Tuesday, November 5, 2013

A Mão de Deus em Tibães




(Para Jorge e Anabela)

No aeroporto Francisco de Sá Carneiro, na cidade do Porto, uma voz conhecida faz um “boo” ao pé-do-ouvido, no que me toca o ombro.
Quase dou um pulo, gato velho, ainda sonolento pelas sete horas de travessia do Atlântico e visivelmente baqueado pelas cinco horas de con-fuso horário.
Abraço o parceiro Bispo Filho e ele diz que me reconheceu pelas costas e que eu estou ficando careca, com um cocoruto de frade.
Não foi um começo auspicioso.
Primeiro, meu parceiro de escrevinhações há três décadas, tenta me assustar com um “boo” ao pé-do-ouvido.
Em seguida, assusta-me, de fato.
Vou ao banheiro do saguão do aeroporto, olho-me no espelho assim, meio de ladinho, e constato: estou realmente perdendo cabelo, ali na região extrema do topo.

A caminho da cidade de Braga, na província do Minho, norte de Portugal, somos reminiscência e olhar na paisagem.
Instalamo-nos no hotel Mercure, no centro da cidade, e somos recepcionados à noite pelo poeta Jorge Pimenta e sua bela família.
Bom vinho, boa prosa, excelente comida.
Conheço bem esta casa.
Sinto-me parte deste clã desde que estive na cidade pela primeira vez,  em 2011,  com a esfarrapada desculpa de assistir a um concerto de reunião de uma banda portuguesa.
No que vamos devorando um delicioso arroz de camarão preparado por Anabela (precedido pela antológica alheira de caça, que se registre), vamos tomando conhecimento do nosso roteiro de atividades nos dias que se seguem.
Bispo Filho tem encontro marcado com médicos bracarenses dia sim, dia não. Precisa de acompanhamento em um procedimento iniciado no Brasil. E eu ainda tenho que escrever uns textos para o Brazilian Voice.
Nos intervalos, passeios inesquecíveis por Braga e Guimarães, entrevistas na imprensa local, vinho, presunto, pudim Abade de Priscos, água das Pedras Salgadas e dolce far niente.
O lançamento de Meninos de São Raimundo está marcado para as 21 horas da noite de sexta-feira, 13 de setembro, no Mosteiro de Tibães, em seu recém-inaugurado espaço cultural, no lugar onde um dia foi uma cavalariça.

Eder Asa, amigo mineiro que residiu em Braga, informa-me pela internet que fizemos uma escolha arriscada.
A livraria FNAC, dentro do maior shopping center da região, bem no centro da cidade, é garantia de público. E aquilo ficou martelando minha cabeça, como um sino de igreja anunciando um funeral.
Optamos pelo mosteiro ao invés da livraria e agora é tarde demais.

No dia do lançamento, passo a tarde em Tibães.
A antiga Casa-Mãe da Congregação Beneditina Portuguesa, situa-se a 6 kms a noroeste de Braga, rodeado por plantações de uva e milho. Trata-se de uma imponente construção de 900 anos e que enche os olhos, um lugar erguido para a devoção a Deus e seus silêncios.
Retono ao hotel no início da noite, tomo um banho demorado e encontro-me com Bispo Filho no saguão.

Chegamos ao mosteiro às 20:45, quinze minutos antes da hora marcada e apenas quatro carros ocupam o grande estacionamento.
Faço as contas: um carro é do padre, outro do sacristão, o nosso, e é provável que aquele último, um Renault com placa de Paris, seja de um turista.
Bate uma agonia imensurável e as palavras de Éder Asa reverberam cada vez mais alto, deixando-me resignado com o fato de que o lançamento de nosso tão esperado livro, está fadado ao fracasso logo em sua primeira noite.
Faltam apenas cinco minutos para a hora marcada e observamos um clarão bem ao longe.
Na estrada sinuosa, feita de pequenos sobe-desces, uma espécie de tobogã de asfalto margeado pela vegetação, o olhar se ilumina.
Vemos o primeiro farol de automóvel vindo em nossa direção.

E atrás daquele farol, vem um novo farol.
Seguido de um outro e mais outro e outro mais.
E outros tantos faróis.
Formam um comboio inesquecível, iluminando a noite até pararem, um por um, bem pertinho de nós.
Vamos entrando pela porta principal do mosteiro, revigorados, e as pessoas vão se sentando até que não sobra um único assento vazio na platéia preparada especialmente para a noite do lançamento de Meninos de São Raimundo em Portugal.
Tomamos nosso lugar à mesa e o pião começa a girar.
Um arrepio gostoso toma conta de nós.
Somos tratados como filhos da terra, meninos de Braga, que acabam de testemunhar e viver um pequeno milagre.
E o afeto se multiplica.
Como pães.



 

 

21 comments:

Batom e poesias said...

Que lindo! Que orgulho!
Experiência maravilhosa. Parabéns, Roberto.

Rossana

Tania regina Contreiras said...


Eu nem tenho vontade de ter vivido o que você viveu: tenho vontade é de sentir como você sentiu, ver pelos seus olhos. Quando você escreve fica tudo uma lindeza, porque sua alma de poeta (poeta cronista, mas poeta) descobre a beleza em tudo. AMEI a crônica.

Beijos, Beto!

Indigo Horizonte said...

y tú que pensabas que no ir a la gran librería sería la crónica de una muerte anunciada... descubriste que los caminos de Dios son insondables ;-) La suerte estaba echada y era mucha, mucha. Ya lo ves.

Abrazo grande, Roberto, y enhorabuena.

lectorwall said...

A mão de Deus nunca desampara, mesmo aqueles que chegam a duvidar!Gostei de ler! Cptºs

Jorge Pimenta said...

ler esta tua crónica, querido amigo, fez-me recuperar a essência dos dias, que é o mesmo que dizer a essência do que somos. foram várias as vezes que tive de parar, movimentar-me na cadeira, deslocar a madeixa que caía sobre os olhos ou mesmo pigarrear, porque o silêncio das tuas palavras chega-me de modo tão vivo que quase se faz perturbador. e, por instantes, como que por esse milagre de multiplicação de faróis e amigos em redor dos meninos, dos piões, das suas estórias em tibães, da amizade, afinal, todo o filme se rebobinou para além da memória que desses dias coleciono e que se fará para sempre inesgotável. pequenos milagres que conseguimos em todos os instantes pela amizade; imensos milagres que eternizamos pela palavra.

um forte abraço meu, da anabela, do gonçalo e da maggie, hoje, dia em que como noutro vivido aqui, a seis e não a quatro, houve benfica para a champions na tv, arroz de camarão e um bom vinho do alentejo. as cadeiras continuam ali, à espera - e apetece-me citar lobo antunes, ainda que com uma variação: a saudade é "quando há um espaço a mais na mesa afastando as cadeiras para disfarçar".

abracílimo, amigo-irmão!

Ma Ferreira said...

Ah....que linda sua crônica!
Cheguei a imaginar a cena!
A vida nos devolve na exata proporção do que doamos, sempre!
Bjs

Sônia Brandão said...

Não há quem resista ao chamado desse pião. Ele brilha sempre.

Bom vir aqui.
bjs

Assis Freitas said...

e assim gira a roda da fortuna, este moto-contínuo da existência



abração

Primeira Pessoa said...

Rossana,
de uma forma muito forte, algumas pessoas como você estiveram conosco nessas nossas andanças.
Beijão do

R.

Primeira Pessoa said...

Taninha,
tudo isto a gente vive junto.
Sempre que chego de algum lugar (mesmo que seja dentro de mim mesmo) chego doidinho pra lhe contar.

Beijo, manucha,
R.

Primeira Pessoa said...

Indigo,
entre as muitas lembranças que guardarei para sempre, está o nosso encontro em Santiago de Compostela, numa noite especial, lindíssima, que culminou com o show de Leo Minax e Fred Martins, no Ultramarinos.
Você faz parte desta história.

Beijão do

Roberto.

Primeira Pessoa said...

Jorgíssimo,
não tem como esquecer um momento como aquele que vivemos juntos.
E olha que de for a ficou o sorriso de Margarida Figueiredo, que não é como a chave do padre Luiz Marinho, mas abriu-nos as portas do mosteiro.
As gargalhadas boas, as cervejas, as andanças, o almoço às margens do Lima e o trajeto até Compostela...
Tudo tão lindo.
E inesquecível.

Abração do seu irmão montanhêes, lá das Terras de Santa Cruz, o

Roberto.

Ps: neste domingo seremos campeões brasileiros de futebol. Celebraremos, pois não???

Primeira Pessoa said...

Rodopiamos juntos, Sonia.
Você esteve lá conosco. E deu-nos grande incentive.
Rodopiamos juntos.

Beijão,

R.

Primeira Pessoa said...

Ma Ferreira,
sua generosidade já nos era sabida, desde a sua exposiçáo com Marquinhos Pizano. Ele nos falou muitíssimo bem de você.
Generosidade que sentimos em São Paulo, bem de pertinho, com a presença de sua irmã Mirtes e seus mimos para os dois " meninos".
Lá em casa, ficará em lugar de destaque, obra de arte linda que é.

Beijão do

Roberto.

Primeira Pessoa said...

Zé de Assis,
a gente anda junto.
desde sempre, mel do mesmo tacho.

Beijão do


Roberto.

Primeira Pessoa said...

lectorwall,
a mão de Deus sobre a minha, sempre.
E sobre a sua... também.

Abração do
Roberto.

Flávio Assis said...

Ler sua crônica teve um gostinho muito especial, Erê. Você narrou essa estória para mim, cercado de amigos, com cerveja gelada e olhos nos olhos. Sucesso meu querido!

Flávio Assis said...

Ler sua crônica teve um gostinho especial, Erê. Você narrou para mim essa estória, cercado de amigos queridos, com cerveja gelada e olhos nos olhos. Sucesso meu velho!

cirandeira said...

Depois de ler essa crônica maravilhosa, a única coisa que posso dizer é que também estive lá, mesmo com atraso, porque tens o dom de nos transportar para os lugares e acontecimentos que nos descreves! Gostei muuiitooo!!!

beijoss

Dois Rios said...

Que belo texto, Roberto! És, acima de tudo, um poeta. No mais, que muitos outros faróis iluminem a trajetória do livro de vocês e que o pião tenha, ainda, muita força para continuar girando mundo afora. A propósito, onde podemos encontrá-lo?

Fernando Campanella said...

Excelente!!! Que os meninos se São Raimundo continuem multiplicando se nos corações dos leitores. Abração.