Wednesday, June 9, 2010


















A Aurora

(Poema de Federico Garcia Lorca, melodia de Raimundo Fagner)


A aurora de Nova Iorque tem
Quatro colunas de lodo
E um furacão de pombas
Que explode as águas podres.

A aurora de Nova lorque geme
Nas vastas escadarias
A buscar entre as arestas
Angústias indefinidas.

A aurora chega e ninguém em sua boca a recebe
Porque ali a esperança nem a manhã são possíveis.
E as moedas, como enxames,
Devoram recém-nascidos.

Os que primeiro se erguem, em seus ossos adivinham:
Não haverá paraíso nem amores desfolhados;
Só números, leis e o lodo
De tanto esforço baldado.

A barulheira das ruas sepulta a luz na cidade
E as pessoas pelos bairros vão cambaleando insones
Como se houvessem saído
De um naufrágio de sangue.


A Música Que Toca Sem Parar:
esta música foi gravada em 1986 como registro do cinquentenário da imperdoável execução do poeta espanhol Federico García Lorca, fuzilado pelos sublevados nacionalistas na Guerra Civil Espanhola, em 1936.
Na ocasião da gravação, 14 grandes nomes da música popular internacional se reuniram para musicar Lorca no excepcional "Poeta En Nueva York", um disco que deixou marcas profundas em mim.
Chico Buarque e Raimundo Fagner representaram o Brasil, dividindo A Aurora, parceria póstuma entre Fagner e García Lorca.
Já escutei esta canção de joelhos.
Como que pedindo perdão por um pecado que eu não cometi.

27 comments:

Sofia Aguarela said...

Garcia Lorca é um geniozão, Roberto!

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) said...

Roberto,
Hoje também fiz-me (refiz-me) de joelhos no trabalho, ao ouvir essa canção eterna, durante uma fuga pro escritório, onde costumo refugiar-me um pouco todo dia, eu que vivo de vender zapatos (e escrever escondido, psiu!).
Agradeço comovido pelo presente, poeta.

Abraço escancarado,
Ramúcio.

Primeira Pessoa said...

é verdade, Sofia... um gênio.
passei minha adolescência lendo Lorca... sabia de cor e salteado um tantão de poemas dele...

abração do
roberto.

Primeira Pessoa said...

ramúcio,
te passo, depois as demais canções do disco... tem uma de paco de lucia que é qualquer coisa de divinal.

abração procê, poeta que veste os pés do mundo.

do seu amigo de sempre, o
roberto.

Zélia Guardiano said...

Roberto
São todos santos: Lorca, Chico, Fagner e você, que nos presenteia com uma coisa assim!
Tenho esse conceito de santidade (já faz tempo): Santo é todo aquele que, de alguma maneira, nos faz bem ao espírito...
Grande abraço, meu querido amigo!

Primeira Pessoa said...

zélia,
santa é você que com sua generosidade nos manda, pecadores com a folha corrida quase do tamanho da de fernandinho (collor) ou beira-mar, pro céu.

sei que a chapa ta esquentando pra mim:
matei passarinho. tive pensamentos impuros com todas as professoras bonitas que tive (rs). bebi. fumei. traguei. rs.

e votei no lula.

zélia, agora sem brincadeira: cê que maravilhosa.

beijo imenso.

r.

Gerana Damulakis said...

Grande Lorca! Um dia colocarei no Leitora um poema de Lorca que me fascina. Obrigada pela visita. Adorei entrar aqui.

líria porto said...

betinho, tu me matas... e me revives! gracias pela beleza.
besos

Primeira Pessoa said...

gerana,
quantos Lorca você quiser postar...
a-d-o-r-o a obra dele...

numa madrugada de insonia destas vi um filme em que andy garcia interpreta o apaixonado (apaixonante) poeta.... hoje achei um pedacim no youtube procê...
http://www.youtube.com/watch?v=O8-eQLb8p3A


ah, gerana, bem vinda ao blog.
é uma alegria te ter entre os meus.

abraço grande do
roberto.

Primeira Pessoa said...

uai, lírica...
somos pinga da mesma pipa, mel do mesmo tacho...

num é não?

beijocas,
r.

Assis Freitas said...

Um trio da pesada Lorca, Chico e Fagner. Romanceiro gitano e tantos outros.

abração

Paulo Jorge Dumaresq said...

Poema forte, Roberto.
Não sei se Nova Iorque é tudo isso que Lorca escreveu no poema.
Infelizmente, nunca estive na cidade.
Você, sim, tem mais propriedade do que eu para concordar ou discordar, pois certamente conhece bem a Big Apple.
Uma coisa é certa: Chico e Fagner sublimaram o poema.
Forte abraço, meu querido.

Jorge Pimenta said...

e ainda há quem creia no comummente designado "sonho americano"?... receio bem que o projecto da humanidade esteja falido não apenas nos eua,mas um pouco por todo o lado...
um abraço, amigo roberto!

Primeira Pessoa said...

nova york é exuberante, Jorgíssimo.
acredite: uma das cidades mais interessantes e democráticas que conheço, uma mistureba de pessoas do mundo inteiro, tudo funcionando... sujeita a erros e acertos como qualquer outra grande metrópole.
existe muito de mito e de ressentimento (e de inveja, também) por parte de muita gente muito interessante espalhada pelo mundo inteiro. muitas destas pessoas sequer colocaram os pés aqui...

e esse país aqui não é feito äpenas" de georges bushes... pais e filho... cowboys assassinos de índios... babacas profissionais e de plantão... não é.

este é o país também de miles davis, de ginsberg... de tanta gente interessante e bacana...

você tem que ver com seus próprios olhos.
muita gente vê nova york (e este país) com os ouvidos.

sim, este é um país contraditório, como qualquer outro. aliás, como o meu brasil também o é.

abraço deste seu amigo das minas (e de new jersey)...

RL.

Primeira Pessoa said...

paulo poeta,
você viveria no village e piraria o cabeção naqueles muquifos de jazz, blues e roquenrol...
eu frequentava um desses na bleecker street, que recebeu no seu palquinho acanhado nomes como bob dylan, jimmy hendrix e janis joplin...

bicho... e todos aqueles musicais da broadway que te fariam sorrir.

nova york te espera, PJ...

abração,
r.

Primeira Pessoa said...

assis,
respondo seu post, mas o danado tomou doril.

lorca?
é bom até com chá de cogumelo...rs

abração do
roberto.

Em@ said...

Adoro Lorca e tenho o cd (e o vinil) "Poetas andaluces de ahora" que oiço ininterruptamente quando estou down...
beijo.

Andrea de Godoy Neto said...

Roberto, essa canção é daquelas que dão um frio na barriga, parece que vamos cair pra dentro

Lorca mexe com uns sentidos outros em mim, algo mais denso, algo que não me tira do chão, ao contrário, senta bem meus pés sobre a terra.

Tempos atrás assisti a um espetáculo de música e encenação em sua homenagem, onde representavam inclusive sua execução. Achei tão forte, a música, os poemas...no final, lembro que nem consegui aplaudir, tamanho era o buraco que havia ficado dentro de mim. Só lembrava do grito "ai de nós, mataram Lorca! O poeta está morto!"

Obrigada por compartilhar preciosidades assim

um beijão pra ti

Primeira Pessoa said...

andrea,


emocionei-me lendo o seu post.

quando meus olhos pousaram sobre este trecho "ai de nós, mataram Lorca! O poeta está morto!"
um pedaço de mim morreu junto pela milésima vez...


beijo grande
r.

ps: mandei o mp3 da canção pra você, né?

Primeira Pessoa said...

em@
vou procurar no google este disco digitalizado. um dia eu acho... rs
lorca foi parte importante (importantíssima) do meu apego às palavras.
ele, florbela, dos anjos, drummond, gullar e um cronista genial, o rubem braga...

beijo imenso do
r.

Tania regina Contreiras said...

Homenageado no Diário Extrovertido, homenageando-nos a todos, sempre, por aqui. Tudo isso é uma homenagem aos nossos ídolos, nossos sonhos, nessa casa clara, aberta, e nessa conversinha ao pé do fogão tão boa que é.

Passando para deixar um abraço, enquanto o balanço prossegue lá casa roxinha.

Abraços, Roberto!

Primeira Pessoa said...

viu so, tania?
o marcantonio é um doce de pessoa, menino bom.

ganhei mau dia. meu final de semana. o mês...

e vou ficar ainda mais contente quando cê resolver acender a liuz da casa roxa.

ô, aí é que o trem vai ficar melhor.

beijão do roberto.

José Carlos Brandão said...

Poeta En Nueva York é um grande livro, que deveria ser mais lido. É uma poesia nova, de um surrealismo visceral. Os poetas querem tanto o novo? Não há nada mais novo do que esses poemas.
Um grande abraço.

Andrea de Godoy Neto said...

pois é, roberto...antes, quando eu ouvia Lorca, automaticamente a memória me trazia a seguinte correspondência: poemas profundos/contestação/guerra espanhola.
Desde aquele espetáculo, o nome Lorca traz algemado a si aquele grito estridente, de uma dor de deixar frios os ossos. Não lembro do rosto que gritou, mas a voz nunca esquecerei, nem a luz fraca sobre o pano preto e vermelho.

mandaste-me sim o mp3, e unzitos más, que muito me agradaram.

beijo imenso pra ti, pessoa de alma clara!

Andrea de Godoy Neto said...

ah, roberto, se soubesse que um pedaço de ti morreria, não teria postado. Pessoas raras devemos preservar.

outro beijo

Primeira Pessoa said...

andrea,
tenho vocação pra estrela do mar... meus braços se regeneram sempre que me amputo...

resnaço para os abraços.
abraços os amigos meus. estes, como você.
roberto.

Primeira Pessoa said...

josé carlos,
o novo não quer dizer, obrigatoriamente, novidade, renovação...

lorca é fruta de eterna-estação.

abraços do
roberto.