Monday, June 7, 2010

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Se te pergunto o caminho,
falas-me das rochas que mortificam o dorso das montanhas
e do ranger da água no galope dos rios
e das nuvens que coroam as paisagens.

Contas que a noite geme nas fendas dos penhascos
porque as cidades apodrecem junto às margens
que o vento é um chicote que desaba os chapéus
que a terra treme, que o nevoeiro cega
e que as casas onde o medo se extinguia na longa bainha do
vestido da mãe cederam ao peso das mágoas dentro delas.

E, se assim mesmo quero ir, dizes que os meus passos
se perderiam no comprimento das sombras - que
não há mapas para os sonhos de quem morre de amor
e que os ramos debruçados dos muros em ruínas rasgariam
a carne – como um sorriso rasga o tecido de um rosto.

Se não me amas, porque me avisas da dor?

Maria do Rosário Pedreira


A Música Que Toca Sem Parar:
Na voz marcante de Renato Braz, de Cury, O Que Me Importa.

11 comments:

Marcantonio said...

Fascinante. E uma vez mais como se fosse uma conjectura urdida à sombra de um jardim. Tão natural. Todos os chapéus que nunca usei desabaram sob o látego dessa metáfora "que o vento é um chicote que desaba os chapéus". Pombas! Tão simples e tão incomum. E o fecho, essa pergunta tão cândida,mas surpreendente, que inverte os pólos da lógica comum!
Imagino que você deva postar essas coisas com um sorriso maroto, como quem chama uma visita para dar uma olhadinha num "quadrinho" que tá pendurado na sala e põe o sujeito diante de um Cézanne original, satisfeito com o queixo caído do cara!

Obrigado, Roberto.

Abração!

líria porto said...

putzzzzzzz... que beleza! e a pergunta final é intrigante.

besos

líria porto said...

como não ouvir quieta - uma vez, duas vezes, três - o renato braz??? besos

Assis Freitas said...

bela junção, e junto eu contemplo esse quereres,

abração

Tania regina Contreiras said...

"...e que as casas onde o medo se extinguia na longa bainha do vestido da mãe cederam ao peso das mágoas dentro delas."

Nossa, ela é ótima,leio degustando!

Abraços,
Tânia

Primeira Pessoa said...

marcantonio,
não foi deliberado, acredite. eu tava fuçando na blogolândia (uma versão light da blogosfera, quero crer...rs) quando me deparei com um poema desta moça, que acho fantástica.
aconteceu de eu ter falado com o renato um pouco antes e me deu na telha de colocar outra cantiga na voz dele para emoldurar as palavras.

falando procê, mestre das tintas e pincéis, eu tentaria colocar as coisas mais ou menos assim:
a música é moldura.
o poema, a tela.

desnecessário dizer que renato braz é meu cantor favorito, né?

beijão,
do roberto.

Primeira Pessoa said...

ah, lírica, o renato tem voz de anjo.
é anjo.

e um ser humano de se colocar na prateleira mais alta.

não sei o que é melhor, o cantor ou o homem.
grande figura, que espero um dia apresentar procê.

outubro?

uai, tá nos planos.

beijão do
roberto.

Primeira Pessoa said...

esse leres, esse escutares...rs

contemplação... é bonito isto, assis.

beijão do seu amigo
roberto.

Primeira Pessoa said...

tania,
quanto mais leio esses portugas, mais eu quero ler. é igual saquinho de pipoca (ou um prato de brigadeiros)... vai um atrás do outro...

beijão procê.

r.

Jorge Pimenta said...

pior ainda: se me amas, por que tens medo da dor?...
acredita que já muitas vezes me ocorreu a pergunta, mas, por mais que pense, procure, cheire, tacteie, beba... não sei a resposta.
abraço, querido amigo!

Primeira Pessoa said...

jorgíssimo,
o poeta não tem todas as respostas.
aliás, quem tem a obrigação de ter todas as respostas é o Google...rs

tão bom te ver por aqui.

abração do seu amigo,
r.