Thursday, June 17, 2010

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Ah, os Botequins de BH


O comida di Buteco é um festival gastronômico realizado entre os bares de Belo Horizonte.
Durante o mês de abril, os bares da cidade recebem a clientela de sempre, engordada agora pelos turistas que se juntam para a degustação de cachaças, cervejas e tira-gostos saborosos de nomes nem sempre convencionais.
No concurso, tudo é julgado. Desde a higiene do banheiro à temperatura da cerveja. Nada passa batido.
Ficou famoso no país inteiro, movimenta milhares de pessoas e transforma a cidade num grande buteco.
Já tentei fazer algumas vezes a via sacra butequeira. Necessitaria de um transplante de fígado, caso lograsse meu objetivo. E explodiria.
As comidas de buteco não são, certamente, nenhum primor de correção calórica.
Sou butequeiro assumido. A explicação talvez esteja nessa minha inabilidade para surfar.
A absoluta ausência de mar nas montanhas de Minas, aliados ao prazer da prosa e da pinga, arrastou-me, recém-saído da adolescência, às mesas, aos balcões dos butecos mineiros. Na minha modesta opinião, os butecos mineiros são - e abre-se aqui espaço para uma saborosa discussão - os melhores do Brasil.
A propósito do Comida di Buteco, recebi de Tadeu Martins os livretos com as programação oficiais do concurso dos últimos anos, e me deliciei com o espírito dos participantes e as peculiaridades dos nomes dos pratos, bem como os pormenores desta grande festa.
Bom humor, uma safadeza indisfarçável - brasileiro adora sacanagem até quando fala de coisa séria, como é o caso do tema buteco - , os pratos do concurso são um convite à imaginação e ao paladar.
Extraí dos livretos alguns dos itens dos menus dos butecos de Belo Horizonte e me prometi tentar reproduzi-las em casa. E chamar a turma. Afinal, beber sozinho é uma forma de suicídio.
O prato vencedor do ano passado foi o Rola Bola no Bar da Cida, que consiste num prato com almôndegas ao molho da casa, servidas com batatas acompanhada de pãozinho "pra moiá".
Em segundo lugar ficou o Bar do Zezé, com seu Rabo Apertado. Esse eu experimentei. É bom: rabinhos de porco, cozidos num molho gostoso, servidos com jiló. Aliás, só mineiro para apreciar o amargor do jiló, que é estrela ou coadjuvante em várias criações do concurso.
Em outros bares pode-se saborear outros rabos: Rabo Quente (servido com polenta mole pelando de quente), ou o Rabo Verde (vem do cheiro verde a cor sugerida), entre muitos outros rabos e rabadas.
Brasileiro, dizem, tem fixação por "rabo".
Quem também obteve uma colocação expressiva no concurso foi o Bar do Veio, que serviu seu Chik-eirinho (pedaços de carne suína, magistralmente misturados num molho bacanérrimo).
O Bartiquim, que ficou com a décima colocação, arrancou gargalhadas e suspiros para o seu "Pirei com a língua".
Sim, é um guisado de língua de vaca.
A piração fica por conta da malícia de cada um.
No Autêntico's Bar pude experimentar o Atola-Coxa, que nada mais é que coxinha de frango invertida, acompanhada de 2 molhos (mostarda e manga) e tomates cereja recheados.
No Bar 222, enfrentei Os 3 Mosqueteiros e as Doces Donzelas: peito de frango, pernil e filé mignon com molho de gorgonzola e batata doce frita. Venci a briga. Mas alguém ficou com as donzelas.
No Bar do Magal a grande atração é a Cacunda de Boi com Batata na Garupa ao Molho Shakespeare, que consiste num delicioso cupim cozido com batata calabresa picante ao molho de ervas.
Quem curte uma pedida de duplo sentido pode encontrar o Banana no Jiló, ou o Caldo de Piranha de Batom.
Tem também caldinhos deliciosos, que alimentam e confortam. Como é o caso do Caldo de feijão de corda com carne seca e cachaça, do Caldo de Abóbora com Carne Seca e do Caldo Sacolão, que é um sopão feito com o que o mercadinho de vegetais (em BH chamam Sacolões esses estabelecimentos) tiver para oferecer naquele dia.
Os caldos são a avó da gente, às colheres. São indispensáveis nas noites mais frias.
Tem um prato que promete até curar a rebordosa do dia seguinte. É o Cura Ressaca, um sanduíche de recheio de lingüiça com vinagrete.
A "sofisticação" também se faz presente com o Caviar da Roça, que espantaria paladares mais sensíveis: chouriço de sangue de porco, refogado com ervas em uma frigideira.
Anotei ainda o Chinelão com Meia, nas versões bife ou peito de frango, coberto com queijo derretido.
O Cupim Bandido é uma alusão ao boi Bandido, terror dos rodeios do Brasil e eternizado por Glória Perez na novela América.
O Frango de Mineiro na Praia, trata de um complexo de mineiro, que nunca resolveu bem a ausência do mar molhando seus pés. É o bom e velho frango com quiabo, que recebe o reforço de camarões.
Entre os mineirismos mais redundantes, destaquei o Num Baba Não Sô (carne cozida com vinho e quiabo.... propagado como "sem baba") e Ô Trem Bão, Sô?! (bacon, lingüiças calabresa e de lombo, e até ovos de codorna).
O protesto bem-humorado contra nossos políticos vem com o Pé no Mensalão, que consiste de pé de porco cozido com feijão e mandioca, servido com torradas. É uma alusão ao escândalo de arrecadação de campanha do PT.
Garantem que José Dirceu e Marcos Valério experimentaram e lamberam até os beiços.


A Música Que Toca Sem Parar:
da parceria entre o mestre Noel Rosa e Vadico, o clássico Conversa de Botequim na voz eterna de meu sambista favorito, João Nogueira.


Seu garçom faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo e um copo d'água bem gelada
Feche a porta da direita com muito cuidado
Que eu não estou disposto a ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do fute..bol

Se você ficar limpando a mesa
Não me levanto nem pago a despesa
Vá pedir ao seu patrão
Uma caneta, um tinteiro,
Um envelope e um cartão,
Não se esqueça de me dar palitos
E um cigarro pra espantar mosquitos
Vá dizer ao charuteiro
Que me empreste umas revistas,
Um isqueiro e um cinzeiro

Seu garçom faça o favor de me trazer depressa...

Telefone ao menos uma vez
Para três quatro quatro três três três
E ordene ao seu Osório
Que me mande um guarda-chuva
Aqui pro nosso escritório

Seu garçom me empresta algum dinheiro
Que eu deixei o meu com o bicheiro,
Vá dizer ao seu gerente
Que pendure esta despesa
No cabide ali em frente

Seu garçom faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo e um copo d'água bem gelada
Feche a porta da direita com muito cuidado
Que eu não estou disposto a ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol.

16 comments:

Tania regina Contreiras said...

Nossa, caramba...eu prometi pra mim que perderia dois quilos ganhos com medicamentos que precisei usar...prometi que já tava valendo o fechar-a-boca...e olha o que vc faz: fiquei aqui com a boca aguando, meu deus! Ah, e adoro o fruto do jiloeiro, e acho o João Nogueira o máximo! Tudo, enfim, colaborando para comer qualquer coisa pensando mesmo nesses pratos aí descritos...tão bem descritos...hummmm...rs
Beijo, Roberto!

Jorge Pimenta said...

ena, vou já amanhã reservar as passagens, querido amigo! esses tascos (nome tradicional dos botecos aqui) são de babar, hehe!
um abraço e... cuidado com o colesterol!

nina rizzi said...

nossa, roberto, que vontade dum butequim (o meu sem linguiça, sff), de minas... ah, de um bom papo...

fico aqui, sambando parada.

beijos.

Primeira Pessoa said...

dois quilos, tania?
ô, meu jesuscristim... isso cê perde lendo um livro de paulo coelho, o mais hercúleo dos esforços...rs
jiló é bão demais... n'outro dia o fouad (esse grande fenômeno da globosfera, candidato a vereador em contagem...rs) me falou de u omelete de jiló que deve ser um trem de doido. vou fazer.
a propósito, meu irmão toninho passou aqui na sexta-feira e deixou 6 mudas de jiló já "pegadas"(rs)... viou transplantá-la entre hoje e domingo.

tô na cozinha: feijãozim temperado no olho dourado e azeite... árroz branco... bifinhos de pobre (aquele fininho... salteado na frigideira... na rapinha do fundo faço um "môio" que faz enorme sucesso aqui em casa... molho inglês, vinho branco.... deixo reduzir... fica bão... e salada de rúcula no vinagre balsâmico e azeite... e farofa de ovo...rs)

ja vou no terceiro gin tonica...

to indestrutível até as 21 horas...rs


beijão
roberto.

p": ce tem a musica Espelho, de Joao Nogueira? é uma de minhas 20 favoritas de todos os tempos. se não tiver eu te mando.
é linda demais.

Primeira Pessoa said...

jorgíssimo,
brevemente vou fazer-te uma proposta indecorosa. antes apararei umas arestas.
e os bares de BH nunca mais serão os mesmos.

ó, se cê quiser (e puder... com um cadiquinho de esforço)... está pertinho de voc6e ir ao brasil... promete pensar no assunto?

beijão do seu amigo,
roberto.

Primeira Pessoa said...

e eu 1que não sei sambar, nina rizzi...
no máximo, batuco numa caixa de fósforo, sempre correndo o reisco de sair do ritmo...rs

em bh?
descolo uma batatinha pra ti...rs


beijão do
roberto.

Tania regina Contreiras said...

Ah, Roberto, tenho Espelho não, manda, sim, pra eu, que vou adorar!
Pena que as comidinhas que tu tá preparando aí não podem vir pelas mesmas vias! rsrs... Comia e depois lia (arghhh) o tal do Paulo Coelho...

Abraço, manda a música, não esquece!
Tânia

Primeira Pessoa said...

tania,
vou te mandar Espelho... linda demais... e vou repostar uma cronica que escrevi quando meu velho aos 75 anos entrou numas de mostrar a um moleque como se subia em um pé de manga.
a cronica contará o resultado.
e Espelho tocará sem parar...
beijão do
roberto.

Fernando Campanella said...

Aqui em Pouso Alegre, na minha infância, havia um andarilho que era o terro da garotada, tanto no 'bom sentido', como no mau, rs... Bom sentido porque a criançada zoava dele, e , por outro lado, corria em pânico quando ele se enfurecia. O nome dele era 'Rabo Verde'. Não sei a origem do apelido. Mas o rabo verde dos botecos de BH deve ser muito bom. Aliás, tua crônica me deu uma fome, uma vontade de comer essas delícias desta Minas tão ímpar. Acho que vou ao restaurante 'O Caipira' aqui da cidade no próximo sábado. Abração, meu amigo.

Andrea de Godoy Neto said...

Ptzz, roberto! vou precisar de terapia-butequística depois de toda essa descrição de dar água na boca

pior é que eu tô assim como a tânia(pós medicação) mas precisando me livrar de uns 4..rs..bom, pelo menos assim, por hora, não vou cair na tentação de dar uma fugida pra conhecer esses butecos todos

beijo, querido!

Geraldo de Barros said...

Adoro o João também, que post bacana esse, gostei muito, parabéns

Um abraço
Geraldo.

Primeira Pessoa said...

geraldo,
joão nogueira era um grande artista e tinha uma forma muito especial de cantar samba.
e, sem falar no tremendo bom gosto em tudo o que ele cantava.

serei eternamente fã.

grande abraço,
r.

Primeira Pessoa said...

uai, fernando...
pois saiba que deu vontade de ir ao O Caipira, hoje. qual é a onda lá? comidinha da roça?

rapaz, Pouso Alegre que me aguarde...rs

então, o Rabo Verde... fico pensando e me lembro que na nossa geração haviam pessoas como Rabo Verde perambulando pelo Brasil. tinha uma mulher la em valadares que tinha um filho por ano. nao tinha companheiro. perambulava. e o "bom-cabelo", um andarilho que so "trabalhava" na rio-bahia (br-116). tinha cabelo rastafari bem antes de bob marley... bicho, era um carpete enrolado... um zoologico, aquela cabeleira...

abraço imenso, fernando.
r.

Primeira Pessoa said...

andrea,
fica a suagestão: faça a via-crúcis (rs) butequeira e, chegando em casa, leia dez paginas de paulo coelho. acredite, é um esforço herculeo... voce leu o Diário de Um Magro? rs...

beijo,
roberto.

Jorge Pimenta said...

claro que prometo, robertílimo! já comecei a fazer um pé-de-meia :-). quem sabe um destes dias apareço por aí...
um abraço!
p.s. obrigado pelas preciosidades que me tens enviado por mail.

Primeira Pessoa said...

apareceremos... jorgíssimo... cê esqueceu que sou uma pessoas deste mundo que tem os pés fincados numa terra, enquanto o coração bate noutra?

vamos juntos.
e a terra vai tremer em minas gerais.
vai acabar a cachaça, meu amigo... vamos acabar com ela, antes que ela acabe com "nós"...rs


abraço imenso, jorgíssimo!

r.