Sunday, September 4, 2016

Ofício


(um arremedo à moda do Manoel para o Bispo Filho)

Ele
passa dias a fio
cozinhando o frio
espalhando nuvens
derramando chuvas
acendendo as luas

Deus
passa domingos inteiros
pintando lírios
e afinando o zumbido
dos marimbondos

Tuesday, August 30, 2016

A dançarina



Ela dança quase parada
olhando a névoa que devora a pedra
e baila a bordo da casa que flutua
como um barco cigano

Dança com os olhos molhados
a cada aceno de despedida
a cada fantasma do passado
e a cada nova ferida

Dança a noite mal dormida
nas retinas fatigadas
na alma estilhaçada
na carne toda doída

Dança o sorriso de plástico
a flor murchando no peito
dança em nome do pai
do filho e do espírito santo

Dança de mal com Deus
dança de bem com o homem
dança com os pecados seus
mesmo os que não cometeu 

Dança com um par invisível
rodopia com a dor indizível
dança com os dois pés amarrados
e seus sapatos de cinderela

A moça dança sozinha
e no rodar de sua saia
rodopiam dores
maremotos, furacões

Dança um tango sem alma
dança para encontrar a calma
dança para esquecer
a solidão que escolheu como par

A moça dança, dança, dança...
ela não consegue parar de dançar
a moça dança, dança, dança...
ela não para de rodopiar.

A moça dança, dança, dança...


(30 de Agosto de 2016) 


* Poema de Caixa de Suspiros, primeiro livro de poemas do autor desde 1988. Lançamento previsto para abril de 2017.

Thursday, June 9, 2016

Dona Glória


Não vi que ela chegara de surpresa, momentos antes de eu emitir aquele sonoro palavrão. Coisa corriqueira, uma dessas bobagens de trabalho, em que a pressão do “dead line” acaba levando a melhor sobre o bom senso e a razão.
O telefone tocava insistentemente e ninguém atendia. E eu, que dava os retoques finais num texto qualquer, fui perdendo gradativamente a concentração. Audivelmente irritado, gritei de minha sala:
– Atende essa porra aí….
Segundos depois, quando saio da sala para buscar um café, a cara quase caiu no chão.
Dona Glória estava lá, quietinha, sentada numa posição característica de “vó” (as pernas cruzadas, uma mão sobre o joelho e a outra mpostada em cima), com cara de quem estava fazendo de conta que não havia testemunhado tamanha grosseria.
Bem feito, terão pensado meus colegas de trabalho.
Bem feito!
Fiquei desconcertado. Extremamente desconcertado.
Mas fui lá e fizemos as apresentações formais.
Dei-lhe um abraço, ganhei outro. Bem mais fundo. Um abraço maior.
No abraço de avó Glória veio o abraço de todas as avós do mundo e uma esperança de que meu dia iria mudar. Que minha vida iria mudar.
E eu, aquele sujeito estressado que acabara de cometer uma enorme grosseria, senti-me perdoado ao ser abraçado por ela.
Senti na hora que não iria para o paredão.
Que não iria para o pelourinho.
E não haveria cadeira elétrica, prestação de serviço comunitário ou outro degredo qualquer.
O destempero havia sido compreendido, embora tudo ali tivesse sido devidamente registrado na caderneta de más-ações para o dia do Juízo.
Não cheguei a pedir desculpas, creio eu. Bad boy.
O nosso abraço, que durou alguns segundos e pareceu eternizar-se como uma destas coisas boas da vida, transpôs-me a um lugar bonito, muito distante dali.
No abraço de vó Glória veio uma sopa de legumes em um dia de gripe e febre. E uma bandeja de quindins, brigadeiros e biscoitos de polvilho.
Veio um embrulho colorido com o meu nome escrito, sob uma árvore de natal.
Veio um dia ensolarado.
Veio o som de um radio ao longe, na hora do Angelus, tocando a Ave-Maria.
Veio a lembrança de um bichinho de estimação que bem poderia ser um coelho branquinho, de olhos encarnados, um gato rajado ou um cãozinho vira-latas, daqueles que nos seguem o tempo inteiro e se deitam ao pé da cama.
Veio a algazarra de crianças na hora do recreio e o canto de uma cigarra.
Veio um carrinho de rolimã desembestado - descendo a rua -, um embornal de bolinhas de gude, um pião e um ioiô.
Veio um pé de fruta, carregado de pitangas vermelhas, cajus amarelos, laranjas douradas; carambolas. Jambos. Graviolas. Pequis. Mangas e cajás.
No abraço dela veio um ‘corguinho’ cheio de lambaris e carás, mandis, traíras, cascudos e piaus.
Veio uma árvore apinhada de passarinhos, canários-do-reino, tizius, sanhaços e bentevis.
Veio o telhado de uma igreja coalhado de andorinhas. E um solo de curió.
No abraço de vó Glória veio a primeira comunhão e a roupa nova, a camisa de tergal ainda com cheiro de loja, a calça-curta, o sapato “colegial” e a meia branca até o meio da canela.
Veio também o primeiro dia na escola. E um sorriso orgulhoso no dia da entrega do diploma do primário.
No abraço de vó Glória veio também a esperança de que eu viesse a ser, no momento certo, e apesar de todas as carências e deficiências, um adulto bom.
Um homem que soubesse pedir desculpas. Que soubesse pedir perdão.
E é o que tento fazer até aqui.
É a minha intenção, apesar de todo o atraso, nesta crônica-pedido-de-desculpas.
Mau menino, eu sei. Muito mau.
Vó Glória aí, desculpa. Foi mal.

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Tuesday, March 8, 2016

Convite para inauguração


Fábio Portugal me fez uma bela gracinha. Ele convidou-me para a inauguração de seu bar. Não, Fábio Portugal não está abrindo um bar, um estabelecimento comercial, daqueles convencionais, imóvel de esquina, com letreiro luminoso da Budwiser na janela, poster de cigarros Hollywood na parede e uma juke box num canto, onde pode-se ouvir de Frank Sinatra a Reginaldo Rossi.
Ele construiu um barzinho no porão de sua casa e o trem ficou danado de bonito. Particularmente, eu não gostaria de ter um barzinho em casa. Talvez, por saber do perigo iminente de ter, tão pertinho de mim, um convite às tentações e o perigo da cirrose. Ou pelo medo de não encontrar companhia.
Mas não sou contra quem não bebe. São idiossincrasias, diria o poeta.
Eu comecei novinho, bebendo escondido a prosaica cuba-libre (aquilo que aqui nos EUA chamam de rum and coke e que nada mais é do que isto mesmo, rum misturado com coca-cola). Era uma espécie de reverência a Cuba e à revolução cubana.
Aquela geração inteira de filhos da ditadura militar no Brasil bebeu cuba-livre fervorosamente, sem imaginar que, um dia, Fidel Castro se tornaria tão tirano quanto Pinochet ou Geisel.
Beber é muito bom, eu acho.
E compartilho daquela máxima de que mais vale um bêbado conhecido, do que um alcóolico anônimo.
Pode ser  na degustação de uma cachacinha, um rabo-de galo, um uisquinho ou mesmo uma cervejota gelada. Mas há quem goste dela quente.
Há também quem goste de tomar champanhe.
Tenho uma amiga que só bebe da caríssima marca Crystal e, na minha cabeça pequena, para o cidadão tomar um porre de Crystal, ele tem que hipotecar um imóvel ou vender um rim antes de sair de casa.
Mas ela fala de uma forma tão convincente sobre o prazer da "coceguinha" gostosa das borbulhas efervescendo nos lábios, que dá vontade de, realmente, hipotecar o patrimônio e encarar uma Crystal bem de frente.
Não que eu entenda dessa modalidade, posto que, champanhe, bebi poucas na vida. Eu sempre achei que champanhe era aquela cidra Cereser que serviam nas festas de juventude lá em São Raimundo. Não era. Não é. Mesmo porque, champanhe de verdade nunca frequentou botequim.
Para acompanhar a prosa do habitat dos boêmios, Deus inventou os tira-gostos.
Aliás, não deveria ter esse nome.
Deveria chamar-se "realça-gosto", "complemento", aquelas moelas com molho de tomates (boas para comer com pão murcho, dormido), o torresminho crocante, a dobradinha gelatinosa, a rústica carne de sol com mandioca, o lambari trincando de frito e o sagrado fígado acebolado com lâminas de jiló grelhados na chapa.
Chego junto quando o combustível da prosa é uma bebidinha. Mas não consigo beber sozinho. Acho absolutamente inverossível beber só. O cara que bebe sozinho, é como se dançasse consigo mesmo.  Não vejo graça.
Não que eu me orgulhe, mas ganhei, ao longo dos anos, a reputação de bom de copo. Gostaria de ter sido bom de matemática. Bom de bola. Bom de muitas outras coisas, mas restou-me o Nadir Figueiredo, que lá em Minas chamam de lagoínha.
E o presente que mais recebo é bebida. Tenho mais de 80 garrafas de cachaça - todas recebidas de presente de amigos e leitores - que vão desde a raríssima Havana (auspiciada pelo compositor Celso Adolfo), às menos cotadas Amansa Corno, Sossega Leão, Arriba Saia e Providência. Tem gente campeoníssima em tomar "providências" no botequim.
O bom de biritar é que a birita desenbola a prosa. Ela afrouxa a língua e libera os pensamentos mais reprimidos.
Tem cara que, quando bebe, torna-se uma grande autoridade em qualquer tema. Vira especialista dos mistérios do universo e opina sobre propulsão de foguetes, a existência de marcianos e a reprodução de protozoários in-vitro.
A sagrada 'bitruca' aguça a discusssão sobre política, futebol ou mulher. Por mais santo que seja o caboclo, ele acaba entrando na eleição das melhores pernas da tv Globo, ou dando um pitaco sobre a boca insinuante de Angelina Jolie.
Dependendo do número de cervejas, Maradona foi melhor que Pelé, o fusca é que é o carro e a camisa do São Paulo é a mais bonita do Brasil.
Só não pode dizer que Fernando Collor foi um bom presidente, ou confessar que votou em Dilma para presidente. Pelo menos na minha roda, o caboclo é expulso sem direito à saideira.
E ainda ganha a fama de bebum chato.

Thursday, January 7, 2016

Topázio, 149


Aquele menino tinha tesouros que valiam mais que ouro.
Mais que prata e do que queijo e requeijão.
Ele tinha um embornal com bolinhas de gude, um pião de madeira e um álbum de figurinhas do Grande Circo Mexicano.
Tinha cadernos da escola, um livro de tabuada e uma caixa de lápis de cor.
Ele tinha um cãozinho que fazia companhia e lhe lambia as mãos. E tinha uma andorinha fazendo ninho na cumeeira da varanda, um canarinho cantando ao longe e um girassol que sorria.
Ele tinha um coreto de igreja e uma igreja com torre e sino. E tinha um pátio embandeirado e uma fogueira de São João.
Tinha dez padre-nossos e quinze ave-marias. Tinha um catecismo. Um terço e um sermão do padre João.
Levava um santinho no bolso da camisa e um anjo da guarda, no coração.
Tinha uma solidão domingueira e uma febre de gripe.
Tinha um rosário de lombrigas e um medo de morrer.
Tinha cachumba, catapora e uma tatuagem no braço, como prova da vacinação.
Tinha um redemunho que levantava a poeira da rua e onde vivia o cramunhão.
Tinha também um oratório, a morada de Deus.
E tinha Deus.
Aquele menino tinha um terreiro, que era um latifúndio do tamanho do Texas.
E um varal pendurando as roupas que à noite se transformavam em fantasmas e lhe afugentavam o sono, trazendo as pisadeiras.
O menino tinha um vento com voz de Caruso que varria seus telhados.
E uma chuva nervosa fazendo algazarra no milharal.
Ele tinha uma janela pro rio. Tinha um rio. Um relâmpago e um trovão.
Tinha um amigo imaginário e um outro, filho da vizinha.
Tinha calções sujos de terra e um exército de formigas.
Um rebanho de boizinhos de melão de São Caetano e um canavial de capim.
Tinha vulcões de formigueiro, pequenos vesúvios que jamais entraram em erupção.
E ossos de galinha enterrados na terra, material de arqueologia vã.
Aquele menino tinha dinossauros fantasiados de lagartixas e calangos que sabiam dizer sim.
E outras criaturas pré-históricas, como o louva-a-Deus que molhava a bunda na água, besouros encouraçados e verdes esperanças.
Aquele menino tinha uma orquestra de cigarras à hora da Ave-Maria.
E tinha Maria, uma irmã.
No quintal daquela casa ele escreveu seus primeiros evangelhos, pensou nano-pecados, cometeu insignificantes heresias.
Foi lá, no número 149 da Rua Topázio, que ele enterrou a infância, alguns sonhos de algibeira e todas as certezas.
Ele tinha um quintal e o quintal é o lugar onde todo menino jaz
O quintal da casa, meus amigos, é o cemitério da inocência.



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Tuesday, December 29, 2015

Super-homem


O filósofo alemão Friedrich Nietzsche explica os passos através dos quais o Homem pode tornar um 'Super-Homem' em Assim Falou Zaratustra.
Mais adiante na história os estudantes norte-americanos Jerry Siegel e Joe Shuster criaram o Superman, personagem das revistas de quadrinhos, que posteriormente ganharia as telas na pele de Christopher Reeve.
Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, eu sei.
O Superman de Christopher Reeve acabou se tornando um dos maiores fenômenos do cinema em todos os tempos.
A suposta origem dos poderes do Superman é o Sol amarelo da Terra.
Em Krypton o astro é vermelho, e essa diferença de freqüência eletromagnética entre ambos os astros faria com que, de alguma forma, as células do corpo de Kal-El fossem "carregadas" como verdadeiras baterias vivas.
Descobri isto na Internet, a mãe de todos os burros.
O homem de aço voava, atravessava estruturas, conseguia evitar o tombamento de um edifício, desentortava uma ponte de ferro, prendia bandidos com bravura e charme.
Seu corpo era impenetrável às balas e à inveja.
Quando não estava salvando a humanidade de inescrupulosos bandidos, era um esforçado repórter do jornal Planeta Diário.
Ironia do destino, o ator que deu a vida ao super-herói no cinema teve um fim trágico.
Amante da equitação, caiu de um cavalo num momento de lazer, ficando paralisado numa cadeira de rodas.
Seus últimos dias foram marcados pelo sofrimento.
Minha idéia de super-homem, no entanto, é diferente.
Em sua certidão de nascimento não consta Krypton, mas Mutum, um vilarejo remoto no Leste de Minas.
Meu super-homem trabalhou na roça até ser grande o suficiente para tentar a sorte na cidade grande.
Não se sentou num banco de escola, porque desde menino, ao invés de um lápis, empunhou uma enxada.
Ele plantou café, feijão, milho, hortaliças, cuidou da criação e amansou cavalos.
Ele, que calçou um par de sapatos pela primeira-vez aos 17 anos.
Ele, que na cidade grande, trabalhou em troca de comida e pelo direito de dormir num cubículo no fundo de um quintal.
Sua gratidão pela acolhida foi tamanha, que todos os seus filhos tiveram o nome do homem que o abrigou em sua chegada à civilização.
Conseguiu se alistar na polícia militar de Minas Gerais enxergando ali uma possibilidade única de sobrevir e criar a família.
Seu uniforme, de cor cáqui e sem nenhuma divisa nos braços, em nada se assemelhou à malha azul e vermelha dos grande herói dos quadrinhos e das telas.
Ele, que não possuía capa que lhe permitisse vôos mais altos e tinha passos miúdos, mas firmes.
Caminhou miúdo, chegou longe.
Ele, que casou e teve filhos, todos eles Carlos.
Ele, o meu pai.
A sua figura indestrutível tem sido pra mim, desde a mais tenra infância, um referencial e uma fortaleza.
Graças a ele, andei e ando de cabeça levantada pelas ruas de onde quer que meus pés pisem.
Sua honestidade era (e é!) um dos super-poderes.
A firmeza, a lealdade e a persistência eram (e são!) outros.
Hoje, meu super-homem vive momentos difíceis.
Aos '82 anos, ele trava agora uma das mais difíceis batalhas de sua vida.
Nenhum deles se chama Lex Luthor, Bizarro, Mongul, Metallo, Darkseid, Brainiac ou o Ultra-Humonóide, que foi o primeiro adversário do herói dos quadrinhos e das telas.
Seo Antônio, ou melhor, Seo Totoca, tem diante de si o desafio de nocautear uma pneumonia e uma veia entupida,o que tem lhe deixado impossibilitado de caminhar e duplicou-lhe a visão.
E eu, como no tempo em que devorava com voracidade as aventuras de meu herói das revistas em quadrinhos, quero chegar ao final desta história com a sensação de que meu mito maior venceu seu inimigo.
Meu super-herói, meu superpai, tem em mim muito mais que um admirador, ele tem em mim um crente.
Meu coração e minhas preces estão com ele lá no Brasil, aqui, e em todo o lugar.
O bem vencerá.
Tenho fé.


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Tuesday, December 22, 2015

Papai Noel


Todo ano é a mesma ladainha e você já deve estar de saco cheio e não é, certamente, de presentes.
Pedem-lhe tanto, Papai Noel.
Pedem roupas, brinquedos, perfumes, e grandes 'modernagens'.  Foi-se o tempo em que apenas crianças faziam pedidos.
Hoje elas ganharam a companhia inconveniente dos adultos, o que aumentou o grau de dificuldade do seu ofício.O trenó ficou pequeno depois que as miudezas foram inchando e deixaram de caber debaixo de uma árvore de natal.
Sua profissão é das mais difíceis, meu amigo. Aliás, tão difícil, que acho que você é um super-herói, destes de capa e espada.
Sua missão é quase tão complicada quanto a de um engenheiro da Nasa ou de um neurocirurgião.
Fazer feliz, contentar, requer ciência e coração.
Como você consegue? Qual é o seu segredo?
Tenho tanta pena de você.  Pedem-lhe tanto. Dão-lhe nada.
Pedem video-games, computadores e celulares de última geração.
Celulares destes que mandam cartas eletrônicas, tiram fotografias panorâmicas, fazem filmes e até servem para ligações telefônicas.
Pedem coisas impossíveis, velho Noel.
Pedem um emprego novo, um patrão que não encha a paciência e um aumento de salário.
Pedem um carro zero quilômetro, um inverno sem neve e um título de campeão no futebol.
Pedem uma viagem à Europa com direito a um cappuccino em Roma e uma taça de beaujolais nos Champs-Élysées, assim, com sotaque bem francês.
Pedem-lhe uma casa-própria, com muros brancos e jardim de flores que permanecem vivas mesmo quando não for mais primavera.
Pedem uma carreira.
Imploram por uma aposentadoria.
No tempo em que apenas os pequeninos deste mundo pediam presentes, era tudo imenso e a infância parecia maior que a própria existência humana.
Você levava na algibeira bonecas de pano, bolas de futebol feitas de borracha e carrinhos de matéria plástica.
Já vi menino ganhar papagaio de papel, pião de cedro e até uma caloi.
Já vi menina ganhar bailarina que rodopiava sem ficar tonta, diademas de esmeraldas de araque e caixas de lápis de cor.
Um vizinho meu ganhou um porquinho da Índia, que acabou sendo de todos nós.
Eram outros os tempos, eu sei.
De todos os presentes do mundo, Papai Noel, a presença é, hoje, o que faz maior falta.
Não é qualquer presença. É determinada presença. Às vezes no plural.
Para mim, que vivo há tanto tempo fora do lugar onde nasci, o natal é sempre vazio de algumas presenças imprescindíveis.
Não que eu não me contente com a proximidade de minha mulher e minhas filhas, e de meu irmão Antonio e sua família, que vivem a algumas quadras de mim.
Não que os amigos que fiz aqui não preencham um espaço importante e que não sejam fundamentais no meu existir.
Ou que eu seja um sujeito ingrato, destes que nunca se contentam com o que têm.
Mas é que, às vezes, falta-me um abraço de pai, um beijo de mãe.
E este ano, mais que em todos os outros, tudo o que eu queria de presente era um abraço do meu pai e um beijo de minha mãe.
E isto não cabe no seu trenó.