Saturday, June 26, 2010



















Protagonistas em alegrias e tristezas


Você, Geraldo Vandré, no festival de canção da Record em 1968, cantando Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores, cantou a necessidade de lutar.
No verso "Vem, vamos embora/ Que esperar não é saber", você acendeu uma brasa de resistência e mudança nos olhos de todos os brasileiros.
Você me alegrou, Geraldo Vandré.
Mas, você, Sérgio Paranhos Fleury, delegado do Dops, torturador da ditadura, verdugo a serviço dos militares, destruidor de famílias inteiras em nome de uma ideologia covarde.
Você, que plantou cruzes no chão do Brasil e as irrigou com o sangue dos que se atreveram a sonhar com dias melhores.
Você me entristeceu, Sérgio Fleury.
E você, Tancredo Neves, ao se eleger primeiro presidente civil após um longo período de domínio militar, fez brotar a esperança na alma sofrida do nosso povo.
Bem vinda foi, a sua Nova República!
Bem vinda foi a nossa esperança renascida das cinzas.
Você me alegrou, doutor Tancredo.
Mas ao não resistir e morrer em pleno Dia de Tiradentes, antes mesmo de tomar posse, dando lugar a José Sarney, você nos faltou.
Foi como se tivesse desertado de nós, mesmo que involuntariamente.
Você me entristeceu, Tancredo Neves.
E aí, veio você, Fernando Collor de Mello, jovem e belo, um atleta que apareceu em minha vida como uma espada à serviço da justiça e do bem.
Seu discurso de caça aos marajás e progresso imediato, fez o país inteiro acreditar, por mais que um momento, que estava diante de um novo Messias.
Você me alegrou, Fernando Collor.
Mas, aí, quando você seqüestrou o salário de brasileiros honestos do Oiapoque ao Chuí, pulverizando suas mirradas poupanças e se associou a ladrões profissionais como PC Farias, você nos traiu.
Nem o seu impeachment foi panacéia suficiente para apagar a grande desilusão que nos causou.
Você me entristeceu, Fernando Collor.
E teve Elis Regina, estrela maior da canção brasileira, que me alegrou com seus gorjeios magistrais.
E me entristeceu demais naquele dia em que resolveu se assumir zelação, e subiu, de uma vez por todas, aos céus.
Mas você não foi minha única tristeza naquele ano de 1982, Pimentinha.
Afinal, Paolo Rossi, carrasco vestido de azul no Estádio Sarriá, em 1982, inverteu a lógica da bola - se é que ela existe -, parecendo mais um santo de aluguel a serviço da Itália.
Ao mascar três gols contra aquele time maravilhoso de Telê Santana, Paolo Rossi criou uma nova ordem mundial em que jogar futebol com arte, já não seria capaz de produzir resultados práticos.
Naquela tarde, sob o sol vermelho de Barcelona, você me entristeceu Paolo Rossi.
E você, Ayrton Senna, mago da velocidade, que conseguia levar dentro de seu cockpit 180 milhões de brasileiros e foi responsável por muitas das minhas alegrias.
Com suas vitórias fantásticas nos circuitos do mundo inteiro, você me alegrou Magic Senna.
E entristeceu a mim e ao mundo, quando morreu ao volante, guiando a 200 quilômetros por hora num circuito italiano.
Quando tudo parecia serenar veio você, Mohamed Atta.
Você e seus amigos de desatino, fizeram em mim a ferida mais funda.
Ao seqüestrar e mergulhar aquele avião contra a torre norte do World Trade Center na manhã de 11 de setembro de 2001, você escreveu um novo capítulo na história.
Um capítulo de luto, de medo, de treva.
Mais do que qualquer pessoa nesse mundo foi capaz, você me entristeceu.
Porque eu estava lá e eu vi, com estes olhos encarnados que a terra um dia haverá de fechar.
Ninguém me contou. Fui testemunha ocular. Eu vi!
E hoje, do lado de cá do Rio Hudson, contemplando Manhattan como faço de vez em quando - sem nunca perder o olhar de turista -, sinto-me como se estivesse olhando minha própria ferida aberta, essa fratura exposta como uma melancia em fatias, dor na vitrine para quem quiser ver.
Ali, na ponta sul da Ilha de Manhattan, jaz para sempre um pedaço grande da minha tristeza.
Ali, a lacuna impreenchível.
Ali, aquela boca banguela.
Ali, aquele buraco de dor.

28 comments:

Patrícia Gonçalves said...

Infelizmente, nada posso fazer para remediar sua tristeza, gostaria muito.

Não sei se compartilhar a dor do mundo ameniza um pouco para quem a sente, espero que sim.

abraço

Wilson Torres Nanini said...

Roberto,

Vc instalou um milhão de homens-bomba vingativos (um expugo!),contra as cicatrizes vívidas que hoje compõem a nossa face.

Uma pedrada!

Forte abraço!!!

OutrosEncantos said...

Oh Roberto, hoje você pôs o dedo num montão de feridas, menino. O coração sangrando aí na tua mão aberta bem na frente do meu!
Às vezes ouço dizer: Ah! isso já passou, esquece....

Há coisas impossiveis de esquecer, principalmente a traição, mesmo que involuntária, como por exemplo a morte inesperada de alguém que a gente ama. Ou a frustração de quando nos dão com uma mão e nos roubam com a outra....

Muito sentido e emocionante este teu post de hoje (aliás, como os de sempre)!

Abração, amigo.

líria porto said...

dos que te alegraram, alguns jamais me iludiram... minha posição é outra, a amizade a mesma - te gosto, tu me alegras!
besos

nina rizzi said...

vc tem um modo tão particular de ver o mundo que te cerca. cerca. que belos olhos, roberto. beijo-os.

Ada Fraga said...

Maravilhosa sua crônica, Roberto! Tudo no ponto certo, já se viu mt
coisa nesse nosso país. E dentre
dos acontecimentos que citou,dois
deles me abalaram e mexeram com o
meu alicerce: a morte de Ayrton à
qual assisti e me prometi não mais
a nenhuma outra corrida e a de 11
de setembro, que foram fatos muito
marcantes tanto para mim, quanto p/
os demais brasileiros.

Saudações poéticas!

Ada Fraga said...

Muitoboa a sua crônica, Robeeto!
De todos os fatos que citou, dois
me marcaram profundamente; a morte
do Aurton e o funesto acontecimento
de 11 de setembro!

Saudações poéticas!

Primeira Pessoa said...

lírica,
não votei e não votaria no collor...rs ... mas ele me alegrou bastantinho... falava bonito (embora sem jamais ter me enganado...), deu muita esperança ao povo... e me alegrou mais ainda quando "apeou", ao som da algazarra dos cara-pintadas.
tancredo? emblemático. ele, que caminhava com um pé em cada lado do muro.

vandré, teve colhões pra caralho, e louvo sua atitude de calar a cigarra, pra se transformar em mito.
fleury, era um demônio.
paulo rossi, um carrasco.
telê santana, um poeta.
senna? sempre fui mais o piquet.
mas senna representou mais pro brasil.
no outro dia, um cantor aí das nossas terras, falou sobre o ataque de 11 de setembro com uma satisfação que só os otários, os tolos, os imbecis são capazes.
e tive quase o prazer de colocá-lo em seu devido lugar. e o fiz com mais inteligência (gastei o pouquinho que tinha) do que raiva.

milhares de pessoas perderam a vida. e isto eu vi bem de pertinho. mesmo porque, um pedaço grande de mim também foi assassinado naquele dia.

não consigo rir de quem dá uma trombada com o poste ou cai de bunda no chão.
mas sei rir de outras coisas, sim.

beijos, lírica.

Primeira Pessoa said...

nina,
às vezes as "vistas"" artem.
ver a vida, às vezes, dói.

seu comentário carinhoso me é colírio.

beijo grande procê.

r.

Primeira Pessoa said...

moça do OutrosEncantos,
algumas feridas demoram uma vida inteira para cicatrizarem. Outras, ardem e ardem, às vezes de mansinho... de vez em quando, a lembranca de algum fato é um punhado de sal na chaga que volta a se abrir.
digo-te: o beijo pela frente enquanto o punhal avança nas carnes das costas eu não consigo perdoar.
beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

nanini,
no geral, sou um frouxo.
mas, às vezes, algo em mim grita.
ainda que timidamente, grita.

balbucio um abraço pra ti, meu amigo

r.

Primeira Pessoa said...

patricia,
seu gesto carinhososo - em cada palavra - já é um tantão de saúde.
isto me alegra.

bom domingo.
abração do
roberto.

Assis Freitas said...

nome aos bois, lembrei dessa canção. o 11 de setembro inaugurou a face de uma guerra em que a morte deixou de ser temida, os ataques suicidas desorientam a lógica de qualquer batalha, até então a vida era um motivo de luta agora a glória é a morte.

abração

Primeira Pessoa said...

assis, dar nome aos bois seria uma canção do flor de cactus? se sim, eu tenho. e posso te mandar...
o 11 de setembro antecipou essa merda que se espalhou pelo mundo inteiro.

eles se esquecem de que a morte... é a morte.

beijão, poeta.

r.

Tania regina Contreiras said...

Roberto, Roberto...quantas feridinhas tocadas de uma só vez, heim, menino?

abraços,
Tãnia

Primeira Pessoa said...

haja bandaid, tainha... haja bandaid... rs

beijo grande, de um meio dodói, meio jururu....

r.

Lara Amaral said...

Remexeu, Roberto querido, tocou fundo a gente, cutucou-os; um texto de lavagem da alma.

Beijo, amigo.

Jorge Pimenta said...

querido amigo,
recordo-me de quase tudo o que te alegrou com mácula... da elis, ao ayrton e especialmente do rossi (como me lembro daquela selecção de 82, na altura em que eu, menino de 13 anos, jogava bola na rua imitando sócrates, zico, éder, falcão... ufa, que equipa, aquela).
de todas, a que se gravou mais nitidamente sob a pele foi o atentado de 11 de setembro, obviamente, pelo que representou para a humanidade (a vulnerabilidade do ser humano à loucura e a certeza de que o mal, por vezes, também sabe como derrotar o bem) que ainda hoje lambe as feridas.
mas de grandes tragédias também se faz a história dos grandes homens. que são grandes, caem, reerguem-se e voltam mais fortes. invariavelmente. inevitavelmente.
um abraço, robertílimo!

Sylvia Araujo said...

Tem vezes que a cicatriz abre e vira ferida aberta, né, Roberto?

Ótimo texto. Mexeu tudo aqui dentro.

beijoca

Andrea de Godoy Neto said...

Roberto, eu ainda estou voltando de uns dias de mudez, aí chego aqui e vejo esses machucados todos, lembro que tu não gosta de domingo, e penso...ih, ele tá meio mal...

não tenho muito a dizer, porque as palavras me fogem e sou toda sentidos nesses dias, então,

meu melhor abraço de melhoraí pra ti, pessoa de primeira, porque tu me faz muito alegre (e a mais um tantão de gente por aí)

um beijo grande,
fica bem

Luciana Marinho said...

e essa lista que quase levou de mim todos os meus dedos visíveis ainda levaria tantos dos invisíveis se eu fosse acrescentar a ela as alegrias e posteriores tristezas que me renderam alguns dos que, agora, estão sentados nas cadeiras do poder.

beijão, roberto!
boa segunda-feira!
=)

Primeira Pessoa said...

Faltariam dedos, Luciana.
Faltariam dedos...
o que não me falta são dores... trocentas... de toda a sorte.

ando tão blues.
e o blues é uma forma de banzo. uma forma de dor.

beijo procê,
r.

Primeira Pessoa said...

andrea,
também ando caladinho. passei os ultimos meses correndo de meu médico, que queria discutir o resultado de meu exame de sangue. acabei topando, tomando coragem e vou ter que enfrentar uma úlcera causada por bactéria (seja que porra for esta)... mais os prováveis enguiços de uma vida vivida no limite, os abusos...

vou entrar numa dieta violenta após a copa do mundo.. dieta esta que terá 18 comprimidos prescrevidos e ausência total de birita, cafeína e cigarros...

vou cirtar tudo. ao final, espero não ter cortado os pulsos.

pelo menos o brasil ta ganhando do chile: dois a lona.

beijos,
r.

Primeira Pessoa said...

sylvia,
só o tempo pra fechar nossas feridas.
no meu caso, tempo e antibiótico...rs


mas, vou levando... tentando ser bravo.

vou ter saudades dos meus vícios.

não sei se tenho software para uma vida nova e saudável.

fazer o que, né?
abração,
r.

ps: esses revezes da vida, por menos palatáveis que sejam, são digeríveis... nos tornam mais fortes, quase imunes...

Andrea de Godoy Neto said...

ah, roberto, a gente sempre paga o preço das nossas escolhas, né?

o negócio agora é encarar de frente e fazer escolhas outras. Priorizar o que é prioridade...mas esse tratamento todo é só um tempo, depois, tu acostuma com uma vida mais saudável...rs...vai ser melhor companhia pro kledir quando sairem juntos...rs

se cuida moço
um beijo

Fernando Campanella said...

Ei, Roberto, quantas feridas abertas carregamos, não? Quanta imbecilidade, cegueira no mundo. Eu me lembro, sabe, que dez dias antes do Collor confiscar as poupanças tirei meu dinheirinho do banco, rs...e comprei um terreno... o moço não me cheirava boa coisa não. Uma professora de inglês, esposa de militar do Rio de Janeiro, o defendia com unhas e dentes, e, eu me lembro, eu defendia o Lula, queria uma nação mais justa... bom, a professora acabou comigo, me pôs abaixo de zero...então deu no que deu. Onze de setembro abriu as portas de um apocalipse de medo e terror no mundo... a ditadura 'miseriou' a nação, se vc pudesse ver como a miséria tem aumentado aqui na minha cidade, de 150.000 habitantes... bom, são feridas, são horrores deste nosso mundo estúpido... então, vamos torcer pro Brasil na sexta contra a Holanda, ainda resta amor em nós, pátria é pátria. Abração.

Primeira Pessoa said...

fernando,
fui assitir brasil e holanda e, advinha?
mais uma ferida se abriu...rs


que coisa, fernando... teremos nós vocação pra tabuleiro de pirulito?

beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

andrea,
o filho do kledir ta passando uns dias aqui comigo e, tenho certeza de que o kledir deve estar meio grilado.
embora confie em mim, sei que ele tem lá seus receios de que o moleque chegue em casa comendo picanha, torresmo, cheirando rapé e fumando um pacotim por dia.

não devo ser boa influência...rs


beijão,
r.

ps: vou começar o tratamento esta semana. vai ser fueda!