia, ingênuos, incautos, verdes, nós acreditávamos que sobreviveríamos da palavra e que encontraríamos no ritual de esculpir verbos um meio de vida e sobrevida.
Ledo engano, Zé, como tantos outros.

Achávamos que um governo petista resolveria os problemas maiores do nosso país.
Víamos em Lula a figura de um novo Messias e por incontáveis momentos reconhecemos em José Dirceu a sabedoria de um rei Salomão.
Fomos logrados, meu caro amigo. Feliz ou infelizmente, o tempo é o senhor de todas as verdades.

O PT caiu na vala comum e sei que já não acendemos velas para a estrela solitária.
Perdemos a inocência ao sabor das decepções.
Viver é doce e é amargo, é esta a lição tirada.
E assim vamos somando e subtraindo, botando e tirando coisas do embornal.

Das coisas que me caíram do alforje, a sua amizade e presença constante, estão entre as que mais me fazem falta.
Perdi um referencial, um espelho no qual eu via refletir minha vontade de mudar o mundo. Baixei os braços, Zé.
Quixote sem Sancho, hoje eu toco na banda apenas pelo dever de cidadão. O que é louvável e me deixa honrado da cabeça aos pés. Mas transformei-me num contente.

Mais um.

Sinto falta de nossa amizade. Sinto falta de você em meu cotidiano conflituoso, briguento. Faz me falta o ofício de sonhar. Faz-me falta a luta.
Ao meu modo, venho vencendo a peleja pelo pão e pelo conforto. Tenho consciência disto. E gratidão.
Sempre tive certeza de que conquistaria isto (mesmo nos dias mais chuvosos!) e, apesar de minha preguiça, indisciplina e limitações mais gritantes, o fracasso já não é uma possibilidade, posto que estou no lucro faz muito tempo.

Mas, eu lhe confesso, caro amigo, que de vez em quando, adormeço com o céu azul de Minas Gerais nas retinas. E sonho com as muriçocas de São Raimundo, os lambaris da Biquinha, o ardido da pinga de Coroaci, a névoa aos pés da santa anunciando a chuva e a água cor de barro do 'rião' que ainda desliza em direção ao Espírito Santo e ao mar.

Quimera?
Quem me dera, amigo Zé.

Quero te ver em breve, se a vida assim nos permitir. Vá guardando a cachaça, que eu providencio o tira-gosto para a prosa da boa.

Vê se não some mais.

Abraço e amizade perene do

 

Roberto.

 

14 comments:

MA FERREIRA said...

ah... comentar o que diante desta crônica saudade?
"a qalavra e que encontraríamos no ritual de esculpir verbos um meio de vida e sobrevida.
Ledo engano, Zé, como tantos outros.
Será?
Pelo que leio a o verbo alimenta tua alma! Missão muito mais que cumprida meu Amigo!

Tania regina Contreiras said...


Essa gente que habita a tua memória se torna íntima. Beleza de Zé assim contado...

Beijos,

Verso Aberto said...

para a pinguinha?

prepare carne de sol com mandioca, Beto

eu levo a cerveja para arredondar rsrs

abs

bell said...

Salve mestre das palavras! Sensacional,pode acreditar viajei com você na saudade !Realmente gosto de ler você.

Sônia Brandão said...

A vida poderia ser bem mais simples. O mundo sempre nos engana. Iludidos, acabamos nos distanciando das pessoas e coisas que nos são tão preciosas.

Sempre bom vir aqui.
bjs

jorge pimenta said...

reencontros pelos braços da palavra... enquanto a cachaça alumia desejos e acende promessas num quase-tempo que talvez já não seja mais do que tudo quanto nos sobra da pele.
nostalgia-poema, este, robertílimo. a veia poética e sensível ao rubro.

abracílimo!

p.s. é chegada mais uma hora de especial significado para ti e nosso bispo. dá notícias.

dade amorim said...

Uma história verdadeira, uma desilusão igualmente verdadeira, R!
Mas com certeza, ele voltará.

Beijo!



Assis Freitas said...

amizade sincera, como diria o cantador


abração

Anna Amorim said...

Bom d+ ter saudade do vivido assim com gosto quando as desilusões são sonhos que impulsionaram a ser o que somos.
Beleza de texto!

Abs,

Keyla Carvalho said...

Que saudades! Obrigada pela leitura. Amizade avante! Reencontro necessário! Não esquece em estender ao convite.

Bjs


Saudades do teu blog.

dade amorim said...

Um texto sensível e verdadeiro, R!

Beijo por ele

jorge pimenta said...

eis os nomes que ameaçam a memória por nada saberem do tempo, robertílimo. e desafiar o tempo é, por um lado, a sua maior ousadia e, por outro, a certificação da verdadeira amizade.
o brasil há de proporcionar-nos outros reencontros, reencontros alargados com poesia e pão. não será no paulo padeiro, mas que importa? somos nós que fazemos os lugares e toda a sua magia. já assim foi com d. helena, assim será com todos os que vierem - e que sejam muitos e repetidas vezes.

já preparo o cachecol e a camisola para a grande celebração. vou ser, provavelmente, o único cruzeirista do mundo a festejar em tons de... encarnado - tons de lisboa, cores de portugal!

abracilium, dom robertus limius!

O tempo das maçãs said...

Mesmo que a vida tenha mudado o rumo da prosa, os amigos verdadeiros estarão sempre ali nos esperando...

Nostálgico e bonito.

Beijo.

Parole

Anonymous said...

também não enviei a minha carta!
Caro menino, terias na infancia passado pelo sul da Bahia,Alcobaça?
Não sei pq te vejo as vezes por lá.