Wednesday, June 16, 2010

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Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade
é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
a sua queimadura desde os seus recessos negros
onde se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se: o mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, essa lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça: essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tao feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.

Herberto Helder


A Música Que Toca Sem Parar:
Salif Keita, libertaa seu timbre especial na belíssima Papa.

18 comments:

OutrosEncantos said...

Ai Roberto, você ainda vai matar-me de sufoco enquanto dura a leitura, o saboreio, o regalar dos olhos das nossas frágeis doçuras.
Céus, que poema lindo!
Olha... vou roubar, viu?! Pecadora me confesso publicamente!

Adorei Roberto, mais que nunca você anda inspirado nas suas escolhas!

Obrigada por este momento.
Beijo

Tania regina Contreiras said...

Mais um poeta português, pois não? Gosto muito da forma como ele escreve,Roberto, e é singularíssimo, gosto disso. E lá vou eu procurar ler mais de seus poemas, porque de fato gostei e não o conhecia. "o mel escurece dentro da veia jugular talhando
a garganta..." " E como estrelas
duplas consanguíneas, luzimos de um para o outro nas trevas."...muito bom isso. Vou lá procurar mais versos desse poeta.
Abraços,
Tãnia

Fatima said...

Salif Keita

Descendente do rei que fundou o maior império da África Ocidental até ao Século XV, Salif Keita tornou-se na década de 80 uma figura incontornável da música Africana e principal embaixador do Mali em França. O nobre Salif Keita notabilizou-se pela fusão entre a música tradicional da etnia Mandinga e a pop européia.

O seu percurso artístico não foi fácil. Ao nascer albino, Salif enfrentou a ira dos supersticiosos (ser albino no Mali, além de significar má sorte, pode ser causa de assassinato). Como se isso não bastasse, a família Keita não aprovou o facto de Salif ter-se tornado músico, pela simples razão de esta actividade estar confinada aos Griôts, também conhecidos por Jelis. A música é uma profissão que se encontra hierarquicamente abaixo das actividades de professor e diplomata que Salif Keita teria necessariamente de abraçar.

Se na Europa Salif Keita é um símbolo maior do afro-pop, no Mali notabilizou-se por ser um dos primeiros a contrariar a organização social vigente mostrando que um músico no Mali não tem necessariamente de nascer em famílias Griôts.

Gosto muito deste artista.
Bjs.

Assis Freitas said...

irmãozinho, esse poetas são muito fortes, eu os leio minimamente para não cair de tanta luz,

abração

Luciana Marinho said...

comentar o que, meu deus?!

...


...


...

(obrigada, roberto.)

Maria Vieira said...

não tem nada mais q eu possa comentar. dessas obras q me deixam muda. abraço, inté!

líria porto said...

a idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. ou um filão ardido de ponto a ponta
da figura cavada
no espelho."

"as palavras que escrevo correndo
entre a limalha."

"és uma faca cravada na minha vida secreta."

putakiupariu!!!

Primeira Pessoa said...

líria,
não brinquemos com os inventores desta língua...rs
os caras são fodásticos.

beijão do
roberto.

Primeira Pessoa said...

maria,
só nos resta apreciar, curtir... aprender...
tuudo o mais decanta... no encanto que a palavra germina.

beijão do
roberto.

Primeira Pessoa said...

luciana,
comentar o que? rs
admirar... com olhos de contemplação, como diria chico césar.

beijo procê,
r.

Primeira Pessoa said...

assis,
esses caras jogam, à mancheia, punhados de sal sobre nossas feridas.

fazer o que?
às vezes dói, mas é bom...
abração,
r.

Primeira Pessoa said...

fátima,
domingo verei salif de pertinho, num concerto a céu aberto... ao ar livre... no central park.

vai ser fraco, não.

abs,
r.

Primeira Pessoa said...

tania,
tem muita coisa dele espalhada pela blogosfera... reza pra são googl, que o milagre da poesia acontece.

beijo grande procê,
r.

ps: tô de olho no roxinho...

Primeira Pessoa said...

moça do outrosencantos,
quando a gente acha que leu tudo, descobre, para nossa (e boa) surpresa, que ainda existe um longo caminho a ser percorrido.

HH é maravilhoso e tem uma obra forte demais.

resta-nos apreciar e divulgar entre os mais atentos. como você.

abração do
roberto.

Paulo Jorge Dumaresq said...

Um épico do Herberto Helder.
Como isso faz bem à alma.
Amigo velho, grato pelas canções via e-mail.
Bom demais lhe visitar.
Saudações potiguarinas.

Jorge Pimenta said...

robertílimo, tenho sempre dificuldade em comentar herberto helder. ele é, de facto, um polvo com tentáculos dentro da sua cabeça, estremecendo a cada golfada de tinta que jorra do seu peito. génio! louco! genialouco! absolutamente arrebatador!
um abraço!

Andrea de Godoy Neto said...

Nossa! vou alí buscar o ar que me fugiu...

fiquei aqui, como se meu estômago fosse um grande oco aquentado pelo sol imenso dessas palavras. Esse poema deslocou-me.

Já estava a sentir falta daqui

um beijo

Andrea de Godoy Neto said...

ops, nem falei da música...de arrepiar corpo e alma

meusdeus! inda bem que eu não li e ouvi isso ontem, que eu estava feito gelatina...teria sido bombástico!

teus post são sempre ótimos, roberto
mas nesse tu se puxou muito!!!

beijo